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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA
MESTRADO EM ANTROPOLOGIA
Se Deus é por nós, quem será contra nós?
Um estudo etnográfico do Grupo de Oração e Ação Social Frei
Jerônimo (GOASFJ)
Claudia Maria da Silva Cruz
Recife – PE
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Claudia Maria da Silva Cruz
Título
Se Deus é por nós, quem será contra nós?
Um estudo etnográfico do Grupo de Oração e Ação Social Frei
Jerônimo (GOASFJ)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
graduação em Antropologia da Universidade
Federal de Pernambuco, sob a orientação da
Profª. Drª. Roberta Bivar Carneiro Campos,
como requisito parcial para a obtenção do grau
de Mestre em Antropologia.
Recife - 2009
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Cruz, Claudia Maria da Silva
Se Deus é por nós, quem será contra nós? : um
estudo etnográfico do grupo de oração e ação social
Frei Jerônimo(GOASFJ). - Recife: O Autor, 2009.
130 folhas : il., fig., Tab.
Dissertação - (mestrado) - Universidade Federal de
Pernambuco. CFCH. Antropologia, 2009.
Inclui bibliografia e anexos.
1. Antropologia. 2. Catolicismo. 3. católicos
Associações, etc. 4. Comunidades cristãs –
Emoções. 5. Religião – Pluralismo. I. Título.
39
390
CDU (2.
ed.)
CDD (22. ed.)
UFPE
BCFCH2009/39
Agradecimentos
A Deus, por me conduzir entre dificuldades e me deixar chegar até o fim.
À minha mãe, Magali da Silva Marinho, e ao meu esposo, Mauro Cezar da Silva Cruz,
pela compreensão e estímulo que nunca faltaram ao longo dessa caminhada.
À minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Roberta Bivar Carneiro Campos, por acreditar no meu
trabalho, apoiando-me incondicionalmente, o que para mim representou muito. Por se tratar
de uma antropóloga ética e responsável, sinto orgulho por ter tido a oportunidade de também
ser orientanda de uma das grandes e profícuas pensadoras do campo religioso brasileiro.
Ao Prof. Dr. Luis Felipe Rios do Nascimento, pelo incentivo nos momentos difíceis,
pela amizade, carinho e atenção com que sempre me brindou.
Aos meus colegas de mestrado: Alfredo Júnior, Ana Flávia, Bárbara Luna, Glauco
Machado, Hosana Celi, Lígia Gama, Marcos Silva, Priscilla Carla, Priscilla Barbosa,
Raimundo Nonato, Tiago Cantalice e Wagner Lira, pelos intensos momentos vividos de
aprendizado. Ao meu grande amigo João Marcelo Silva, pelas horas de estudo compartilhadas
e pelo companheirismo, que resultou em produtiva parceria em publicações conjuntas.
Aos meus amigos do doutorado: Cristiany Morais, Eliane Anselmo, Greilson Lima,
Miguel Vergara, Sandra Simone, pelas boas e valiosas conversas. Às amigas Carmen Lúcia e
Socorro Figueiredo, pelo apoio e disponibilidade em me ajudar nos momentos de dúvidas e
incertezas. Aos amigos Janecléia Rogério, Silvana Matos e Erisvelton Sávio pelo carinho e
apoio.
Aos funcionários do PPGA/UFPE, em especial a Regina Sales, pelo carinho, atenção e
cuidado com que sempre me tratou durante todo o período do curso de mestrado.
A Capes por ter possibilitado este trabalho, concedendo-me uma bolsa de estudos.
Ao PPGA/UFPE por ter me acolhido e me proporcionado a aventura de descortinar
novos horizontes acadêmicos, em meio à aquisição e o treinamento de outros olhares e
sensibilidades antropológicas.
Um agradecimento especial a Frei Jerônimo e a todos que fazem parte do seu Grupo de
Oração e Ação Social, incluindo os voluntários, as “velhinhas do frei”, os fiéis e os
freqüentadores que, de um jeito ou de outro, sempre estiveram generosamente dispostos a me
ajudar – com seu tempo, paciência e atenção - no que fosse preciso, para o bom desempenho
desta pesquisa.
Resumo
O presente trabalho apresenta um relato etnográfico do Grupo de Oração e Ação Social
Frei Jerônimo (GOASFJ), surgido na década de 1990, nas cidades de Olinda e Recife, Estado
de Pernambuco, após o afastamento do frade Jerônimo Gomes de Sousa, da Ordem dos Frades
Menores (OFM) e das suas funções sacerdotais dentro da Igreja Católica, sob a acusação de
praticar uma “antiliturgia” e “curandeirismo”. Por se tratar de um grupo constituído em torno
do carisma do referido frei, a descrição empreendida privilegia a sua trajetória e ação,
revelando como se dão as rupturas, continuidades e disputas entre ele e a hierarquia da Igreja
Católica local. Para entendimento do fenômeno estudado, ofereço uma explanação da
composição e das atividades desenvolvidas pelo GOASFJ, evidenciando o modo como tal
grupo configura sua identidade nos moldes do Catolicismo, apesar de não estar formalmente
inserido na Igreja Católica. Esta descrição ajuda no entendimento das modificações que
ocorrem no cenário religioso atual, principalmente no que concerne ao Catolicismo,
mostrando o crescente avanço do pluralismo institucional, decorrente da
desinstitucionalização e desregulação religiosa.
Palavras-chaves: Catolicismo – taumaturgia - carisma – pluralismo religioso – comunidades
emocionais - desinstitucionalização e desregulação religiosa
Abstract
This paper presents an ethnographic report of the Group of Prayer and Social Action
Friar Jerônimo (GOASFJ), emerged in the 1990s, in the the cities of Olinda and Recife, State
of Pernambuco, after the removal of friar Jerônimo Gomes de Sousa, of the Order of Friars
Minor (OFM) and their priestly functions within the Catholic Church on charges of practicing
"antiliturgy" and being a "faith healer." It is a group formed around the charisma of the friar,
the description taken favors its trajectory and action, revealing how to make the ruptures,
continuities and differences between the Group and the hierarchy of the local Catholic
Church. To understand the phenomenon studied, it is offered an explanation of the
composition and activities developed by the GOASFJ, showing how it sets its group identity
in the form of Catholicism, although not formally included in the Catholic Church. This
description helps in the understanding of the changes occurring in the present religious
scenario, especially with regards to Catholicism, showing the increasing pluralism of
institutional advancement, from the religious non-istitutionalization and deregulation.
Keywords: Catholicism - thaumaturgy - Charisma - religious pluralism - emotional
communities - religious institutionalization and deregulation
Sumário
Introdução ................................................................................................................................. 1
Capítulo I – O percurso teórico-metodológico .................................................................................. 6
1.1 - A trajetória da pesquisa .............................................................................................. 9
1.2 - O lócus e os sujeitos da pesquisa .............................................................................. 13
1.3 - Delimitação teórica da investigação ......................................................................... 21
Capítulo II – Frei Jerônimo: o narrador e sua trajetória ................................................................. 32
2.1 - A descoberta da vocação e o pertencimento a Igreja ................................................ 34
2.2 – Conflito e ruptura com a Igreja ................................................................................ 43
2.3 – A desinstitucionalização de um líder religioso ........................................................ 51
Capítulo III - O Grupo de Oração e Ação Social Frei Jerônimo - GOASFJ ....................................... 54
3.1 – Oração e ação ........................................................................................................... 54
3.2 – Festas........................................................................................................................ 63
3.3 – Louvor, cura e ação social ....................................................................................... 72
3.4 – Considerando as mediações externas exercidas pelo GOASFJ ............................... 86
Capítulo IV - A Lei e o Profeta .................................................................................................. 91
4.1 - Igreja, hierarquia e poder .......................................................................................... 91
4.2 - Mito, ritual e autonomia religiosa............................................................................. 93
4.3 – Carisma, dom e aliança ............................................................................................ 97
4.4 - Desregulamentação e dessecularização religiosas .................................................. 108
Considerações finais ................................................................................................................ 111
Referências Bibliográficas ........................................................................................................ 116
Anexos .................................................................................................................................. 121
Lista de siglas e abreviaturas
CEBs. - Comunidades Eclesiais de Base
CELAM - Conselho Episcopal Latino-Americano
CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CPT - Comissão Pastoral da Terra
F+J – Frei Jerônimo
FOCCA – Faculdade Olindense de Ciências Contábeis e Administrativas
FUNESO - Fundação de Ensino Superior de Olinda
GOASFJ – Grupo de Oração e Ação Social Frei Jerônimo
ITER – Instituto de Teologia do Recife
IURD - Igreja Universal do Reino de Deus
JUC – Juventude Universitária Católica
OFM - Ordem dos Frades Menores
PPGA - Programa de Pós-Graduação em Antropologia
PTB – Partido Trabalhista Brasileiro
RCC - Renovação Carismática Católica
SERENE - Seminário Regional Nordeste II
UCAM - Universidade Cândido Mendes
UFPE – Universidade Federal de Pernambuco
UNEC – Unión Nacional de Estudantes Católicos do Peru
Lista de figuras e tabelas
Figura 1: Frei Jerônimo proferindo uma oração de cura
Figura 2: Frei Jerônimo proferindo uma oração de cura.
Figura 3: Celebração de Louvor em Olinda (PE).
Figuras 4, 5, 6, e 7: Frente e verso da cartela do bingo beneficente.
Tabela 1: Seleção e Classificação dos 19 informantes desta pesquisa.
Figura 8: Voluntárias do GOASFJ.
Figura 9: Frei Jerônimo e a voluntária Dona Ruth Hazin em frente ao altar no Louvor, em
Olinda.
Figura 10: Louvor em Olinda.
Figura 11: Altar da Celebração de Louvor, no bairro do Carmo, em Olinda.
Figura 12: Louvor em Boa Viagem, em Recife.
Figura 13: Celebração de Louvor em Olinda.
Tabela 2: Evolução estatística dos católicos e evangélicos no Brasil.
Figura 14: Frei Jerônimo e seu irmão, Frei Jonaldo, na celebração dos 42 anos de sacerdócio
deste último.
Figura 15: Dona Jupira.
Figura 16: Membros do GOASFJ.
Figura 17: Presença da Prefeita de Olinda, Luciana Santos, na Celebração de Louvor no Clube
Atlântico.
Figura 18: Frei Jerônimo realizando atendimento individual.
Tabela 3: Organograma do GOASFJ.
Tabela 4: Estrutura do GOASFJ no bairro de Boa Viagem, em Recife.
Tabela 5: Estrutura do GOASFJ no bairro do Carmo, em Olinda.
Tabela 6: Organograma resumo da estrutura geral do GOASFJ.
Figura 19: Distribuição do café da manhã na casa de Frei Jerônimo.
Figura 20: Distribuição de presentes na Festa do Dia das Mães.
Figuras 21 e 22: Bingo realizado pelo GOASFJ.
Figura 23: Coleta das ofertas do Louvor de Olinda.
Figura 24: Fac-símile do envelope para contribuições em dinheiro.
Figura 25: Fotos e carteiras colocados sobre o altar na Celebração de Louvor.
Tabela 7: Estrutura da Celebração de Louvor.
Figura 26: Frei Jerônimo e voluntárias distribuindo sopa.
Figuras 27, 28 e 29: Distribuição de sopa e pão.
Figura 30: Atendimento médico realizado por Dr. Carlos Nascimento no ambulatório do
GOASFJ.
Figura 31: Louvor na quadra do colégio ELO, em Boa Viagem.
Figura 32: Convite para o jantar de adesão da candidatura a vereador de Frei Jerônimo.
Figura 33: Santinho da campanha a vereador.
Figuras 33, 34, 35 e 36: Propaganda eleitoral da campanha a vereador de Frei Jerônimo em
2008.
1
Introdução
No campo da Antropologia da Religião o Catolicismo é um assunto recorrente. As
inúmeras investigações empreendidas vêm possibilitando a constituição de um acervo
significativo para a Antropologia. Esta dissertação vem integrar tal produção, representando
mais uma oportunidade de análise das dinâmicas presentes no Catolicismo contemporâneo.
Em síntese, a análise empreendida aqui aborda conceitos e questões tais como: pluralismo
religioso, desregulação institucional da religião, comunidades emocionais, portadores de
carisma e transformações no Catolicismo brasileiro hodierno, sem ignorar as discussões sobre
secularização e dessecularização da religião na modernidade.
Essa reflexão foi viabilizada através do estudo do Grupo de Oração e Ação Social Frei
Jerônimo (doravante, GOASFJ), que surgiu na década de 1990, na cidade de Olinda e
respectivamente em Recife, após o afastamento do Frei Jerônimo Gomes de Souza da Ordem
dos Frades Menores (OFM) e de suas funções sacerdotais, sob a acusação de praticar uma
“antiliturgia” e “curandeirismo”
1
na Igreja Católica. A decisão do Arcebispo da Arquidiocese
de Olinda e Recife,
2
Dom José Cardoso Sobrinho, o impossibilitou de continuar exercendo
seu ofício religioso nas paróquias de São Pedro Mártir, Nosso Senhor do Bonfim e São José
dos Pescadores, todas situadas na histórica cidade de Olinda, Patrimônio Cultural da
Humanidade.
Revoltados com esse posicionamento da hierarquia da Igreja local, um grupo de
voluntários e de seguidores resolveu acolher e apoiar o sacerdote demissionário, passando
desde então a custear sua manutenção pessoal, assumindo despesas tais como: moradia,
alimentação e medicamentos. Firmando-se na qualidade de seus fiéis, eles passaram a
participar e organizar louvores
3
nas casas de pessoas amigas, que se solidarizaram com a
1. Os termos “antiliturgia” e “curandeirismo”, usados para qualificar as práticas religiosas de Frei Jerônimo,
surgiram, pela primeira vez, em declarações dadas pelo frade franciscano, publicadas numa reportagem do Jornal
do Commercio de 7 de junho de 1997, relatando seu afastamento pela Arquidiocese do clero secular.
2. A Arquidiocese de Olinda e Recife abrange ainda o Arquipélago de Fernando de Noronha e os Municípios de
Abreu e Lima, Amaraji, Araçoiaba, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Escada, Igarassu, Ipojuca, Itamaracá,
Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Moreno, Olinda, Paulista, Pombos, Primavera, Recife, São Lourenço da
Mata e Vitória de Santo Antão.
3. Os louvores do Frei Jerônimo serão tratados mais detalhadamente – em termos de sua estrutura e
funcionamento - no Capítulo III, desta dissertação.
2
causa do frade. O conflito com a autoridade local da Igreja, em vez de neutralizar a ação desse
religioso, acabou por impulsionar mais o seu carisma, fazendo com que ele ficasse ainda mais
conhecido, tornando-o uma celebridade na cidade de Olinda.
A ação do religioso, juntamente com a adesão dos fiéis, a qual se realiza
autonomamente fora da regulação institucional da Igreja Católica, resultou na criação do
GOASFJ. Essa comunidade, desde então, vem se firmando como uma ativa coletividade de
leigos, paralela à ação da Igreja. Contado com 11 anos de existência, atualmente o grupo
abriga 70 voluntários e 200 idosas cadastradas (conhecidas como as “velhinhas do Frei”),
seguidos por uma multidão de aproximadamente 800 fiéis. Agregados através da ação
carismática desse líder espiritual, fiéis, voluntários e assistidos procuram entrar em sintonia
com Deus através da celebração do louvor, que é interpretado pelos devotos como uma fonte
da ação do Espírito Santo, energia e cura.
Motivada pela perspectiva de entender os conflitos, continuidades e rupturas entre o
GOASFJ e a hierarquia da Igreja Católica local, procurei compreender algumas das relações
de reciprocidade, de liderança, de organização e de estruturação estabelecidas internamente
entre os integrantes do grupo; e entre este e a sociedade mais ampla. Assim, as descrições aqui
realizadas revelam também as mediações do grupo com outras instituições externas, como por
exemplo, prefeituras, partidos políticos, empresas, a mídia, etc. Para tanto, utilizei o método
etnográfico, considerado por muitos como pedra angular da Antropologia, que me permitiu
abordar essas relações do grupo em estudo, num constante diálogo entre as experiências de
campo e a teoria.
A pesquisa realizada, contemplando a descrição e análise dos dados coletados, está
organizada em quatro capítulos. No primeiro, O Percurso teórico-metodológico, procurei
traçar a linha da pesquisa, ressaltando seu locus e os sujeitos que a constituem, bem como as
influências teóricas que me possibilitaram avaliar a realidade na qual estava inserida, como
pesquisadora. Nessa seção, deixo patente o caráter e a conjuntura peculiar de um
empreendimento metodológico, o qual se debruça sobre uma realidade que, sob certos
aspectos, também é a minha realidade - seja pela constituição dos sujeitos, seja pela
construção do objeto desta pesquisa -; dado que a história do GOASFJ, em alguns momentos,
se conecta com a minha história pessoal num nível familiar, como veremos adiante.
3
Em relação ao encontro no horizonte etnográfico do campo, busquei reconhecer,
afirmar e considerar metodologicamente as valiosas relações - os “frágeis fios de Ariadne” -
que perpassam os sujeitos, no contexto de uma pesquisa de campo, e que se interpuseram
entre mim e meus informantes, propiciadas pela experiência da pesquisa antropológica, sem
desconsiderar o rigor e a vigilância epistemológicos, necessários a uma investigação
qualitativa de cunho sócio-cultural.
Por sua vez, visando situar-me conceitualmente nesta produção, é também no Capítulo
I que apresento a delimitação teórica do problema investigado, evidenciando as obras e
autores que nortearam esse trabalho, sobretudo a contribuição de estudiosos da religião,
referências em seus respectivos campos, tais como: Max Weber, Peter Berger, Danièle
Hervieu-Léger, Marcelo Camurça e Cecília Mariz. A problemática que tento delimitar aqui,
em relação ao estudo do GOASFJ e sua realidade sócio-cultural, está ligada a discussão sobre
o processo da dessecularização religiosa, em face da racionalização trazida pela modernidade,
que se liga, por um lado, aos fenômenos da desinstitucionalização e desregulação do campo
religioso, inclusive no catolicismo brasileiro; e, por outro lado, à emergência das comunidades
emocionais, com suas ênfases na ação carismática de seus líderes, movimento que gera
conflitos com as hierarquias religiosas tradicionais e amplia a autonomia da ação dos leigos,
em torno de tais lideranças.
No segundo capítulo, Frei Jerônimo: o narrador e a sua trajetória, abordo aspectos
da vida desse religioso, tomados da perspectiva benjamininiana do narrador, como artífice e
produtor de sua própria história. Nessa parte, apresento a trajetória de vida do frade, através de
uma narrativa assumidamente construída com suas memórias pessoais, sem estritas
preocupações biográficas ou historiográficas. Tal perspectiva de interpretação baseia-se na
figura alternativa do “narrador”, inspirado em idéias do pensador Walter Benjamin (1994)
sobre a prática historiográfica de caráter e sentido aberto, sempre sujeita a releituras e
reinterpretações livres e posicionadas, efetuadas pelo leitor.
Nesse capítulo, desempenhando o papel do “narrador”, identifico a personalidade
carismática de um frei insubmisso que, longe de necessitar de impor uma única interpretação
aos seus seguidores, dos acontecimentos relacionados ao conflito com o arcebispado, busca
dotar de algum sentido o resgate de suas reminiscências, sob a forma da construção narrativa
de um “mito de criação” para afirmar e delinear a memória comum do grupo que ele lidera
4
num “tempo de agora”, vivo e pulsante, cheio de significações, fugindo ao “tempo vazio e
homogêneo”, preenchido e representado por um passado eternizado de verdades inelutáveis.
Por essas memórias perpassam temas tais como: a descoberta de sua vocação, o seu
pertencimento à Igreja e por fim o conflito e a ruptura com a instituição. Assim, inspirada em
métodos da historia de vida, reconstruo como se deu o processo de desinstitucionalização
desse líder espiritual, possibilitando também ao leitor compreender – do ponto de vista
posicionado do narrador e de forma mais aproximada com a ideologia do grupo estudado - os
fatos imediatos que resultaram na criação do GOASF, os quais funcionam como verdadeiro
mito de origem.
No terceiro capítulo, o Grupo de Oração e Ação Social Frei Jerônimo (GOASFJ)
ponho sob foco a constituição, estrutura e organização dessa comunidade de fiéis. Evidencio
em particular as ações sociais internas e as mediações externas desenvolvidas por eles através
da abordagem de aspectos tais como: oração e voluntariado, as festas, louvor, cura e ação
social. Por ser o capítulo mais etnográfico desta dissertação, detenho-me em descrições e
detalhes que considerei significativos para a compreensão do poder de atuação e mobilização
dessa comunidade de leigos. Destaco algumas histórias e testemunhos que sublinham a
recepção, pelo grupo, dos embates travados pelo frade, para afirmar sua liderança e conformar
a face identitária que emerge do GOASFJ, a qual se traduz, principalmente, pelas celebrações
dos louvores, festas e pelas ações assistencialistas desempenhadas pelos voluntários do grupo.
No quarto capítulo, A Lei e o Profeta, discuto a inserção de frei Jerônimo líder
religioso no campo da política partidária, analisando as relações que marcaram essa arriscada
aventura. Esse capítulo surgiu a partir de observações colhidas no calor da hora de uma
campanha política que atravessou minha pesquisa de forma inesperada. Tentado entender as
razões para a ausência de alguns importantes voluntários nos louvores, fiz alguns
questionamentos e verifiquei divergências quanto ao anúncio e disposição do frei em ingressar
na política partidária, por meio de uma improvisada campanha para vereador na cidade de
Olinda. Por motivos que serão detalhados nesse capítulo, vi que o grupo ficou dividido, com
alguns fiéis apoiando seu líder, e outros criticando sua decisão, já que, em sua opinião,
política e religião não deveriam se misturar. Abordo nessa seção os seguintes temas: Igreja,
hierarquia e poder; Mito, ritual e autonomia religiosa; Carisma, dom e aliança;
Desregulamentação e dessecularização religiosas, a partir de análise desses fatos, abordo a
complexidade que sempre envolve a relação entre religião e política.
5
Como já explicitei, esta dissertação tem por mote analisar como se dão as rupturas,
continuidades e disputas entre o Grupo de Oração e Ação Social Frei Jerônimo e Arquidiocese
de Olinda e Recife. Acredito que, ao fim e ao cabo desse trabalho, possa eu contribuir para os
estudos que objetivam compreender o momento atual do campo católico brasileiro,
especificamente em relação ao tratamento que é dado ao papel dos leigos e à efervescência
religiosa efetuada pela ação de líderes carismáticos, fazedores de milagres e curas.
Nessa perspectiva sustento que tal estudo contribui para o entendimento de grupos,
surgidos e constituídos com grande autonomia ou até a revelia da liderança hierárquica
católica, paralelos à ação direta da Igreja. A análise empreendida aqui traz elementos que
ajudam no entendimento das relações estabelecidas entre uma comunidade do tipo emocional
e a hierarquia da Igreja Católica local. O fato de não existir nenhuma pesquisa sobre o grupo
estudado, reforça a importância do trabalho realizado.
6
Capítulo I – O percurso teórico-metodológico
Quando ainda era o prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (Ex-
Tribunal do Santo Ofício), o cardeal Joseph Ratzinger arriscou um prognóstico sobre o futuro
da Igreja, em face da modernidade e da crescente sangria de fiéis, que pode ser detectada pelas
pesquisas, tanto na Europa contemporânea, com suas igrejas cada vez mais vazias, como
também no Brasil, maior país católico do mundo. No livro Sal da Terra, que resultou de uma
série de entrevistas suas, o prelado afirmou que:
A Igreja diminuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que te
extraído uma grande força do processo de simplificação que atravessou, da
capacidade renovada de olhar para dentro de si. Porque os habitantes de um mundo
rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. Descobrirão, então, a
pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo. Como uma esperança
que lhes cabe, como uma resposta que sempre procuraram secretamente
(SEEWALD; RATZINGER: 2005, 76).
Eleito papa, o agora Bento XVI tem se caracterizado, em seu pontificado, por
empreender um claro e crescente movimento de inflexão para o interior e para o passado da
Igreja. Tal postura se exemplifica bem nas polêmicas que tem surgido em torno de suas
declarações, atos de governo e também pelos documentos voltados para um resgate das
tradições, ao reafirmar o magistério ancestral e incentivar um compromisso mais claro do
católico com a liturgia da missa em seu simbolismo sacrificial.
4
Como exemplo dessa guinada conservadora, podemos citar a Exortação Sacrametum
Caritatis, a qual, segundo um vaticanista espanhol:
(...) se ajusta ao espírito programático do pontificado. O Papa considera que décadas
de relaxamento católico permitiram a promulgação de leis "socialmente corrosivas",
e exige um cerrar fileiras. Quer ele que a Igreja não se defina pelo número de fiéis
mais ou menos teóricos, mas pela qualidade, conscientização e ativismo dos
4. Refiro-me ao Motu Proprio Summorum Pontificum que recentemente (07/07/2007) reabilitou a missa
tridentina de São Pio V, rezada em latim. Refiro-me também à citada Exortação Apostólica Pos-Sinodal
Sacrametum Caritatis, que trouxe propostas sugeridas pelos Bispos reunidos no Sínodo de 2005, mas publicada
somente, em Roma, em novembro de 2007. Os documentos causaram polêmica entre os progressistas,
especialmente o último, por, entre outras coisas, reafirmar a obrigação do celibato sacerdotal na Igreja latina,
reiterar a não ordenação de mulheres, manter a exclusão da comunhão para divorciados recasados e sugerir a
readoção do latim e do canto gregoriano nas missas, o que foi interpretado pelos críticos como uma revisão dos
avanços inspirados pelo Concílio Vaticano II.
7
mesmos. Para ele (Bento XVI), o Catolicismo deve refletir-se da mesma forma no
silêncio da reflexão prévia à eucaristia e no fragor dos debates públicos. O termo
"inegociável", aplicado a questões como o aborto, a eutanásia, o divórcio, as uniões
homossexuais ou o ensino católico, resulta significativo. O cerrar fileiras vem junto
com um certo retorno a valores pré conciliares, como a missa em latim e o canto
gregoriano, preferíveis, segundo a Exortação, às missas em língua local e aos
acompanhamentos musicais mais ou menos modernos. A lembrança de que os
católicos divorciados e casados de novo não podem receber a comunhão, e que
devem esforçar-se para compensar sua situação irregular com "penitências e obras
de caridade", complementa um quadro ao mesmo tempo retrógrado e, em um sentido
político, "revolucionário". (GONZALEZ, Enric. El País, Madrid, 14/03/2007).
Por sua vez, os críticos de Bento XVI, a exemplo do teólogo progressista alemão Hans
Küng, não cessam de alertar os católicos para o perigo que uma política conservadora pode
trazer de conseqüências para o fechamento da Igreja, sob a influência dogmática de um “ex-
inquisidor” papal, o qual estaria deliberadamente ignorando as grandes questões que hoje
contribuem, em sua opinião, para um descompasso entre o que pensa o Catolicismo romano e
o que demandam os seus fiéis contemporâneos, a exemplo de temas como: o celibato
sacerdotal, a ordenação de mulheres, a união civil entre pessoas do mesmo sexo, o aborto e o
planejamento familiar.
Recentemente, Küng fez publicar nos jornais um libelo contra Bento XVI,
comparando-o negativamente ao recém eleito presidente norte-americano Barack Obama, o
qual, segundo afirma:
(...) conseguiu, em um curto período de tempo, retirar os Estados Unidos de um
clima de desânimo e contra-reformas, apresentando uma visão de esperança e
introduzindo uma mudança estratégica na política interna e externa desse grande
país. Na Igreja Católica as coisas são diferentes. O ambiente é opressivo, a pilha de
reformas é paralisante. Após quase quatro anos no cargo, muitas pessoas vêem o
Papa Bento XVI como outro George W. Bush. (...) Tanto Bush quanto Ratzinger não
conseguem aprender nada em matérias de controle de natalidade e aborto, não são
propensos a implementar quaisquer reformas sérias, são arrogantes e sem
transparência na forma como exercem os seus cargos, restringindo liberdades e
direitos humanos. (...) esse Papa orienta-se o mais para trás possível, inspirado por
um ideal de igreja medieval, céptico sobre a Reforma, ambígua sobre os direitos
modernos de liberdade (KÜNG, Hans. La Repubblica, Roma, 07/02/2009).
8
Eis, em algumas pílulas, um pouco da atmosfera conflituosa que o Catolicismo tem
enfrentado no mundo atual, no sentido de se adaptar às demandas da contemporaneidade e de
enfrentar seus questionamentos. Se há tentativas de se arejar progressivamente velhas
posições teológicas, com os ventos das mudanças sócio-culturais e políticas que engendraram
a modernidade iluminista, buscando um diálogo com toda a humanidade; há também retornos
ao passado, que ignora e mesmo deseja um esvaziamento da Igreja, enxergado pelos
tradicionalistas como uma depuração da “barca de Pedro”, a qual preconiza uma “Igreja
menor, porém mais autêntica”. Tudo isso dá também uma idéia de quão os católicos estão
divididos, da cúpula até a base, quanto às reais soluções que devem ser oferecidas para o
enfrentamento dos múltiplos desafios dessa religião velha de dois milênios, mormente aos que
se relacionam com o futuro da Igreja Católica e à identidade do ser católico hoje, numa
sociedade em franco processo de secularização.
É nesse contexto, cada vez mais esgarçado por divisões e conflitos internos em torno
de opiniões e de ações progressivamente contrastadas, que procuro me inserir teórica e
metodologicamente, sem ocultar minha condição de observadora posicionada - seja como
católica formada, seja como cientista social em formação -, no campo religioso do
Catolicismo brasileiro, questionando seus atores, paradigmas, ideais e posturas, que formam
um diapasão de aspectos complexos e multifacetados - ora progressistas, ora reacionários;
uma vez voltados para a base; outras vezes inclinados para a cúpula da Igreja Católica
Apostólica Romana – que desafiam, encantam e inspiram qualquer um que se predisponha a
estudá-los.
Neste capítulo, que ora introduzo, busquei descrever e delinear a trajetória desta
pesquisa, realizada no Grupo de Oração e Ação Social Frei Jerônimo, a qual está pontuada por
refletir, mediante o relato de suas implicações metodológicas e inspirações motivadas pelas
minhas opções teóricas, a convergência que se deu entre os contextos aqui considerados: o
mais amplo, concernente à Igreja latina e universal, e o local, representado pela liderança de
um frade que fez e faz suas escolhas, quanto a responder as questões que têm gerado diversas
respostas dos católicos, a saber: “Qual o futuro da Igreja Católica?”; e “O que é ser católico
hoje em dia?”.
9
Fi
g
ura 1: Frei Jerônimo Gomes de Souza
1.1 - A trajetória da pesquisa
No ano de 1994, travei meu primeiro encontro com Frei Jerônimo, através da avó de
meu esposo, Dona Celina, carinhosamente conhecida como “Vó Celina”, na comunidade da
Igreja do Bonfim, em Olinda. Muito entusiasmada, ela nos convidou para assistir a uma missa
de um frade novo, afirmando enfaticamente que: “ele tem um sermão muito bom, pois o frade
é cheio de carisma – uma maravilha!”.
5
Desde então, “encantados” pela forma alegre como o frade conduzia a missa,
diferentemente de outras até então realizadas por outros padres daquela paróquia, passamos a
freqüentar as missas dominicais na Igreja do Bonfim. Fomos percebendo que a cada
celebração aumentava progressivamente o número de fiéis e que, muitos jovens, ao final das
missas, comentavam, por exemplo, que: “o frei fala o que a gente quer ouvir, ele diz o que
precisamos escutar”; isso porque o discurso dele sempre se aproximava muito da realidade
vivida pelas pessoas.
Naquele tempo, o franciscano e potiguar Frei Jerônimo Gomes de Souza foi
designado, pela Arquidiocese de Olinda e Recife, para celebrar missas nas igrejas do Bonfim,
5. Informação fornecida em conversa pessoal.
10
de São Pedro Mártir e São José dos Pescadores, em Olinda. Nesses locais, tendo em vista o
seu caráter acolhedor, entusiasta e simpático, vimos o número de fiéis que dele se agradavam
crescer a olhos vistos. Nos discursos ouvidos por mim, explicações encontradas para essa
afluência eram creditadas ao carisma e sermões do frade. Admirado por muitos, invejado por
outros, Frei Jerônimo passou logo a incomodar alguns sacerdotes mais antigos. Em suas
palavras: “os padres mais antigos começaram a reclamar ao Arcebispo, sobre a baixa
freqüência de fiéis em suas igrejas, o que, no final das contas, representava também pouca
renda”.
6
Em 1996, eu o convidei para oficiar o meu casamento. No ano seguinte, embora eu já
não tivesse mais contato com ele, fui surpreendida por uma notícia veiculada em dois jornais
de grande circulação no estado de Pernambuco, (ver anexos 1, 2, 3 e 4). Tomei conhecimento
que o religioso tinha sido afastado da Igreja, acusado de praticar “antiliturgia” e
“curandeirismo”. Esse fato provocou choque, dúvidas e muita revolta entre os fiéis, que,
inconformados com a decisão do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho,
resolveram amparar o frei, que naquele momento não tinha para onde ir. Como nos revelou
uma das voluntárias do grupo que se formou em torno do religioso: “comprei a causa do
frei”,
7
querendo dizer com isso que, apesar da ferrenha oposição da Arquidiocese, o futuro
grupo de voluntários aceitaria sofrer as conseqüências de seguir um padre que se dizia
perseguido pela Igreja hierárquica local.
