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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FALCULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS
ARLETE MACHADO FERNANDES HIGASHI
Ciência e literatura em textos infantis de Angelo Machado
São Paulo
2010
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ARLETE MACHADO FERNANDES HIGASHI
Ciência e literatura em textos infantis de Angelo Machado
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Filologia e Língua Portuguesa do
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo para a obtenção do
título de Mestre em Letras
Área de Concentração: Filologia e Língua
Portuguesa
Orientadora: Sheila Vieira de Camargo Grillo
São Paulo
2010
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Nome: HIGASHI, Arlete Machado Fernandes
Título: Ciência e literatura em textos infantis de Angelo Machado
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Filologia e Língua Portuguesa do
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo para a obtenção do
título de Mestre em Letras
Aprovado em:
Banca examinadora
Prof. Dr. _______________________Instituição:______________________
Julgamento:_____________________Assinatura:______________________
Prof. Dr. ________________________ Instituição:______________________
Julgamento:______________________Assinatura:______________________
Prof. Dr. ________________________Instituição:______________________
Julgamento:______________________Assinatura:______________________
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Dedicatória
Ao meu marido, Armando, que sempre acalentou meus sonhos.
Às minhas filhas, Bárbara e Lívia.
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Agradecimentos
A Deus, por guiar meus passos, por colocar somente pessoas especiais ao meu redor e por
renovar minhas forças todos os dias.
À minha querida orientadora, por quem tenho muito respeito, admiração e afeto, pela paciência,
doçura, dedicação, amizade e competência ao conduzir este trabalho.
Ao meu marido, Armando, pelo apoio, carinho, compreensão e por trilhar comigo todos os
caminhos.
À amiga e professora Maria Inês Batista Campos, por lançar luz no meu percurso.
Aos professores da banca de qualificação, José Nicolau Gregorin Filho, Sandoval Nonato pelas
contribuições dadas no exame de qualificação.
Às minhas preciosas filhas, Bárbara e Lívia, que, com amor e calma souberam compreender
minhas ausências e os muitos ―agora não posso‖. Abro aqui um parêntese para agradecer
especialmente à minha filha mais velha, Bárbara, que me animou com suas mensagens e palavras.
Amo vocês.
À estimada amiga e irdo coração, Ana Paula Fabro de Oliveira, que soube como ninguém
dividir os momentos de alegrias, tristezas, incertezas e, sobretudo, por fazer parte da minha maior
vitória: cursar e concluir o mestrado.
À minha estimada amiga Aline, que com sua meiguice contribuiu deveras para que eu acreditasse
em mim mesma.
À minha mãe que, por diversas vezes, assumiu o meu lugar, apoiando-me junto aos cuidados com
minha família.
Ao meu irmão Jurandir, pelo incentivo e por vibrar com minhas conquistas.
Aos meus sobrinhos, Rafael e Ricardo, pela ajuda nos momentos em que o computador tornou-se
meu maior inimigo.
À minha sobrinha Flavia, por todas as vezes que, com carinho e bondade, ficou com as minhas
filhas.
Aos amigos de mestrado, Flávia, Karina, Luiz Rosalvo, Michelle, Simone, Andrea, Rafaela e
Patrícia, pela companhia e pela ajuda imprescindível.
Ao cientista e escritor Angelo Machado, que desde o início deste trabalho empenhou-se não
apenas em me incentivar, mas também em me ajudar no que fosse necessário. Muito obrigada.
6
Resumo
HIGASHI, A. M. F. Ciência e literatura em textos infantis de Angelo Machado. 2010. 127 f.
Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2010.
Esta dissertação busca verificar como se o diálogo entre a esfera científica e a esfera literária
infantil em corpus constituído por oito obras literárias infantis, do cientista e escritor Angelo
Machado, as quais se particularizam por veicular conhecimento científico. A fundamentação
teórica está embasada na teoria do Círculo de Bakhtin e também nos pressupostos teóricos de
autores que se debruçaram sobre a literatura infantil, a imagem visual e a divulgação científica.