Após esses acontecimentos, comecei de fato a ouvir comentários na comunidade
católica de Olinda, a respeito de um possível “dom de cura” que Frei Jerônimo estaria agora
apresentando. Esse fato extraordinário me deixou bastante curiosa, principalmente quando
escutei de dona Jupira – uma senhora que sempre freqüentou suas missas e que sofria de uma
doença conhecida como erisipela,
8
a qual provocava feridas e dores insuportáveis em suas
pernas – ter sido curada pelo frei.
6. Informação fornecida pelo frade em conversa pessoal.
7. Informação dada em contexto de entrevista.
8. A erisipela é descrita, segundo um manual médico, como uma “infecção aguda da pele envolvendo a derme e
o subcutâneo, que se caracteriza por febre, anorexia, calafrios, outros sintomas gerais, leucocitose e lesão cutânea
em placa eritematosa, edematosa e dolorosa. Dessa placa podem ter origem faixas eritematosas ao longo do
trajeto de vasos linfáticos (linfangites). Existe adenite satélite à região comprometida. Vesículas e bolhas podem
ser observadas - erisipela bolhosa. As áreas comprometidas são em geral membros inferiores, face ou abdome”
(BRASIL; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002).
11
Fi
g
ura 2: Frei Jerônimo
p
roferindo uma ora
ç
ão de cura
Essa e outras curas milagrosas que se seguiram tornaram o frade uma celebridade na
cidade de Olinda e foi por conseqüência do seu “dom”, que ele está afastado da Igreja até
hoje. Esse fato desencadeou também um conflito na Ordem dos Frades Menores (OFM), da
qual Jerônimo fazia parte. Os atritos com os superiores resultaram na sua demissão pela
ordem.
Em 1997, mais uma vez, reencontrei pessoalmente Frei Jerônimo. Vó Celina havia
falecido e como ela sempre falava e demonstrava afeição por Frei Jerônimo, meu sogro me
pediu para procurar o frade, a fim de que ele rezasse o ofício para encomendação de sua alma.
Indagando pelo paradeiro dele, fiquei sabendo que Jerônimo estava morando em uma casa
alugada, ao lado da prefeitura de Olinda. Chegando lá, fui recebida pela mãe dele, que logo o
chamou e mais uma vez nos encontramos. Falei sobre o motivo da minha visita e ele de
imediato se prontificou a me acompanhar até a residência de Vó Celina, onde o corpo estava
sendo velado, pois ele disse ter muito carinho por ela.
Depois desse triste episódio, perdi novamente contato com ele e só depois de alguns
meses tive novamente notícias suas, quando soube que estava realizando louvores no mercado
Eufrásio Barbosa.
9
Não cheguei a freqüentá-los, pois assim que havia tomado conhecimento
9. Trata-se de um antigo mercado associado ao Sítio Histórico de Olinda, lugar de múltiplas atividades artísticas,
políticas e culturais. Foi reformado pela municipalidade e adaptado para funcionar como equipamento cultural
multiuso para uma cidade eminentemente histórica e turística. Patrimônio Cultural da Humanidade, Olinda
possui muitos prédios com funções focadas em eventos culturais, a exemplo também do Clube Atlântico e da
Casa do Carnaval.
12
Fi
g
ura 3: Celebra
ç
ão de Louvor em Olinda
(
PE
)
.
do fato, o mercado foi fechado para reformas e, mais uma vez, fiquei sem notícias de Frei
Jerônimo. Em 2006, todavia, fui informada por uma amiga que os louvores estavam
acontecendo agora em outro lugar: o Clube Atlântico
10
de Olinda. Resolvi ir até lá para assistir
e, quando cheguei, fiquei impressionada com a multidão de povo. Não consegui entrar. Logrei
apenas ficar na parte de fora do clube, pois lá havia umas mil pessoas aproximadamente.
Notei que, entre os presentes, alguns usavam uma bata de cor vinho, estampadas com a
inscrição “F+J”, iniciais de Frei Jerônimo unidas por uma cruz. Na parte de trás das batas
havia escrito a palavra “voluntário”. No final do louvor, procurei uma dessas pessoas e
perguntei o que poderia fazer para falar com o frade. Fui informada de que eu deveria ir até o
palco do clube, onde estava montado uma espécie de altar. Segui a orientação e reencontrei-
me com ele, que me reconheceu imediatamente. Pedi uma benção e fui embora. A partir de
então, comecei a freqüentar os louvores todas as terças-feiras, no clube que pertence à
prefeitura e está localizado na Avenida Sigismundo Gonçalves.
Nessas idas aos louvores do Frei Jerônimo, fui percebendo que a vida desse líder
religioso passou por muitas e radicais mudanças. Esta percepção fez nascer em mim a vontade
de compreender melhor as transformações ocorridas, inclusive na criação do Grupo de Oração
e Ação Social Frei Jerônimo (GOASFJ), grêmio de leigos que se reuniu em torno do frade.
10. Ver nota 9.
13
Motivada por esse interesse e agora na condição de aluna do mestrado em Antropologia da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), resolvi procurar o grupo para verificar a
possibilidade de realização de uma pesquisa.
Sobre minha trajetória acadêmica, julgo oportuno destacar que sou Pedagoga por
formação, com especialização em Psicopedagogia Institucional pela Universidade Cândido
Mendes (UCAM), em 2006. Contudo, meu interesse pela Antropologia foi despertado ao
longo de minha graduação, na Fundação de Ensino Superior de Olinda (FUNESO), entre 1999
a 2003. Nessa ocasião, tive o prazer de conhecer o professor Glaudstone Lima, antropólogo
formado pela Universidade Federal de Pernambuco, que sempre me incentivou a cursar
disciplinas, como aluna especial, no Programa de Pós Graduação em Antropologia (PPGA)
daquela instituição. Como sempre demonstrei interesse por fenômenos religiosos durante as
suas aulas, Lima sugeriu que o estudo da religião, sob a perspectiva sócio-antropologica seria
de grande proveito para o meu desenvolvimento acadêmico, incorporando valiosos
conhecimentos e reflexões sobre as naturezas social, simbólica e cultural de grupos humanos
organizados.
Na pesquisa empreendida após, cujo resultado pode ser lido aqui, busquei, por meio do
estudo de caso Frei Jerônimo, estudar as recentes transformações no campo religioso
brasileiro, principalmente, no que concerne ao Catolicismo. Contudo, antes de explorar o que
isto significa no plano teórico, vejamos os procedimentos metodológicos adotados na
pesquisa.
1.2 - O lócus e os sujeitos da pesquisa
Orientada pela abordagem teórica proposta, houve no campo um esforço voltado para
apreensão da lógica dos envolvidos na pesquisa, em vista de responder as questões formuladas
no projeto batizado como “Se Deus é por nós, quem será contra nós?: continuidades,
conflitos e rupturas entre o Grupo de Oração e Ação Social Frei Jerônimo e a Arquidiocese
de Olinda e Recife”– defendido em dezembro de 2007, diante da banca de qualificação de
projetos do PPGA da UFPE, cujos primeiros rascunhos foram apresentados em setembro de
2007, em forma de artigo, no 13º Encontro de Ciências Sociais do Norte Nordeste (CISO), em
Maceió (AL) (CRUZ e ROGERIO, 2007).
14
Como é usual, parti para a necessária e obrigatória revisão teórico-bibliográfica
sobre o tema e suas correlações, mediante pesquisa e recolhimento de informações sobre o
frade, disponíveis em variados acervos: arquivos públicos, hemerotecas, sites na Internet, etc.
Empreendi observações nos locais de culto e nas reuniões dos voluntários em torno da
discussão de seus problemas internos de organização. Visando a reprodução literal das falas e
o registro da sonoridade dos louvores, fiz registros com gravador digital em formato “mp3”,
que foram recolhidos mediante o consentimento dos entrevistados. Utilizei máquina
fotográfica e filmadora também digitais, resultando na constituição de um amplo acervo
audiovisual para a pesquisa, de onde retirei as fotos que podem ser vistas ilustrando esta
dissertação. Esses procedimentos foram adotados nos meses de fevereiro a outubro de 2008.
É valido ressaltar que o conhecimento da realidade pesquisada vem sendo acumulado
desde o ano de 2006, quando retomei o contato com Frei Jerônimo e a freqüência regular a
seus louvores. Esse contato, antes mesmo da definição da pesquisa, facilitou minha inserção
no campo. Tendo a observação participante como um instrumento privilegiado de coleta e
análise dos dados, adotei a atitude de “observadora posicionada” (GEERTZ, 1978),
procurando compreender a lógica que está presente nos acontecimentos e nos comportamentos
dos envolvidos na pesquisa. Considerando as implicações dessa postura, destaco que
[...] Para descobrir quem as pessoas pensam que são, o que pensam que estão
fazendo e com que finalidade pensam que o estão fazendo, é necessário adquirir um
familiaridade operacional com os conjuntos de significados em meio aos quais elas
levam suas vidas (GEERTZ, 2001:26).
Essa familiaridade foi adquirida e exercitada, majoritariamente, através da participação
nas celebrações de louvores, nas missas dominicais na casa do frade e nas festas realizadas
pelo grupo. Como já foi explicitado, os louvores tem sido celebrados no Clube Atlântico, na
cidade de Olinda, mas também ocorrem no Colégio Elo: instituição privada localizado no
bairro de Boa Viagem, em Recife. Considerando as distinções naturais determinadas pela
multiplicidade de espaços, procurei identificar as peculiaridades, semelhanças e diferenças
que se evidenciaram em ocasiões diversas como, por exemplo, nas festas da Páscoa, do dia
das Mães e no Natal. Nesses eventos procurei, observar as estruturas sócio-culturais que os
definem: como se organizam os elementos que os compõem, o comportamento dos seus
freqüentadores e do próprio Frei Jerônimo. Privilegiei o registro e a análise das falas, idéias e
comportamentos daqueles que se achavam presentes aos louvores.
15
Fi
g
uras 4
,
5
,
6
,
e 7: Frente e verso da cartela do bin
g
o
b
eneficente
Ainda como parte do trabalho de campo, acompanhei algumas das ações sociais do
grupo tais como: a distribuição da sopa e do pão, o atendimento médico de algumas idosas
(conhecidas como “as velhinhas do Frei”) e os bingos beneficentes. A realização destes
últimos tem por finalidade arrecadar fundos para as obras sociais do grupo e para o próprio
frade, que vive das doações que lhe são feitas. Durante esses eventos, pude perceber que Frei
Jerônimo atraia para si uma grande multidão de pessoas, colocando a prova o seu forte
carisma. Havia pessoas de todas as classes sociais, níveis de renda e escolaridade. Isso me fez
supor que o fenômeno “Frei Jerônimo” seria bastante rico e complexo para municiar minhas
interpretações e reflexões, com as quais quero contribuir para uma melhor compreensão da
atualidade mais ampla do campo religioso católico brasileiro.
16
As impressões e interpretações resultantes de minha inserção nessas atividades
foram registradas no tradicional diário de campo. Tais registros possibilitaram a escrita de
ensaios preliminares, que trabalhados, posteriormente, integram este relato etnográfico.
No trabalho de campo quero destacar, concordando com Vagner Gonçalves da Silva
(2006), que as entrevistas constituíram um momento de diálogo, segundo o qual o
conhecimento etnográfico é construído a partir de um enfoque que ressalta os elementos
discursivos, ou seja, as circunstâncias e as inter-subjetividades dos envolvidos. Segundo esse
autor, além das técnicas adequadas para a pesquisa, a subjetividade dos informantes, no
diálogo etnográfico, é um fator relevante. Para tanto, são fundamentais para o pesquisador os
sentimentos e emoções que marcam não só o universo da pesquisa, mas a apreensão do
pesquisador com relação a esse universo, ou seja, o próprio “experimentar o campo” (Ibidem:
2006).
Nesse processo de busca de um diálogo com o campo, é importante a escolha dos
nossos interlocutores, quer dizer, das pessoas que são entrevistadas e do tipo de diálogo que
foi estabelecido, bem como um cuidado com a pertinência das perguntas que são realizadas,
como também uma maior sensibilidade ao tempo pactuado para a realização de entrevistas e
observações. Nas entrevistas realizadas, sempre procurei me encaixar nos horários que fossem
mais convenientes para as pessoas. Assim, o local e a hora das entrevistas foram determinados
pelos informantes.
Selecionei alguns entrevistados de acordo com o lugar ou o status que ocupam
dentro do campo. Entre esses, deram uma colaboração bastante significativa o próprio Frei
Jerônimo (representante-chave do grupo), Frei Aluisio Fragoso (ex-provincial da Ordem dos
Franciscanos), Dona Jupira (primeira fiel a dar testemunho de uma cura realizada pelo Frei).
Além desses, entrevistei também alguns membros do GOASFJ e pessoas que fazem parte do
contexto do campo: a responsável pela agenda do Frei; a responsável pelo louvor em Boa
Viagem, a responsável pelo louvor em Olinda, dois dos principais beneméritos do frei e de
suas obras, escolhidos mediante a referência dos responsáveis pelas ações sociais do Grupo;
duas das senhoras idosas atendidas pela principal obra de ação social do Grupo - “as velhinhas
do Frei”; o médico voluntário que atende essas “velhinhas” e freqüentadores dos louvores -
dois de Olinda e dois de Boa Viagem.
17
Embora muitas vezes citado nas falas e discursos dos atores que fizeram parte desta
pesquisa, o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, não se dispôs a
declinar qualquer comentário sobre o caso do Frei Jerônimo, seja de modo formal, pela sua
assessoria, seja informalmente, por meio de conversas.
Para uma visualização mais completa da realidade encontrada no campo, evidencio
também as características socioeconômicas dos 19 entrevistados, que podem ser vistas
detalhadamente no quadro abaixo. Situo a faixa etária das pessoas compreendendo o intervalo
de 47 a 93 anos. Por sua vez, a situação econômica foi bastante variada, incluindo pessoas de
classe média e média alta, bem como pessoas carentes. Já o nível de escolaridade apresentou-
se bem diversificado também, abrangendo desde pessoas graduadas até pessoas analfabetas,
conforme resumimos na tabela abaixo:
Tabela 1: Seleção e Classificação dos 20 informantes desta pesquisa.
1
NU SX FE SE NE RE
Legendas
01
F D N 2 K
A = informantes menores de 20 anos
02
F D P 1 K
B = informantes com idade entre 20 e 40
anos
03
F C S 4 K
C = informantes com idade entre 41 e 60
anos
04
F C S 3 K
D = informantes com idade superior a 60
anos
05
F D P 2 K
M = Masculino
06
F D P 3 K
F = Feminino
07
F D P 3 K
S = Assalariado
08
F D N 3 K
N = Não-assalariado
09
M D P 4 K
P = Pensionista, aposentado
10
M C N 4 K
K = Católica
11
M D N 4 K
O =Outras religiões
12
F D S 3 K
1 = Sem instrução formal
13
F C N 2 K
2 = Fundamental
14
F C S 3 K
3 = Médio
15
F C N 3 K
4 = Graduado
16
F C N 2 K
5 = Pós-graduado
17
F D P 4 K
18
F D P 4 K
19
F C N 4 K
20
F D P 3 K
Abreviações utilizadas: NU = número da gravação, SX = sexo, FE = faixa etária da idade na época da entrevista,
SE = situação econômica, NE = nível de escolaridade, RE = religião.
18
Essas variações, a meu ver, enriqueceram ainda mais os dados, pois contemplaram
visões e interesse diversos. Entre os entrevistados havia os que revelaram a necessidade de
estar próximo ao frade apenas pelo prazer de sua companhia e, majoritariamente, os que
apresentaram necessidades espirituais, amorosas, financeiras e de saúde.
No trabalho de campo, contei com a ajuda do meu colega de mestrado João Marcelo
Silva, que com sua disponibilidade e experiência como jornalista, ajudou-me na filmagem de
alguns louvores. Analisadas, essas imagens, além de integrar o acervo da pesquisa,
permitiram-me contemplar e com mais tranqüilidade a integra de tais celebrações. A
existência desse material audiovisual tem nos motivado a fazer planos para produção de um
vídeo etnográfico acerca do caso estudado.
Ressalto, mais uma vez, que a presente pesquisa contou com o apoio e assentimento
do frade e também dos seus fiéis e voluntários. Este trabalho foi recebido como sendo de
grande relevância para o grupo. Os discursos evidenciaram que o religioso sentiu-se honrado
em ter sido escolhido, com seu grupo, para ser estudado no âmbito da Antropologia, ciência
por ele admirada. O fato de ser uma pesquisa vinculada a um programa da Universidade
Federal de Pernambuco foi bastante valorizado, pois, segundo o próprio Jerônimo, este
trabalho mostraria para Dom José Cardoso Sobrinho, “que não são apenas os pobres e
analfabetos que se interessam pelo Frei, mas também os intelectuais”.
Durante um dos louvores em Olinda, fui apresentada publicamente ao grupo, pelo
seu líder, na qualidade de pesquisadora. Nessa ocasião, o frade pediu ao microfone que todos
voluntários e fiéis colaborassem no que fosse preciso e que participassem dando entrevistas e
testemunhos de cura. Incentivando ainda mais as pessoas, ele chegou a afirmar que esse
trabalho poderia resultar num livro e que, caso isso acontecesse, tanto o ele, como o grupo,
não cairiam no esquecimento. Tal possibilidade o deixou bastante feliz, pois significaria que,
mesmo depois da sua morte, sua história ficaria registrada para sempre.
Essas relações delicadas entre mim e meus informantes, propiciadas pela pesquisa
antropológica, me fizeram refletir e recordar dos “frágeis fios de Ariadne”, metáfora criada
por Vagner Gonçalves da Silva (2006) para expressar os encontros, no campo, entre
pesquisador e pesquisados. Lançando mão de uma linguagem poética, Vagner afirma que:
19
Fi
g
ura 8: Voluntárias do GOASF
J
.
[...] os antropólogos aprendem, no campo, que as anotações no diário, as imagens
“congeladas” nas fotografias ou “revividas” nas fitas de videocassete e os registros
do que se disse, cantou ou rezou são frágeis fios de Ariadne que precariamente nos
ajudam a não nos perdemos nos labirintos da cultura do outro, mas que em si mesmo
revelam sobre a extensão das experiências vividas nos caminhos percorridos nesse
labirinto (SILVA, 2006: 66).
Na relação com o grupo, ao longo do trabalho de campo, a pesquisa contou com o
respeito e admiração dos que dela participaram. Por vezes ficou bem evidenciado o
contentamento com esta iniciativa, que gerou a expectativa de que a realização desse trabalho
daria um valioso canal de visibilidade para o GOASFJ. A única dificuldade que encontrei foi
na realização das entrevistas com as velhinhas assistidas pelo grupo. Elas se revelaram
resistentes, tímidas e desconfiadas diante da solicitação de entrevistas. Na superação desta
limitação, foi necessário contar com a intervenção de uma ex-voluntária, que reside em Pau
Amarelo, município de Paulista (PE). Ela conversou com as velhinhas e conseguiu convencê-
las a participarem da pesquisa, vencendo sua resistência.
Finalizando, os procedimentos metodológicos foram determinados pela necessidade do
grupo, pois como há muito se sabe, é o próprio campo que dita as normas da pesquisa e guia o
antropólogo; e são justamente esses procedimentos que, vale enfatizar, nos ajudam a não nos
perdermos nos “labirintos de Minotauro” da cultura e da vida do nosso outro.
20
Fi
g
ura 10: Louvor em Olinda.
Fi
g
ura 9: Frei Jerônimo e a voluntária Dona Ruth Hazin em frente ao altar no Louvor
,
em Olinda.
Fi
g
ura 11: Altar da Celebra
ç
ão de Louvor
,
no bairro do Carmo
,
em Olinda.
21
Fi
g
ura 12: Louvor em Boa Via
g
em
,
em Recife.
Fi
g
ura 13: Celebra
ç
ão de Louvor em Olinda.
\
1.3 - Delimitação teórica da investigação
O presente trabalho tem como objetivo realizar um estudo etnográfico do GOASFJ,
privilegiando a ação de um frade demitido pela Igreja e dos seus seguidores. Destacamos que
esta pesquisa, como já foi apontado, quer se inserir no campo de estudos que buscam analisar
as recentes transformações no campo religioso brasileiro, principalmente, no que concerne ao
Catolicismo. Já é noticia velha de quase dez anos, que, em termos estatísticos, essa religião
22
Católicos e Evangélicos no Brasil
83,8
9,05
73,8
15,45
0
20
40
60
80
100
Católicos Evangélicos
%
1991 2000
Tabela 2: Evolu
ç
ão estatística dos católicos e evan
g
élicos no Brasil.
tem sofrido paulatinamente um agudo decréscimo no número daqueles que se auto-declaram
católicos.
Marcelo Camurça (2006: 37), analisando os dados do Censo de 2000, estudou o
declínio estatístico do número de fiéis na Igreja Católica. Se em 1991 declararam-se católicos,
em números absolutos, 121,8 milhões; em 2000, esse número aumentou para 125 milhões,
mas em termos percentuais caiu de 83,8% para 73,8% da população. Já a comunidade
evangélica, em 1991, contava com 13 milhões de fiéis, o que correspondia a 9,05% da
população; e no Censo de 2000, os evangélicos dobraram para 26 milhões em números
absolutos, o que corresponde a 15,45% da população. Dentre os evangélicos são os
pentecostais que predominam, correspondendo a 17 milhões do contingente e respondendo
por 10,43% do percentual de evangélicos.
Fonte: IBGE
Camurça analisa esses dados do Censo com o objetivo de defender a tese do
pluralismo e da variedade” do campo religioso brasileiro e responder ao desafio de Antônio
Flávio Pierucci que, prendendo-se apenas à frieza dos números do IBGE, discorda dos
analistas que enxergam um “crescente pluralismo e diversidade religiosa no país” no texto
“Cadê nossa diversidade religiosa?” (PIERUCCI, 2006).
Para sustentar sua tese, Camurça (Op. cit.) baseia-se nas 35.000 respostas dadas pelos
pesquisados, por ocasião do Censo, à pergunta “qual a sua religião?”. Atento menos à dureza
dos dados quantitativos, e mais à “realidade social – sobretudo “a realidade social do
fenômeno religioso, sinuoso e polissêmico” -, esse autor propõe relativizar os dados, se
quisermos “ultrapassar ‘soluções fáceis’, no entanto falaciosas”. Enquanto isso, Pierucci
23
rebate afirmando que, no final das contas, “vivemos na verdade num país noventa por cento
cristão (89,2%). Isso quer dizer que do alto de seus oligopólios e prerrogativas o espectro do
monoteísmo ainda ronda nossos confusos destinos pesadamente” (PIERUCCI, 2006: 51)
(Grifo no original).
Pierucci contabiliza o universo das religiões “que não são cristãs” como algo em torno
de 3,5% da população, ou seja: 1,38% de espíritas (sic), 0,34% de adeptos das religiões afro-
brasileiras, 0,15% são budistas, e outras religiões orientais (como Seicho-No-Iê, Messiânica,
Perfect Liberty, Shinto, Bahai, Tão, etc.) correspondem a 0,11% da população. Os esotéricos
chegam à cifra de 0.04%, a religião judaica 0,06% e os mulçumanos 0,01%. As religiões de
origem brasileira - que o IBGE classifica como “tradições religiosas indígenas”, como o Santo
Daime, União do Vegetal e Barquinha - contam com 0,01% da população brasileira.
Polêmicas a parte, de acordo com Cecília Mariz e Maria das Dores Machado (1998),
foi a partir da década de 60, com o crescimento geométrico das igrejas evangélicas, que o
pluralismo institucional surge no Brasil, propiciando assim a consolidação o chamado
mercado religioso” ou “pluralismo em nível institucional”, os quais se fortaleceram nas
décadas de 1980 e 1990, quando o pentecostalismo ganhou maior visibilidade no espaço
público, a partir do surgimento das igrejas neopentecostais e seus tele-evangelistas
(FRESTON, 1994).
Mas tal situação de pluralismo religioso não se dá somente pelo aumento progressivo
das denominações cristãs e evangélicas. Segundo Pierre Sanchis (2001), mais três grandes
filões ampliam e complexificam a situação de pluralidade religiosa no Brasil, quais sejam: o
Candomblé e a Umbanda, os cultos de origem oriental, e o universo tipicamente
contemporâneo da Nova Era.
Contudo, a grande novidade que o Censo 2000 demonstrou foi aumento considerável
dos que se autodenominam “sem religião”. Camurça nos diz que a categoria dos “sem
religião” passou de 6,9 milhões - ou 4,8% da população - para 12,3 milhões, ou seja, 7,3% do
total de brasileiros. Segundo André Ricardo de Souza (2007), devemos ter muito cuidado com
os dados do Censo 2000, sobre os “sem religião”:
[...] a classificação de sem-religião não significa que as pessoas desse grupo sejam
indiferentes a formas talvez novas de religiosidade. Não há no Brasil um declínio
nítido de religiosidade, mas sim uma opção pela fé manifestada através de uma
24
“religião pessoal”, fruto do forte sincretismo inerente ao hibridismo cultural do país
e da rejeição de igrejas como formas de dominação e poder religioso. Os “crentes
sem religião” são, na verdade, desfiliados de qualquer autoridade religiosa. Todo
esse universo, que deve abranger cerca um décimo da população nacional, deverá ser
mais bem analisado pelos cientistas sociais da religião (SOUZA, 2007:157).
Sobre essas modificações no cenário religioso brasileiro Pierre Sanchis afirmou que:
[...] Há duas ou três gerações falar em “religião dos brasileiros” seria apontar quase
que exclusivamente para o Catolicismo. Isso mudou. Hoje o Catolicismo constitui
cada vez mais uma das religiões, entre outras, dos brasileiros, e num movimento
diversificador que se acelera. [...] O “grupo, a “etnia”, a “nação” brasileira, quando
se lhe pergunta: “Do ponto de vista da religião, quem é você? Qual é o seu nome”,
não responde mais em uníssono: “Católica!”. Mudou o clima unanimista que
imperava em seu espaço social (SANCHIS, 2001:10).
Em relação ao campo do Catolicismo, Marcelo Camurça (2006) reconhece que,
mesmo diante do declínio do número de católicos, existem regiões tradicionais de resistência,
onde a religião católica ainda é predominante, como no Piauí, onde 95% da população são
católicos, seguido pelo Ceará (93,3%), Paraíba (93%), Alagoas (81,0%), Sergipe (81,7%) e
Rio Grande do Norte (81,7%).
Por sua vez, Cecília Mariz (2006: 53 a 58), ao refletir sobre os mesmos dados
estatísticos do Censo de 2000, em vez de se ater ao “canto do cisne” do Catolicismo nacional,
prefere tratar do reavivamento dos grupos remanescentes, no sentido de “compreender as
características desse novo Catolicismo brasileiro”. Mariz afirma que o que chama atenção na
Igreja Católica é o “grau de diversidade dentro de uma única igreja sob uma única liderança”;
fator que considera como “a novidade do Catolicismo contemporâneo”. Dentre aqueles que se
declaram católicos, ela aponta também para o crescimento da autonomia nas práticas, além da
grande variedade nos discursos.
Uma das palpitantes vertentes que ditam o novo modo de ser católico no Brasil está
representada nos grupos carismáticos, cuja dinâmica se aproxima do modelo de “religião de
comunidades emocionais”: emocionalismo comunitário; testemunho e reconhecimento
grupal; e voluntários reunidos em torno de uma “personalidade carismática” (HERVIEU-
LÉGER, 1997: 33). Esses tipos sociológicos ideais serviram-me de ponto de partida para o
modo como inicialmente concebi a identificação e a categorização de certos aspectos
observados no GOASFJ, a partir da realização da presente pesquisa.
25
Dito isso, resta saber como tais transformações influenciam no modo como se
estabelece a relação entre leigos e hierarquia no interior do Catolicismo brasileiro. Vimos
como o advento da modernidade, com sua ênfase no individualismo e na subjetividade, como
fontes e testemunho da crença contemporânea, tem proporcionado um sem-número de
conflitos com as tradições, por um lado, e as hierarquia religiosas, por outro. No contexto
nacional, os fenômenos do declínio de católicos auto-intitulados, da diversificação de formas
de “ser católico no Brasil”, bem como da intensificação do papel dos leigos nos movimentos
dentro e fora da Igreja institucional se associam ao processo de destradicionalização e
desregulação do campo religioso (HERVIEU-LÉGER, 1997; BECKFORDE, 1989; HEELAS
1996), delimitando uma arena de disputa em torno da seguinte questão: afinal, o que é ser
católico no Brasil hoje?
Em paralelo com essa perspectiva teórica, não posso deixar de ignorar a polêmica
empreendida por pesquisadores da religião e cientistas sociais, sobre um dos temas
fundamentais da Sociologia da Religião - desde Weber, pelo menos -, postulado como a
relação entre o surgimento da modernidade e do individualismo racional, bem como o
conseqüente fim das religiões institucionalizadas, tendo por base os processos de
secularização da sociedade. Por outro lado, considerando que têm ocorrido no mundo a
invenção de novas religiões e o reavivamento de antigas, por meio de novos movimentos
religiosos, há os que sustentam a opinião oposta de que existe um processo de
dessecularização da sociedade hodierna, momento em que a liberdade e a pluralidade
religiosas (frutos da própria Era Moderna), que vivenciamos atualmente de forma aguda, têm
colocado em xeque a idéia defendida por muitos teóricos de um processo irreversível na
secularização da sociedade (HERVIEU-LEGER, 1997; BERGER, 2001; MARIZ, 2001).
Essa última tese, defendida por Peter Berger (1985) antes do seu mea culpa (2001),
postulava que as conseqüências do projeto de modernidade produziriam uma contestação
veemente das tradições e uma crescente racionalização de todas as esferas da vida social, na
qual, as organizações religiosas gradualmente perderiam a importância e o poder na
sociedade. Berger dizia que:
[...] Por secularização entendemos o processo pelo qual setores da sociedade e da
cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos. Quando
falamos sobre a história ocidental moderna a secularização manifesta-se na retirada
das igrejas cristãs de áreas que antes estavam sobre o seu controle e influência:
separação da igreja e do estado, expropriação das terras da igreja, ou emancipação da
26
educação do poder eclesiástico, por exemplo. Quando falamos em cultura e
símbolos, todavia, afirmamos implicitamente que a secularização é mais que um
processo socioestrutural. Ela afeta a totalidade da vida cultural e da ideação e pode
ser observada no declínio dos conteúdos religiosos nas artes, na filosofia, na
literatura e, sobretudo, na ascensão da ciência como uma perspectiva autônoma e
inteiramente secular do mundo. Mais ainda, subentende-se aqui que a secularização
também tem um lado subjetivo. Assim como há uma secularização da sociedade e da
cultura, também há uma secularização da consciência, simplificando, que o ocidente
moderno tem produzido um número crescente de indivíduos que encaram o mundo
em suas próprias vidas às interpretações religiosas (BERGER, 1985: 119-20).
Contudo, com as diferenciações no campo religioso, o aumento progressivo das
comunidades emocionais (HERVIEU-LÉGER, 1997), o avanço considerável das igrejas
pentecostais e neopentecostais, além da presença cada vez maior de espaços neo-esotéricos, a
tese de um processo irreversível da secularização começou a ser questionada. Para minorar os
ânimos do debate, que se encontra insolúvel até o presente momento, Danièle Hervieu-Léger
propôs uma solução do tipo salomônico e reformulou a questão da secularização em termos
dialéticos, ao afirmar que:
[...] Uma perspectiva mais interessante, do ponto de vista da construção de uma
sociologia da modernidade religiosa, talvez consista mais em apreender, no interior
da própria tensão que manifesta entre as “tendências dessecularizantes” e as
“tendências secularizantes” ativamente presentes, juntas, nas experiências de
renovação emocional, algo da natureza intrinsecamente contraditória do próprio
processo de secularização (HERVIEU-LÉGER, 1997: 44).
Anos após as primeiras idéias de Peter Berger (1985), sobre a secularização, este autor
reviu suas colocações e publicou um texto intitulado “A dessecularização do mundo: uma
visão global” (2001), no qual afirmou ser:
[...] falsa a suposição de que vivemos em um mundo secularizado. O mundo hoje,
com algumas exceções [...] é tão ferozmente religioso quanto antes, e até mais em
certos lugares. Isso quer dizer que toda uma literatura escrita por historiadores e
cientistas sociais vagamente chamada de “teoria da secularização” está
essencialmente equivocada. (BERGER, 2001:10).
Analisando as transformações recentes no campo religioso brasileiro, Cecília Mariz, no
seu texto “Catolicismo no Brasil contemporâneo: reavivamento e diversidade” (2006), se
afasta do conjunto de análises que enfatiza o tema do enfraquecimento do Catolicismo no
27
Brasil e busca, dessa forma, verificar a pluralidade e os reavivamentos dentro desta religião.
Segundo a autora, “essa revisão sugere que a queda na proporção de católicos parece estar
sendo acompanhada por um relativo reavivamento religioso, e mais ainda por uma
intensificação da diversidade na experiência de ser católico”. (MARIZ, 2006: 53;
CAMURÇA, 2006). Mariz ainda informa que:
[...] De acordo com os dados analisados por Pierucci e Prandi (1996:216), os
católicos carismáticos seriam em 1994 3,8% do total da população brasileira. Já a
pesquisa do Ceris (2002:109-111) encontrou 18,2% da população católica
entrevistada afirmando participar de “atividades carismáticas”. Pode-se calcular que
18,2% da população católica dos grandes centos urbanos (universo da pesquisa do
Ceris) possa corresponder grosso modo a 12,6% da população total do país. Assim
teríamos que de 1994 (ano em que os dados forma coletados pelos Datafolha) pra
1999 (ano da coleta do Ceris), o número dos que estão envolvidos com atividades
carismáticas no Brasil subiu de 3,8% para 12,6%, ou seja, mais que triplicou
(MARIZ, 2006:55).
Ainda sobre o tema do “reavivamento católico”, apontado por Mariz, essa autora se
debruça mais detalhadamente sobre o contexto de sua produção. A partir da leitura de Berger
sobre a teoria do “mercado religioso”, mas incorporando a critica e reformulação operadas por
Stark e Iannaccone (os quais visaram dar conta do fenômeno da “mobilização religiosa”,
frente ao fim dos monopólios da fé e o surgimento da competição entre os agentes religiosos),
Mariz expõe o multifacetado campo do Catolicismo brasileiro, também em seus modelos de
reavivamento e variedade de papéis desempenhados pelos leigos, haja vista que: “O mundo
atual parece dispor de um leque mais amplo de elementos que, ao mesmo tempo em que
reavivam o Catolicismo, o diversificam, criando grupos com relativa autonomia em relação ao
Vaticano” (Ibidem: 58).
A tese da grande variação de formas de nossa matriz religiosa católica contemporânea
se acomoda coerentemente com a postulação de diferentes maneiras de reavivamento. Mariz
elenca cinco movimentos
11
que dão o tom dessas mobilizações efetuadas, em grande parte,
por leigos ou por eles largamente sustentadas. Dentre essas, enfatizo as chamadas “campanhas
culturais” católicas, polarizadas, mas de sabor modernizante, que repercutem imensamente no
11. Os movimentos que corroboram para o avivamento contemporâneo da Igreja no Brasil são: (1) a pluralidade
das “campanhas” internas da Igreja Católica; (2) a "barganha cognitiva” com a cosmovisão moderna; (3) o
surgimento de indivíduos com “carismas” especiais e a ocorrência de eventos “sobrenaturais”; (4) a ingerência de
instituições não religiosas e não-católicas no mundo católico (MARIZ, 2006: 58).
28
interior da Igreja, a exemplo da crítica e contestadora Teologia da Libertação, adversa da
integrada e restauradora Renovação Carismática, tenda a romanização tridentina como um
terceiro pólo, provindo do cume, em competição com grandes forças tectônicas, vindas a
partir da base da Igreja.
Enfatizo também, para efeito de interpretação teórica nesta pesquisa, um outro
movimento de reavivamento. Este - ao contrário do anterior, sintonizado com a modernidade
– volta-se para obscuras forças misteriosas de um passado religioso e tradicional, vigentes
num mundo ainda povoado por anjos e demônios. Trata-se do “surgimento de indivíduos com
‘carismas’ especiais e a ocorrência de eventos ‘sobrenaturais’”, com remete a uma visão
“encantada” do mundo. Apesar da acelerada modernização e intensa urbanização da sociedade
brasileira, não deixamos de observar a resistência do ideário típico de um Catolicismo popular
autônomo e tradicional – numa palavra: pré-moderno -, representado nas festas de orago; nas
romarias, devoções e promessas aos santos do coração do povo – oficiais ou não -, com ênfase
na crônica de seus milagres e feitos maravilhosos; e, mais recentemente, nos surtos
carismáticos de aparições da Virgem. Esse Catolicismo popular sofre, ainda, a oposição das
“campanhas culturais” citadas, os quais buscam superá-lo, por ser visto como atrasado.
Em suma, para Mariz:
[...] o que chama atenção no Catolicismo é o grau de diversidade dentro de uma
única igreja sob uma única liderança. Na verdade, o Catolicismo é uma igreja dentro
de uma religião mais ampla e diversa que é o cristianismo. Nesse sentido, enquanto
uma igreja única, a diversidade católica se destaca das demais e impressiona os
analistas (Ibidem: 57).
Ainda sobre estas transformações no contexto do Catolicismo brasileiro, Mariz detecta
uma crescente participação do papel do leigo na Igreja, bem como a crescente autonomia de
indivíduos e grupos em relação às instituições em geral e, em particular, às instituições
religiosas, fenômeno identificado por Hervieu-Léger (1999) como processo de “desregulação
do campo religioso”.
As teses de Hervieu-Léger, Camurça e Mariz – que refletem diretamente sobre a nova
face do Catolicismo brasileiro contemporâneo - concorrem para pensar aspectos centrais do
grupo que pesquisei nos últimos dois anos em Olinda: o Grupo de Oração e Ação Social Frei
Jerônimo (GOASFJ). Seguindo as pistas deixadas por Mariz, vejo o grupo estudado como um
29
produto dessa grande variação apontada por ela no interior do Catolicismo contemporâneo que
é marca diretamente relacionada com a autoconsciência e valoração crescente do laicato. A
partir desse leque de possibilidades identitárias, os fiéis elaboram representações daquilo que
é “ser católico” no Brasil hoje, permitindo, no caso dos seguidores do frei, retomar e re-
elaborar criativamente a partir dos modelos disponíveis nas experiências anteriores de
mobilização e organização dos leigos, a exemplo das “campanhas culturais” existentes na
Igreja brasileira - sejam elas de cunho progressista (CEBs), ou de perfil mais conservador
(RCC).
Para além desse reavivamento, que remete também ao papel de protagonismo
desempenhado pelos leigos na Igreja, com Danièle Hervieu-Léger (1997) atentamos também
para a emergência de comunidades emocionais do tipo carismático, que sublinham a relação
entre a autonomia do leigo e desregulação do campo religioso, na medida em que o portador
do carisma reúne em si todas as demandas afetivas e subjetivas dos fiéis, em seu comércio
com as potências divinas. Tais comunidades apresentam:
[...] tendência ao emocionalismo comunitário que se expande cada vez mais, não
somente no seio dos Novos Movimentos Religiosos mais também nas diferentes
igrejas e confissões. Segundo a descrição que dela oferece Weber, a religião de
comunidades emocionais caracteriza as comunidades de discípulos reunidas em
torno a um portador de carisma. [...] Esta religião de comunidades emocionais
apresenta-se em primeiro lugar como uma religião de grupos voluntários, que
implica para cada um dos seus membros um compromisso pessoal (quando não uma
conversão, no sentido revivalista do termo). O testemunho que cada convertido dá ao
grupo de sua própria experiência, e o reconhecimento que o grupo lhe traz de volta
criam um laço muito forte entre a comunidade e o indivíduo. Este laço de adesão
toma sua forma mais intensamente afetiva no caso lembrado por Weber de
comunidades de discípulos reunidos em torno de uma personalidade carismática
(HERVIEU-LÉGER, 1997: 33).
Assim, entendo haver uma correlação entre a idéia de Hervieu-Léger, sobre as
comunidades emocionais e o surgimento do GOASFJ, tendo em vista que tal grupo é formado
basicamente por leigos reunidos em torno de um portador de carisma que é o Frei Jerônimo,
onde os convertidos pautam-se por fornecer ao grupo seus testemunhos de fé, criando e
mantendo laços comunitários, com base numa conversão revivalista dos fiéis em face de suas
demandas e diante dos novos perfis vigentes no Catolicismo.
30
Com relação ao carisma apresentado pelo frei, característica fundamental para manter
e reproduzir o laço de coesão no interior do Grupo de Oração e Ação Social Frei Jerônimo, é
de novo Cecília Mariz, em seu texto “A Renovação Carismática Católica: Uma Igreja dentro
da Igreja?”, quem nos fornece pistas para compreensão do meu objeto de pesquisa, quando
afirma que:
[...] Segundo Weber (1991) o carisma surge como força desreguladora, contestadora.
O profeta ou o líder carismático, ou comunidade carismática questiona as regras
existentes – desregula. No entanto, a experiência carismática é por sua natureza
efêmera, passageira. Para que os valores e princípios despertos por esta experiência
se mantenham, surge uma nova regulação: novas regras são propostas. A dinâmica
histórica e social fará surgir novas regras que constituem a institucionalização do
carisma. Se isso não ocorre, o carisma desaparece (MARIZ, 2003:176).
Ainda nessa seara, agora numa perspectiva comparativa da realidade brasileira,
Fortunato Mallimaci (2000), analisando as transformações do Catolicismo na Argentina,
observa que uma de suas mudanças prende-se ao crescimento do Catolicismo emocional, no
qual:
[...] a busca do sagrado e da cura pelos dons do Espírito é um forte questionamento
ao tipo de estrutura eclesial e de uma disputa “leiga” pelo controle exercido pelos
especialistas sobre a manipulação dos bens e salvação. Aqui os sujeitos principais
convocados e autoconvocados são os “vulneráveis”, quer dizer, homens e mulheres
de diversos estratos sociais e situação de perda de suas certezas sejam estas a nível
emocional, de saúde, de casal, de família, de trabalho, etc. É importante acentuar
esta situação “vulnerabilidade”, pela qual se chega às comunidades emocionais e,
portanto, à busca de respostas individuais emotivas que destacam auto-estima e o
valor do corpo. Aqui encontramos uma população móvel que transita por diversos
grupos e que, quando encontra sua “verdade”, deseja transmiti-la, levá-la a cabo,
implementá-la “aqui e agora”, colaborando com todos os seus meios – tempo,
dinheiro e responsabilidade – para a sua realização. [...] Se, ontem, outras
comunidades com a mesma força buscavam “curar os males da sociedade”, hoje
outros grupos de católicos procuram curar os males do coração e da alma
(MALLIMACI, 2000:236-7).
Parece-me, desse modo, que as colocações de Mallimaci sobre o Catolicismo na
Argentina não são destoantes das análises empreendidas no campo do Catolicismo no Brasil,
tendo em vista a crescente realidade das comunidades emocionais e a valorização do papel do
31
leigo que busca, sem intermediações, o contato com o sagrado e a cura físico-espiritual por
obra do Espírito Santo; importando, dessa forma, sérios conflitos com a hierarquia católica.
No meu caso ora em estudo, observo também vários pontos descritos por Mallimaci
na vivência comunitária do GOASFJ, a exemplo da afluência de pessoas de vários estratos
sociais aos louvores do frei, que nas suas incertezas emocionais, de saúde, financeiras e
familiares, procuram o grupo, em busca de repostas individuais aos seus sofrimentos; e nele as
encontrando, o que resulta no aumento de sua auto-estima. Em retribuição, esses fiéis
colaboram com o seu tempo, dinheiro e assunção de responsabilidades, tanto nos trabalhos
religiosos e na gestão da comunidade, como no mecenato ao próprio frei.
Assim, incorporando-me ao fio de raciocínio iniciado por Weber e ampliado por
Camurça, Mariz, Hervieu-Léger e Mallimaci, passo agora a levantar algumas questões,
necessárias para entendimento do meu objeto de estudo, formuladas da seguinte maneira:
(1) quando, de que maneira e com que intensidade o crescimento do carisma, apresentado por
Frei Jerônimo, passou a rivalizar com o poder legalista do Arcebispo, culminando no seu
afastamento da Igreja Católica local? (Capítulo II);
(2) a partir da emergência e manutenção desse carisma, como o GOASFJ se estrutura e se
organiza, visando o atendimento das demandas apresentadas pelos seus fiéis, sua perpetuação
e reprodução enquanto comunidade carismática? (Capítulo III);
(3) como as experiências carismáticas se comportam, quando as demandas internas do grupo
entram em concorrência com as exigências das mediações externas, espaços de negociação
para a manutenção do grupo, sendo alguns desse espaços controlados por outras instâncias de
poder, a exemplo do que ocorre no campo político-partidário? (Capítulo IV).
Com esse repertório inicial de questões, por intermédio das quais busquei delinear um
perfil mais aproximado do GOASFJ, baseei a construção dos capítulos que se seguem, na
tentativa de compreender as regras, com as quais o grupo produz e reproduz o sentido de sua
existência, a partir e em torno dos dons apresentados por um portador de carisma, o qual,
reciprocamente, sustenta-se e sustenta a sua ação pelo compromisso pessoal dos seus
seguidores, envolvidos igualmente na manutenção e\ou reprodução desse carisma.
32
Capítulo II – Frei Jerônimo: o narrador e sua trajetória
Este capítulo foi inteiramente baseado nas informações prestadas por Frei Jerônimo e
por alguns de seus mais próximos colaboradores e testemunhas, os quais, por sua vez,
contaram apenas com a autoridade de suas reminiscências e impressões deixadas pelas
experiências vividas pelo frade - desde a sua infância e juventude (no caso do religioso), até o
momento da constituição do GOASFJ, passando pelo clímax da sua ruptura com a Igreja que
o havia acolhido desde cedo.
Não pretendi assumir aqui o ponto de vista de biógrafa, nem tampouco o de
historiadora, em sentido estrito. Estou ciente das incertezas, reticências e imprecisões que uma
narrativa baseada apenas na memória – e na memória de uma única testemunha... E de uma
testemunha posicionada na história – pode proporcionar, em variedade de ameaças, à
concretude do “edifício da objetividade”, utopia muitas vezes perseguida no passado da
pesquisa etnográfica, a qual - como todas as utopias - nunca logrou ser encontrada, senão
apenas na forma de (re)construções cenográficas e ideológicas do tecido da realidade, mais ou
menos visíveis.
Nessa perspectiva, alio-me ao pensamento de Walter Benjamin, quando postula a
figura do “narrador”, em oposição ao objetivismo típico do historiador e do biógrafo, com a
qual identifico a postura e função de Frei Jerônimo, do ponto de vista de seus seguidores. Foi
precisamente essa função, mais do que a “verdade” de suas memórias, que me dediquei a por
o foco neste capítulo.
Benjamin, avaliando o atual estado da tradicional arte de narrar histórias, afirma que
“o narrador não está de fato presente em nós, em sua atualidade viva. Ele é algo de distante e
que se distancia ainda mais”. Quis ele dizer com isso que “a arte de narrar está em vias de
extinção”, tendo como uma de suas causas o fato de que “as ações da experiência estão em
baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo”, sendo que
justamente “experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os
narradores”, mas que na contemporaneidade estamos nos privando da “faculdade de
intercambiar experiências” (BENJAMIN, 1994: 197-198).
33
Tais reflexões me inspiraram a reconhecer, no Frei Jerônimo, o resgate desse narrador
que se utiliza de sua vida como exemplo para orientação moral dos seus fiéis, tais como, no
passado, assim funcionavam a hagiografia – epopéias heróicas dos santos - para os cristãos.
Diz Benjamin que a experiência narrada, incorporada na vivência dos seus ouvintes:
[...] esclarece a natureza da verdadeira narrativa. Ela tem sempre em si, às vezes de
forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num
ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio, ou numa norma
de vida – de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos.
Mas, se “dar conselhos” parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências
estão deixando de ser comunicadas. Em conseqüência, não podemos dar conselhos
nem a nós mesmos, nem aos outros. Aconselhar é menos responder a uma pergunta,
que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada
(BENJAMIN, 1994: 200).
Isso significa que as memórias manejadas por Frei Jerônimo aproximam-se do caráter
mitológico, utilizadas com fins precisos - como “mito de criação” - para a configuração de
uma identidade heróica para as escolhas efetuadas pelo GOASFJ e seu líder, as quais são
assim recebidas e compreendidas por seus integrantes. Arrisco-me a reconstruir aqui apenas
uma versão, das muitas possíveis, pois a história do frei articula-se diretamente com a vida
dos seus simpatizantes de forma simbólica e, ao mesmo tempo, prática, tal como, por
exemplo, ocorre com a parábola encerrada no “milagre de Jupira”, descrito adiante.
Trata-se de interpretações de uma realidade, que não tem – nem carece ter, do ponto de
vista do fiel – compromissos inelutáveis com uma verdade acabada, fechada em si mesma,
corroborada unicamente por mecanismos de checagem de fontes e verificadas por
documentos, típicos dos procedimentos daqueles que pretendem preencher um tempo
“homogêneo e vazio”, um tempo cronológico e linear, com uma “imagem eterna do passado”.
Em resposta a esses positivistas, Benjamin propõe em seu lugar, um:
[...] historiador capaz de identificar no passado os germes de uma outra história,
capaz de levar em consideração os sofrimentos acumulados e dar uma nova face às
esperanças frustradas -, de fundar um outro conceito de tempo, “tempo de agora”
(Jetztzeit), caracterizado por sua intensidade sua brevidade, cujo modelo foi
explicitamente calcado na tradição messiânica mística judaica (GAGNEBIN, 1994:
8)
34
Para Benjamin, a questão maior que se estende diante do narrador é formulada nos
seguintes termos: “como repassar adiante a experiência de vida – sua e de outros?”; ou, em
outras palavras, “como fazer da história uma fonte de sentidos abertos, sujeitos a
reinterpretações e aplicações práticas na vida daquele a escuta?” Os efeitos das histórias que
conta, para o narrador, são semelhantes às impressões causadas pelos contos de fadas na vida
subjetiva das crianças; e estão na mesma proporção do trabalho simbólico efetuado pelos
mitos, na forma como interpelam e explicam as demandas internas por sentido e segurança
das pessoas – numa palavra: “o conselho tecido na substância viva da existência tem um
nome: sabedoria” (BENJAMIN, 1994: 200). Ensina ele que:
[...] Não se percebeu devidamente até agora que a relação ingênua entre o ouvinte e
o narrador é dominada pelo interesse em conservar o que foi narrado. Para o ouvinte
imparcial, o importante é assegurar a possibilidade da reprodução. A memória é a
mais épica de todas as faculdades. Somente uma memória abrangente permite à
poesia épica apropriar-se do curso das coisas, por um lado, e resignar-se, por outro
lado, com o desaparecimento dessas coisas, com o poder da morte (Ibidem: 210).
Foi por causa dessa perspectiva benjaminiana, aproximando-me das vivências e visões
de mundo dos fiéis do GOASFJ, que me pus a enfrentar as memórias do grupo, escutar e
refletir sobre as palavras de seu líder, dando-lhe o penhor da confiança sobre aquilo que tinha
a me dizer: uma história “posicionada” sobre escolhas individuais e coletivas e as suas
conseqüências. Uma memória comum, tantas vezes contada e refletida por cada fiel que
procura o carismático Frei Jerônimo, em busca de acolhimento e sabedoria de vida.
2.1 - A descoberta da vocação e o pertencimento a Igreja
Jerônimo Gomes de Sousa é o nome de batismo do líder do GOASFJ. Ele nasceu em 4
de março de 1960, na cidade de Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, em uma família
numerosa de 15 filhos, dos quais sobreviveram 11 irmãos. Para ajudar em casa, o pequeno
“Novo”, como era chamado na intimidade, comou a trabalhar aos nove anos de idade, numa
serraria. Porém, não se demorou nessa atividade, porque sua mãe insistia que ele estudasse.
Aos 13 anos, o menino foi trabalhar numa fábrica de calçados, permanecendo por lá quatro
anos. Nesse período, mais precisamente no ano de 1976, Jerônimo cursava datilografia no
horário do almoço e no término do expediente vendia pastéis, seja na rua, seja na lanchonete
de uma escola estadual, com sua mãe, que lá era auxiliar de serviços gerais. Pela necessidade
de angariar recursos para sua família, até o ano de 1978, o garoto trabalhava dois expedientes.
35
Fi
g
ura 14: Frei Jerônimo e seu irmão
,
Frei Jonaldo
,
na celebra
ç
ão
d
os 42 anos de sacerdócio deste último
Embora trabalhasse intensamente, o menino jamais desobedeceu a sua mãe deixando de
estudar, pois terminou seus estudos em 1978.
Quando saiu de Mossoró, lembra ainda que, aos dezessete anos, ingressou na Escola
Aprendizes Marinheiros, no Recife. No período de 1977 a 1978 fez intercâmbio entre Recife e
Mossoró. Dessa forma, nos finais de semana, permanecia nessa cidade como aluno da Escola
e durante a semana, retornava a Mossoró, onde trabalhava em uma sapataria.
Em março de 1978, saiu da sapataria para dedicar mais tempo à Marinha. Fez concurso
no Estádio Geraldão, em Recife, para marinheiro. Sua aprovação representou a realização de
um sonho para seu pai que desejava vê-lo naquela instituição. Permaneceu na Marinha apenas
um ano. No dia de Santo Antônio, 13 de junho de 1978, por ocasião de uma visita à cidade de
Recife, onde ficou hospedado com parentes, houve uma procissão daquele santo católico até o
convento franciscano do Imperador. Jerônimo afirma ter sido ali tocado muito fortemente por
um chamado para ser padre. Embora estivesse programado para ingressar na Escola Naval do
Rio de Janeiro, resolveu pedir dispensa da Marinha. Para isso contou com a ajuda do médico
da Marinha, que, respondendo ao seu pedido, escreveu na sua ficha que ele tinha uma perna
mais curta que a outra. Em suas palavras: “Renunciei para ser frade, não queria mais nada da
vida a não ser ‘ser padre’ ”. Essa convicção ficou ainda mais forte depois de ouvir os sermões
de Dom Helder Câmara e após a ordenação do seu irmão, Jonaldo, como diácono, na Ordem
dos Frades Menores (OFM), em meados de 1978.
36
A Ordem dos Frades Menores - também conhecida como Ordem dos Franciscanos ou
Ordem Franciscana - é uma congregação religiosa católica, criada no ano de 1209, quando
recebeu aprovação verbal do Papa Inocêncio III, por Giovanni Bernardone, vulgo São
Francisco de Assis, e 12 companheiros seus. Seguindo a idealização do fundador, o grupo
adotou a denominação “Frades Menores” para indicar o caráter fraternal que deveria
predominar entre eles e o lugar social privilegiado para o atendimento de seu objetivo, ou seja,
o serviço aos pobres. Desta forma, o ideal de pobreza, na inspiração primeira do fundador, é
um traço fundamental dos franciscanos.
12
No ano de 1221, o Papa Honório III aprovou canonicamente as regras da OFM, que
permanecem inalteradas até os dias atuais. Diversas ramificações surgiram ao longo do tempo,
resultando na seguinte configuração da Ordem Franciscana:
(1) Primeira Ordem: Ordem dos Frades Menores, ou observantes (O.F.M.), Ordem dos
Frades Menores Conventuais (O.F.M.conv) e Ordem dos Frades Menores Capuchinhos
(O.F.M.cap);
(2) Segunda Ordem: Ordem das Irmãs Clarissas, Ordem das Irmãs Concepcionistas e Ordem
das Irmãs Capuchinhas;
13
(3) Terceira Ordem: Terceira Ordem Regular (T.O.R.) e Terceira Ordem Secular, ou Ordem
Franciscana Secular (O.F.S).
14
Segundo Frei Jerônimo, durante toda a procissão de Santo Antônio ele ficou
angustiado, quanto à emergência de sua vocação, ou seja, ser ou não frade. Tentou diversas
vezes falar com seu irmão sobre o assunto, mas ficou envergonhado imaginando que todos
pensariam que ele estava querendo imitar seu irmão. Diante desta dificuldade de
comunicação, decidiu escrever uma carta, onde falava de suas intenções em ingressar na vida
12. Informação acessada em 30/10/2008, no site: <www.pernambucodeaz.com.br/dh/recife.htm>.
13. Os grupos religiosos que compõem a Segunda Ordem são contemplativas enclausuradas, seguidoras de São
Francisco de Assis e Santa Clara.
14
. Ordem Terceira de São Francisco abriga diversos outros ramos, merecendo destaque a Fraternidade
Sacerdotal Franciscana Secular (FSFS), Pequena Família Franciscana (PFF) e Juventude Franciscana
(JUFRA). Para maiores informações sobre a história e a organização da Ordem Franciscana ver site, disponível
em: <http://www.paginaoriente.com/santos/crsfa0410.htm>.
37
religiosa franciscana. Seu irmão, ao recebê-la, declarou chorando a um padre de Mossoró:
“Ele é vocacionado, ele é candidato a frade!”.
Angústia maior Jerônimo sentiu quando foi falar com seu pai, sobre a sua decisão. Isso
porque este desejava imensamente seu ingresso na Marinha. Quando o fato se tornou público,
houve censura por parte de membros de sua família. Estes reprovavam que ele preferisse ser
padre, em vez de entrar para a Marinha, fazer carreira e ganhar dinheiro. Sua mãe, católica
fervorosa e membro da Legião de Maria desde o ano de 1964, foi a única a apoiar sua
escolha:
“Minha mãe sempre foi muito católica e carola de igreja, assim como minha avó. Ela
era professora de catecismo da gente em casa. Lá em casa nós rezávamos o terço
todo dia as 18h00 horas” (Frei Jerônimo).
Sobre a vocação religiosa, segundo FINKLER (1990), a opção de ingressar para a vida
religiosa é vista como uma decisão de conversão ao Senhor. A partir de então, a pessoa deve
fazer de uma vida de união com Deus o objetivo principal de todos os seus pensamentos,
preocupações, desejos e atividades. Visando este objetivo, deve-se libertar de outras
apreensões tais como: uma vida na família biológica, a educação dos filhos, as atividades de
sustentação própria e de seus dependentes. Essa opção demarca uma nova atitude de vida,
caracterizada pela busca de conhecer em cada momento a vontade de Deus sobre si e colocá-
la em prática. Para esse autor:
[...] Três elementos existem cuja convergência caracteriza a autêntica vocação
religiosa ou sacerdotal: a) O chamado de Deus; b) A decisão de dar um sim a esse
chamado para a pessoa ser algo diferente do que é; c) A aceitação do postulante por
parte do superior responsável pela instituição (FINKLER, 1990, 21).
Considerando o chamado de Deus, dentre suas características, destaca-se que o
vocacionado deve sentir-se atraído pelo estilo de vida próprio da vida religiosa ou sacerdotal.
Nesse sentido, as informações recebidas na catequese e na educação familiar são
propiciadoras dessa sensibilidade ou fascínio.
A decisão de dar um sim ao chamado, convertendo-se em um outro, deve se basear em
argumentos que a justifiquem. Além de dizer o que quer, o candidato à vida religiosa deve
explicitar por que quer. A decisão é considerada bem fundamentada quando o desejo está
38
relacionado à busca de cumprir a vontade de Deus e colaborar com salvação do mundo por
meio do serviço.
Já a aceitação por parte do superior responsável é considerada como um indício de que
a escolha feita é acertada. Contudo, a aceitação do superior deve ser vista como uma
expressão de confiança, a qual evidencia, em sua opinião, que há motivos suficientes para
iniciar o trabalho de formação, visando capacitar o candidato para a identificação e vivência
especificas de congregação religiosa. “A permissão, ou, antes, o convite para passar a uma
etapa posterior no processo de formação significa que continua a confiança do responsável na
autentica vocação” (FINKLER, 1990: 23).
Em referência às congregações religiosas católicas, os seus propugnadores acreditam
que a vocação religiosa vai se concretizando ao longo da vida, através do compromisso
pessoal do religioso em amar a Deus de todo o coração e em imitar e seguir Jesus Cristo -
pobre, casto e obediente. O candidato à vida consagrada deve ter a consciência de que o seu
compromisso o une estreitamente ao Senhor, aos irmãos, à sua congregação e à Igreja.
Enquanto pessoa consagrada, deve saber que sua origem e objetivo de vida é a Igreja, cabendo
a esta lhe dar o apoio permanente (FINKLER, 1990:24).
Retornando à vocação de Frei Jerônimo, deixando tudo para trás, ele conta que, ao
ingressar na OFM, foi indicado para estudar na cidade de Maceió, no dia 27 de Janeiro de
1979, mais precisamente ao convento dos franciscanos, no bairro do Bom Parto. Nessa casa
concluiu as duas primeiras etapas da vida religiosa, o aspirantado e postulantado.
15
Nesse
período, estudou durante dois anos no Colégio Sagrada Família, colégio particular em que
cursou o segundo grau, pois embora já tivesse o curso de contabilidade em nível médio, esse
não foi aceito pelos frades.
No ano de 1979, em Maceió, aos 19 anos de idade, participou de um festival de música
popular brasileira, que contou com a participação de 58 candidatos. Ganhou um troféu de
melhor voz e melhor intérprete - 1º e 2º lugares, respectivamente, de todo o Estado de
Alagoas. Com o prêmio de CR$11.000,00 (onze mil cruzeiros), comprou 19 cestas básicas,
15. O processo de formação na OFM é composto pelas seguintes etapas: aspirantado, postulantado, noviciado,
juniorato. Os conteúdos formativos próprios e necessários à vida religiosa franciscana vão sendo oferecidos ao
longo dessas etapas, que são progressivas. Ao final desse processo, são proferidos os votos perpétuos de Pobreza,
Castidade e Obediência, sendo celebrada, dessa forma, a consagração definitiva, que sela o pertencimento à
Ordem Franciscana.
39
que foram doadas às velhinhas da favela São Francisco, localizada às margens da Lagoa de
Mundaú. Essa foi, juntamente com a Gruta do Padre, no bairro de Bebedouro, a primeira
comunidade carente em que Jerônimo trabalhou. Nesses locais, com a ajuda dos moradores, o
frade levantou muitas casas de taipa, no regime de mutirão.
Depois dessa vitória, foi convidado a gravar um compacto de vinil. Participou do
Projeto Pixinguinha aonde chegou a cantar com o grupo A Cor do Som, com a cantora Maria
Betânia, entre outros.
Após concluir o 2º. Grau, em Maceió, terminou seu postulantado e ingressou,
juntamente com 14 jovens, no noviciado, em Ipojuca (PE), onde recebeu o hábito franciscano,
no dia 1 de fevereiro de 1981. Referindo-se a essa fase de sua vida, Jerônimo diz que:
“Foi um ano de provações, muitos momentos de oração e encontro com Deus e com
a gente mesmo. Trabalhos pesados como: cortar cana junto com o povo pobre,
cuidar do sítio do convento, cortando bananeira, capinando, plantando macaxeira,
fazendo horta. Nosso único divertimento era ir à praia de Cupe, em Porto de
Galinhas. Éramos obrigados a ir e voltar de pés (sic), de Ipojuca para Porto de
Galinhas. E todos esses trabalhos eram comandados por três formadores: guardião,
mestre e vice-mestre; e tinham como finalidade nos colocar junto do povo que
moravam (sic) nos engenhos e morros da comunidade, onde nós também fazíamos
as atividades pastorais” (Frei Jerônimo, 19/06/2008).
Em 02 de fevereiro de 1982, fez pela primeira vez os votos de Pobreza, Castidade e
Obediência, em Ipojuca.
16
Em seguida, o frei foi transferido para o convento São Francisco,
em Olinda, onde estudou no Instituto de Teologia do Recife – ITER,
17
no bairro dos Coelhos.
Cursou Filosofia, Teologia e Línguas durante seis anos, de 1982 a 1987. Com orgulho, ele
afirma que foi aluno de Gustavo Gutiérrez, considerado o pai da Teologia da Libertação,
18
e
16. A Vida Religiosa é definida como o seguimento de Jesus Cristo, sendo caracterizada pela prática do
Evangelho, pela vida em comunidade e pela profissão dos votos de Pobreza, Castidade e Obediência, vistos
como conselhos evangélicos.
17. O ITER, durante o arcebispado de dom Helder Câmara, tornou-se um centro de irradiação da Teologia da
Libertação. No ano de 1989, esse instituto educacional foi fechado por dom José Cardoso Sobrinho.
18. Considerando a Teologia da Libertação, Barbosa (2007) afirma que ela nasceu na América Latina com a
prática pastoral assumida a partir do Concilio Vaticano II, que foi intensificado com a Conferência de Medellín.
Como decorrência, foram impulsionados os debates teológicos que motivaram a produção de uma ampla doutrina
teológica. Esta movimentação fez com que o compromisso social da Igreja ganhasse forma na ação das pastorais
sociais, das CEB’s na leitura popular da Bíblia, fazendo surgir a Teologia da Libertação. As raízes desta doutrina
evocam os movimentos teológicos que se evidenciaram em diversas partes do mundo, em especial, na França,
desde o século XIX. Considerando a América Latina, merecem destaque movimentos como a Unión Nacional de
40
de Sebastião Armando, Leonardo Boff, Ivone Gebara e José Comblin, que são figuras
representativas dessa vertente teológica.
Em 21 de novembro de 1987, ele foi ordenado Diácono, partindo logo em seguida para
o Estado do Pará, onde realizou um estágio durante 7 meses, na Prelazia de Óbidos. Foi um
período de intensa atividade pastoral. Neste período Frei Jerônimo ministrou cursos de
capacitação para 435 agentes de pastoral das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
19
Abordando a ação de Frei Jerônimo nas CEB’s, a capacitação ofertada por ele visava
suprir a escassez de sacerdotes, que era uma das carências dessa região de difícil acesso. O
curso ministrado tinha por objetivo conscientizar politicamente a comunidade através da
abordagem da Teologia da Libertação.