Os resultados destacam que o diálogo entre a esfera científica e a esfera literária se dá, nas
dimensões verbais, visuais e verbovisuais dos enunciados analisados, em dois movimentos
dialógicos, a saber, a supremacia do científico sobre o literio e a supremacia do literário sobre o
científico. A supremacia do científico sobre o literio foi verificada por meio de três categorias de
análise: 1) esquemas ilustrativos; 2) precisão de traços; 3) diálogo como procedimento de divulgão
da ciência. a supremacia do literio sobre o científico de ser constatada por meio de outras
duas categorias: 1) cronotopo; 2) crião de personagens. Essas categorias possibilitaram verificar
também que a ciência presente nos textos de Machado ora é explícita e circunscrita a momentos
precisos das obras, ora é implícita e integrada aos aspectos literários.
Palavras-chave: Angelo Machado; divulgação científica; literatura infantil; imagem visual;
Círculo de Bakhtin.
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Abstract
HIGASHI, A. M. F. Science and literature in texts by Angelo Machado
.
2010. 127 f.
Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2010.
This dissertation searches to verify how the scientific sphere dialogues with infant literature in a
corpus constituted of eight books by the scientist and writer Angelo Machado in which he adapts
scientific knowledge to children. The theoretical basis comes from the ideas of the Bakhtin Circle
and authors who studied the infant literature, the visual image and the scientific divulgation. The
results show that the dialogue between the scientific and the literary spheres occurs in verbal,
visual and verbovisual dimensions and in two dialogical movements: the supremacy of science
over literature and the supremacy of literature over science. The former was verified in three
main features: 1) illustrative schemes; 2) precision of traces; 3) dialogue as a procedure of
science divulgation. The latter was observed in other two categories: chronotope and presence of
characters. These categories also allowed us to verify that in Machado‘s texts science is sometimes
explicit and restricted to precise moments in his works, sometimes implicit and integrated to the
literary aspects.
Keywords: Angelo Machado; scientific divulgation; infant literature; visual image; Bakhtin
Circle.
8
Lista de figura
Figura 1. Obra: Que bicho será que fez o buraco? . ...................................................................... 27
Figura 2. Obra: Dente ................................................................................................................... 27
Figura 3. Obra: O dilema do bicho-pau ........................................................................................ 28
Figura 4. Obra: Garganta .............................................................................................................. 77
Figura 5. Obra: Garganta .............................................................................................................. 79
Figura 6. Obra: Olho ...................................................................................................................... 80
Figura 7. Obra: Olho ...................................................................................................................... 81
Figura 8. Obra: Nariz ..................................................................................................................... 83
Figura 9. Obra: Língua .................................................................................................................. 83
Figura 10. Obra: Dente .................................................................................................................. 84
Figura 11. Obra: Olho .................................................................................................................... 84
Figura 12. Obra: Garganta ............................................................................................................ 85
Figura 13. Obra: Nariz ................................................................................................................... 87
Figura 14. Obra: Olho .................................................................................................................... 88
Figura 15. Obra: Garganta ............................................................................................................ 88
Figura 16. Obra: Dente .................................................................................................................. 89
Figura 17. Obra: Língua ................................................................................................................ 90
Figura 18. Obra: O dilema do bicho-pau ....................................................................................... 96
Figura 19. Obra: O ovo azul .......................................................................................................... 97
Figura 20. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar ................................................. 97
Figura 21. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar ................................................. 99
Figura 22. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar ............................................... 100
Figura 23. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar ............................................... 102
Figura 24. Obra: O dilema do bicho-pau ..................................................................................... 103
Figura 25. Obra: O ovo azul ........................................................................................................ 105
Figura 26. Obra: O ovo azul ........................................................................................................ 106
Figura 27. Obra: O ovo azul ........................................................................................................ 107