A paróquia em que atuava tinha 28.704 km², 76 comunidades ribeirinhas. O percurso
da matriz até a última comunidade era realizado em 7 horas de viagem. Neste período
trabalhou com os índios Tiriós, na fronteira do Brasil com o Suriname. Atendeu inúmeras
comunidades ribeirinhas, realizando casamentos e batizados em cerimônias coletivas.
Estudantes Católicos (UNEC) do Peru e da Juventude Universitária Católica (JUC) do Brasil que vivenciavam o
auge de sua vivência integrada de fé e participação (BARBOSA, 2007). A expressão “Teologia da Libertação”
foi forjada pelo sacerdote peruano Gustavo Gutierrez. A ele se deve a sistematização escrita de suas primeiras
intuições. No ano de 1971, publicou o livro Teologia da Libertação, que se tornou uma referência dessa doutrina
por apresentar os elementos fundamentais dessa metodologia que se espalharia por toda América Latina.
Segundo Aquino (2007), a Teologia da Libertação contou com a adesão majoritária de católicos pertencentes às
Comunidades Eclesiais de Base. Devido a expressividade alcançada a partir dos anos de 1980, o Cardeal Joseph
Ratzinger (atual Papa Bento XVI) escreveu o artigo “Eu vos explico a teologia da Libertação” alertando sobre o
perigo dessa influência. Para ele, essa perspectiva teológica é concebida como uma nova hermenêutica da fé
cristã, na qual perpassa uma compreensão do cristianismo em sua totalidade, que conduz a uma práxis de
libertação. Por ser esse um conceito político, ela é vista por Ratzinger como norteadora da ação política dos
cristãos. Nisso consiste um dos perigos apontados pelo Cardeal: ela apresenta a libertação como uma conquista
política, e não como resultado da ação redentora de Jesus, o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo"
(Jo1,29). Ainda na visão do Cardeal, a ênfase na dimensão política da fé faz com que alguns desvalorizem a
celebração da Missa, que passa a ser apreciada como uma celebração de mobilização política. A oração é
desvalorizada, assim como outras práticas espirituais tradicionais, tais como: a confissão, a Eucaristia, o terço e a
adoração ao Santíssimo. O reino de Deus, um conceito chave da Teologia da Libertação, é qualificado como
deturpado, por ser concebido a luz de uma hermenêutica marxista.
19. A propósito das CEB’s, de acordo com Betto (1998), são pequenos grupos organizados em volta da paróquia
seja na zona rural ou urbana, por iniciativa de leigos, padres ou bispos. São denominadas de comunidades por
serem formadas por pessoas que tem a mesma fé, que pertencem a mesma igreja e que moram na mesma região.
Seus membros agem motivados pela fé, vivendo em uma comu-união em torno de seus problemas
(sobrevivência, moradia, lutas por melhores condições de vida e anseios e esperanças libertadoras). Por serem
congregadas na Igreja, como núcleos básico de fieis, são nomeadas de eclesiais e por serem constituídas por
classes populares (donas de casas, operários, subempregados, aposentados, jovens e pobres moradores da
periferia e zona rural) levam a alcunha de base.
41
A influência da Teologia da Libertação, recebida em sua formação e a atuação de Frei
Jerônimo no movimento das CEB’s, configuram um “caldo de cultura” que, é razoável supor,
teria contribuído para informar, ao menos em parte, sua crítica futura à autoridade da Igreja,
em discursos e posturas representados pelo episódio de seu afastamento da área de atuação da
Arquidiocese de Olinda e Recife, em 1997, e que redundou na posterior criação do GOASFJ.
No que concerne aos anos de formação do jovem Jerônimo, vimos que, terminado o
estágio diaconal, retornou ele ao Nordeste e foi ordenado sacerdote em 22 de outubro de 1988,
em Mossoró, sua cidade natal, no estado do Rio Grande do Norte. Em 6 de dezembro desse
mesmo ano, ele retornou à Prelazia de Óbidos. Foi a falta de padres para trabalhar nessa
região que fez com que ele retornasse, pois acreditava que a missão do frade é ir aonde
ninguém quer ir. Sete meses após a sua chegada, o pároco da Igreja Matriz, a Catedral de
Santana, renunciou ao cargo de Vigário Paroquial. Frei Jerônimo, com 28 anos, assumiu este
cargo, que, segundo ele, foi seu primeiro grande desafio. Nesse tempo, não via com bons
olhos o Movimento Carismático,
20
considerado por ele “um grupo de alienados e sem
compromisso com o desenvolvimento do país”. Era contra o conservadorismo e não aceitava a
espiritualidade da Nova Era. Voltou a dar assistência aos índios Tiriós, na fronteira do Brasil
com o Suriname, assim permanecendo durante quatro anos.
Nesse período de atuação no Pará, foi alertado por Irmã Feliciana, freira franciscana,
de que ele possuiria um tipo de carisma. Essa religiosa, que realizava um trabalho de
energização através da imposição das mãos, lhe disse: “Frei Jerônimo, o senhor tem uma
energia muito forte nas mãos, já pensou nisso?!”. No momento o padre não deu muito crédito
a essa afirmação, contudo um episódio o fez reavaliar a presença desse dom. Conta que uma
senhora de 28 anos estava em coma. Os médicos não sabiam mais o que fazer. Irmã Feliciana
o chamou para visitá-la e disse: “Frei, o senhor, com o poder de suas mãos pode levantar essa
mulher”. Em seguida, pediu para que ele impusesse as mãos sobre ela. Seguindo essa
orientação, passou a impor as mãos sobre o corpo da mulher, inicialmente da cabeça ao pé e
depois no sentido inverso. Ao terminar os movimentos, a mulher abriu os olhos e perguntou:
“Onde estou? Quem é esse homem?”, e desmaiou. Em seguida, ela ficou se debatendo. A
religiosa mandou que Jerônimo continuasse, pois a enfermidade era espiritual. Repetido o
movimento, a enferma se levantou, pediu água e ficou curada.
20. Também denominado Renovação Carismática Católica (RCC). Para um detalhamento maior das
características desse movimento religioso, ver Maués (2000) e Valle ( 2004).
42
Durante uma missa campal, em 26 do julho de 1988, celebrada na Catedral de Santana,
ele afirma ter recebido de Deus mais um dom: o da palavra. Por se considerar um péssimo
orador, preparou um discurso de dez páginas para ler, uma vez que não poderia criar um
discurso de improviso para o momento, pois seria um desastre. De repente, o vento soprou e
levou todas as páginas que tinha escrito, sendo obrigado a falar de improviso. A homília
proferida, que impressionou os presentes, foi a melhor que fez na vida. Foi aplaudido
intensamente.
Infelizmente, como estava cansado de trabalhar sozinho e sem recursos, ele renunciou
à missão na Prelazia. Dentre as muitas dificuldades, conta que era comum ele dormir nos
barcos e lanchas, enquanto fazia suas visitas nas comunidades e que a missão entre os
indígenas, que foi sustentada durante anos por doadores alemães, passou a não receber os
recursos necessários.
Voltou para o Estado de Pernambuco, em 1992, e foi morar em Ipojuca. Devido aos
conflitos de terra e atritos com os políticos do município, ele não agüentou a tensão e
renunciou após 1 ano e 6 meses. Passou a residir em Triunfo, onde foi vigário da Paróquia de
Santa Cruz da Baixa , durante mais 18 meses. Mais uma vez não deu certo, segundo ele, por
causa de conflitos provinciais em torno de seu carisma. Diante do sucesso de seu sermão, por
onde andava, o povo estava lá para escutá-lo.
O mal-estar que se estabeleceu fez com que ele partisse para Mossoró, assumindo a
Paróquia de Assu (RN). Nessa cidade, mais uma vez enfrentou problemas semelhantes aos
experimentados em Ipojuca e Triunfo. Devido ao seu carisma, as celebrações que realizava
atraiam muitos fiéis, causando alguns ciúmes dentro da Igreja.
Retornou à Olinda, em 1995, e acatando o pedido do Arcebispo, passou a colaborar
nessa cidade, realizando celebrações. Assumiu a função de vigário cooperador da Igreja de
São Pedro Mártir. Contando com o consentimento dos franciscanos e da Arquidiocese de
Olinda e Recife, ele permaneceu nesta cidade desenvolvendo suas atividades religiosas. Após
esse regresso, a vida de Frei Jerônimo mudou completamente. Sua atuação como sacerdote o
fez despontar como uma liderança carismática, reunindo em torno de si inúmeros adeptos.
Essa projeção passou a incomodar seus superiores, desencadeando um conflito institucional,
que resultou em seu afastamento da OFM e da Igreja. Vejamos como isto aconteceu.
43
2.2 – Conflito e ruptura com a Igreja
Na abordagem do conflito e ruptura de Frei Jerônimo com a OFM e a Igreja é
oportuno evocar aqui o pensamento de Max Weber (2004: 128-141) acerca da dominação.
Esse autor destaca que a dominação legítima apresenta-se de distintas formas, seja por meio
de uma constelação de interesses, na qual há um bilateral entendimento - formalmente livre-;
seja por meio do exercício da autoridade, onde dominantes e dominados recorrem à
obediência como um dever.
Nessa perspectiva, Weber traça um quadro de referências, no qual delimita a existência
de três tipos de dominação legítima: a legal, a tradicional e a carismática. A primeira
configura um poder soberano, cujo foco assenta no cumprimento das obrigações estatuárias.
Trata-se aqui no domínio exercido pelos tempos modernos, com ênfase na ação racional-
burocrática, exemplo mais puro desse tipo de dominação. Aqui aparece a figura do “servidor
do estado” e todos aqueles portadores do poder que se reúnem sob a rubrica da legalidade para
exercerem sua ação político-institucional.
A dominação tradicional, por sua vez, é o poder exercido pelo patriarca, a exemplo dos
reis, príncipes e nobres, os quais recorriam à autoridade patrimonialista exercida desde
sempre, ou, pelo menos, desde que a memória alcance, “no ontem eterno”. Esse tipo de
liderança engendra um comportamento de adesão, entre os dominados, que valoriza a
tradição, os ensinamentos dos antigos, dos tempos idos e fundantes da sociedade, motivos que
tendem ao conformismo que evita as novidades, ou tem horror às mudanças.
Por fim, a liderança carismática sustenta-se pelo “dom da graça”, proveniente de
indivíduos que são portadores de carismas, pois, perante o grupo que lideram, são detentores
de caracteres extraordinários, mas rigorosamente pessoais e não reproduzíveis no vulgo. São
os heróis de todos os tempos; os líderes de qualidades excepcionais; os grandes santos e
iluminados; os possuidores de poderes sobrenaturais; os profetas de uma nova era; os
governantes aclamados diretamente pelo povo; os demagogos e grandes transformadores.
Nessa última categoria, posso enquadrar a liderança de Frei Jerônimo, ao analisar,
doravante, os momentos cruciais que, aos olhos de seus liderados, revestiram sua trajetória de
vida de tintas místicas e extraordinárias. No seu enfretamento com a OFM e a Igreja de Dom
44
José Cardoso Sobrinho, emblema de um poder bifronte, posto que ao mesmo tempo patriarcal
- por basear-se num líder inconteste; e burocrático - por tentar controlar a circulação do dom
da cura -, Frei Jerônimo surgiu como figura carismática que rompe com a Instituição e, como
taumaturgo (o portadora da cura), passa a afiançar ele mesmo o poder da graça divina.
O palco desses acontecimentos se deu na cidade de Olinda, em meados dos anos 1990.
Certa noite, após ter feito três casamentos, por volta das 21h30minh, quando passava na Rua
da Palha, na frente do Convento de São Francisco, ouviu a voz de alguém que chorava
chamando-o. Tratava-se de Dona Jupira, uma senhora de 84 anos que freqüentava suas missas.
Quando ele foi ao seu encontro, a anciã indagou se ele não estava sentindo a falta dela nas
missas. Após a pergunta, informou que estava muito doente: sofria com intensas dores
causadas por uma erisipela. Ele, muito cansado, após um dia de intenso trabalho, lhe disse
algumas palavras de conforto e se despediu. Depois que deu cerca de dez passos, sentiu uma
voz dentro dele dizendo que deveria voltar e curar Dona Jupira. Atendendo a essa voz,
Jerônimo retornou e perguntou a Jupira se ela tinha fé. Essa afirmou que fé não lhe faltava.
Após pedir um copo d’água, o padre impôs as mãos sobre o líquido e fez uma oração de cura.
Nesse momento, ele sentiu uma mão sobre a sua, durante a oração. O frade benzeu a água e
disse que a senhora imaginasse que quando a água tocasse sua perna, a mão de Jesus estaria
lhe curando. Quando ela colocou a água sobre a perna, disse que a água estava quente. O
padre respondeu que não e pediu para ela bebesse.
Depois disso, Frei Jerônimo se despediu e seguiu para o convento, abriu a porta do seu
quarto sentou e adormeceu, só acordando de madrugada, voltando a dormir novamente. No
outro dia, à noite, durante a celebração da missa na Matriz de São Pedro Mártir, alguém tocou
em suas costas. Quando ele se virou para ver quem era, se deparou com Dona Jupira que lhe
disse: “Frei Jerônimo, olhe as minhas pernas”. Levantou o vestido até a altura do joelho e
mostrou as pernas totalmente curadas. Em seguida, Jupira pegou o microfone e declarou:
“Minha gente, Frei Jerônimo tem o dom de cura. Quem tiver doença que procure ele, que
Jesus está com esse homem!”.
Dona Jupira está viva até os dias de hoje e conta essa história para quem quiser ouvir.
Atualmente possui 94 anos e acompanha os louvores do frei no Clube Atlântico, na cidade de
Olinda. A partir desse episódio, a vida de Frei Jerônimo se transformou totalmente.
45
Fi
g
ura 15: Dona Ju
p
ira.
No período de 1995 a 1996, ocasião em que Frei Jerônimo foi padre colaborador nas
igrejas de São Pedro Mártir e Nosso Senhor do Bonfim, a convite de Irmã Adélia,
21
do
Colégio Damas, ele passou a atuar na Igreja de São José dos Pescadores, na Rua do Sol, em
Olinda. Essa religiosa realizava cenáculos de oração e precisava de um sacerdote para celebrar
a missa naquele local. Segundo Dona Raimunda, senhora muito católica e que sempre
acompanhava a irmã Adélia em suas atividades religiosas, inicialmente, o cenáculo reunia
poucas pessoas, na maioria das vezes, apenas os que moravam nas proximidades da igrejinha.
Devido à divulgação desse ato religioso, aumentou o número dos participantes. Isto fez com
que elas sentissem a necessidade da presença de um sacerdote. Com a presença do frade, o
número de fiéis aumentou ainda mais. Na realização de missas de cura e libertação,
22
na qual
o sacerdote prometia a ação direta do Espírito Santo, Jerônimo passou a atrair uma multidão
de pessoas. A cada semana, nos diz Raimunda, “todos se sentiam maravilhados com a missa
21. Essa religiosa é bastante conhecida no Estado de Pernambuco, devido ao episódio da aparição da Virgem na
Vila de Cimbres, em Pesqueira (PE), a qual ela afirma ter visto numa gruta.
22. Weschenfelder (2006) define Missa de Cura e Libertação como o momento no qual “(...) o padre fala com
um tom de voz quase linear, alterando a entonação de acordo com a ênfase que pretende dar em determinados
momentos, como a graça alcançada e o fiel que retornou a igreja. Neste caso o oficiante apresenta a situação e
fala com o testemunhante na forma de um diálogo”.
46
de Frei Jerônimo”. Ela faz questão de contar que quando ele passeava pela igreja com o
“Santíssimo”,
23
as pessoas sentiam uma energia muito positiva vindo dele.
O movimento de povo, sempre crescente, tornou a igrejinha um local insuficiente. O
aumento do prestígio do frade passou a incomodar, novamente, alguns padres e o bispo da
Arquidiocese local,
24
que mandou chamá-lo. Frei Jerônimo recebeu uma carta convidando-o
para um encontro fraternal com Dom José Cardoso Sobrinho (ver anexo 6). Nesse encontro,
Jerônimo foi convidado a prestar esclarecimentos sobre as suas pouco ortodoxas práticas
litúrgicas e as tais curas que diziam se propagar por seu intermédio, na cidade de Olinda. Na
conversa foram citadas as acusações de antiliturgia e curandeirismo. Ao final do colóquio, ele
foi aconselhado pelo Arcebispo, a sair da cidade.
O momento em que é desencadeado o conflito de Frei Jerônimo era, na Arquidiocese,
de tensão geral, inclusive com outros padres, tendo em vista as disposições reformistas e
legalistas do sucessor de Dom Helder Câmara, um bispo tido por progressista. Desde a posse
de Dom José Cardoso Sobrinho, em 1985, a Arquidiocese passou por mudanças significativas,
assumindo uma nova configuração. Empossado, o então Arcebispo revelou que seu prelado
apresentaria características distintas, e muitas vezes opostas, ao de seu antecessor, Dom
Hélder Câmara.
Referindo-se a Dom Helder Câmara, que assumiu o comando da Arquidiocese do ano
de 1964 a 1985, trata-se de uma das figuras mais influentes da Igreja Católica no Brasil, no
século XX. Detentor de um espírito conciliador, é visto como um profeta por muitos. Detentor
de carisma, em plena ditadura militar, revelou-se um incansável defensor da liberdade.
Considerado um bispo progressista, ligado à Teologia da Libertação, Dom Helder era um
23. O “Santíssimo Sacramento” é uma hóstia consagrada, encerrada numa urna especial denominada
“ostensório”, geralmente de ouro, o qual permite, por meio de uma pequena vitrine, a sua exposição ao público
nas celebrações eucarísticas católicas. O Catecismo da Igreja Católica (2000: 394), no seu parágrafo 1.418,
afirma que: “Visto que Cristo mesmo está presente no Sacramento do altar, é preciso honrá-lo com um culto de
adoração. ‘A visita ao Santíssimo Sacramento é uma prova de gratidão, um sinal de amor e um dever de adoração
para com Cristo, nosso Senhor.’ ”. Ver exemplo de um ostensório na Fig. 12, página 20, desta dissertação.
24. A Arquidiocese de Olinda e Recife inicialmente foi denominada Prelazia de Pernambuco, em 15/07/1614,
pela Bula Fasti noviorbis do Papa Paulo V. Em 06/07/1624, o Papa Urbano VIII com a Bula Romanus Pontifex a
constituiu sufragânea da então Diocese de São Salvador da Bahia. Em 16/11/1676, o Papa Inocêncio XI, no dia,
pela Bula Ad sacram Beati Petri sedem a elevou como diocese, denominando-se Diocese de Olinda. Em
05/12/1910, ela foi elevada à Arquidiocese e Sede Metropolitana pelo Decreto da Sagrada Congregação
Consistorial. E, finalmente, em 26/07/1918, por meio da Bula Cum urbs Recife do Papa Bento XV, passou a
denominar-se Arquidiocese de Olinda e Recife, com jurisdição que abrange mais 17 municípios e o arquipélago
de Fernando de Noronha. Informações históricas retiradas do site oficial da própria Arquidiocese de Olinda e
Recife, disponível em: <http://www.arquidioceseolindarecife.org.br/hitoria.htm>.
47
advogado dos direitos humanos. Autor de 22 livros, pregava uma igreja simples e voltada para
os pobres e a não-violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e
internacionais, sendo indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Foi um dos
idealizadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1952, e um
dos fundadores do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), que são instituições
católicas representativas de grande prestígio.
25
Sob o comando de Dom Helder, a Arquidiocese se projetou por assumir uma
configuração que revelou um compromisso com as diretrizes do Concílio Vaticano II e a
prática da opção preferencial pelos pobres.
Diferentemente de Dom Helder, Dom José Cardoso Sobrinho é considerado ortodoxo
e reacionário, destacando-se pelo uso de sua autoridade. Para ele, a Igreja Católica tem regras
definidas e uma hierarquia estabelecida, cabendo aos seus adeptos obedecê-las. Dom José é
visto, pelos mais conservadores, como um defensor da fé, das tradições e da disciplina
eclesiástica.
Muitas de suas ações são vistas, por um dos segmentos da Igreja, como polêmicas e
impopulares. Vítima de seu autoritarismo a Comissão Justiça e Paz, o Centro de defesa dos
Direitos Humanos e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) tiveram suas atividades
inviabilizadas. O fechamento do Seminário Regional Nordeste II (SERENE) e do Instituto de
Teologia do Recife (ITER) provocou uma grande repercussão. Estes centros de formação
foram criados por Dom Helder e tinham como base a teologia da libertação. Diversos padres
que abraçavam esta inspiração teológica foram destituídos de suas funções. Alguns seguiram
rumo à Paraíba, onde foram acolhidos por Dom José Maria Pires, Arcebispo de João Pessoa,
de linha progressista. Os que permaneceram, foram obrigados a silenciar ou resistir com as
armas que tinham ao seu dispor. Em março de 1990, chegaram a redigir um manifesto, que
contou com a assinatura de 82 religiosos da Arquidiocese, denunciando as perseguições de
Dom José. Esta ação evidenciou o descontentamento com o prelado, contudo em nada mudou
a sua ação.
Dom João Evangelista Martins, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife,
fez uma análise da atuação de Dom José. Escrito no início da década de 1990, o Relatório
25. Para um maior conhecimento da vida e atuação de Dom Helder Câmara ver o site:
<http://www.pernambucodeaz.com.br/dh/projeto.htm>.
48
sobre a situação da Arquidiocese foi enviado à Nunciatura Apostólica, em Brasília - que é
uma espécie de embaixada do Vaticano no Brasil -, cujo fac-símile foi publicado em 4 de
julho de 2008 pelo Jornal do Commercio, num caderno especial que “comemora” a
aposentadoria de D. José Cardoso Sobrinho (ver anexo 8), obrigatória quando um bispo
completa 75 anos. O documento informava que o clero estava dividido, formando uma igreja
paralela. O Arcebispo foi qualificado como um homem eficiente, porém enérgico e inflexível.
Foi ressaltada a sua falta de capacidade de diálogo, sendo nomeado de autoritário, incapaz de
perdoar, rancoroso e vingativo. Destaca, ainda, que ele divide as pessoas em dois grupos:
amigos e inimigos; que não visita os padres dissidentes e, além de se recusar a recebê-los,
exige que estes lhe peçam perdão por terem assinado o manifesto contra ele.
Embora poucos tenham lido, a reportagem do Jornal do Commercio afirma se tratar de
um “documento extremamente sigiloso”, este relatório teve repercussões na Arquidiocese.
Contudo, o silêncio da Cúria Romana diante do relato desmotivou outras ações. A falta de
providências deixou claro que, neste momento, de nada adiantaria nenhuma outra iniciativa.
Frei Jerônimo foi mais um na lista dos padres afastados por Dom José. Por não
obedecer às ordens recebidas no “encontro fraternal” com o Arcebispo, foi destituído de suas
funções sacerdotais. Desobediente, ele continuou seu trabalho. Isto fez com que Frei Aluísio
Fragoso, então provincial da OFM, grupo religioso ao qual ele pertencia, passasse a abordá-lo.
Foi intimado a se apresentar no convento São Francisco e informado que deveria retornar a
este espaço e que a partir de então só deviria exercer suas atividades religiosas no interior
deste espaço.
Visando recuperar um testemunho desse tempo de conflitos, procurei um franciscano
pertencente à hierarquia da Ordem dos Frades Menores. Contudo, em entrevista concedida a
mim em outubro de 2008, ele se recusou a falar diretamente sobre os fatos ocorridos entre Frei
Jerônimo e Dom José. A conversa empreendida nessa ocasião acabou girando inicialmente em
torno da Ordem Franciscana. Ele me falou do crescimento da Ordem e da nova configuração
que esta precisou assumir no mundo, devido a sua expansão. Dessa forma, a autoridade maior
é do Superior Geral, também denominado de Guardião Supremo ou Ministro, que vive em
Roma, sede da instituição.
26
26. O Superior Geral da OFM é assessorado por um grupo de oito frades, representante de diversas partes do
mundo, que compõem o seu conselho. Eles colaboram na orientação da ordem. Os Frades Menores estão
organizados em diversas províncias, que equivalem a várias regiões dos países onde eles se encontram. Cada
49
Querendo sublinhar a idéia da obediência, princípio caro aos franciscanos, e que, a
meu ver, foi a maneira escolhida por meu interlocutor para abordar indiretamente o problema
ocorrido com Jerônimo, meu informante esclareceu que a OFM tem autonomia quanto ao
exercício de seu ministério religioso. Contudo, as orientações de princípios doutrinários,
dogmáticos, litúrgicos e morais seguem a orientação maior da Igreja. Para esse franciscano o
exercício do seu ministério sacerdotal necessita do consentimento oficial do chefe da Igreja
local, que é o bispo. De posse dessa autorização, um frade passa a desenvolver suas atividades
religiosas, no local para o qual foi designado pelo bispo – ou seja, deve também obedecê-lo,
quando solicitado ou orientado.
Sobre a controvérsia das curas milagrosas, quando indagado por mim, meu interlocutor
preferiu destacar o fato de que a Igreja não possui uma doutrina específica em relação a curas,
milagres e prodígios. Todas essas manifestações paranormais ou miraculosas existem,
segundo ele, em todas as religiões. Em sua opinião, isso se trata de um fenômeno humano
produzido de uma maneira que é bem difícil de explicar em termos de sua origem. Tal
franciscano acredita que a cura pode estar relacionada a um poder paranormal que existe
naturalmente no ser humano. Quando tal paranormalidade se associa a uma fé, o efeito ganha
evidência perante os fiéis. Por essa razão, na opinião do meu informante, a Igreja não
consideraria que toda cura é miraculosa ou produto da fé. Em sua opinião, a Igreja sempre
guardará as devidas cautelas, evitando avaliar antes se a cura, como já foi dito, pode advir de
um fenômeno humano qualquer (bio-psicológico ou sócio-antropológico), o qual ainda está
em estudos.
“Agora, quando se trata de fenômenos que começam... está havendo cura numa
determinada região, e para aquela região está correndo uma multidão de fiéis, e esta
multidão está referindo esta cura a algum santo: à Nossa Senhora, a isso ou aquilo...
Aí, a Igreja interfere, para poder dar um mínimo de orientação. Às vezes esse
fenômeno pode se transformar num fanatismo, pode se transformar numa
organização paralela. Então, a Igreja interfere. Mas não porque ela tem uma doutrina
explícita, específica só sobre cura...” (Informante 11, 67 anos, 23/09/2008).
Retornando ao afastamento de Frei Jerônimo, houve, na época, um consenso entre ele
e o seu Superior Provincial. Mas, de acordo com o relato de Jerônimo, como aquele não
uma dela tem o seu Guardião ou Ministro Provincial, que conta com um grupo de assessores que o ajudam a
orientar cada província. Cada Província é dividida em áreas menores, designadas de comunidades ou conventos,
que abrigam um grupo de frades. Cada uma destas possui um guardião, que é o orientado do convento. Eleito a
cada três anos, ele é o responsável pela organização da vida dos frades.
50
aceitou a orientação da Ordem, este resolveu pedir seu afastamento. Nesse momento, o frade
demissionário foi alertado, pelo seu superior, que seria veiculada no jornal uma matéria
informando a decisão do Arcebispo em afastá-lo da Igreja, por prática de uma antiliturgia e de
curandeirismo. Isso se confirmou no dia 07 de junho de 1997, quando se estampou a seguinte
manchete no Diário de Pernambuco: “Arcebispo afasta padre acusado de realizar sessões de
milagres” (vide anexo 3) e no Jornal do Commercio: “Frade acusado de curandeirismo é
afastado da Diocese” (vide anexo 4).
Tais fatos resultaram na instauração de um processo canônico na Cúria Metropolitana
da Arquidiocese de Olinda e Recife. Frei Jerônimo, a Ordem dos Frades Menores e o
Arcebispo eram as partes envolvidas. Em 20 de setembro de 2000, a Cúria o informou, através
de carta (vide anexo 6), assinada por Monsenhor Edvaldo Bezerra da Silva, Vigário Geral, da
proibição do exercício sacerdotal e de qualquer ato litúrgico ou paralitúrgico por parte de Frei
Jerônimo, no território da Arquidiocese.
[...] “Em razão deste evento grave [demissão da Ordem dos Frades Menores] que faz
cessarem seus votos religiosos e demais vínculos canônicos com o mencionado
Instituto Religioso, esta Cúria Metropolitana notifica-lhe que Vossa Reverendíssima
está proibido de exercer, no território desta Arquidiocese de Olinda e Recife,
qualquer função sacerdotal, clerical, pastoral ou religiosa, como também qualquer
ato litúrgico ou paralitúrgico, como celebrações da Palavra, orientação de grupos de
oração, sessões ou orações de cura ou reuniões religiosas de qualquer tipo ou estilo,
com a participação de fiéis, tanto em igrejas, oratórios, capelas ou residências
privadas” (Transcrição da Carta da Cura Metropolitana enviada a Frei Jerônimo,
datada de 20/09/2000. Vide o anexo 5 desta dissertação).
Desde que o conflito foi desencadeado, muitos fiéis se revoltaram com a postura do
Arcebispo e, posteriormente, com a decisão da Igreja. Indignados com os fatos, assumiram a
defesa do frei, que, a princípio, não tinha para onde ir, nem dinheiro para se alimentar.
Oportunamente, estava agendada uma viagem ao exterior em 09 de junho, presente de uma
empresária do ramo alimentício do Recife, que havia recebido uma graça. Cumprindo esta
agenda, ele visitou alguns países tais como: Portugal, Itália, Croácia, Bósnia e Israel. Durante
um mês fez um curso de Bíblia em Jerusalém. Quando retornava, passou em Roma, onde ele
fez registro do que estava passando no Brasil, visando dar conhecimento ao Papa João Paulo
II. Em Roma, recebeu a instrução do Vaticano que obedecesse ao Ordinário local e que
seguisse sua vida sacerdotal, pois Deus lhe daria forças para enfrentar os desafios.
51
Segundo o frade, ao regressar à Olinda, logo fez questão de retomar suas atividades,
registradas numa manchete de jornal: “Voltam às sessões de cura com Frei Jerônimo”.
27
O
frade me assegurou que notícias sobre sua volta foram vinculadas também nas rádios da
cidade, tornando-se um assunto palpitante na cidade.
Refletindo sobre esses acontecimentos, Jerônimo afirma que isto não estava
programado. Não foi seu desejo que as coisas acontecessem dessa maneira. Ele queria ser um
padre “normal”. Sua vida foi totalmente abalada por estes acontecimentos. Diante das
perspectivas que se desenrolavam aos seus pés, ele se deparava com um desafio novo: como
sobreviverei agora? Com a proibição que lhe foi imposta, Jerônimo ficou sem igreja para
celebrar missas, para batizar e, conseqüentemente, sem dinheiro. Sofreu bastante ao descobrir
que, para onde quer que ele fosse, a decisão do Arcebispo representaria um embaraço para sua
ação. Chegou a cogitar que teria que ir embora. Contudo, afirma ele em suas falas, o frade
percebeu que “deveria ficar sem o apoio da Igreja, mas com o apoio de Deus, do povo e com
sua fé”. Após tomar a decisão de ficar, foi se consolidando um grupo de pessoas ao seu redor.
Essa junção resultou, posteriormente, na criação do GOASFJ, do qual falaremos no próximo
capítulo.
2.3 – A desinstitucionalização de um líder religioso
A proibição imposta pela Igreja vem sendo descumprida por Frei Jerônimo, que
permanece exercendo suas atividades religiosas fora do ambiente eclesiástico. Embora
desligado da Ordem dos Frades Menores e do exercício sacerdotal na Arquidiocese de Olinda
e Recife, o frade continua sendo uma referência espiritual para muitos católicos. Detentor de
carismas, sua reputação não parece ser impactada pela decisão das autoridades locais da Igreja
Católica. Apesar de tudo, sua ação segue sendo qualificada como portadora da graça de Deus
pelos seus seguidores. Como tal, ela tem o poder de trazer benefícios, de proteger do mal e de
curar enfermidades.
Verifica-se que o carisma e o poder religioso de Frei Jerônimo não estava limitado a
sua pertença a Igreja Católica. Esta tentou exercer seu domínio e controle sobre a ação
daquele, atitude recorrente das instituições religiosas tradicionais, quando se sentem
ameaçadas por algo que escapa às suas normas. Fora do campo de ação institucional católico,
27. O jornal citado na fala de Frei Jerônimo não foi localizado durante o período desta pesquisa.
52
o conflito desencadeado resultou em uma nova configuração de suas atividades como
religioso, que passaram para o campo da desregulação e desinstitucionalização do religioso.
[...] Ao longo da História, as instituições religiosas oficiais sempre tentaram, com
grau variável de sucesso, regular todas as práticas e crenças. Tensões internas às
igrejas (sacerdote versus fiel ou versus líder carismático), bem como conflitos entre
as chamadas “igrejas” e “seitas” foram tema de reflexões importantes nos trabalhos
de Weber e Bourdieu. Religiosidades autônomas, que estão à margem das
instituições fugindo do controle dessas, sempre existiram. A novidade atual é a
multiplicação e diversificação dessas experiências. Aliadas ao enfraquecimento das
instituições em geral, as crescentes trocas globais intensificaram hibridismos
religiosos e experiências religiosas fora das instituições na sociedade
contemporânea. (MARIZ e CAMPOS, 2007).
Nesse sentido, destacamos, no processo de “desregulação do campo religioso”, as
conseqüências na forma como os fiéis traçam sua filiação religiosa, pois proporcionam,
segundo as pesquisas empreendidas, a valorização aguda da experiência, da performance
ritual, da ênfase na emoção e da mística religiosas, numa relação imediata com o sobrenatural
e com o divino, denominador comum de esotéricos, pentecostais, espíritas, umbandistas e
carismáticos. Pois, como diz Danièle Hervieu-Léger “essas crenças estão inscritas em práticas,
em linguagens, gestos, automatismos espontâneos que constituem o ‘crer’ contemporâneo”
(HERVIEU-LÉGER, 2005: 25). Por outro lado, a doutrina, lugar de onde emanava a principal
fonte de autoridade e regulação da crença dos fiéis, encontra-se hoje contestada pela
multiplicidade de experiências pessoais, fora do controle das hierarquias religiosas.
Considerando o caso de Frei Jerônimo, a devoção de seus seguidores não significa
necessariamente uma ruptura radical com as crenças católicas. A lógica identificada entre os
fiéis entrevistados não aponta para um rompimento com a instituição eclesial, mais com seus
modelos de liderança. Muitos deles permanecem católicos atuantes em suas paróquias,
contudo seguem fiéis à liderança espiritual do frei. O significado e a importância deste na vida
dos seus seguidores é algo evidente:
“Eu quero um bem ao frei como se ele fosse um filho. Por isso, eu só quero protegê-
lo” (Informante 7, voluntária, 73 anos, 24/10/2008).
53
“Eu sinto algo religioso, como se fosse uma benção do céu. Ele não me pede nada,
mas o que eu puder fazer por ele, eu faço” (Informante 8, voluntária, 65 anos,
24/10/2008).
“Aprendi a ter fé com Frei Jerônimo. Ele é um padre que se comunica com a gente.
Para mim, foi um milagre conhecê-lo. A gente quando sai de lá se sente tranqüilo e
calmo. Eu me sinto bem, perto dele” (Informante 9, voluntário, 78 anos,
24/10/2008).
“Eu acredito que foi a oração de Frei Jerônimo que me curou. Eu me sinto muito
bem no louvor. Eu fui agraciada pelo dom de cura dele, da minha erisipela. Já fazem
(sic) onze anos que estou curada” (Informante 5, fiel, 94 anos, 20/10/2008).
“Gosto dele, porque ele transformou a minha vida. Depois que eu comecei a seguir o
frei, a minha vida mudou. Eu consegui a minha casa, graças a Deus. Eu acredito que
ele tem o dom de cura. Se eu não acreditasse, eu não estava aqui com ele. De
primeiro, eu, em vez de pedir as coisas primeiro a Deus, eu pedia primeiro ao frei.
Depois eu pensei: ‘eu tenho que pedir primeiro a Deus e depois ao frei’ ”
(Informante 1, voluntária, 63 anos).
“Eu sinto um alívio tão grande quando ele me dá uma benção. Só a palavra de Deus
que ele dá e a fé que ele tem em Deus em ser padre... Ele é abençoado” (Informante
2, assistida, 67 anos).
“Ele é uma pessoa que recebe o dom. Ele é especial. Toda semana ele deixa uma
lição de vida. Eu vejo o Espírito Santo não só com ele, mas com todas nós durante o
louvor. Ele me ensinou a entender a Bíblia” (Informante 4, fiel, 52 anos)
“Agradeço a Deus por ter colocado o frei no meu caminho. Eu sinto dois dons nele:
o dom da cura e dom de despertar a sua fé, dentro de você. Porque assim dizia Jesus:
‘A tua fé te salvou’ ” (Informante 19, fiel, 48 anos).
São falas como essas, transcritas acima, que me fazem concordar com o que Danièle
Hervieu-Léger (1997) define como sendo um novo paradigma religioso hodierno: as religiões
de comunidades emocionais, como tipo ideal de nova configuração para a organização do
trabalho religioso, pelo qual ocorreria a tendência ao emocionalismo comunitário de fiéis que
se reúnem em torno de um portador de carisma. Vimos, pela trajetória de Jerônimo, como ele
se erigiu, diante de seus seguidores, num exemplar desse tipo de líder religioso, alinhavando
testemunhos de fé e esperança por bênçãos e curas, ao redor da constituição e organização
autônomas de voluntários laicos, como veremos mais detalhadamente no próximo capítulo.
54
Capítulo III - O Grupo de Oração e Ação Social
Frei Jerônimo - GOASFJ
3.1 – Oração e ação
O GOASFJ da cidade de Olinda-PE foi idealizado após o afastamento de Frei
Jerônimo das funções religiosas dentro da Arquidiocese local. O conflito, desencadeado entre
ele e o Arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho, o evidenciou como uma liderança religiosa
importante na cidade histórica de Olinda, nos anos de 1990. A decisão da Igreja de afastá-lo
das suas funções, no ano de 1997, sob a acusação de praticar uma “antiliturgia e
curandeirismo”, visava inibir ou extinguir a ação do frei. Mas ao contrário do que o Arcebispo
esperava, os devotos do frei não o abandonaram, antes o acolheram, criando o referido grupo.
Segundo uma de minhas informantes, tudo começou quando Frei Jerônimo chegou
para celebrar missas na sua paróquia original, que era a igreja de São Pedro Mártir, e também
na igreja do Bonfim. O frade reabria a igrejinha de São José dos Pescadores e, aos domingos,
quando terminava a missa do Bonfim, visitava um abrigo de idosas chamado Nossa Senhora
de Lourdes, onde fez muitas amizades. Antes de o frei descer para a igreja de São Pedro
Mártir, a fim de batizar e depois celebrar a missa dominical, minha informante lembra com
muita emoção que a missa era lotada devido ao “dom da palavra”, configurada na simpatia do
frade. Ela ainda conta que a hierarquia da Igreja Católica local nunca deu dinheiro para
restaurar a igreja do Bonfim. Ela e outros paroquianos conseguiram reformar o prédio devido
à mobilização decorrente da atuação do frei. Motivados por ele, um grupo de paroquianos
buscou doações junto a pessoas amigas, que detinham recursos e que acreditavam no trabalho
que vinha sendo desenvolvido naquela época. Esse grupo, embrião do GOASFJ, recebeu
alguns donativos, realizou alguns bingos e rifas, conseguindo parte dos recursos necessários
para a restauração do interior da igreja.
A mesma informante lembra bem da data em que o frei recebeu ordem do Arcebispo
para desocupar a casa paroquial da matriz de São Pedro. Nessa ocasião, houve uma
mobilização para montar a casinha dele. Isso aconteceu no dia aniversário dela, 02 de agosto
de 1997. Ela ficou muito emocionada, pois o “bispo o expulsou sem dó, sem compaixão”.
Sensibilizada com a situação, ela se reuniu com outras pessoas que freqüentavam a missa no
55
Bonfim. Eles alugaram uma casa ao lado da prefeitura para acomodar o frei demissionário. No
dia 3 de agosto, o grupo amanheceu o dia buscando objetos para mobiliar a tal casa alugada
(colchão, fogão, mesa, cadeira e etc.).
Quando estava morando na casa alugada, Frei Jerônimo conseguiu um emprego de
professor de ensino religioso, na escola de um casal amigo. Ganhava R$ 300,00 reais por mês,
o que era insuficiente, pois só o aluguel que deveria pagar era de R$ 450,00 reais. Em socorro
ao frei, apareceram pessoas amigas que se propuseram a ajudá-lo em suas despesas. Como
muitos fiéis continuavam buscando sua assistência religiosa, emergiu uma questão: onde
atender a multidão que o procurava?
Nesse período, os louvores passaram a ser realizado na casa alugada, na residência
de pessoas amigas e em outros espaços, como a Praça da Preguiça, em Olinda. Segundo
depoimentos, desde a saída dele da Igreja, muitos fiéis deixaram de freqüentar a paróquia e
passaram a freqüentar os louvores e as missas dominicais na casa do frade. Em tal momento
de dificuldade, os apoiadores de Jerônimo se aproximaram ainda mais dele, tornando-se seus
primeiros voluntários. Desde então, passaram a colaborar na realização dos louvores, cuja
estrutura e funcionamento serão detalhados mais adiante.
Por sua vez, a relação dos fiéis seguidores do frei, em relação à Igreja, é de
descontentamento. Esse sentimento é canalizado para a pessoa do Arcebispo Dom José
Cardoso Sobrinho, considerado por eles como culpado pelo afastamento do frei. Alguns fiéis
deixaram de freqüentar as paróquias, passando a se devotar exclusivamente ao grupo.
Contudo, há pessoas que o apóiam, freqüentam os seus louvores e permanecem ligadas à vida
paroquial. Estes não vêem nenhum problema nessa dupla participação. Em seu ponto de vista,
tal duplicidade em nada interfere no modo de ser católico. Na relação estabelecida pelo
segundo grupo, avalio que esse pertencimento não é de exclusão e sim de complementaridade,
num sentido que expressa um sentimento de estar ligado ao frei, sem significar, com isso, dar
as costas para a Igreja Católica.
56
Figura 16: Membros do GOASFJ.
Como sua moradia havia se tornado apertada para receber todos os fiéis, uma
senhora, membro de uma família tradicional de Olinda e sensibilizada com a situação do frei,
ofereceu sua residência, um casarão, para a realização dos louvores. Uma outra mulher o
convidou para fazer o louvor em sua casa, onde se iniciou a distribuição da sopa para as
velhinhas carentes. Dentre os participantes, um grupo de cerca de 50 se destacavam mais
secundando os esforços de Jerônimo de sobreviver fora da instituição eclesiástica.
O fluxo de pessoas aos louvores continuou crescendo, tornando o casarão do Bonfim
insuficiente para abrigar os fiéis. A saída encontrada foi a utilização de uma casa de festas,
localizada na mesma rua. Uma vez que, novamente, não cabia mais de gente, passaram a se
reunir na Praça da Preguiça. Essa mudança não foi bem sucedida, e eles seguiram, então, para
uma outra casa, também em Olinda, onde aconteceu uma mudança no louvor, que passou a
agregar serviços de assistência social, da qual falaremos adiante.
Retomando as primeiras celebrações de louvor, a casa alugada para o frei era
localizada ao lado do prédio da prefeitura. Como vimos, o número dos fiéis só aumentava e o
espaço tornara-se insuficiente. Tocada pela ação do frei, a prefeita Jacilda Urquiza (PMDB)
57
Figura 17: Presença da Prefeita de Olinda, Luciana Santos, na Celebração de Louvor no Clube Atlântico.
disponibilizou, para a realização do louvor, um prédio geralmente usado pela municipalidade
para a realização de grandes eventos: o Mercado Eufrásio Barbosa.
Nesse novo espaço, eram acolhidas cerca de duas mil pessoas. Contudo, devido a
reformas no lugar, os louvores foram transferidos para outro lugar, com o apoio da prefeita
seguinte, Luciana Santos (PCdoB). Uma outra explicação fornecida pelo grupo, para saída do
mercado, é de ordem política: os secretários da prefeita julgavam ser mais importante realizar
atos políticos ali, do que religiosos. Frei Jerônimo informa, não sem amargura, que “em vez
de dar acolhida aos pobres votantes, sem vez e sem voz, eles os retiraram de lá com frieza
insensível, como a de Pilatos com Jesus”. Para consolá-lo, disse o frei, os funcionários da
prefeitura ofereceram, como alternativa, um espaço conhecido na cidade como “Casa do
Carnaval”.
28
Esse espaço foi qualificado como inoportuno, pelo grupo, por ser pequeno e apertado
e não comportar a grande afluência de fiéis. Frei Jerônimo e seus seguidores agendaram duas
reuniões com Prefeita Luciana Santos para resolver o problema. Como ela não apareceu, o
problema continuou. Ficaram, então, sem local para realizar o louvor. Diante desta
dificuldade, Frei Jerônimo se sentiu abandonado. Veio a lembrança do desprezo sofrido pela
liderança da Igreja local. A recordação da existência de inúmeras igrejas vazias e prédios
barrocos, históricos, grandiosos, acolhendo morcegos, e fechando suas portas para o seu povo
pobre, causo-lhe tristeza. Passou a questionar a ação da prefeitura e a sensibilidade desta com
o povo.
28. Trata-se de uma espécie de galpão usado pela municipalidade com o objetivo de, entre outras coisas, reunir
artesãos para produzir enfeites e alegorias nas semanas pré-carnavalescas de Olinda, que servirão como
decoração para as ladeiras e ruas da cidade.
58
Fi
g
ura 18: Frei Jerônimo realizando atendimento individual.
Com a ajuda de Arlindo Siqueira, então vereador de Olinda, conseguiu
provisoriamente o espaço do Clube Carnavalesco Vassourinhas, localizado no Largo do
Amparo, em Olinda. Nesse espaço foram acolhidos gentilmente, com hospitalidade e fervor.
A convite de Luciana Santos, os seguidores do frei se instalaram no Clube Atlântico, onde
permanecem atualmente.
Dentre as atividades do frei, merece destaque as bênçãos, o atendimento individual e
as celebrações de louvores nas casas das pessoas. Essas atividades resultaram no crescimento
cada vez maior dos seus adeptos. Alguns desses se transformaram em voluntários, ou seja,
pessoas que passaram a colaborar sistematicamente na organização e realização das atividades
do GOASFJ.
Considerando o GOASFJ, é possível identificar diversas categorias de participantes
dessa comunidade. Além dos voluntários, há as coordenadoras, os colaboradores e os
assistidos. Vejamos graficamente esta composição.
59
Sobre o número máximo de voluntários, a quem afirme que o grupo já contou com
cerca de 70. Atualmente, houve uma queda nesse número, não passando de 40. A adesão a
essa função se dá pela freqüência e desejo da própria pessoa, que comunica sua decisão às
coordenadoras. Em Olinda, a coordenadora é Dona Divone e em Boa Viagem, Dona
Raimunda. Inicialmente, em Olinda, era Ângela e Lizete. Com sua saída foi indicada Dona
Divone. Em Recife, Dona Raimunda sempre assumiu a coordenação do grupo, porque foi ela
quem tomou a iniciativa de levar o frei para realizar o louvor em sua casa. Como esse local
ficou pequeno diante das adesões, passaram a se reunir no Clube da Aeronáutica, também no
bairro de Boa Viagem. Devido a dificuldades em fixar um dia da semana para o louvor,
transferiram-se para o Colégio Imaculada Conceição, no bairro Prazeres, município de
Jaboatão dos Guararapes. Com a venda desse imóvel, o grupo ficou sem espaço. Retornaram à
Boa Viagem, desta vez no Colégio Elo, onde permanecem até hoje.
As coordenadoras foram indicadas pelo grupo, com o consentimento do frei entre os
voluntários. Já o cargo de secretário, após seis anos na mão de Lizete, que foi acometida de
um derrame, passou a ser assumido por Miguel Azevedo, que acompanha o frei desde 1996.
Isso porque se trata de um cargo que requer confiança e proximidade constante.
Os colaboradores são pessoas que ajudam na manutenção do frei e fazem doações para
as atividades assistenciais do GOASFJ. Como simpatizantes do trabalho desenvolvidos e
admiradores do carisma do frei, eles são impulsionados a colaborarem com a sua sustentação.
FREI JERÔNIMO
Coordenadoras
Voluntários
Colaboradores
Assistidos
Tabela 3: Or
g
ano
g
rama do GOASFJ.
60
Quanto à estrutura e funcionamento do grupo, na categoria “voluntários” há (1) os
que colaboram gratuitamente com serviços prestados ao grupo; há também (2) os que, devido
à sua pobreza, prestam serviços, mas recebem doações em dinheiro e mantimentos (esses são
os mais desprovidos do grupo e recebem uma “ajuda de custo” semanal no valor de R$10,00,
bem como tudo o que for distribuído aos assistidos); e há (3) aqueles que detêm uma condição
financeira mais favorável e colaboram mensalmente com o valor de R$ 10,00, ajudando
também sempre que solicitados. Esses, por apresentarem uma situação econômica menos
privilegiada, se limitam a colaborar nos serviços necessários ao funcionamento do grupo. Os
voluntários se destacam dos fiéis pelo uso de uma bata que os identifica. A feitura e adoção
essa vestimenta se deu quando eles passaram a ocupar o Mercado Eufrásio Barbosa.
O espaço era maior e o frei estava ganhando mais reconhecimento e com isso
começou a atrair mais e mais pessoas, chegando mesmo a colocarem duas mil
pessoas no local. Com isso, sentiram a necessidade (do uso da bata), devido ao
número de freqüentadores de terem uma identificação para que as pessoas pudessem
saber que eram os voluntários. Foi aí que surgiu a bata na cor vinho com as iniciais
F+J que significa Frei Jerônimo (Informante 7, voluntária, 73 anos)
Passando à categoria “assistidos", composta por pessoas carentes, ela se subdivide
entre os “cadastrados” e “não-cadastrados”. Essa categoria abriga pessoas de ambos os sexos e
faixas-etárias variadas. Contudo, é válido destacar que os cadastrados são majoritariamente
senhoras idosas, ou seja, as “velhinhas do frei”. Os não-cadastrados são os assistidos
beneficiados esporadicamente, pois não participam efetivamente das atividades do grupo.
Entre esses últimos há carroceiros, moradores de rua, meninos de rua, alcoólicos e moradores
da periferia de Olinda.
A última categoria, com a qual subdividi os seguidores do frei é a de “fiéis”: trata-se
daqueles que apenas freqüentam os louvores, mas sem compromisso com o trabalho do grupo,
embora não se eximam de contribuir de alguma forma, quando solicitados.
O GOASFJ desenvolve suas ações nas cidades de Olinda, no bairro do Carmo, e
Recife, em Boa Viagem. As adesões às atividades do Frei Jerônimo resultaram no crescimento
do grupo, que foi assumindo uma nova configuração. As mudanças verificadas indicam que a
ação do grupo pode ser sintetizada em duas dimensões: a espiritualidade e a assistência aos
pobres. Complementares, estas dimensões evidenciam aspectos constitutivos da identidade do
grupo.
61
Tabela 4:
ESTRUTURA DO GOASFJ NO BAIRRO DE BOA VIAGEM, EM RECIFE.
Tabela 5:
ESTRUTURA DO GOASFJ NO BAIRRO DO CARMO EM OLINDA
FREI JERÔNIMO
Coordenadora Geral
Voluntários:
Equipe do pão e da sopa
Equipe da saúde
Equipe de eventos
Equipe da lanchonete
Equipe do ministério de música
Equipe das velas
Equipe do bazar
Equipe da secretaria
Equipe de relações públicas
Equipe de turismo
Equipe de limpeza
FREI JERÔNIMO
Coordenadora Geral
Voluntários e colaboradores
62
Tabela 6: Or
g
ano
g
rama resumo da estrutura
g
eral
d
o GOASFJ.
63
3.2 – Festas
Dentre as festas realizadas pelo GOASFJ, merecem ser citadas a Páscoa, o Dia das
Mães e o Natal. De acordo com a disponibilidade de espaço, elas são realizadas no Clube
Atlântico, na residência do frei e em outros locais. Por exemplo, a festa do Natal, por falta de
disponibilidade, tanto do Clube Atlântico como do mercado Eufrásio Barbosa, aconteceu no
Clube Carnavalesco Vassourinhas de Olinda, localizado no Largo do Amparo, na cidade alta
de Olinda.
Começando pela Festa de Natal, de antemão informo que sua descrição está baseado
apenas em informações que obtive através de conversas informais com as velhinhas,
voluntárias e colaboradores, pois não a presenciei. Tal festa, realizada em dezembro de 2007,
no Clube Carnavalesco Vassourinhas, em Olinda, foi descrita como “muito bonita” pelos
meus informantes, sendo nela servidos bolos e refrigerantes, havendo também brincadeiras e
danças. Ao final, foram distribuídos, para todas as velhinhas cadastradas, jogos de toalhas de
banho.
A Festa da Páscoa ocorre em um dos dias da Semana Santa, em geral nas terças-feiras,
na casa do Frei Jerônimo. Nessa ocasião, os voluntários se subdividem para organizar o “café
da manhã das velhinhas do frei”, que é composto de frutas, café com leite, mungunzá, bolos e
sanduíches. Além do café, são distribuídos pão e peixe. Visando minha integração no grupo
estudado, participei na Páscoa de 2008 da equipe responsável pela distribuição dos sanduíches
e, posteriormente, da distribuição do pão e do peixe. Os rostos sofridos, o olhar brilhante e o
sorriso de satisfação de cada uma delas, ao receber o donativo, fizeram com que esse dia fosse
bastante significativo para mim. Integrada nesta ação, cheguei a me sentir parte do grupo -
uma voluntária. Experimentei, junto com os outros, uma sensação que remete ao senso do
dever cumprido.
64
Fi
g
ura 19: Distribui
ç
ão do café da manhã na casa de Frei Jerônimo.
Mas tal dia ainda me reservaria outras ricas observações. Depois de terminarmos a
distribuição do peixe, algumas pessoas idosas - que não eram cadastradas, mas que sabiam da
oferta de comida, promovida pelo frei -, também assomaram ao local, na esperança de obter
algum donativo. Posicionada do lado de fora da residência de Jerônimo, umas mulheres
idosas, visivelmente pobres, aguardavam algum tipo de doação - qualquer um. A elas foi
servido também o café da manhã, mas, infelizmente, não havia pão e peixe suficientes para
atendê-las. Por essa razão, o portão da casa foi fechado, na tentativa de solucionar o insolúvel.
Contudo, três daquelas mulheres bateram no portão fechado e pediram água para beber. Um
dos voluntários atendeu e informou que elas deveriam entrar e sentar, pois iria providenciar a
água. Nesse momento, quando me aproximei mais, uma delas me pediu para arrumar peixe,
talvez calculando que eu teria algum meio de influenciar na distribuição dos mantimentos.
Quando esclareci, quase na defensiva, que não havia mais nada para doar, ela me pediu
dinheiro, para que então pudesse comprar umas cabeças de peixe para ter o que comer na
Sexta-Feira Santa. Aquilo me comoveu, e dei-lhe algum dinheiro. A mulher me agradeceu,
pedindo a Deus que me abençoasse. Em seguida, tomou sua a água e partiu.
Nesse pequeno episódio - a parte as implicações críticas da realidade social e
econômica dessas pessoas, as quais me puseram a mente em conflito - pude perceber como
essas mulheres lançam mão de várias estratégias de sobrevivência, na luta diária por conseguir
65
algo para comer, ou para a solução de suas demandas materiais. As velhinhas não cadastradas,
por exemplo, são clientes de várias outras igrejas, centros espíritas e de tantos outros grupos
de pessoas que pratiquem o assistencialismo como regra moral. Não pude deixar de ignorar
esse fato, pois essas atrizes desempenham bem o papel que a sociedade lhe confere, e lucram
com isso à sua maneira: a de “assistidas”. Dessa maneira, elas compõem, juntamente com os
voluntários, os fiéis e o próprio frei, o quadro das expectativas e necessidades que formam a
trama das relações complexas que sustentam a coesão, o sentido e razão de ser dessa e de
qualquer comunidade religiosa – especialmente quando se inspira no cristianismo.
Os aspectos assistencialistas surgem como elo fundamental de ligação entre os
assistidos e os voluntários; como dois lados de uma mesma moeda de implicação dupla. Ou
seja, se, para os integrantes do GOASFJ e seu líder, os pobres precisam de auxílio – material,
financeiro, moral, espiritual, etc. –; da mesma forma o assistencialismo necessita da carência e
da pobreza, a fim de justificar, perante si e os outros, a sua ação e existência no mundo. Ainda
mais quando vemos, neste caso, um grupo que concorre – num mesmo campo e com as
mesmas armas - com outras instâncias de poder simbólico e religioso, tal como a própria
Igreja Católica, da qual o GOASFJ se declarou autônomo. Essas “velhinhas” parecem ser
hábeis e espertas o suficiente para se introduzirem, com suas demandas e exigências, nas
demandas e exigências dos grupos que julgam delas serem os tutores, quando - em grande
medida – são na verdade tutelados por elas.
Senão, vejamos:
Retornado ao relato anterior, quando pensei que todas as mulheres assistidas já haviam
ido embora - talvez em busca de outros pães e peixes -, fui me despedir do frei e ele me
perguntou o que eu tinha achado da sua Festa de Páscoa. Querendo, em resposta, dizer algo
gentil, declarei ter “gostado muito por ver tantas pessoas felizes”. Ele sorriu e afirmou que
aquilo não tinha preço, satisfeito com a minha aprovação. Nesse ínterim, quando já estávamos
de saída, eis que surgiu um outro grupo de velhinhas, essas cadastradas, e que havia se
atrasado para a festa. Dona Maria Felipa, uma das seguidoras mais antigas e queridas do frei,
estava entre elas e gritou ao frei, em tom reinvidicatório, que ela: “Ainda não havia ganhado
peixe”! - O frade, contrariado, perguntou para as mulheres se ignoravam o horário tardio e
quis saber o porquê do atraso. Felipa explicou que havia se atrasado sim, mas tinham um
motivo justo: tinha ido à Igreja do Convento de Santo Antônio, em Recife, para receber o pão
que também lá é distribuído. O frade a repreendeu, dizendo que ela deveria optar – pelo
66
menos nesse dia - por um dos dois lugares, considerada a distância. Disse Jerônimo que Felipa
“não poderia pegar tudo”. Não se dado por rogada, a velhinha argumentou que lá (Santo
Antônio) também era a “casa de Deus” e questionou o fato de não receber peixe por causa
disso. Surpreso com a agilidade e consistência da argumentação de Dona Maria Felipa, o frei
riu e disse: “Você não tem jeito!” e ordenou a responsável pela assistência às velhinhas, que
arrumasse peixe para Felipa e para as outras que estavam em sua companhia.
Na festa do Dia das Mães, outra comemoração importante do calendário do GOASFJ,
pude observar uma outra boa ilustração da especificidade da ação e da importância
significativa dos leigos seguidores de Frei Jerônimo, só que agora em uma outra perspectiva
do poder simbólico, exercido sobre a coesão e identidade do seu grupo – poder do qual nem
esta pesquisadora logrou escapar. Tal festa ocorreu no próprio Clube Atlântico, lugar dos
louvores. Além de bolo e refrigerante, houve na ocasião o sorteio de brindes para as
“velhinhas do frei”, mas só para aquelas que tinham cadastro. Dona Jupira – a protagonista do
primeiro milagre de cura operado pelo frade - que não é assistida, nem é muito menos
cadastrada, estava sentada ao meu lado, observando a festa.
Ao tomar ciência por mim de que haveria uma distribuição de presentes, Jupira me fez
o seguinte comentário: “Ah! Então eu vou ficar aqui”. Surpresa, eu questionei onde estava o
número dela e me respondeu: “Não precisa, não, minha filha. Eu sou a pessoa mais importante
daqui. Com certeza, tem um presente para mim”. Dito dessa forma, Jupira me interpelou com
a plena consciência da sua exata posição para a existência e identidade desse grupo. Não
restava mais nada a fazer, para mim, senão procurar imediatamente uma voluntária, para
alertá-la que: “Dona Jupira está esperando um presente, mas não tem a ficha (para o sorteio)”.
A voluntária, então, pondo em movimento o mecanismo da vontade de Jupira, no qual eu fui o
primeiro e dócil elo, desculpando-se por que “não tinha mais força aqui”, chamou o secretário
pessoal do frei, que lhe comunicou o desejo da anciã. Por fim, Jerônimo, de cima do palco,
gritou ao microfone para que Jupira viesse buscar seu presente, o que a fez produzir o seguinte
e confiante comentário: “Não disse a você que tinha um presente pra mim?!”
As pequenas anedotas acima - recortadas das minhas observações em campo, onde não
desempenhei a postura passiva de platéia, muito pelo contrário: fui até instrumento
involuntário de mediação entres os atores principais - demonstram bem o teor e a amplitude
da autoconsciência com que uma categoria desses atores - os leigos - perfilam sua
importância, em face de sua condição de seguidores de primeira hora do frade. Esses fatos
67
Fi
g
ura 20: Distribui
ç
ão de
p
resentes na Festa do Dia das Mães.
ilustram, a meu ver, o caráter de importância e relativa autonomia do leigo no GOASFJ, visto
que, tanto Dona Felipa como, Dona Jupira usaram seu poder de influência junto ao frei para,
direta ou indiretamente, fazerem valer suas vontades individuais ao grupo mais amplo. Em
épocas mais remotas, um fiel católico pensaria muito antes de agir de forma tão impositiva,
perante seu padre.
Aproveitando as histórias citadas, um outro aspecto que cabe comentar aqui, diz
respeito aos processos de desinstitucionalização e desregulamentação religiosa, trilhados pelo
GOASFJ ao sacudir fora o peso e a inflexibilidade da hierarquia católica local. Após terem
optado em seguir Jerônimo e constituírem um grupo de leigos, à margem da Igreja, os
voluntários do frei logo sentiram a necessidade de constituir também uma nova hierarquia e
nova regulação, dessa vez internas, para poderem, assim, darem o formato de organização
necessária aos procedimentos de produção e reprodução social do grupo, com regras tais
como: a divisão do trabalho assistencial e religioso, a produção de recursos de subsistência e o
controle dos fiéis, seja por meio do cadastro das “velhinhas” – que determina quem é e quem
não é “assistido” -, seja para controlar o acesso ao próprio Frei Jerônimo, que devido ao
aumento de compromissos e à evolução de uma doença que lhe atinge os olhos, tem o seu
tempo e presença cada vez mais regulados pelos voluntários mais próximos, que constituem
uma nova hierarquia, em torno de seu líder.
68
Fi
g
uras 21 e 22: Bin
g
o realizado
p
elo GOASFJ.
Além das festas citadas, o GOASFJ também realiza bingos. Esses têm como objetivo
declarado arrecadar recursos para as ações sociais do grupo e para a manutenção de seu líder.
O primeiro bingo que participei aconteceu no dia 12 de dezembro de 2007; e o segundo, no
dia 08 de março de 2008. Ambos aconteceram numa casa de recepções, no bairro de Santo
Amaro, na cidade do Recife. A cartela-ingresso custou R$ 30,00 reais. O primeiro foi
denominado de Tarde Beneficente e Solidária; e o segundo, que custou R$ 25,00, recebeu o
nome Uma Tarde em Março. Em ambos o número de pessoas foi bastante significativo e
muitos brindes foram sorteados.
69
Fi
g
ura 23: Coleta das ofertas do Louvor de Olinda.
Outro evento dessa natureza, que participei, ocorreu no dia 05 de setembro de 2008.
Tratava-se de um jantar de adesão ao lançamento da candidatura de Jerônimo para vereador de
Olinda. Realizado numa casa de recepções em Olinda, sua entrada custou R$ 30,00 reais.
Nesse jantar esteve presente o então candidato a prefeito Arlindo Siqueira, do Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB), que exibiu um vídeo publicitário de sua campanha política. Tal
exibição foi seguida do discurso dos dois candidatos. Entre os presentes, merece destaque as
pessoas ligadas à política da cidade de Olinda. Durante o jantar uma voluntária circulava entre
as mesas oferecendo cópias em DVD do vídeo exibido no início, o qual continha a história do
frei, ao preço de R$ 10,00. A produção do DVD foi custeada pelo referido candidato a
prefeito.
Além dos bingos, a manutenção do grupo vem das vendas efetuadas em uma
lanchonete que é montada na entrada do espaço onde acontece o louvor. Nela são vendidos
lanches e garrafas de água mineral. Há, ainda, o bazar e a venda de velas. No primeiro são
comercializadas roupas, sapatos e CDs de cantores conhecidos na comunidade católica, que
participam voluntariamente do louvor. Numa mesa ao lado do bazar, são dispostas as velas, as
quais são acesas durante as celebrações, quando são bentas pelo frei.
Finalizando, há também as sacolinhas de doação, que surgem durante o louvor, no
momento do ofertório, da mesma forma que ocorre na missa católica. Após a apresentação dos
seus pedidos a Deus, cada um é convidado a acender sua vela e, para reforçar os pedidos
realizados, o frei sempre pronuncia a fórmula: “agora que já fizemos nossos pedidos a Deus, é
hora de retribuir”.
70
Fi
g
ura 24: Fac-símile do envelo
p
e
p
ara contribui
ç
ões em dinheiro.
Nos bingos e nas festas é bastante significativa a colaborações dos fiéis e voluntários,
que ajudam, tanto na compra das cartelas, como na doação dos brindes. No aniversário de
nascimento e de sacerdócio do frei, todos colaboram mais uma vez. Nesta ocasião são
distribuídos envelopes e colhidas assinaturas em um “Livro de Ouro”, destinados a arrecadar
contribuições em dinheiro. Ambos os expedientes são confeccionados por Dona Diva Veloso,
uma voluntária de Boa Viagem. No microfone, durante os louvores, ela incentiva os presentes
a colaborarem com as obras sociais e a manutenção do frei. Segundo ela, os envelopes
também são utilizados em casos de extrema urgência, tais como a compra extraordinária de
remédios ou o pagamento de exames médicos a serem realizados para combater, por exemplo,
à enfermidade que acomete as retinas do frade. Esses envelopes são entregues às pessoas, que
colocam quanto puderem dentro, e entregam nas mãos do frei, em dia e horário marcado por
Dona Diva. Essa voluntária é a responsável pela organização da fila e das pessoas que vão
fazer a entrega dos envelopes. Muitos dos doadores dizem sentir muito prazer em colaborar
com Frei Jerônimo.