Figura 28. Obra: O ovo azul ........................................................................................................ 108
9
Figura 29. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar ............................................... 110
Figura 30. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar ............................................... 111
Figura 31. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar ............................................... 112
10
Sumário
Introdução ........................................................................................................................... 12
Capítulo 1 Angelo Machado: vida, ciência e arte ......................................................... 15
1.1 Vida ........................................................................................................................ 15
1.2 Ciência ................................................................................................................... 16
1.2.1 A luta pela preservação da biodiversidade ......................................................... 18
1.2.2 O projeto de divulgação científica ..................................................................... 19
1.3 Arte ........................................................................................................................ 20
Capítulo 2 Metodologia ................................................................................................... 23
2.1 Seleção do autor e constituição do corpus ............................................................. 23
2.2 Critérios de seleção do corpus ............................................................................... 25
2.3 Categorias de análise ............................................................................................. 29
Capítulo 3 A esfera literária infantil/juvenil ................................................................. 31
3.1 O que é literatura .................................................................................................... 32
3.2 O que é literatura infantil ....................................................................................... 39
3.2.1 O início da literatura infantil no Brasil: vocação nacionalista e pedagógica ..... 43
3.2.2 Alguns gêneros da esfera literária infantil.......................................................... 45
3.2.2.1 Fábula ................................................................................................................. 46
3.2.2.2 Lenda .................................................................................................................. 46
3.2.2.3 Conto maravilhoso ............................................................................................. 47
3.2.2.4 Conto de fadas .................................................................................................... 47
3.2.2.5 Poesia ................................................................................................................. 48
3.2.3 A literatura infantil no contexto atual do Brasil ................................................. 49
Capítulo 4 Algumas interpretações acerca da divulgação científica .......................... 53
4.1 A divulgação científica como uma atividade de reformulação .............................. 53
4.2 A divulgação cientifica como gênero discursivo particular ................................... 55
4.3 A divulgação científica como uma modalidade de relação dialógica .................... 57
4.4 A divulgação científica como literatura ................................................................. 58
4.5 Uma breve reflexão ................................................................................................ 62
Capítulo 5 - Imagem e texto ............................................................................................... 63
5.1 Imagem .................................................................................................................. 63
11
5.1.1 Imagem no livro infantil ..................................................................................... 67
5.1.2 Ilustração e ilustração científica ......................................................................... 69
5.1.3 Artes visuais à luz das noções bakhtinianas: a análise de Deborah Haynes ...... 73
Capítulo 6 - A supremacia do científico sobre o literário ............................................... 75
6.1 Esquema ilustrativo: relações dialógicas entre texto e imagem ............................ 77
6.2 A precisão de traços: relações dialógicas com a ilustração científica ................... 81
6.3 O diálogo a serviço da ciência ............................................................................... 86
6.4 Breve síntese do dialogismo entre imagem e texto ................................................ 92
Capítulo 7 A supremacia do literário sobre o científico .............................................. 94
7.1 O cronotopo como pano de fundo para a divulgação científica............................. 95
7.2 Criação de personagens: a ciência implícita ....................................................... 103
7.3 Em síntese... ......................................................................................................... 113
Considerações finais ......................................................................................................... 115
Referências bibliográficas ................................................................................................ 120
12
Introdução
A divulgação da ciência direcionada a um público mais amplo tem sido, nas últimas
décadas, relativamente significativa. Revistas especializadas, sites, jornais, programas de TV e
rádio, obras literárias etc., constituem bons exemplos de iniciativas compromissadas com a
divulgação de pesquisas, processos e resultados da ciência para um público não especialista.