Dona Raimunda, que é voluntária e coordenadora do grupo de Boa Viagem, também
tem um papel importante na atividade de manutenção do grupo. Ela é responsável pela
arrecadação do dinheiro para pagamento do aluguel da casa onde mora Frei Jerônimo. De
acordo com ela, há uma lista de colaboradores fixos para suprir esse encargo, cabendo a ela o
recolhimento e o depósito na conta do locador. As despesas com remédios e alimentação do
frei também são custeadas por doações voluntariamente ofertadas nas “bênçãos” que ele
privadamente dá aos fiéis que as solicitam, seja nas residências, seja nas empresas.
71
A taxa mensal de R$ 10,00 citada anteriormente é recolhida por Dona Divone, que é a
voluntária e coordenadora do louvor de Olinda. Essa contribuição mensal, denominada de
“fundo de caixa”, subsidia despesas tais como a compra de materiais de limpeza e o
pagamento dos dois funcionários que foram contratados para a limpeza pesada do local do
louvor e das duas voluntárias que arrumam o espaço. Contudo, o frei afirma que esse recurso
nem sempre é suficiente para cobrir todas as despesas, sendo complementado pelo dinheiro da
venda das velas.
O deslocamento do frei é responsabilidade do fiel que o chama. Dessa forma, quem
solicita os serviços paga o táxi, contratado permanentemente para essa finalidade, ou vem
buscá-lo. Acompanhei Frei Jerônimo numa visita a um laboratório, localizado no bairro da
Várzea. Toda segunda terça-feira de cada mês, o frade dá assistência nesse espaço. Existe pelo
menos mais uma empresas que conta com a visita mensal do frei. Considerado uma graça
divina para as proprietárias desses estabelecimentos, às benções do frei são atribuídos os
crescentes lucros de tais empresas. Nas visitas citadas, o frei abençoa a empresa e as pessoas
que desejarem.
Frei Jerônimo afirma que recebe muitas propostas promissoras em termos econômicos
e que, se elas se concretizassem, ele estaria riquíssimo. Conta o caso de um senhor que queria
vender um terreno, próximo ao Shopping Recife, em Boa Viagem, por 6 milhões. Como fazia
bastante tempo que ele tentava fazer esta transação, sem conseguir êxitos em suas tentativa, o
frei resolveu intermediar o processo. Ao descobrir que no terreno havia pessoas morando,
sugeriu que tal situação fosse legalizada, pois só assim ele conseguiria consolidar a venda.
Nessa ocasião, o frei chegou a afirmar que o que antes era avaliado em 6 milhões, depois de
sua intervenção, seria vendido por 7 ou 8 milhões. Além dos conselhos, o sacerdote proferiu
três bênçãos no terreno. Após esta oração, a venda foi efetuada no valor de R$ 8.200.000,00.
Contudo, Jerônimo informou não ter recebido nada pelos conselhos.
Em outra situação, o frei relatou o caso de uma senhora queria vender uma casa e um
terreno. Respondendo a solicitação dessa mulher, o frei aconselhou a não vender a casa. Com
muito sacrifício, ele foi ver o terreno ao meio-dia em ponto, para abençoá-lo. Devido ao
horário e a sua performance religiosa, um rapaz que passava pelo local parou e perguntou se
ele seria um pai de santo. Em resposta, Jerônimo esclareceu ser na verdade um sacerdote.
Sensibilizado com a revelação de sua real identidade, o jovem pediu uma benção. Observando
72
a placa de venda presente no local, solicitou informações sobre o terreno. Diante das
informações prestadas, o homem se mostrou interessado no terreno e o comprou.
Mesmo recebendo inúmeras doações, verifica-se uma insuficiência de recursos para
atender a todas as demandas do grupo. Inquietado com esta carência, em 2008, Frei Jerônimo
se candidatou a vereador da cidade de Olinda pelo PTB.
29
Como não há uma fonte regular de
recursos, os voluntários trabalham sempre com previsões. Em vista dessa incerteza, a
assistência dada aos carentes fica prejudicada, comprometendo o trabalho desenvolvido. Por
exemplo, se as pessoas faltam com o dinheiro semanal para a compra dos pães, essa
distribuição é afetada. Segundo o próprio frei, caso fosse eleito vereador, ele asseguraria e
ampliaria os recursos para suas obras sociais.
3.3 – Louvor, cura e ação social
As celebrações realizadas pelo Frei Jerônimo são conhecidas como “o louvor do frei”.
Em Olinda, elas acontecem todas as terças-feiras, entre 19h30minh e 21h30minh, no Clube
Atlântico. Local aberto, mas não muito ventilado, nele se reúnem cerca de 1.000 pessoas. É
válido ressaltar que, desde 09h00minh, iniciam-se as atividades de assistência social do
GOASFJ. Estas são interrompidas as 17h30minh, visando a preparação dos fiéis para o louvor
no horário indicado.
O local recebe as adaptações necessárias para a realização dessa celebração religiosa
Uma mesa se transforma em um altar, que é ornamentado com vários objetos presentes na
liturgia da Igreja Católica: um crucifixo grande, um pequeno, uma Bíblia, flores e imagens de
santos (Nossa Senhora e Santo Antônio). Além disso, os fiéis costumam colocar sobre a mesa
do altar: carteiras de trabalho, carteiras de identidade, fotos de pessoas necessitadas de ajuda,
tais como emprego e a cura de males físico-espirituais. Ao lado da imagem de Santo Antonio
são colocados diversos pedidos escritos pelos devotos.
29. Nas urnas, Frei Jerônimo obteve apenas 682 votos, o que foi insuficiente para sua eleição. No capítulo IV nos
deteremos mais na sua aventura político-partidária. Contudo, adianto aqui que sua candidatura provocou uma
instabilidade provisória entre seus adeptos, resultando no afastamento de alguns voluntários e no esvaziamento
das celebrações de louvor. Passado um mês do encerramento do pleito eleitoral, verificou-se o retorno de seus
seguidores.
73
Fi
g
ura 25: Fotos e carteiras colocados sobre o altar na Celebra
ç
ão do Louvor.
Os voluntários são responsáveis pela organização da celebração. Diversas funções são
distribuídas entre eles, tais como a limpeza e a ornamentação do espaço, antes e depois da
celebração; a colaboração como auxiliares litúrgicos durante o louvor e a organização e
distribuição da sopa e do pão, que são oferecidos antes do louvor. A eles cabem, ainda, a
organização e seleção dos que serão atendidos individualmente por Frei Jerônimo.
Durante o louvor, os cantores, que são voluntários, cantam músicas católicas para
animar os presentes. Embora todos já sejam conhecedores do fato, por vezes é anunciada a
venda de lanches e de velas. O início da celebração, que é chamado de (1) “Acolhida”, é
demarcado sempre com uma mesma canção. Frei Jerônimo entra no palco e todos os presentes
ficam de pé, enquanto esta canção é entoada:
Vem, vem, vem Espírito Santo,
Transforma minha vida,
Quero renascer. (repete)
Quero abandonar-me em Seu amor,
Transbordar nos Teus rios, Senhor;
Derrubar as barreiras, em meu coração.
Quando o frei já está no palco, outra música é cantada:
Espírito de Deus, vem e fica aqui,
74
Espírito de Deus, vem e fica aqui,
E passeia no meio do Teu povo,
E toca o coração do Teu povo.
Oh! Espírito de Deus, vem e fica aqui.
No louvor é destacada pelo frade a ação milagrosa do Espírito Santo. Quando esta é
invocado, as palmas são recorrentes e a emoção toma conta dos presentes, que por vezes
choram. Por meio das palmas e da ação do Espírito é que, segundo Frei Jerônimo, Jesus vem
até o devoto, demonstrando o seu poder.
Terminado o canto, Frei Jerônimo acolhe os presentes e introduz o (2) “Ato
Penitencial”, motivando as pessoas para pedirem perdão de seus pecados, utilizando o canto
Renova-me, Senhor:
Renova-me, Senhor Jesus, já não quero ser igual.
Renova-me, Senhor Jesus, põem em mim Teu coração.
Porque tudo que há dentro de mim
Precisa ser mudado, Senhor.
Porque tudo que há dentro do meu coração
Precisa mais de Ti. (2x)
Em seguida, mais uma música é cantada, com este tema:
Perdão, Senhor
Perdão, Senhor, tantos erros cometi
Perdão, Senhor, tantas vezes me omiti
Perdão, Senhor, pelos males que causei,
Pelas coisas que falei,
Pelo irmão que eu julguei
Perdão, Senhor
Pelos males que causei,
Pelas coisas que falei,
Pelo irmão, que eu julguei
Refrão
Piedade, Senhor, tem piedade, Senhor
Meu pecado vem lavar com Teu amor
Piedade, Senhor, tem piedade, Senhor,
75
E liberta minha alma para o amor
Perdão, Senhor, porque sou tão pecador
Perdão Senhor, sou pequeno e sem valor
Mas mesmo assim, Tu me amas, quero então
Te entregar meu coração,
Suplicar o Teu perdão
Mas mesmo assim, Tu me amas, quero então
Te entregar meu coração,
Suplicar o Teu perdão
Na seqüência, é feita a (3) “Leitura do Evangelho” indicado pela liturgia diária da
Igreja Católica. Essa leitura era sempre feita pelo frei, mas devido a um grave problema na
retina, sua visão foi afetada. Desde então, Dr. Carlos Nascimento se tornou o leitor mais
recorrente. Após a leitura, Frei Jerônimo explica o seu conteúdo por meio do (4) “Sermão”,
relacionando a mensagem a sua ação, e dá conselhos espirituais aos fiéis. Em seu discurso está
muito presente a exaltação da fé, pois, segundo ele, “Deus olha pelos que tem fé”. Ele
aproveita esse momento para fazer relatos das visitas que fez às pessoas que lhe solicitam
bênçãos. A finalidade delas é livrá-los da depressão e, em alguns casos, das possessões de
espíritos malignos, que tem sua ação relacionada ao fato de algumas pessoas estarem apegadas
ao dinheiro e afastadas de Deus.
Após a palavra do frei, as luzes são apagadas. Nesse momento as pessoas ficam em
silêncio e refletem sobre suas vidas e seus problemas. Em auxilio da meditação, músicas de
teor emotivo são cantadas, induzindo os fiéis a mergulharem emocionalmente na ação do
Espírito Santo, através das canções. Vejamos a letra da música Noite Traiçoeira, que é uma
das mais recorrentes para esse momento:
Deus está aqui neste momento,
Sua presença é real em meu viver
Entregue sua vida e seus problemas,
Fale com Deus, Ele vai ajudar você
Ô, ô, Deus te trouxe aqui,
76
Para aliviar os teus sofrimentos
Ô, ô, é Ele o autor da fé,
Do princípio ao fim, em todos os seus tormentos.
Ô, ô, ô, e ainda se vierem, noites traiçoeiras,
Se a cruz pesada for, Cristo estará contigo,
E o mundo pode até, fazer você chorar,
Mas Deus te quer sorrindo (bis).
Seja qual for o seu problema,
Fale com Deus, Ele vai ajudar você
Depois da dor vem a alegria
Fale com Deus, Ele não lhe deixará sofrer
Ô, ô, Deus te trouxe aqui, para aliviar os teus sofrimentos
Ô, ô, é Ele o autor da fé do princípio ao fim,
Em todos os seus tormentos
Ô, ô, e ainda se vier noites traiçoeiras, se a cruz pesada for,
Cristo estará contigo e o mundo pode até, fazer você chorar,
Mas Deus te quer sorrindo
... Mas Deus te quer sorrindo...
Nesse momento, as pessoas se emocionam. Algumas entram em estado de profunda
concentração, outras parecem extasiadas diante da experiência religiosa e muitos choram.
Ainda com as luzes apagadas, Frei Jerônimo passa a pedir pelas (5) “curas” espirituais e
físicas através da intermediação de Jesus. Ele pede ao Espírito de Jesus que toque nos órgãos
(cabeça, olhos, garganta, pés, mãos, etc.), utilizando-se da música Deus vai te ajudar:
Lute com fervor e fé,
Sem retroceder
Mesmo que um mal qualquer
Assole você,
As lutas da vida
77
Logo vão passar
Confia, porque Deus vai te ajudar
Coro
Deus vai te ajudar
Deus vai te ajudar
Não temas, porque
Você vai vencer
Deus vai te ajudar
Se existem provações
Nos dias teus,
Abra o teu coração,
Entrega-te a Deus,
Pois tudo na vida
Deus pode mudar
Confia, então
Deus vai te ajudar
Terminada a música, todos acendem as velas, que foram compradas no local ou
trazidas de casa. Os fiéis recebem a orientação de dialogarem com Jesus, reforçando seus
pedidos. As velas são abençoadas pelo Frei com uma oração. Em seguida, elas são apagadas e
as luzes são acesas. É dada a orientação de que, ao chegarem em casa, as pessoas voltem a
acendê-las, pois, segundo o frade, a energia do louvor deve ser levada para todos os lares.
Passa-se ao momento do ofertório. É importante destacar que, nessa passagem, é
explorada a idéia de retribuição, ou seja, depois de fazerem seus pedidos, que segundo a graça
de Deus serão atendidos, é hora de retribuir a bondade divina, partilhando-se o que se tem.
Mais um canto é entoado.
Venho, Senhor, minha vida oferecer,
Como oferta de amor e sacrifício
Quero minha vida a Ti entregar,
Como oferta viva em Teu altar,
Pois, pra Te adorar, foi que eu nasci
Cumpre em mim o Teu querer
Faça o que está em Teu coração.
E que a cada dia eu queira mais e mais
78
Estar ao Teu lado, estar ao Teu lado, estar ao Teu lado, Senhor.
Pois, pra Te adorar, foi que eu nasci
Cumpre em mim o Teu querer.
Faça o que está em Teu coração.
E que a cada dia eu queira mais e mais
Estar ao Teu lado, estar ao Teu lado, estar ao Teu lado, Senhor
Dando continuidade ao louvor, Frei Jerônimo benze os voluntários que ficam com ele
no altar e um balde com 15 litros de água. O celebrante passa a aspergir água nas garrafas de
água que foram compradas na lanchonete, ou trazidas de casa, e colocadas no inicio do louvor
numa mesa próxima ao altar. A água é aspergida também sobre os objetos colocados no altar
(fotos, documentos, pedidos escritos, etc.). Dentre os voluntários abençoados, dois são
encarregados de borrifar a água benta sobre os fiéis. Segundo me foi explicado, a água tem o
poder de curar os males que afligem as pessoas. O grupo, agora, musical canta uma nova
melodia.
Eu Te peço desta água que Tu tens
És água viva meu Senhor
Tenho sede, tenho fome de amor
E acredito desta fonte de onde vens
Vens de Deus, estás em Deus, também és Deus e Deus Contigo faz um
Eu, porém, que vim da terra e volto ao pó, quero viver eternamente ao lado Teu
És água viva, és vida nova e todo dia me batizas outras vez
Me fazes renascer, me fazes reviver e quero água desta fonte de onde vens
Segue um momento de cura pelo toque das mãos. Antes de ser acometido por
problemas na retina, ele descia e circulava entre as pessoas tocando na cabeça de quem ele
acreditava estarem precisando ser curadas. Atualmente, devido a sua enfermidade, ele já não
se desloca mais assim e os fiéis é que seguem em fila, ao seu encontro.
O louvor é encerrado com votos de uma ótima semana e, a todos os presentes, o frei
diz em voz alta: “vão em paz e que o Senhor os acompanhe”!
79
Tabela 7: Estrutura da Celebra
ç
ão de Louvo
r
.
A descrição acima contempla a estrutura do Louvor do Frei, em Olinda. Esse ritual se
repete a cada celebração. Contudo, é válido destacar que por duas vezes presenciamos uma
diferença na estrutura. Estou me referindo a prática de exorcismo, ou seja, dentro da
celebração, o frei realizou preces para a expulsão de demônios. Nessas ocasiões, além de
repreender a presença do maligno, foi enfatizada o poder de Deus.
Nesse exorcismo, o frei começou com uma oração, pedindo que as pessoas presentes
rezassem uma “prece de expulsão”, na qual, em tom ascendente, o frade solicitava que os
espíritos malignos libertassem as pessoas que perseguiam. Nesse momento, algumas pessoas
manifestaram os tais espíritos, sendo este o fato que mais me chamou a atenção: uma senhora
que pulava em uma perna só. Depois disso, o frei pedi que um grupo de voluntários rodeasse a
mulher, rezando em coro. Momentos depois, a mulher estava restabelecida.
Em Boa Viagem, o louvor acontece nas quintas-feiras, das 19h30 as 21h30 seguindo a
mesma descrição feita anteriormente. A diferença é que, naquele bairro, não há a assistência
social indicada em Olinda e os participantes compõem um público estimado em cerca de 200
pessoas. Por contemplar uma população mais abastada, o grupo de Boa Viagem funciona
como um arrecadador e distribuidor de recurso que ajudam na manutenção da assistência dada
aos pobres, em Olinda.
(1) Acolhida
(2) Ato Penitencial
(3)Leitura do Evangelho
(5) Curas
(4) Sermão
80
Ao longo da pesquisa, destacarmos que o grupo de Boa Viagem demonstrou falta de
disponibilidade em dar entrevistas e fornecer algum testemunho de cura. Embora o frei tenha
falado sobre a importância da pesquisa, essa assertiva teve um impacto muito pequeno na
postura das pessoas. Não houve o interesse e o empenho verificado em Olinda. Minha
interpretação para esse fato foi que o grupo, nesse período de pesquisa, apresentou grande
rotatividade, o que predispunha os fiéis mais novos a uma atitude de maior reserva.
Ainda em relação ao grupo em Boa Viagem, as curas não possuem a mesma
recorrência e importância verificada em Olinda. Ao longo de toda a pesquisa, consegui
identificar apenas um relato de cura. Esse faz referência ao caso de uma criança que possuía
uma bolha de sangue na boca, que, de acordo com os médicos, necessitaria de um
procedimento cirúrgico. Segundo sua mãe, após ela ter recebido uma benção do frei, a
enfermidade desapareceu. Contrariamente, em Olinda, são muitos e diversos os relatos de
cura. Vejamos alguns deles.
Registramos o relato da cura de um menino que nasceu afetado por uma rubéola
contraída pela mãe na gestação. O frei relata que, em uma das missas de cura e libertação
realizadas na igreja de São José dos Pescadores, a criança foi curada. Conforme os relatos, o
menino era cego, surdo, mudo e não andava. Após a intervenção do frei, embora com
dificuldades, ele passou a enxergar, ouvir, falar e andar.
Outro relato contado pelo frade dá conta do sofrimento de um famoso médico
pernambucano, que teria sido agraciado pela cura. Portador de um câncer no pulmão, foi se
tratar nos Estados Unidos, onde foi informado que seu caso não teria mais solução. Ele
deveria retornar ao Brasil e preparar-se para morrer. Devido à doença, ele estava magérrimo.
Chegando ao Brasil, ficou em São Paulo, pois não queria que os amigos pernambucanos o
vissem na situação em que se encontrava. Foi quando um amigo o avisou da existência do frei.
Acatando a orientação desse amigo, o médico retornou ao Recife, no ano de 2000. Após a
terceira visita de Frei Jerônimo, segundo esse afirma, o câncer desapareceu.
Uma voluntária me contou outra história intrigante: durante um das celebrações, o
frei pediu que as mulheres presentes tocassem nos seus seios para pedir proteção a Jesus
contra o câncer de mama. Uma senhora presente sentiu um nódulo ao tocar seu próprio seio.
Desesperada, ela contou, a essa voluntária, que desejava falar com o frei. Diante do relato, ele
81
respondeu que a mulher não devia temer a cirurgia, que tudo daria certo. “Assim aconteceu”,
afirma a voluntária, “já faz 10 anos que ela recuperou sua saúde”.
Segundo o relato de uma fiel seguidora, consta que seu irmão, morador de Fortaleza
(CE), foi também agraciado com a cura. Devido ao seu trabalho, na praia, ele se expõe
excessivamente ao sol. Esse fato resultou na produção de um tumor em seu braço,
diagnosticado pelos médicos. Sabendo da enfermidade do irmão, ela procurou Frei Jerônimo.
Como este tinha uma viagem marcada para Fortaleza, um encontro foi marcado nessa ocasião.
Seguindo a orientação do frei, o enfermo seguiu ao seu encontro, munido de uma garrafa de
água, que, após ser abençoada pelo sacerdote, foi utilizada na lavagem do tumor. Adotado
esse procedimento por duas ou três vezes, o tumor estourou, produzindo um sangramento
intenso. A família preocupada informou o frei sobre o estado do doente. Em resposta, Frei
Jerônimo sustentou que tudo estava dentro do previsto, e que o sangramento visava libertá-lo
de todas as coisas ruins. Dando continuidade a lavagem de seu braço, ele ficou totalmente
curado. Esse fato ocorreu há cerca de seis anos e até o momento, afirma a fiel, seu irmão goza
de perfeita saúde.
A mesma fiel me relatou caso semelhante ocorrido com seu pai, que aos 83 anos teve
diagnosticado um câncer na próstata e seguiu para Fortaleza para ficar junto com seus
familiares. Os serviços de Frei Jerônimo foram mais uma vez solicitados. Com as despesas de
viagem totalmente pagas pela devota, o frade seguiu novamente para a capital do Ceará, onde
realizou três orações de cura. Como os médicos já haviam informado a necessidade de um
procedimento cirúrgico, após as bênçãos, o ancião refez todos os exames necessários ao
estágio pré-operatório. Para sua alegria e de toda a sua família, os médicos diagnosticaram o
desaparecimento do tumor.
Mais um caso que podemos relatar é de um médico, cunhado de uma das voluntárias.
Ela conta que o homem estava muito doente, com diabetes e nenhum tratamento conseguia
curá-lo. Vendo o tormento causado pela doença, a voluntária perguntou se Frei Jerônimo se
não poderia visitá-lo. Após três semanas de visitas, seu cunhado estava bom. Ela destaca que
ele morreu no final de 2007, mas não de diabetes, e sim porque chegou a hora dele e “Jesus
levou”.
Além da cura de seu cunhado, essa mesma voluntária relata o caso de uma moça que
estava na cadeira de rodas. Esta não conhecia o frei, mas pessoas que o conheciam a levaram
82
até ele. Segundo me contou a voluntária, quando colocaram a cadeirante em frente ao
religioso, a moça disse ter visto Nossa Senhora, fato que a deixou apavorada, indo logo
embora. Passados oito dias, conseguiram levá-la novamente até o frade. Desta vez, ele
afirmou que Jesus a tiraria da cadeira de rodas. Caso isso não acontecesse, ele não mais se
chamaria Jerônimo. A mulher acabou curada e, atualmente, dirige seu próprio carro, assumiu
novamente seu emprego e passou a ajudar intensamente no grupo do frei.
Além desses dois casos, a voluntária conta uma graça alcançada por ela mesma,
quando foi acometida por uma moléstia na pele. Segundo nossa entrevistada:
A água benta é uma coisa... eu tenho um problema aqui... de pele. Duas vezes
aconteceu... abriu aqui um pouquinho... - “Oh, Frei! Olha aqui!” - “Tem nada não.
Quando eu passar água benta resolve”. E ele passou água benta. Botou a mão por
cima e falou um pouquinho, a gente sente aquele calor grande e pronto. Agora é só
botar água benta gelada e eu já tava boa (Informante 20, voluntária, 74 anos,
19/12/2006).
Os relatos colhidos sobre as curas ocorridas por entre os seguidores de Frei Jerônimo,
nos permitem afirmar que a maioria das pessoas que procuram o louvor buscam soluções
imediatas para seus problemas. Majoritariamente, foram identificadas situações de saúde e,
em seguida, problemas financeiros e de relacionamentos afetivos. Como forma de
“tratamento”, o frei desempenha práticas especificas e estruturadas, baseadas na crença
reiterada na ação do Espírito Santo, de Deus, ou de Jesus. No desenvolvimento da cura, têm-
se muitas situações em que os sofrimentos do indivíduo são vistos através de uma leitura
simbólico-espiritual. A perspectiva da cura, para aqueles que nela crêem, revelam o grau de
proximidade do indivíduo com a religião e de adesão ao líder carismático. Nesse sentido, a
expectativa da cura funciona como forma de expressão de conflitos, constituindo no que
Turner (1974) classifica como “drama social". As práticas de cura apresentam uma função de
inserção comunitária, pois no louvor, classificar um indivíduo como saudável ou doente
implica em reconhecer seu grau de proximidade com o espírito de Jesus. Segundo Montero a:
(...) capacidade que o discurso religioso tem de ‘costurar’ a multiplicidade de
sensações e acontecimentos percebidos de maneira caótica e atomizada pelo
individuo ‘doente’ confere ao sistema gico-religioso de cura uma abrangência
muito mais ampla quando comparado ao sistema médico, pois situam os limites de
sua atuação para além das finalidades puramente técnicas da cura: por um lado, ao
situar a ‘doença’ dentro de um quadro mais geral, que é ao mesmo tempo o quadro
83
Fi
g
ura 26: Frei Jerônimo e voluntárias distribuindo so
p
a.
da desorganização da pessoa, da ordem social e da ordem cósmica, o discurso
religioso se torna capaz de arrancar o individuo do puro subjetivismo de sua dor
(MONTERO, 1985: 255).
Feitas estas considerações sobre as curas realizadas por Frei Jerônimo, nos deteremos a
partir de agora nos trabalhos de assistência social desenvolvidos no grupo, mostrando como
essa questão passou a integrar parte considerável na agenda do GOASFJ.
As celebrações de louvor, desde o início, contaram com a participação de um número
considerável de velhinhas pobres. Certa vez, enquanto rezava, uma delas desmaiou. Como o
louvor acontecia próximo ao Pronto Socorro de Olinda, ela foi atendida rapidamente pelo
médico de plantão. Após examiná-la, o médico afirmou que a doença dela era, na verdade,
fome. Mandou um recado para o frei: além de assistência espiritual, Frei Jerônimo deveria dar
comida para ela.
Preocupado com a constatação médica, o religioso disse que assumiu tal desafio.
Desde então, passou a conceber o louvor como um local onde os pobres e os famintos sairiam
cheios da palavra e de alimento. Idealizou a distribuição de sopa antes da celebração e
convocou os presentes a se engajarem nesta ação. Inicialmente poucos acataram o convite.
84
Uns disseram: “não vai dar certo!” Em resposta, Frei Jerônimo insistiu: “Nunca vi fome e
vontade de comer para não dar certo”. Surgiram, então, os primeiros 2 caldeirões de sopa.
Esta ação foi contando com adesões, resultando na atual distribuição de 4.000 pães e 800
pratos de sopa. Essa atividade chegou a contar com a participação de 70 voluntários.
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uras 27
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: Distribui
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85
A partir desse momento, o grupo passou a investir em atividades de ação social, não se
limitando a distribuição da sopa. Passaram a doar cestas básicas e enxovais para as gestantes
carentes. Esses são recolhidos pelos membros do grupo, que passaram a sistematicamente
pedir doações aos amigos, freqüentadores do louvor e simpatizantes do trabalho de Frei
Jerônimo. Essa atividade exigiu investimento na organização dos assistidos. Por exemplo, as
“velhinhas” foram cadastradas em um caderno, que tem por objetivo acompanhar a
assiduidade nos louvores. Tal medida destina-se a garantir o direito de elas participarem das
festas, receberem cestas básicas e participarem de atendimento médico, com a ajuda da
doação de remédios.
Cada uma, desde então, recebeu um crachá com o nome e número de cada uma. Ao
chegarem no local, elas se dirigem à voluntária que registra a presença da mesma e entrega
uma ficha de cor rosa numerada. Aqueles que não são cadastrados recebem uma ficha na cor
branca. Essas fichas têm por finalidade controlar a distribuição da sopa e do pão. A
distribuição das cestas básicas contempla apenas as pessoas cadastradas.
Para ser cadastrada a pessoa deve se apresentar a uma voluntária e fazer uma entrevista
que visa identificar se a pessoa atende os critérios definidos pelo grupo. Pessoas idosas e
carentes, residentes em Olinda, têm prioridade na assistência. Para efetuar o cadastro é preciso
informar o endereço de residência e uma fotografia, para ser colocada no crachá. Atualmente,
são 200 pessoas cadastradas.
86
Fi
g
ura 30: Atendimento médico realizado
p
or Dr. Carlos Nascimento no ambulatório do GOASFJ.
A distribuição de enxovais está sob a responsabilidade de outra voluntária, que registra
o nome da gestante carente que procuram o grupo. Na medida em que vão adquirindo
enxovais, esses são distribuídos de acordo com a ordem na lista.
Foi criado um o ambulatório, que conta com o atendimento voluntário de Dr. Carlos
Nascimento, clínico-geral, e de Dona Rute Nascimento, sua esposa, que colabora como sua
atendente. Todas as terças-feiras, as 16h30minh, ele atende gratuitamente 30 velhinhas. Além
da consulta, há a distribuição de remédios. Esses são angariados por Dr. Carlos junto aos
laboratórios. A Prefeitura de Olinda também colabora enviando remédios.
3.4 – Considerando as mediações externas exercidas pelo GOASFJ
Como vimos, Frei Jerônimo e o GOASFJ não contam com nenhum tipo de
reconhecimento legal ou apoio direto por parte da Igreja Católica local. Contudo, o mesmo
não ocorre em relação a outras instituições, públicas e privadas, com as quais o grupo buscou
parcerias, seja para legitimar-se, seja par obter recursos para sua manutenção. No caso de
instituições públicas, sobressaem-se a prefeitura da cidade de Olinda e alguns dos seus
funcionários, com os quais o grupo tem travado uma relação de dependência e incentivo desde
o início de suas atividades.
Da prefeitura, o grupo recebeu apoio para instalarem o local de seus cultos, para a
doação de pão e feitura da sopa dos assistidos, bem como para a doação de remédios no
87
ambulatório do GOASFJ.O Frei também conta com um apoio eventual da prefeitura da cidade
de Recife, através da mediação de alguns funcionários que fazem parte do grupo como
voluntários, os quais ajudam com brindes, para os bingos, dinheiro e cestas básicas.
Dentre as relações com instituições privadas e externos ao grupo, destacam-se algumas
empresas, cujos proprietários o frade procura atender, com seus dons de cura e orientação
espiritual, o que lhe permite bater em portas e fazer seu apelo a pessoas da alta sociedade
pernambucana, sobretudo mulheres piedosas de comerciantes e industriais. No seu discurso,
Jerônimo enfatiza o fato de que “as doenças físicas e espirituais não atacam só os pobres” e,
segundo afirma, são justamente nesses momentos de dor e aflição, que pessoas de todas as
classes buscam nele um esperança de alivio para tais problemas. A partir dessas relações, ele
reconhece que tem criado e mantido importantes laços de amizade, construídos em torno da
gratidão que essas pessoas demonstram ao religioso. Mas, há sempre aqueles que, conforme
lembra o frade, “após terem solucionados seus problemas, desaparecem”. Em contrapartida, a
maioria acaba conhecendo melhor o trabalho social que ele desenvolve junto com seu grupo e
passam efetivamente a colaborar, chegando alguns a se tornarem voluntários nos louvores
realizados por ele. Há também os que sem demonstrar interesse num compromisso mais forte,
quando são acionados em momentos de dificuldade, doam dinheiro ou objetos valiosos e
úteis, a exemplo de eletrodomésticos, com os quais o GOASFJ realiza seus bingos
beneficentes.
Outro tipo de mediação, que o GOASFJ estabelece através do seu líder Frei Jerônimo,
acontece por meio das bênçãos privadas que o frade distribui entre algumas empresas, tanto
em Olinda, quanto em Recife. E esse apoio se dá forma variada: em alguns estabelecimentos o
Frei é convidado a dar benções e com isso recebe ajuda financeira. Em duas empresas
recifenses, Jerônimo vai - em uma, toda primeira terça-feira de cada mês; em outra, toda
última sexta feira de cada mês - mensalmente conceder as tais bênçãos. Segundo declaração
de seus proprietários, eles crêem firmemente que os lucros das suas empresas só vêm
crescendo, após o frade iniciar a doação de benções.
Um dessas empresas citadas, fez lançar uma campanha de arrecadação de donativos no
Natal de 2008, por meio de seu jornal interno. ”O objetivo geral da campanha” - como me
contou em entrevista, a supervisora de Marketing da firma - “é garantir um natal mais alegre
e humano às famílias de baixos recursos econômicos, através da distribuição de cestas básicas,
88
brinquedos, roupas e calçados novos e usados”. A campanha se estendeu de 1º a 20 de
dezembro de 2008 e tudo foi doado ao GOASFJ. Todos os registros da entrega das cestas
básicas, fotos e depoimentos, foram devidamente divulgados na edição seguinte do jornal.
Para essa campanha natalina, segundo nossa entrevistada, o GOASFJ recebeu apoio de mais
oito empresas, de diversas áreas. O slogan principal da campanha foi: “Não percam tempo!
Faça deste Natal mais um momento de reflexão e de ação voluntária. Não deixem de ajudar a
quem precisa! Vamos fazer a nossa parte!”
Na mídia, Frei Jerônimo tem enviado sua mensagem por meio de diversos veículos:
jornal, rádio e TV. A GloboNet, canal a cabo que tem cobertura na Região Metropolitana do
Recife (canal 14), chegou até convidá-lo para algumas entrevistas em programa local.
Segundo seu apresentador, tal programa em especial foi um sucesso de Ibope, o qual teve seu
horário esticado para atender os pedidos de cerca de 40 ligações e 32 e-mails que foram
recebidas pela produção. O jornalista recebeu, após sua exibição, muitos elogios e
parabenizando-o pela participação de Frei Jerônimo, fato inusitado haja vista o programa não
ser religioso e sim de negócios.
O apresentador informou também que, em decorrência da prece que Jerônimo fez
sobre um copo d’água, proferida diante das câmaras e sugerida, aos telespectadores, como um
veículo de graças, naquela mesma noite, contou-me que recebeu um telefonema de um amigo
e irmão maçom, famoso empresário do ramo de imóveis em Recife, comunicando que sua
sogra, que estava muito doente, havia assistido ao programa e tinha ficado muito emocionada
com as palavras do religioso. Ela pediu um encontro pessoal com o frade. No dia seguinte, o
empresário mandou seu motorista particular buscá-lo para atender sua sogra .O fato é que,
segundo nos conta o jornalista, a sogra do seu amigo, após receber algumas benções do frade,
não precisou mais amputar a perna, ameaçada pelas complicações de sua doença. Ela, é claro,
atribuiu a graça ao carisma de Frei Jerônimo.
Devido ao grande sucesso de público, Jerônimo foi convidado a participar de mais três
programas, sendo que um desses contou até com a minha presença, na condição de
pesquisadora, para o qual fui instada a falar de minha pesquisa no GOASFJ. Na ocasião eu
quis saber, por que o programa não manteve o frade durante todo o ano. O apresentador
explicou que o custo do programa é alto e faz parte da programação, obrigatória para as TVs a
cabo, voltada para a prestação de serviços à comunidade e por isso não poderia ser efetivo.
89
Um outro tipo de relação com a mídia se deu por meio dos pronunciamentos que deu
aos jornais, tanto durante o período de conflito entre ele e Dom José Cardoso Sobrinho, ou por
meio de situações criadas por ele, a exemplo de quando organizou um missa campal,
celebrada em homenagem aos mortos no desabamento de um edifício, no bairro de Piedade
(Jaboatão dos Guararapes) e quando procurou à imprensa e declarou ter recebido uma graça
de Irmã Lindalva, uma freira nascida em Assu (RN), morta em Salvador (BA), ao se defender
de uma tentativa de estupro, e que foi beatificada recentemente pelo Vaticano.
Uma outra forma de mediação se deu pela criação de um jornal do próprio grupo
intitulado O Voluntário, o qual contava com a participação do frade e de alguns voluntários.
Segundo uma das minhas informantes, jornalzinho teve apenas três números e não continuou
por causa do custo. O editorial do jornal, em sua primeira edição de julho de 2005, dizia o
seguinte:
A todos os voluntários e Simpatizantes, o nosso abraço! É com grande alegria que
juntamente com a equipe do Jornal “O Voluntário” que comunico mais essa
novidade do nosso grupo: o informativo numero 1 que está nascendo agora com
estas primeiras linhas ansiosas de vontade de comunicar, informar e trocar
informações. A idéia nasceu de um colóquio com Deus em minhas meditações de
madrugada à fora. Veio a pergunta ou sugestão: já que não pode atender tantas
pessoas, nem comunicar tudo, porque não criar um informativo? E foi aí que
comuniquei a algumas pessoas e lembrei do dom de nossa voluntária Diva e ela
vibrou, e aprovou a idéia. E aqui vamos nos engatinhando com esse primeiro
número com muita novidade. Esse número é como um experimento. Aceitamos
sugestões e também a sua contribuição através de artigos ou alguma novidade.
Participe, leia. Vamos continuar? Um abraço! Frei Jerônimo
Editorialmente, o jornal organizava-se da seguinte forma: Editorial, Aconteceu,
Espiritualidade - Frei Jerônimo, Recanto Poético – Diva Veloso, Seu Testemunho,
Homenagem, Ambulatório Médico, Aniversariantes do Mês, Rir É o Melhor Remédio,
Receitas, Nossos Comerciais.
E seu expediente, estava assim divido: Diretor Responsável – Frei Jerônimo; Redação
– Diva Veloso; Reportagens – Voluntários do “Grupo de Oração e Ação Social Frei
Jerônimo”; Revisão – Frei Jerônimo; Ilustração – Diva Veloso e Ângela Lopes; Impressão –
Copiadora Piedade; Sócios colaboradores – Dayse Maria e Ailson Alves.
90
No que diz respeito ao meu papel como mediadora, oriunda da universidade, destaco o
interesse e o contentamento que Frei Jerônimo e o GOASFJ demonstraram, quando sugeri a
realização desta pesquisa, com vistas ao meu curso de mestrado em Antropologia na UFPE.
Logo, eles perceberam o quão interessante seria criar uma interlocução com a Academia, no
sentido de dar visibilidade e reconhecimento ao trabalho do frade e do seu grupo. Isso ficou
patente em vários momentos: quando fui anunciada publicamente como pesquisadora do
GOASFJ; quando o Jerônimo fez passar a expectativa de que eu estaria “escrevendo um livro
sobre ele”; quando fiz captação de imagens em vídeo durante um mês inteiro (maio de 2008) e
percebemos que o frade, a título de facilitar a filmagem, anunciava nossa presença ao
microfone na qualidade de “pesquisadores da UFPE”, e os voluntários arrumavam mais
fotogenicamente o altar e o palco; quando, nessas filmagens, o frade caprichava no sermão e
os fiéis na emoção; quando fui convidada a falar como especialista em um dos programas
televisivos preparados especialmente para entrevistar Frei Jerônimo; e, finalmente, quando, na
aventura eleitoral em que Frei Jerônimo se meteu, fui surpreendida com um pedido para
conceder um depoimento gravado ao guia eleitoral de sua campanha a vereador, o qual,
obviamente, não pude atender.
Aliás, é esse outro tipo de mediação, o político-partidário, que julguei mais relevante e
que reservei para ser explorado no capítulo que se segue, intitulado: A Lei e o Profeta.
91
Capítulo IV - A Lei e o Profeta
30
4.1 - Igreja, hierarquia e poder
“Um profeta não recebe honra na sua própria pátria”
(João, 4:44).
Somente quem tem a vocação da política terá certeza de não
desmoronar quando o mundo, do seu ponto de vista, for demasiado
estúpido ou demasiado mesquinho para o que ele deseja oferecer.
Somente quem, frente a todas as dificuldades, pode dizer "Apesar
de tudo!" tem a vocação para a política (Max Weber, 2002: 89).
No campo do Catolicismo contemporâneo, observamos a emergência de padres, cuja
ênfase nos ritos de cura e no exorcismo espiritual é procurada pelos fiéis, em suas demandas
concretas por cura física e espiritual, restabelecimento amoroso e estabilização financeira. Em
contrapartida, cai o interesse por discussões metafísicas, éticas e filosóficas, próprias de uma
elite intelectualizada, sacerdotal ou leiga.
31
No GOASFJ surpreendemos esse conflito institucionalização vs. desinstitucionalização
na figura de um padre - autor da frase que intitula este artigo – que, acusado de curandeirismo,
é afastado pelo arcebispado e torna-se, nas franjas da Instituição, líder carismático e resistente
de um grupo de católicos “reencatados”. Frei Jerônimo maneja uma retórica que, de um lado,
rivaliza com o legalismo hierárquico e, de outro, empatiza com as demandas emocionais do
seu público. Com seu carisma pessoal e uma nova ritualística - onde é largo o uso da emoção,
da performance e da mística religiosas - Frei Jerônimo propõe um desafio à Igreja
30. Este capítulo, em sua versão preliminar, foi apresentado em forma de artigo, escrito em parceria com João
Marcelo Silva (CRUZ e SILVA, 2008), no XV Ciclo de Estudos sobre o Imaginário, congresso internacional
realizado em outubro de 2008. Agradeço aos professores Roberto Motta e Cristiany Morais (PPGA/UFPE),
coordenadores do Fórum XVIII - O Envolvimento simbólico nas religiões Cristãs -, pelos valiosos comentários,
críticas e observações, as quais foram plenamente incorporadas ao presente texto.
31. Com a expressão “caia o interesse por discussões metafísicas”, o que quis salientar é precisamente o que a
expressão diz: as pessoas parecem estar cansadas de debater filigranas teóricas sobre atos milagrosos, dons do
Espírito, ação efetiva de anjos ou demônios e outras teorias esgrimidas por teólogos, filósofos e especialistas da
religião. O que observo, com mais intensidade, são crentes interessados na solução de seus problemas mais
comezinhos. Minha afirmação não significa, em absoluto, que o povo deixou de se impressionar por seres ou
fenômenos de ordem metafísica, até porque, se isso fosse verdade, o fenômeno Frei Jerônimo careceria
totalmente de sentido para seus fiéis.
92
institucionalizada: envolver-se nos anseios do seu rebanho, para desenvolver-se no minado e
cada vez mais desregulamentado campo religioso atual.
O grupo, ora em estudo, como já foi informado, surgiu logo após o afastamento do
seu líder das funções religiosas e sacerdotais na Igreja Católica. No contexto histórico, tudo
começou quando as igrejas de São Pedro Mártir, do Bonfim e de São José dos Pescadores,
todas localizadas no perímetro histórico de Olinda, estavam precisando de um novo vigário.
Nessa ocasião, o Arcebispo de Olinda e Recife Dom José Cardoso Sobrinho convidou o
franciscano Jerônimo Gomes de Souza para celebrar missas naquelas paróquias. As missas do
frei aproximavam-se do modelo da Renovação Carismática Católica (RCC), conhecido por
suas ênfases em experiências emocionais e ações performáticas, com muito canto, danças e
animados louvores (MAUÉS, 2003). No modelo interposto pelo nosso frei, foi enxertada, a
nosso ver, uma raiz de Catolicismo popular, que assenta em camadas profundas de um
imaginário latente, onde vigora a crença em poderes mágicos e extraordinários, representados
pelo recurso a exorcismos espirituais e possibilidades de curas milagrosas.
Esses diferenciais, de forte apelo emocional, fizeram grande afluência nas missas do
Frei Jerônimo de fiéis que se achavam pouco motivados pelo modelo tradicional das missas
católicas. E a crescente movimentação de pessoas não passou despercebida, nem à cúpula do
arcebispado, nem aos padres mais tradicionais da cidade. Estes viram suas igrejas se
esvaziarem, por influência do carismático frei, provocando a ciumeira usual e o disse-me-
disse típico dos incomodados (e acomodados). Aquela tratou de vigiá-lo de perto, aguardando
o momento em que pudesse pegá-lo pela infração de alguma regra canônica, o que - no caso
de um padre a quem eram atribuídos dons sobrenaturais - seria apenas uma questão de tempo
e oportunidade.
Mas, antes que prossigamos com a análise dos desdobramentos enfrentados pelo frei
e seus seguidores, importa saber como ele se tornou, no plano mitológico, de padre dissidente
a líder carismático, revestindo-se, aos olhos do seu grupo, de dons sobrenaturais que poderia
dispensar a mancheias. Ou seja: qual é o mito de origem desse grupo que, de par com um frei
obstinado e pouco submisso, elaborou para si um lugar de pertencimento religioso nessa área
sombreada e misteriosa, localizada nas franjas da Igreja, onde a hierarquia sacerdotal e a
doutrina dogmática são ofuscadas pela ação mais eficaz e direta do divino e do maravilhoso?
93
E dito isso, interessa definir também quais mediações simbólicas e sociais o padre e
seu grupo põem em movimentação para se legitimarem, seja internamente, enquanto grupo de
leigos religiosos, constituídos à revelia da hierarquia católica romana; seja externamente, em
associação com outras instâncias de poder fora da Igreja institucionalizada.
4.2 - Mito, ritual e autonomia religiosa
“Se não virdes sinais e prodígios, de modo algum crereis...!”
(João, 4:48)
Se este texto fizesse parte do códice de alguma história sagrada, a hagiografia de Frei
Jerônimo começaria mais ou menos assim: certo dia, uma senhora, assídua das missas do frei,
aproximou-se e lhe pediu que curasse as dores e feridas de sua perna, afetada pela erisipela.
Segundo ela mesma nos contou, a cura teria ocorrido de forma milagrosa. A narrativa diz que
Jerônimo abençoou a água que estava num copo e pedido que a mulher lavasse com ela suas
feridas antes de dormir. Quando acordou, a senhora estava livre da doença.
32
A partir do “milagre de Jupira” – verdadeiro mito fundante do grupo de seguidores
do padre -, multiplicaram-se outras supostas intercessões divinas, sustentadas por fiéis
dispostos a dar testemunho das curas e benções realizadas por Jerônimo em suas missas.
Desse modo, por causa de seus dons recém-descobertos, o frade logo ganhou prestígio e
tornou-se uma liderança religiosa importante na Olinda católica dos anos 90, capaz de
rivalizar com sacerdotes mais antigos e desafiar setores conservadores da Igreja, que não
dispunham de tal carisma perante o povo. Numerosas foram as queixas dos padres antigos, já
com muitos anos de sacerdócio, porém com pouco apelo popular. Devido a essas reclamações,
aliadas à política legalista de Dom José Cardoso Sobrinho,
33
em meados de 1997, Frei
Jerônimo foi acusado de praticar curandeirismo dentro da Igreja e, após correr todo um
trâmite canônico, é finalmente afastado de suas funções religiosas e sacerdotais pela Cúria
Metropolitana.
32. É digno de nota como a narrativa do “milagre de Jupira” – pelo menos como é elaborada pelo Frei Jerônimo -
se assemelha estruturalmente aos episódios de cura milagrosa contidos nos evangelhos, como, por exemplo: A
cura de um cego de Betsaida (Mc, 8: 22-26), O cego de Jericó (Mc, 10:46-52) A cura de um coxo (At, 3:1-10),
etc.
33. Trata-se de um prelado oriundo da diocese de Caruaru, que recebeu, do papa João Paulo II, a árdua tarefa de
substituir o carismático dom Hélder Câmara - bispo progressista, politizado e atuante das causas sociais – e
reformular politicamente a diocese de Olinda e Recife, seguindo as diretrizes mais canônicas da Igreja, o que
significava fazer uma inflexão mais conservadora e intimamente aliada com a Cúria Romana, enquadrando, por
exemplo, aqueles sacerdotes mais ligados à Teologia da Libertação ou que pudessem representar algum tipo de
desvio ao programa traçado pelo cardeal Karol Wojtila (SERBIN, 2008).
94
Em seguida, o frei foi convocado pela Ordem dos Franciscanos Menores, da qual
fazia parte, para prestar esclarecimentos sobre a suspensão. O provincial dos franciscanos
determinou que Jerônimo ficasse restrito ao convento em Olinda, participando apenas de
atribuições internas. Contudo, o frei não aceitou ficar afastado das pessoas que o procuravam
e pediu, finalmente, o seu desligamento da Ordem.
Todavia, ao contrário do que era esperado pelos seus críticos, os devotos de
Jerônimo não o abandonaram. Numa tentativa de fazer frente à decisão da Cúria, os
seguidores do frei o acolheram e criaram o GOASF, para dar vazão à sua recém-conquistada
autonomia. Tal disposição, é claro, punha o frei e seus adeptos em linha de colisão com o
Arcebispo. No Jornal do Commercio de 12 de dezembro de 2001 (ver anexo 9) podemos ler a
seguinte notícia, ilustrando a determinação do frei em continuar desafiando a autoridade de
Dom José, sem deixar, contudo, de apelar à confiança depositada nele por seus seguidores:
[...] Indiferente à proibição, pela Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Olinda e
Recife, de exercer qualquer função sacerdotal e “seu suposto dom de curas”, o padre
Jerônimo Gomes de Souza comandou ontem mais uma noite de louvor ao Espírito
Santo, no Clube Atlântico de Olinda. “Vou continuar o meu trabalho ao lado do
povo porque sou um padre independente. Somente o papa pode me impedir de
exercer meu sacerdócio”, afirmou. Frei Jerônimo, como é chamado por ter sido frade
franciscano, disse que o arcebispo Dom José Cardoso manda apenas nas igrejas sob
sua jurisdição. “Não manda nos colégios particulares, nos clubes e nas casas onde
realizo os louvores pela vontade de meu povo.” Em junho de 1997, ele foi afastado
da Arquidiocese, pelo arcebispo, sob a acusação de praticar uma antiliturgia. Na
época, o religioso celebrava missas de cura dos enfermos, na Igreja de São José, em
Olinda. (JORNAL DO COMMERCIO, 2001: 2)
Sabemos que o GOASFJ foi criado por leigos “decepcionados” com a liturgia
tradicional, que afirmam terem recebido muitas bênçãos e curas através dos louvores de um
sacerdote insubmisso da Igreja, mas carismático para seu povo. Tais celebrações têm uma
forma ritual que se assemelha à missa católica, porém – o que é significativo - sem a parte da
eucaristia, uma vez que esta foi vedada ao frei pelo Arcebispo. A reportagem da citação
anterior fornece também uma breve descrição dessa nova ritualística que, junto ao mito do
“milagre de Jupira”, forma um par diacrítico reflexivo e revelador da nova face religiosa que
emerge a partir da organização para-institucional dos seguidores do frei:
95
[...] A noite de louvor, com duração de pouco mais de duas horas, começou com frei
Jerônimo dizendo que com perdão e fé no coração tudo se resolve, tudo se cura, pela
vontade de Jesus e do Espírito Santo. Depois, o padre leu uma passagem do
Evangelho sobre o bom pastor que vai atrás de uma ovelha desgarrada. “O
verdadeiro pastor se preocupa com seu rebanho e não com o templo de pedra e
as leis”, completou. Na hora das curas e graças, as luzes se apagaram e o sacerdote
pediu que Jesus tocasse nas partes enfermas das pessoas. “Jesus cura porque a gente
crê”, ensinou. Com velas acesas, os presentes, silenciosamente, pediram que suas
graças fossem alcançadas. Depois, frei Jerônimo aspergiu água benta e abençoou
muita gente. O louvor terminou com os testemunhos de curas, que as pessoas
disseram ter obtido com a ajuda das orações do padre. (JORNAL DO
COMMERCIO, 2001: 2) (Grifo nosso).
Ao analisarmos rapidamente a cerimônia descrita acima, vimos que ela possui certo
paralelo com a estrutura da missa católica, pois é fácil reconhecer elementos aproximativos da
liturgia da palavra (primeira parte do rito romano), a exemplo da leitura do Evangelho e da
homilia (BECKHÄUSER, 2004a). Contudo, em campo, observamos também a ocorrência de
elementos da segunda parte da missa, a liturgia eucarística, como é o caso da oração
comunitária e do ofertório. Tal estratégia condiz com estratégias de legitimação do tipo intra
pares, a partir de uma reelaboração dos signos rituais católicos conhecidos, evitando um
rompimento radical com a base da tradição religiosa de origem.
Essa estratégia explicaria também, em face da desinstitucionalização do frade e de
seu grupo, o fato dele não se permitir romper com a proibição diocesana de consagrar e
distribuir hóstias nos louvores, reservando esse ritual às missas dominicais em sua casa. Será
uma estratégia para deixar uma porta aberta, visando um possível retorno à Igreja
institucional, após D. José?
Depois de identificarmos semelhanças na “antiliturgia” de Frei Jerônimo com o
modelo tradicional católico, passemos agora a ressaltar as diferenças. E uma é particularmente
significativa para a elaboração dos sinais diacríticos necessários à reelaboração e afirmação da
identidade do grupo dissidente. Com relação, agora, à segunda parte da estrutura ritual da
missa, recordemos que a eucaristia é a rememoração ritualizada tradicional do mito cristão
máximo: o sacrifício da vítima pascal - o Cristo morto e crucificado, que ressuscitou ao
terceiro dia -, cujo significado é discutido há dois milênios por santos, eclesiásticos, filósofos,
teólogos e leigos cristãos (BECKHÄUSER, 2004b).
96
Na segunda parte do seu louvor, vimos que Frei Jerônimo introduz, no ritual, a
novidade do apagar das luzes e do acendimento das velas, sobre o qual é possível fazer
homologias simbólicas com o envolvimento do crente na leitura mitológica do sacrifício do
Calvário: à trajetória que vai da crucificação de Jesus, passando por sua descida ao túmulo e
daí para a glória da ressurreição. Impedido de celebrar a eucaristia, Frei Jerônimo contorna
esse obstáculo realizando uma pequena mutação na estrutura da missa, substituindo o
momento da consagração do pão e do vinho – símbolos do sacrifício pascal – pela
consagração de sua própria personalidade, reafirmando o compromisso como o mediador
legítimo do mistério milagroso, ao pedir inúmeras vezes pela cura dos seus fiéis e aspergir a
água benta, mecanismos pelos quais ele é reconhecido como o novo portador da graça e da
salvação, à vista de todos.
Esse simbolismo é bastante explorado no imaginário comum dos cristãos por vários
outros líderes personalistas e dissidentes da Igreja. Assim, temos, na substituição operada na
mesa eucarística, a atualização do mito cristão, centrado agora no milagre da cura efetuada por
Frei Jerônimo. Essa simples troca tem o grande poder simbólico de identificá-lo com o
próprio Cristo, pois contamos com a interação, a cada louvor, do dom milagroso que, por
intermédio do padre, veio e vêm ao mundo para a solução de sofrimentos, doenças e
complicações várias dos seus seguidores.
Tais desdobramentos, em torno da eucaristia – o sacrifício simbólico, para os
cristãos, do cordeiro pascal - se aproximam de um quadro teórico esboçado por Motta (1995)
num estudo comparativo sobre ritual e sacrifício entre as religiões “do corpo e do gesto” (O
candomblé da Bahia e o Xangô do Recife), e as religiões “abstratas” (católica e reformada).
Segundo esse autor, as primeiras, ao contrário das religiões abstratas, inclinam-se mais para os
problemas concretos, como a saúde do corpo, a estabilidade financeira, etc. Junto a isso,
Motta afirma que a problemática da eucaristia representa uma “questão básica das ciências
sociais da religião, ou mesmo de toda uma filosofia da história, envolvendo o problema da
modernidade e da ascensão da racionalidade” (MOTTA, 1995: 38).
Dito isso, Motta, em sua comparação, termina por postular, no estudo citado, a
existência de certo deslocamento conceitual em torno da idéia de sacrifício, naquilo que ele
denomina de “período pós-eucarístico”. Em suas palavras:
[...] Não esqueçamos que, na concepção católica, a eucaristia constitui verdadeiro
sacrifício, que só se distingue de outros sacrifícios por seu caráter incruento e isto
97
apesar de sua constante referência ao sacrifício sangrento, que representa ou
"reapresenta" [o sacrifício da cruz]. Poderíamos talvez falar de um regime
eucarístico que teria substituído o regime sacrificial da antiguidade. Mas o Ocidente
parece hoje atravessar [um] período tanto pós-sacrificial como pós-eucarístico
(MOTTA, 1995: 38) (Grifos do autor).
Desse modo, poderíamos interpretar pós-eucarísticamente a substituição pela hóstia
que faz Jerônimo em sua liturgia? Dado que o frei coloca em movimento recursos que se
aproximam do cânon católico, para logo depois abandoná-lo, reinterpretando-o ao sabor das
demandas emocionais concretas de sua clientela, acentuando o caráter gratuito da cura e da
solução de problemas bem mais próximos ao horizonte de visão do público leigo, a exemplo
de temas como: saúde, paz, amor, dinheiro, etc. Estamos aqui, numa região muito distante das
filigranas metafísicas das discussões teológicas e das impenetráveis equações filosóficas, bem
ao gosto da elite da Igreja.
Não é por outro motivo - senão pelo apelo à união dos seus seguidores em torno de
um projeto por autonomia da hierarquia eclesiástica e cuja retórica invoca uma ação direta e
sem mediação, alheia ao controle da Igreja sobre a vontade divina – que o frade evoca a figura
do “Espírito, que sopra aonde quer” como símbolo máximo de sua proposta crítica e
reestruturadora. O apelo imediato de Jerônimo aos poderes do Espírito Santo, seu padrinho
divino, reproduz no discurso e na prática ritual do frei uma nova mediação, na qual sobressai a
fusão de elementos carismáticos e espiritualistas. Ele incorpora, por assim dizer, um desejo do
grupo de fazer dos louvores um novo símbolo de identidade religiosa, tornando-o a pièce de
résistance da luta do frei e seus seguidores pela liberdade de criar seu próprio sentido, sua
própria exegese da vontade e da ação divinas no mundo.
4.3 – Carisma, dom e aliança
“Se Deus é por nós, quem será contra nós...?!”
(Romanos, 8:31)
Para qualquer novo grupo religioso (passada a fase de dissidência e iniciada a etapa
de formação) não basta afirmar-se internamente por meio de uma readequação de ritos e mitos
aos desejos e necessidades materiais e simbólicas dos seus integrantes. Embora, na maioria
das vezes, haja a liderança de um líder carismático - a quem são devotados o reconhecimento,
a admiração e a confiança extrema - o que facilita (e muito) a pacificação das tendências
internas à desagregação e o controle da emergência de conflitos naturais. Diante de seu grupo,
Frei Jerônimo desempenha a contento o papel de grande mediador, quanto mais não seja pelo
98
sentimento disseminado entre todos de que seria ele o portador de dons divinos que, em última
análise, fundamentaria a existência desse grupo de leigos. Não obstante tudo isso, é também
igualmente necessário fazer alianças externas do tipo extra pares, inda mais quando estamos
diante da ação de dissidentes de uma instituição poderosa, como é o caso da Igreja Católica.
Após seu afastamento, Jerônimo, a princípio, prosseguiu dando bênçãos e celebrando
seus louvores (pois, desde a suspensão, como sabemos, ele foi proibido de dizer missa em
público) nas casas de pessoas que o procuravam cada vez mais, aumentando o número dos
seus seguidores. Logo, tornou-se necessário a procura de um espaço mais amplo para atender
a todos. Uma parte do grupo conseguiu o apoio de uma escola privada localizada em Piedade
(em Jaboatão dos Guararapes, cidade ao sul da capital pernambucana), onde todas as quintas-
feiras ocorrem as celebrações. O público que comparece ali é, em sua maioria, de um perfil
economicamente diferenciado da clientela olindense.
A aliança entre o colégio e o grupo deu-se por intermédio de uma voluntária que se
tornou coordenadora do grupo em Piedade. Esta solicitou ao proprietário da escola um espaço
para que fossem realizados os louvores do Frei Jerônimo, ressaltando exatamente os seus
talentos para fazer curas milagrosas. O número elevado de pessoas que seguiam o religioso
também foi usado como argumento, bem como o acordo razoável de que as despesas
proporcionadas pelo evento - energia, água e limpeza do local - seriam compensadas com
contribuições pecuniárias dos fiéis. O próprio diretor figura, até hoje, como participante
assíduo dos louvores, afirmando ser seu colégio muito abençoado, desde que o frei começou a
realizar suas orações por lá, o que contribui para o reforço do carisma do padre. Muitos desses
simpatizantes aderiram às equipes de voluntários, ou passaram a contribuir com pequenas
doações mensais.
99
Fi
g
ura 31: Louvor na
q
uadra do colé
g
io ELO
,
em Boa Via
g
em.
Por sua vez, na base original do grupo, em busca de um apoio mais efetivo para sua
causa, Jerônimo e alguns fiéis decidiram recorrer à Prefeitura de Olinda, que curiosamente na
época era governada por um partido comunista. A prefeita o atendeu, liberando alguns prédios
públicos para a realização dos louvores, entre outras doações e recursos. Assim, os louvores
do Frei Jerônimo começaram a ser realizados no mercado público Eufrásio Barbosa que,
posteriormente, foi fechado para reformas, sendo o culto transferido para o Clube Atlântico,
onde é realizado atualmente.
Uma outra forma de mediação externa foi a decisão do grupo de inaugurar um serviço
de assistência, cujo público alvo foi um grupo de idosas que passaram a freqüentar os louvores
do Clube Atlântico, a quem o frei logo acolheria – ao mesmo tempo - como base de apoio e
finalidade para seus projetos assistencialistas. A fim de atender essa nova clientela, o frei
mobilizou voluntários para arrecadar mantimentos e remédios e na feitura de grandes
caldeirões de sopa, que passou a distribuir, antes das cerimônias religiosas, para as suas
“velhinhas”.
Em julho de 2008, fomos informados de que Frei Jerônimo se lançaria candidato à
Câmara de Vereadores de Olinda. Interpretamos isso como mais uma forma de mediação
orientada ao exterior dos limites do grupo, por intermédio da qual, o frei buscava legitimar-se
diante do processo de desinstitucionalização operado num movimento para fora da Igreja. Só
que, dessa vez, o frade estava se movendo por um terreno mais arriscado e imprevisível, pois
lançava no pano verde as fichas de suas próprias qualidades (reais ou fictícias), avalizadas
pela chancela de um novo aliado: um político profissional - como todos os neófitos fazem.
100
Fi
g
ura 32: Convite
p
ara o
j
antar de adesão da candidatura a vereador de Frei Jerônimo.
A decisão do frei criou certa polêmica dentro do grupo, na medida em que alguns
voluntários e freqüentadores lançaram dúvidas sobre o seu acerto. Cedo, alguns fiéis mais
perspicazes já faziam previsões sobre o fim do grupo e a perda do dom pelo seu frei:
“Se ele perder, vai ser ruim, né? Mas se ele ganhar, vai ser ruim também, pois como
ele vai dar conta do louvor e atender esse povo todo? Como vereador ele vai ter
outras responsabilidades...” (Informação fornecida por meio de conversa informal).
“Tenho pra mim que o frei pode perder seu dom. Os franciscanos têm esse dom, Frei
Jerônimo, frei Damião... Os outros não têm esse dom. Mas quando se mistura com
política, não dá certo. Tenho medo que esse grupo se acabe...” (Informação
fornecida por meio de conversa informal).
“Eu acho que ele não vai ganhar. Essa candidatura vai acabar com o grupo...”
(Informante 19, voluntária. Conversa informal).
101
Figuras 33, 34, 35 e 36: Propaganda eleitoral da campanha a vereador de Frei Jerônimo em 2008.
102
O grande problema é que o partido, pelo qual o frei se candidatara, era de oposição à
prefeitura de então. O candidato que apoiara - inclusive com declarações veiculadas no guia
eleitoral televisivo - era adversário da prefeita. Isso acarretaria uma crise interna e outra
externa ao grupo. Externamente, o grupo da prefeita tinha avaliado o ato como uma traição
política do frei, na medida em que, todos esses anos, depois do rompimento com a
Arquidiocese, a prefeita o apoiara, mesmo atraindo para si as críticas constantes do Arcebispo.
Estudando as mediações políticas construídas por grupos institucionalizados de afro-
umbandistas no Uruguai, frente às disputas provocadas pelo proselitismo agressivo da Igreja
Universal do Reino de Deus (Iurd), Alejandro Frigerio (2007), observou nas:
[...] tentativas de mobilização dos umbandistas [...], a passagem de um marco de
ação coletiva cultural/religioso a um civil (ou de reinvidicação de direitos civis) [...]
[que produziu uma] política de fazer alianças transversais que excedam o âmbito
religioso [...] [o que foi] paradoxalmente, sucedido de uma série de contratempos
que mostram as dificuldades nessa ascensão social, assim como a maneira
heterogênea com que as forças do Estado agem e se relacionam com grupos
religiosos. [...] [haja vista que] Poucos dias após sua entrada na política, esse grupo
de afro-umbandistas teve claras (sic) sinais de que, fora possíveis benefícios, a
estratégia já tinha algum ônus. Um assessor de um dos deputados do partido
governista [...] [afirmou que o governo iria] “[...] trabalhar para que vocês não
tenham sucesso, nem politicamente, nem religiosamente [...]” [...] (FRIGERIO,
2007: passim).
O caso observado na situação resumida acima, mutatis mutandis, pode ser comparado
com as intenções e os dissabores do GOASFJ em também procurar “desenvolver marcos
interpretativos coletivos que impulsionem a construção de identidades coletivas mobilizadas
para a ação”, a qual exija igualmente “mobilizar recursos econômicos e culturais no interior
e no exterior de sua religião, assim como aproveitar a estrutura de oportunidade que lhes
apresenta o meio social em que se desenvolvem” (Ibidem: 73).
Externamente, esses marcos interpretativos podem ser relacionados à forma como Frei
Jerônimo quis ser legitimado por meio de uma carreira política na Câmara de Vereadores,
movimentando forças e apoios, também neste caso, contrários ao partido governante da cidade
de Olinda – fato que acarreta uma série de conflitos de quem mistura indiferentemente uma
103
religião de matriz cristã (essencialmente inclusiva) com a política partidária (necessariamente
exclusiva).