A transmissão do saber científico também tem sido expressiva quando é direcionada ao
público infantil/juvenil, na medida em que, hoje, pode-se observar a mobilidade dessas mesmas
iniciativas em informar os conhecimentos oriundos de estudos e descobertas, o que pode
contribuir para a educação científica de crianças e jovens. Dessa forma, não é difícil encontrar
jornalistas ou cientistas que assumem o papel de divulgadores, abandonando o hermetismo do
discurso científico para adequá-lo à realidade do público leigo, recorrendo, por vezes, a uma
linguagem mais espontânea.
As escolhas fraseológicas, estilísticas e gramaticais do divulgador são, ao que tudo indica,
subordinadas à esfera de circulação e, sobretudo, ao público idealizado. Assim, espera-se, por
exemplo, que, ao divulgar ciência para os pequenos, o cientista ou o jornalista recorra a
procedimentos linguísticos condizentes com o que é próprio da esfera de circulação do texto e
com a idade e a habilidade leitora da criança ou jovem, assumindo ainda as particularidades do
gênero em que se materializa.
É o que poder-seobservar na atividade de divulgação científica de Angelo Monteiro
Barbosa Machado, cientista renomado, dentro e fora do Brasil, por apresentar uma carreira
multidisciplinar, a qual será abordada no capítulo 1.
Aliando literatura e ciência, os textos de Machado se pautam pelos princípios de
representação do conhecimento científico, colocando, portanto, em diálogo duas esferas distintas:
a científica e a literária. Dessa forma, visando compreender tal diálogo, o presente estudo
pretende responder a seguinte pergunta de pesquisa:
Como se dá o diálogo entre a esfera científica e a esfera literária?
Para respondê-la, a pesquisa centrou-se na análise das dimensões verbal e visual dos
enunciados de divulgação científica presentes em oito obras literárias do cientista e escritor
supracitado Olho, Nariz, Garganta, Língua, Dente, A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do
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mar, O ovo azul e O dilema do bicho-pau, as quais são dirigidas a crianças na faixa etária de
seis/sete anos a oito/nove anos. Os procedimentos metodológicos adotados para seleção e análise
do material são expostos no capítulo 2.
Bakhtin (2003[1952-1953]) defende que em qualquer corrente de estudo faz-se necessária
uma noção precisa da natureza do enunciado nos diversos campos da atividade humana. Assim,
objetivando compreender tal natureza, abordam-se, nos capítulos 3 e 4, as especificações do
discurso literário (em sentido amplo e específico) e do discurso de divulgação científica.
No que concerne à natureza do discurso literário como um todo, uma das especificidades
destacadas por Bakhtin e seu Círculo acerca da atividade artística diz respeito a sua capacidade de
refletir e refratar as demais esferas de utilização da língua, tais como a religiosa, a política, a
social, a científica etc. Tal afirmação mostra-se relevante para os fins desta pesquisa na medida
em que se pressupõe que a arte, refletindo e refratando saberes da ciência, ―cria uma nova relação
axiológica com aquilo que se tornou realidade para o conhecimento e para o ato [...]‖
(BAKHTIN, 1993[1923-1924], p.35).
Em relação à divulgação científica, importa ressaltar novamente que, sem detrimento das
reflexões de estudiosos como Authier-Revuz (1998[1982] e Zamboni (2001), Mora (2003),
assume-se aqui a posição defendida por Grillo em considerar a divulgação científica como ―a
exteriorização da ciência e da tecnologia para outras esferas da atividade humana‖, configurando
uma ―modalidade particular de relação dialógica‖ (GRILLO, 2009b, p.4). Dessa forma, a
divulgação científica, assim concebida, pode ocorrer em diversas esferas de circulação,
materializando-se nos mais variados gêneros dos discursos.
Tendo em vista que o interesse deste trabalho não se restringe apenas à análise da
dimensão verbal dos enunciados de divulgação científica, mas também de sua dimensão visual,
faz-se fundamental que se aborde um dos elementos constitutivos dos livros para crianças: a
imagem, genericamente entendida, na esfera literária infantil, como ilustração. Para compreender
as suas funções e usos, busca-se, no capítulo 5, expor, de forma bastante resumida, os
pressupostos de alguns estudiosos acerca de questões relacionadas ao uso de elementos visuais,
sobretudo, quando estes são direcionados ao pequeno leitor.