Internamente, por sua vez, rumores davam conta da preocupação dos fiéis com a
exposição do frei a uma campanha eleitoral, que, como se sabe, pode ser qualquer coisa,
menos uma aventura isenta. Deserções não tardaram a acontecer. Por exemplo, havia um
rapaz, um dos grandes colaboradores do frei, que tinha por tarefa fazer um dos caldeirões de
sopa distribuídos às “velhinhas”. Sua sopa era a mais festejada, pois todos diziam ser “a mais
gostosa”. Talvez porque, de todos os caldeirões, este era tido como o mais caprichosamente
preparado, por – de fato – levar pedaços de carne. Pois bem, após o início da campanha
política, esse rapaz estranhamente não foi mais visto nos louvores. Perguntado, um dos
adeptos informou que o rapaz, na verdade, tinha um cargo comissionado no município. Os
ingredientes da sua sopa eram arrecadados por entre os colegas de repartição. Era boato
corrente que o frei havia “traído” a prefeita de Olinda e, como funcionários comissionados,
eles não poderiam seguir ajudando o religioso, sem o risco de contrariar a governante.
Entre os membros do grupo, a opinião corrente era de que o frei não precisava se
envolver em política para dar continuidade ao seu trabalho social, pois – com todas as
dificuldades – ele já o havia desenvolvido durante os últimos 11 anos.
Uma das “velhinhas” mais devotadas ao frei assim se expressou sobre o assunto:
“Ele tem tudo no mundo, Deus mostrou a ele vários caminhos. A gente é a riqueza
deles. Se ele tem a gente, ele não precisa da política. Se ele batesse as fotos da gente
e saísse mostrando, pedindo, ia conseguir tudo...” (Assistida, 68 anos, 09/09/2008.
Informação fornecida por meio de conversa informal)
Quando do rompimento com a Arquidiocese, o frei foi proibido de rezar missas nas
igrejas de Olinda e foi acolhido pelos fiéis, que discordaram da autoridade do prelado. Esses
também promoveram uma aliança com a prefeita, quando reivindicaram um local para os
cultos. No episódio da candidatura, embora ele tenha declarado ter feito uma consulta aos fiéis
(o que não comprovei), pareceu-me que, de fato, a decisão de se opor à prefeita nasceu de uma
articulação que envolveu umas poucas pessoas – a liderança do grupo -, excluindo a maioria
dos voluntários e a opinião das suas “velhinhas”.
104
Durkheim foi quem primeiro postulou que a religião seja um sucedâneo da sociedade -
Deus sive societas, na fórmula durkheimiana (PALS, 1996). O culto seria uma forma de
atualização dos valores capitais e coletivos, ao mesmo tempo uma celebração do vínculo e da
lealdade social e uma rememoração dos valores éticos de cada grupo (DURKHEIM, 2000;
PALS, 1996).
Na fala da “Velhinha” (assistida), reproduzida acima, vimos um cintilamento da teoria
de Durkheim. O que ela está lembrando claramente é centralidade do grupo para a
afirmação/manutenção do sagrado na ação do frei. A taumaturgia de Frei Jerônimo, entendido
como ação simbólica, só existiria enquanto produto estruturado por uma coletividade que para
ela se volta, como pletora de sentidos e de ações concretas. Excluam-se as partes do processo
decisório e veremos advir perigosas conseqüências para a coesão do todo.
Na estrutura do louvor, o ritual de cura presidido pelo frei estrutura-se através do apelo
sistemático à reprodução do “milagre de Jupira” (mito de origem, gerador de toda a existência
do grupo e do próprio frei), que distingue e reveste a identidade do grupo, tido como conjunto
de possíveis candidatos ao “toque do senhor”. Ao ritual de cura, segue-se o de testemunhos de
cura, que são a prova mesma da presença divina, introduzida pelo discurso nas mãos e na boca
do frei milagreiro. Nesses discursos, de ordinário, ressalta-se o compromisso do fiel, pela
valoração positiva da crença, como o sinal diacrítico daquele que foi “tocado”, ou está em vias
de ser curado:
‘Tem pessoas que não acreditam em milagres. Mas [eles] existem mesmo. É como
ele [o frei] fala: “as pessoas só recebem quando estão de coração limpo”. Outras só
sabem pedir, não lembram de agradecer. Você pede, pede, mas não está ajudando.
Quando você muda o seu coração, e seu modo de pensar em relação aos outros e a
você mesmo, começa a se abrir os caminhos. Aí vêm graças e bênçãos. Já recebi
várias graças e sei que vou receber muito mais, depende de mim. O Deus
é um só,
não precisamos trocar de religião. Por que é que as pessoas mudam de religião e
conseguem graças que não conseguiam na Igreja Católica, ou em outras religiões? É
porque faltou fé, você não conseguiu na sua religião e conseguiu na outra. Porque lá
você teve fé e na sua você não deu crédito ou não soube pedir” (Testemunho escrito
por uma fiel que se disse curada pelo Frei Jerônimo. O sublinhado está no original).
Essa mesma trama de discursos revela a missão do frei como taumaturgo (fazedor de
milagres), o qual lhe valeu um anátema da Arquidiocese, e a posição identitária do grupo
105
como recebedor de hipotéticas graças. Temos aí uma clara relação de reforço e auto-reforço,
que a “velhinha” Felipa perspicazmente detectou quando afirmou: “Nós somos a riqueza
dele”, subentendendo esse “nós” como reconhecimento do liame fundamental que define o
assentimento (a fé) do grupo de fiéis como “capital simbólico religioso”, disputado (e perdido)
pela hierarquia religiosa tradicional, agora barganhado pelo frei, como moeda de troca em
acordos políticos partidários.
A partir de uma interpretação mais weberiana, percebemos, portanto, que, sem o
assentimento dado pelo grupo, os dons do frei não fariam qualquer sentido, pois são
reconhecidos e atribuídos pelos fiéis ao padre. Para Weber a dominação carismática – cujos
tipos puros são a liderança do profeta, do herói e do demagogo – tem base numa relação que
transforma os liderados em apóstolos, por abraçarem uma fé comum, um testemunho vivo ou
rastro de uma origem divina, de um poder sobrenatural e extra-cotidiano, numa palavra:
revolucionário, por se opor às regras da dominação tradicional e burocrática (WEBER, 2004).
Para Weber:
[...] A autoridade carismática baseia-se na “crença” no profeta ou no
“reconhecimento” que encontram pessoalmente o herói guerreiro, o herói da rua e o
demagogo, e com eles cai. E, todavia, sua autoridade não deriva de forma alguma
desse reconhecimento por parte dos submetidos, mas ao contrário: a fé e o
reconhecimento são considerados um dever, cujo cumprimento aquele que se apóia
na legitimidade carismática exige para si, e cuja negligência castiga [...]. (WEBER,
2004: 136).
Numa perspectiva complementar, para além dos elementos de irracionalidade,
emocionalismo e de obediência a uma ordem revelada e criada pelo líder carismaticamente
qualificado, ressaltados na dominação carismática, a antropóloga Roberta Bivar Carneiro
Campos (2005) chama a atenção para um caráter pouco enfatizado pelos estudiosos dos
escritos políticos de Weber. Ao estudar o carisma como incorporação da caridade e da
penitência, no ethos mendicante dos “Ave de Jesus” - grupo milenarista de Juazeiro do Norte
(CE) -, Campos reconhece que a exigência coletiva da performance do sofrimento de Jesus,
por meio da penitência e da mendicância, como fonte privilegiada do carisma que fornece
identidade, coesão moral e densidade social àquele grupo de penitentes por ela pesquisado.
[...] os Ave de Jesus dependem do carisma para o reconhecimento de seu modo de
vida e com isso a eles serem ofertadas esmolas. Isso implica que a vida exemplar
106
precisa ser performada expressivamente, ou melhor, carismaticamente por todos os
membros para que aqueles que não pertençam ao grupo ofertem suas doações em
comida, roupa e utensílios domésticos. [...] Pode-se entender que para a realidade
desses mendicantes o reconhecimento moral do modo de viver depende do cultivo
do carisma. Meu argumento então é que carisma, entre os Ave de Jesus, vai além da
questão da liderança e da dominação. O carisma nessa comunidade permeia, além do
político, outras dimensões da socia(bi)lidade do grupo. O carisma certamente tem
papel especial na relação líder e seus seguidores, mas exerce papel fundamental em
relações horizontais entre os próprios seguidores, e entre estes e outsiders
(moradores e peregrinos de Juazeiro do Norte). [...] A conduta de cada um dos
membros dos Ave de Jesus, e não somente a do líder, deve ser exemplar.[...] Quanto
mais o modo de ser de um Ave de Jesus aproxima-se da imagem de Jesus, maior é o
reconhecimento [pelo líder, pelos companheiros, pelos outsiders] [...] (CAMPOS,
2005: 119 e 120).
Contudo, em relação ao problema da manutenção do carisma, enquanto performance
de conduta moral, Campos faz uma ressalva. Para os Ave de Jesus:
[...] a mimesis está ao alcance daqueles que se empenham na vida da mendicância.
Entende-se, então, que o carisma pode ser adquirido. Em verdade ele deve ser
perseguido como um fim. [...] Através dos Ave de Jesus aprendemos que o carisma,
além de fonte de liderança, é também fonte de sociabilidade (Ibidem: 120 e 122).
Nesse sentido, poderíamos argumentar que, aquilo que pode ser adquirido (o carisma),
por meio da mimesis de uma vida exemplar, como a do Cristo, igualmente pode ser perdido
pela ausência desse comportamento. Desse modo, ao estendermos o argumento, num paralelo
com o Grupo de Oração Frei Jerônimo, podemos interpretar a liderança do frei, perante seu
grupo, como algo que pode ser questionado, na medida em que pode ser desacreditado, por
não corresponder ao comportamento moral que fornece bases seguras para o exercício da
liderança carismática do taumaturgo – o portador da cura. Se a liderança carismática, como
diz Weber, encontra sua legitimação na fé, que emana do próprio líder carismático – de sua
auto-afirmação, como portador do poder sobrenatural e extra-cotidiano –, essa mesma fé
demanda, por sua vez, do assentimento dos fiéis, como dever a ser cumprido e zelado, nunca
negligenciado.
Assim, se na qualidade de auto-proclamado portador do dom da cura – fruto de sua
fidelidade a Deus –, Jerônimo cobra igual obediência dos seus adeptos, sob a ameaça do dom
107
ser negado ou perdido para sempre, por falta de zelo. Esse mesmo zelo deverá ser cobrado ao
taumaturgo, que deve ser mantido sagrado e protegido pelo grupo. O dom da cura, portanto,
torna-se um valor em si, incorporado e revestido de caráter sacro. Torna-se mesmo um valor
central à existência, constituição e sustentação do carisma do frei, e, por extensão, do grupo.
Se o frei perder esse dom - em aventuras não-sacras, isto é, profanas -, perde também seu
carisma e põe em perigo a coesão e o futuro da comunidade dos fiéis.
Ocorre que, uma das leituras possíveis dos fiéis sobre a aventura política do frei, pode
lançar luz na forma como esse grupo se estrutura em torno da proteção, produção e
reprodução do dom, do qual o ex-frade é o fiel repositório, assim legitimando seu carisma. No
episódio da “traição política”, percebemos, portanto, duas lógicas em conflito aberto, que não
passou despercebido pelos fieis. Uma é a lógica do clientelismo - baseada no populismo típico
de nosso jeito de fazer política, no qual a quebra de lealdades e as reviravoltas de apoio, pela
troca de favores são comuns (e até esperadas) entre os políticos profissionais; e a outra é a
lógica do dom, da prestação e da contraprestação, que cria aliança e compromisso (MAUSS,
2003), nesse caso, construído pela parceria histórica com a prefeita de Olinda. Essa lógica - a
qual o sacerdote atropela em sua decisão de se aliar à oposição - faz ressaltar a suspeita de
traição, haja vista que o frei – do ponto de vista dos fiéis - não correspondeu à contraprestação
assumida, quando se aliaram, enquanto grupo, à prefeita.
Jerônimo demonstra alguma ingenuidade ao permitir ser influenciado por um
candidato oposicionista, apostando apenas em seu carisma, ou na leitura que deles fazem os
seus adeptos, já que propostas concretas ele não informou nenhuma. O motivo alegado pelo
frei para se candidatar é o de conseguir fundos para a construção de uma vaga “Fundação Frei
Jerônimo”. Ele se esquece ou ignora que, como diz o adágio popular, “Deus dá, Deus tira”.
Trata-se de uma aposta alta, que remete à briga com o Arcebispo, ocasião na qual,
segundo um informante: “Ele foi desobediente, pois comprou uma briga que não podia pagar.
Não tinha armas para entrar nessa briga”, nos confidenciou um voluntário. Outra coisa que
sobressai aqui é a clara divisão do grupo em dois subgrupos que se opõem quanto ao papel do
frei nesse episódio. Um acha que a candidatura seria um “atalho” para a consecução dos
projetos do frei. Nesse subgrupo destacam-se os seus líderes “leigos”, como é o caso de um
médico que presta assistência às “velhinhas” e de uma das coordenadoras, que apóiam a
108
candidatura. Do outro lado estão os obedientes, aqueles que não fazem parte da hierarquia do
grupo, mas temem as conseqüências da experiência eleitoral.
4.4 - Desregulamentação e dessecularização religiosas
“Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”
(Mateus, 22:21)
Na perspectiva da discussão teórica sobre os temas da secularização e da
dessecularização, na esteira da “desregulamentação do campo religioso”, observamos um
acirrado debate em busca de respostas, o qual resultou numa multidão de estudos e na
produção de diferentes, mas fecundas categorias de análise para visualizar as grandes
tendências em transformação no panorama religioso contemporâneo, a exemplo da
emergência das comunidades emocionais (HERVIEU-LEGER, 1997); do enfraquecimento
das instituições eclesiais (BECKFORD, 1989); do fortalecimento de uma nova religião do self
(HEELAS, 1996); do processo de orientalização em curso no Ocidente (CAMPBEL, 1997),
etc.
É claro que nem sempre esses autores concordaram entre si, nem suas teorias podem
ser diretamente intercambiáveis no espaço da mesma equação para o problema. Contudo, eles
tendem a sublinhar a ampliação, cada vez mais perceptível, do voluntarismo, da autonomia e
do individualismo dos fiéis – em sintonia com a modernidade -; em detrimento do apelo
coletivo das instituições - traço comum das religiões tradicionais. Há, portanto, que se discutir
o alcance das teorias que postulam, pela ênfase na desregulamentação institucional, um
inevitável e linear processo de dessecularização da religião, em curso inexorável no campo,
sobretudo recorrendo ao comportamento demonstrado pelos Novos Movimentos Religiosos.
A guisa de conclusão, resta ver se a busca, pelos fiéis, por uma maior autonomia – o
que implica necessariamente um anseio por desregulação religiosa – implicaria também num
rompimento absoluto com as instituições. À luz dos últimos desdobramentos que ocorreram
no GOASFJ, relatados neste artigo, tendemos a relativizar tal proposição, na medida em que
os fatos parecem revelar que – não obstante o desafio desregulamentador lançado pelo frei à
Igreja – paradoxalmente, ainda resultam espaços para cultivar reações institucionalizantes por
parte dos adeptos, pelo menos entre aqueles que interpretaram negativamente a mediação de
109
Jerônimo com a política partidária. O caso relatado denota uma incontornável oposição entre
os campos da religião e da política.
Vejamos, sobre isso, o seguinte depoimento de uma voluntária:
“Eu sei o que é a política, por que meu filho é assessor de um político. E eu vejo ele
fazendo coisas que eu não ensinei ele a fazer. Por exemplo, se ele está em casa e o
telefone toca e ele diz que está em reunião, para não atender a pessoa que ligou. Não
ensinei ele a mentir. Se Frei Jerônimo entrar para política ele não vai se corromper?”
(Informante 19, 47 anos, 09/09/2008 )
Não há dúvida que, retomando mais uma vez ao mestre Weber, todo processo de
desregulamentação, levado a efeito por uma ação carismática, tenderá, com o tempo, a se
burocratizar, a se racionalizar, pois uma revolução desinstitucionalizante tem seus limites e
todo o processo revolucionário, desestabilizador da ordem constituída, acaba, para sobreviver,
se institucionalizando em novas bases (MARIZ, 2003: 176). Em outras palavras, parece que o
frei apostou numa maior autonomia, enquanto seu grupo se manteve, mesmo que de forma
fluida, certa institucionalização, haja vista as suas mediações com a prefeitura e outros
espaços institucionais.
O líder carismático afirma o seu caráter especial, como oriundo de uma natureza
sobrenatural, contudo a repetição automática de seu poder levaria a um processo de
racionalização desse mesmo poder, mediado por discursos de reforço ritualizado, onde a
“experiência” da ação do dom, fonte da renovação espiritual, perde proeminência para uma
reificação da figura do portador do carisma, dos discursos sobre ele e do culto à sua imagem.
Em outras palavras, a experiência do dom, da eficácia do carisma (que produz, numa
comunidade emocional, vínculos, contato, reforço afetivo e sentido existencial a um grupo de
fiéis; fenômeno que vai de par com a desinstitucionalização e a desregulação religiosas, e pelo
qual o ritual, a vivência, a experiência religiosa causa uma impressão emocional e física nos
fiéis) sai de foco para a reemergência da figura do legado religioso, do mediador e agente
vicarius de Deus, concentrando em si poderes excepcionais, dos quais é dispenseiro. Esse
vicarius lidera e faz acordos com o mundo em vez de se rebelar contra ele - ou, pelo menos,
só se rebela contra uma determinada corrente política, por força dos compromissos de
campanha assumidos.
110
Não obstante essa perspectiva, no grupo Frei Jerônimo, pelo contrário, é o caráter
taumatúrgico/mágico original – sustentado pelo assentimento dos adeptos e que remete ao
substrato místico da cultura religiosa popular, sobretudo no Nordeste brasileiro -, que se
afirma, em detrimento, agora, de uma aposta na opção político-partidária. Essa opção traz um
desequilíbrio no sistema de forças que sustentava – pelo dom e o contra-dom – o grupo, na
medida em que introduz uma potência estranha e mundana: o poder político institucional, cujo
mecanismo exclui, ou pelo menos, não se estrutura com base na ação gratuita da dádiva.
Trata-se, aqui, de uma outra lógica de poder.
Em resumo, se é verdade que Frei Jerônimo, expressando seu carisma voluntarista,
liderou um grupo de católicos “reencantados” em uma aventura dissidente da ortodoxia da
Igreja Católica e, assim, ofereceu-lhe um desafio desinstitucionalizante, por meio da
insubmissão à hierarquia eclesiástica tradicional; se é igualmente correto que o ex-frade
habilmente construiu uma associação, por meio de homologias simbólicas, entre as demandas
individualistas de seus seguidores e uma prédica ritualística, propiciatória de curas divinas e
eventos miraculosos - fato que o revestiu de um poder carismático, fundado no assentimento
compromissado de seus seguidores e na fé reconhecida em sua taumaturgia; vimos ser
também correto, pelos desdobramentos narrados neste texto, que as mesmas engrenagens
(desinstitucionalização e ênfase no simbolismo sobrenatural) foram postos em funcionamento
– agora por alguns dos seus voluntários - para impedir que o processo de racionalização
dessecularizante fosse longe demais, além do limite que colocaria em perigo a identidade e a
coesão da comunidade de fiéis, mantida pela circulação do dom sagrado da cura, que deve ser
protegido do risco da perda do carisma ao qual está associado, diante da possibilidade de
negociá-lo em acordos partidários e misturá-lo ao mundo profano da aventura política.
Afinal, quando “o verdadeiro pastor se preocupa com seu rebanho” – tudo o mais é
absolutamente secundário.
111
Considerações finais
Como visto nesta dissertação, busquei analisar, sob o ponto de vista sócio-
antropológico, a formação, estruturação e organização de um grupo de leigos católicos que –
sob a liderança de um líder carismático afastado da Igreja, por entrar em conflito com a
Arquidiocese de Olinda e Recife - optou pelo caminho da desinstitucionalização da hierarquia
católica, pela desregulação de suas práticas litúrgicas e pela autonomização dos seus papéis
enquanto agentes de mediação com outras instâncias da sociedade mais ampla.
No estudo que empreendi, terminei em acordo com as idéias de Marcelo Camurça e
Cecília Mariz (2006), que argumentam em favor do grande pluralismo e da diversidade
religiosos no campo do Catolicismo brasileiro. Tal diversidade pode ser encontrada no Grupo
de Oração e Ação Social Frei Jerônimo (GOASFJ), considerando que, mesmo diante do fato
de terem optado em seguir um padre afastado pela Igreja, não negam seus integrantes a sua
identidade como católicos – até mesmo mais católicos que o Arcebispo, que não soube, não
quis, ou não pode conciliar-se com o frei, preferindo o rompimento ao diálogo, tendo por
seguimento a posterior demissão deste último de suas atividades eclesiais.
Essa matriz de diversidade também se manifesta na forma como o grupo estudado se
reestrutura interna e externamente, após o episódio do afastamento do frade. Nessa
perspectiva, vimos como o GOASFJ empreende um ritmo no qual vigora uma calculada
ambigüidade, considerando que: ora se afasta de modelos eclesiais do Catolicismo romano;
ora deles se aproxima – o suficiente para evitar um rompimento radical com a catolicidade -;
ora os reformula de forma criativa para adaptá-los mais condizentemente com suas demandas
internas.
Nessa perspectiva, percebi como os seguidores do frade têm por modelo tanto as
experiências surgidas no interior da Igreja (tais como os grupos e movimentos de leigos,
alguns tão diferentes entre si, como são as CEB’s e a Renovação Carismática Católica); como
também uma forte influência do Catolicismo tradicional de cunho popular, se consideramos
como dessa categoria a ênfase dada pelos fiéis aos poderes miraculosos do frei, com seus
rituais de cura, exorcismo e de libertação espiritual.
112
Vimos também como o frade, respondendo a essas demandas, produz elementos novos
de liturgia (embora não em doutrina) decalcados da missa católica, combinando-os com
apelos à subjetividade dos seus fiéis, suas emoções e suas preocupações imediatas - como
dores concretas e sofrimentos pessoais - se estendendo – no máximo – aos seus familiares.
Nesse particular, a ênfase na experiência emocional do “toque do Senhor”, cujo Espírito é
corporificado no frade, imanentiza a presença da divindade, tornando-a um agente poderoso
que se manifesta no intramundo, ocupando-se com as necessidades comezinhas dos seus
seguidores e não com as grandes questões teológicas e filosóficas do Ser.
No tocante à organização do trabalho voluntário, a diversidade postulada aqui se
expressa no caráter de desregulação e desinstitucionalização, detectado na relação do grupo
com a hierarquia católica, convivendo com um perfil regulamentado e reinstitucionalizado,
em atendimento às necessidades de organização, manutenção e perpetuação do GOASFJ. Tal
caráter emerge quando os seguidores do frade deliberaram acerca do imperativo de, por um
lado, regular as equipes de serviço voluntário, que tem objetivos definidos e clara liderança; e
por outro, se relacionar com instâncias externas de poder institucional, com as quais buscam
mediação, apoio, afirmação e acordos recíprocos, a exemplo da Prefeitura Municipal de
Olinda, de partidos políticos, de jornalistas e empresários.
Voltando ao diapasão tradicional, agora no sentido de anti-progressista ou anti-
moderno, observamos como alguns fiéis – sobretudo aqueles de extrato social mais baixo e de
pouca instrução – demonstraram resistências e censuras às aventuras político-partidárias de
Frei Jerônimo, afirmando (talvez com alguma sabedoria, já que a aventura não resultou
satisfatória) que “religião não se mistura com política”; querendo talvez dizer que, já que se
tratava de uma disputa eleitoral – o poder autárquico, representado pela figura tradicional do
padre, não se coaduna com as regras do jogo democrático, nas quais sobressaem-se aspectos
de negociação e barganha; marcha e contra-marcha.
Tal não foi o julgamento de algumas testemunhas de extrato social e escolaridade mais
elevados, que constituem, de fato, o subgrupo de voluntários que comandam o GOASFJ. Não
ignorei as esperanças que depositaram na saída político-partidária para a questão do
desenvolvimento e perpetuação do grupo. Também, não deixei de testemunhar a decepção
pela derrota eleitoral, bem como a ira pela suposta “desobediência das velhinhas” que não
113
votaram no frei, bem como suas conseqüências retaliativas – a ameaça do corte na distribuição
“gratuita” de remédios.
Ainda demorando-me nesse viés de observação, percebi igualmente a recorrência de
práticas assistencialistas, para a solução e tratamento dos problemas apresentados pela
clientela mais humilde dos louvores de Frei Jerônimo Embora ele apresente vagos planos de
constituir certa “Fundação Assistencial Frei Jerônimo”, cujo objetivo seria a educação dos
pobres, por meio de escola infantil e cursos profissionalizantes; até o presente momento o
grupo tem se contentado em distribuir mantimentos e remédios às “velhinhas do frei”,
reproduzindo um círculo bem conhecido de dependência clientelista de inclinação
paternalista, bem típicos da história e do ethos brasileiro.
Com Danielle Hervieu-Legér, postulamos que alguns aspectos encontrados nas
celebrações e louvores empreendidos pelo GOASFJ aproximam-se do modelo das religiões de
comunidades emocionais, que apresentam como liderança uma personalidade carismática. O
carismático em questão é um frei afastado da Igreja Católica acusado de “curandeirismo” e de
fazer “antiliturgia”, na perspectiva da Arquidiocese de Olinda e Recife. O mito fundador do
grupo é a cura milagrosa de uma mulher com erisipela. Vimos como o frei retoma esse mito
constantemente, agora sob a forma ritual dos louvores, pelos quais o apelo às curas – repetição
ritual do “milagre de Jupira” – é um lugar-comum. De par com a possibilidade de repetição
desse milagre, há os testemunhos os quais, no plano simbólico, funcionam como mecanismo
de reiteração psicológica dos feitos heróicos do frade. Todo o fiel que alcança uma graça se
predispõe – se obriga até - a relatar essa mesma benção para a comunidade de fiéis,
retroalimentando e pondo em circulação o carisma do frei. Esses dois momentos – os
clamores por cura espiritual e os testemunhos - são estruturados em uma intensa e particular
tensão emocional, que toma a forma ora de atitudes introspectivas de oração, ora de uma
explosão de cânticos e movimentos corporais. Nessa dinâmica, típica dos louvores do Frei
Jerônimo, observei como se recobre de relevância tanto a fala do frei, que se dirige
diretamente aos fieis, sem mediadores, como o contato físico entre eles – em suma, duas
perspectivas do “toque do Senhor” que se distinguem e se complementam, com grande ênfase
na expansão e exposição emocionais.
Após essa breve rememoração, para as quais fiz - a luz das teorias aplicadas - o elenco
e a reflexão das questões que julguei – frente a uma multidão de outros assuntos importantes -
114
de maior relevância para meu argumento, no período em que estudei o GOASFJ, resta saber
agora como esse grupo se apresenta diante da grande discussão existente sobre o campo
religioso contemporâneo, que remete à compreensão dos processos de destradicionalização e
desregulação do campo religioso em relação com os fenômenos da secularização e/ou
dessecularização da sociedade – observados na perspectiva da realidade sócio-cultural
nordestina e brasileira.
A perspectiva teórica mais poderosa, tocante à compreensão do destino, da função e do
lugar da religião na modernidade aponta para uma longa estrada que se estende ate à boca de
um abismo. Os novos profetas de um humanismo laico – a nova religião que emerge
triunfante do abismo superado da superstição e do fanatismo –, como que manejando
profecias que se auto-realizam, já dão como certo a inutilidade e obsolescência das religiões,
suas hierarquias sacerdotais e seus mandamentos irracionais. È tudo uma questão de tempo
apenas, em que o processo de secularização religiosa do mundo, levado a efeito pela expansão
e popularização das luzes da ciência, liquidaria de uma vez por todas com os misticismos e as
ignorâncias dos povos – incluindo-se aí a religião.
Frente ao quadro esboçado por alguns cientistas sociais, que desenha uma curva cada
vez mais descendente no percentual daqueles que se auto-identificam como católicos no Brasil
(onde até surpreendemos uma certa torcida para que tal fato se torne uma realidade
inelutável), poderíamos concluir que o fim da dita supremacia católica (e cristã) seria
igualmente uma questão de tempo, e que – não suficiente com isso – igualmente o fim do
Catolicismo no Brasil, ou pelo menos o começo do fim. Contudo se interpretarmos os dados
frios e duros das estatísticas menos ao pé da “letra que mata”, e mais próximos do “Espírito
que vivifica”, observaremos que, se no aspecto quantitativo o Catolicismo está em queda, tal
como um anjo em direção ao abismo; no qualitativo eles, os católicos, têm demonstrado mais
fôlego para posar de - “Legião: porque somos muitos!”.
A pesquisa demonstrada aqui – e seus resultados – tenta se inserir na discussão dessa
segunda perspectiva. Afinal de contas, o que significa ser católico hoje no Brasil? Para os
integrantes do GOASFJ ser católico significa partilhar de uma comunidade de fiéis
comprometidos, não só com o patrimônio da fé, mas também e firmemente com seus
integrantes; que seja liderada por alguém que demonstre conhecer e se interessar por seus
problemas miúdos, porém concretos e sofridos; que se expresse numa linguagem franca, sem
115
latinismos, e que opere uma abertura não burocrática ao Sagrado, sem alijar-se do mundo
contudo; que não inspire temor, nem faça perseguições, mas traga confiança, compreensão e
acolhimento; que acene com uma esperança sempre nova, diante da presença de um Deus
intramundano, o qual garanta, com sua ação miraculosa, a certeza de que, não importa o que
aconteça, melhores dias sempre virão.
116
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Anexos
Anexo 1: Jornal do Commercio, 07/06/1997
121
122
Anexo 2: Diário de Pernambuco, 07/06/1997
123
Anexo 3: Diário de Pernambuco, 07/06/1997
124
Anexo 4: Jornal do Commercio, 06/12/2001
125
Anexo 5: Carta da Cúria Metropolitana
126
Anexo 6: Carta da Cúria Metropolitana
127
Anexo 7: Decreto da Cúria Romana
128
Anexo 8: Relatório sobre a situação da Arquidiocese de Olinda e Recife
129
RELIGIÃO
Frade ainda faz celebrações, mesmo proibido
N
ARA LÚCIA
Indiferente à proibição, pela Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Olinda e
Recife, de exercer qualquer função sacerdotal e “seu suposto dom de curas”, o padre
Jerônimo Gomes de Souza comandou ontem mais uma noite de louvor ao Espírito
Santo, no Clube Atlântico de Olinda. “Vou continuar o meu trabalho ao lado do povo
p
orque sou um padre independente. Somente o papa pode me impedir de exercer meu
sacerdócio”, afirmou.
Frei Jerônimo, como é chamado por ter sido frade franciscano, disse que o arcebispo
Dom José Cardoso manda apenas nas igrejas sob sua jurisdição. “Não manda nos
colégios particulares, nos clubes e nas casas onde realizo os louvores pela vontade de
meu povo.” Em junho de 1997, ele foi afastado da arquidiocese, pelo arcebispo, sob a
acusação de praticar uma antiliturgia. Na época, o religioso celebrava missas de cura
dos enfermos, na Igreja de São José, em Olinda.
Em apoio ao padre, que tem 41 anos de idade e 13 de sacerdócio, muita gente lotou o
Clube Atlântico para participar do louvor. “Se Jesus estivesse aqui, estaria nas
favelas, ajudando os mais necessitados. Isso, o verdadeiro cristianismo, é o que frei
Jerônimo faz. Distribui medicamentos, cestas básicas, sopa e pão com os pobres e
visita enfermos nos hospitais”, disse o engenheiro aposentado Ésio do Rego Barros,
residente em Paulista.
O estudante Guilherme Magalhães, que mora em Olinda, afirmou que graças às
orações feitas por frei Jerônimo conseguiu ter perspectiva na vida. “Ele me ensinou
que tendo fé, tudo se consegue.” Para Fátima Fernandes, do bairro de Campo Grande,
o sacerdote está trazendo de volta às igrejas os católicos que se encontravam
afastados. “Esse homem é uma bênção de Deus.”
A noite de louvor, com duração de pouco mais de uma hora, começou com frei
Jerônimo dizendo que com perdão e fé no coração tudo se resolve, tudo se cura, pela
vontade de Jesus e do Espírito Santo. Depois, o padre leu uma passagem do
Evangelho sobre o bom pastor que vai atrás de uma ovelha desgarrada. “O verdadeiro
p
astor se p
r
eocupa com seu rebanho e não com o templo de pedra e as leis”,
completou.
N
a hora das curas e graças, as luzes se apagaram e o sacerdote pediu que Jesus
tocasse nas partes enfermas das pessoas. “Jesus cura porque a gente crê”, ensinou.
Com velas acesas, os presentes, silenciosamente, pediram que suas graças fossem
alcançadas. Depois, frei Jerônimo aspergiu água benta e abençoou muita gente. O
louvor terminou com os testemunhos de curas, que as pessoas disseram ter obtido
com a ajuda das orações do padre.
Jornal do
Commercio
Recife -
12.12.2001
Anexo 9: Matéria do Jornal do Commercio do dia 12.12.2001
130
Anexo 10: Hino do Grupo de Louvores do Frei Jerônimo
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