Na sequência, apresenta-se a análise das dimensões verbal e visual empreendida nesta
pesquisa, cujo resultado inicial aponta para o fato de que o diálogo entre a esfera científica e a
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esfera literária em textos infantis de Angelo Machado se em dois movimentos dialógicos: 1)
pela supremacia da ciência sobre o literário; 2) pela supremacia do literário sobre a ciência.
Por fim, apresentam-se as considerações finais, destacando os aspectos que permitiram
responder a pergunta motivadora desta pesquisa.
15
Capítulo 1 Angelo Machado: vida, ciência e arte
O objetivo deste capítulo é apresentar a trajetória de Angelo Monteiro Barbosa Machado
com vistas a conhecer a atuação de um cientista que se particulariza por transitar em duas esferas
distintas: a científica e a literária infantil/juvenil. Para atingir esse propósito, inicia-se a exposição
com o elementar: dados biográficos
1
.
1.1 Vida
Membro da Academia Brasileira de Ciências, Angelo Machado nasceu em 22 de maio de
1934, na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Médico, zoólogo, entomologista,
ambientalista e escritor, Machado soube, como poucos, conduzir uma profícua carreira na esfera
científica e literária.
Seu interesse pela pesquisa científica iniciou-se ainda menino, por influências de seu pai e
de cientistas com os quais teve contato. Assim, o que era curiosidade de criança, com o tempo,
passou a ser investigação séria, tal como os estudos sobre os insetos iniciados na adolescência,
época em que conheceu o entomólogo padre Francisco Silvério Pereira, com quem realizou
expedições à Amazônia com o objetivo de coletar insetos, especialmente, as libélulas. Nessas
expedições, o cientista teve a oportunidade de familiarizar-se com sete tribos indígenas, cujos
conhecimentos seriam mais tarde representados em algumas de suas obras literárias destinadas ao
público juvenil.
Em 1958, Machado formou-se em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais
(doravante UFMG), contudo, nunca desempenhou a profissão. Mais tarde, doutorou-se pela
mesma universidade e, em seguida, fez pós-doutorado na Northwestern University (Chicago),
1
As informações biográficas foram obtidas por meio de materiais doados por Angelo Machado, bem como por meio
de informações pessoais (correspondências eletrônicas) as quais não serão anexadas ao trabalho com vistas a
resguardá-lo.
16
dedicando-se à Microscopia Eletrônica. No retorno ao Brasil, ministrou aulas de Neuroanatomia
humana
2
, Biologia celular e Problemas de morfologia celular, aposentando-se em 1987. No
entanto, recusando-se ao papel de aposentado, prestou novo concurso e incorporou-se como
docente no Departamento de Ciências Biológicas da universidade supracitada. Nesse período,
atuando como entomólogo, classificou 48 novas espécies e 4 gêneros de libélulas, aumentando o
número de espécies catalogadas de sua coleção para mais de 1.100. Recebeu como homenagem
de outros pesquisadores a integração de seu nome a 27 seres vivos, a saber: libélulas, borboletas,
besouros, aranhas e um fungo.
Ao longo de sua carreira, Machado participou de diversos congressos científicos e
acumulou experiências administrativas não apenas na academia, mas também em vários órgãos
não governamentais e sociedades científicas.
Finalizando este breve resumo biográfico, menciona-se o curioso hobby do cientista:
escrever livros para o público infantil/juvenil.
Feitas as primeiras considerações acerca da vida do autor, a seguir, abordam-se, de modo
bastante resumido, suas atuações na esfera científica e na esfera literária infantil/juvenil com
vistas a compreender a natureza e as especificidades de seus trabalhos.
1.2 Ciência
A decisão de estudar ciências médicas foi, segundo o autor, motivada pelo fato de não
haver, na época, um curso de Ciências Biológicas de excelência. De acordo com Machado,
naquele tempo, o curso de medicina contava com duas disciplinas: Anatomia e Histologia, sendo
a segunda a de maior interesse para o pesquisador.
Por ocasião de seu doutoramento, o cientista iniciou, na Cátedra de Anatomia da
Faculdade de Medicina da UFMG, seus estudos sobre a anatomia comparada. Posteriormente,
direcionou suas pesquisas para o campo da Neuroanatomia, investigando a glândula pineal,
assunto que constituiu a principal linha de pesquisa do cientista. em seu pós-doutoramento, na
2
Angelo Machado é autor da obra Neuroanatomia funcional (São Paulo: Atheneu, 1981) a qual é referência para os
interessados nas áreas de neurociências, medicina e psicologia.
17
Northwestern University (Chicago), aprendeu e treinou técnicas de microscopia eletrônica. Nas
palavras do autor:
O ambiente intelectual do Departamento de Anatomia da Northwestern
University era extremamente favorável à atividade de pesquisa, com seminários
semanais dados pelo pessoal do Departamento e, mensalmente, um seminário
dado por cientista convidado. (MACHADO, 1981, p.11)
Com a experiência, ao retornar ao Brasil, utilizou essas cnicas para centrar-se no estudo
histoquímico e histológico do Schistosoma mansoni um tipo de verme causador da
esquistossomose , fazendo, em parceria com outros cientistas, relevantes descobertas.
Mais tarde, dedicou-se também à pesquisa de lesões do sistema nervoso autônomo,
provocadas pela doença de Chagas. Além disso, Machado montou o Centro de Microscopia
Eletrônica do Departamento do Instituto de Ciências Biológicas e o Laboratório de Neurobiologia
da UFMG, coordenando projetos de pesquisas científicas envolvendo microscopia eletrônica de
transmissão.
Durante todos os anos destinados às pesquisas médicas com abordagem morfológica,
Angelo Machado, paralelamente, também se dedicava aos estudos na área de zoologia,
participando, ao longo de sua vida, de onze expedições científicas, oito dessas à Amazônia, cuja
intenção era a coleta de material zoológico e de anatomia comparada. Na região, teve contato
com oito tribos indígenas, o que possibilitou a obtenção de dados para os estudos genético-
antropológicos em índios. As expedições ainda proporcionaram ao cientista o conhecimento da
língua Tirió e dos costumes culturais indígenas, os quais foram representados em cinco de suas
obras, a saber: O velho da montanha; O tesouro do rei; O casamento da ararinha azul; O tesouro
do Quilombo e Os fugitivos da esquadra de Cabral, todas dedicadas ao público juvenil.
Essas pesquisas científicas conferiram a Machado uma ampla experiência em taxonomia,
possibilitando a identificação de diversas espécies de insetos, especialmente a ordem odonata
(libélulas).
Considerado uma das maiores autoridades em Entomologia, o trabalho do cientista foi
reconhecido por diversas instituições, tais como a Sociedade Brasileira de Zoologia, o Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a Fundação Ford e a Conservação
Internacional do Brasil nesta última, exerceu a função de presidente.
18
Vale destacar ainda que, na área de zoologia, Machado exerceu a docência por vinte anos,
ministrando aulas de Entomologia para o curso de Ciências Biológicas na UFMG, ajudando a
criar o primeiro curso de Ecologia e Manejo da Vida Silvestre ramo da ciência que emprega os
conhecimentos ecológicos na preservação.
1.2.1 A luta pela preservação da biodiversidade
Presidente da Conservação Internacional Brasil (CI-Brasil) e do Conselho Curador da
Biodiversitas, Angelo Machado tem desenvolvido um relevante trabalho pela conservação da
natureza, em especial pelas espécies ameaçadas de extinção. Motivado por esta causa, foi
responsável pelo projeto de elaboração da primeira lista de espécies brasileiras ameaçadas de
extinção financiado pelo IBAMA e desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Zoologia.
Em 1989, criou a Fundação Biodiversitas organização não governamental que executa
ações de caráter técnico-científico no Brasil , cuja missão é lutar pela conservação da
biodiversidade brasileira, promovendo ações que visam integrar o homem ao meio ambiente e a
preservação da natureza ao desenvolvimento socioeconômico. A Fundação Biodiversitas é,
atualmente, o grupo científico responsável pela elaboração e revisão de Listas e Livros
Vermelhos de Espécies Ameaçadas. Trata-se de trabalhos amplos, elaborados a partir da reunião
de estudos e dados de pesquisas científicas sobre diversas espécies da fauna brasileira,
apresentando ainda a análise das possíveis causas que ameaçam os animais de extinção e
informações que subsidiam os procedimentos de conservação. A avaliação da biodiversidade
possibilita determinar, ao longo do tempo, a resposta das espécies frente às mudanças ambientais
em diversos estados brasileiros, por meio de investigações biológicas, geológicas, geográficas,
socioeconômicas, históricas etc.
19
1.2.2 O projeto de divulgação científica
décadas Angelo Machado tem desenvolvido atividades que visam a educação
científica especialmente voltadas ao público infantil/juvenil. Membro da Sociedade Brasileira
para o Progresso da Ciência doravante SBPC
3
, foi um dos fundadores das revistas Ciência
Hoje e Ciência Hoje das Crianças as quais são reconhecidas como revistas de divulgação
científica.
A Ciência Hoje é considerada como a primeira publicação periódica a divulgar os
trabalhos de cientistas brasileiros em uma linguagem acessível ao público leigo e Angelo
Machado foi o responsável pela implantação e pela coordenação da sucursal mineira da revista,
na qual trabalhou durante muitos anos. O êxito da referida publicação impulsionou o cientista e
outros membros da SBPC a criar uma versão especializada em divulgar ciência para o público
infantil. Trata-se da revista Ciência Hoje das Crianças, a qual produz textos de base científica
que informam e divertem crianças e adolescentes. Utilizada como material de apoio para
docentes do ensino fundamental e médio, a revista tem cunho multidisciplinar, trazendo temas
que abrangem as ciências humanas, exatas e biológicas.
Vale destacar que o trabalho de divulgação científica desenvolvido pelo cientista tem
como eixo principal os assuntos a respeito do meio ambiente, visando, assim, a educação
ambiental. De acordo com Machado (1982), a base para a conservação da biodiversidade está na
educação, entendida no sentido amplo. Ou seja, a noção de educação não deve ser restrita à
educação formal, mas também àquela que permeia as relações humanas, tais como no âmbito
familiar, nas conversas cotidianas etc.
De acordo com Machado (1982), a criança urbana é, na maior parte das vezes, exposta ao
conhecimento científico por meio de três modos básicos: 1) ensino formal de ciências; 2) meios
de comunicação em massa (histórias em quadrinhos, figurinhas, rádio, cinema, televisão); 3)
relações interpessoais.
No ensino formal de ciências, as crianças e os adolescentes deparam-se com conceitos
evasivos e abstratos os quais, na visão do autor, são obrigados a memorizar. Outro problema
3
A SBPC é uma instituição não governamental sem fins lucrativos, fundada em 1948, cuja missão é promover o
avanço do desenvolvimento educacional, cultural, científico e tecnológico no Brasil, além de estabelecer uma
posição em discussões político-científicas em programas de desenvolvimento científico e tecnológico.
20
apontado pelo cientista é a representação distorcida da fauna, que tende a ressaltar as espécies de
animais venenosos e transmissores de doença. Além disso, destaca que as crianças aprendem
sobre anatomia, histologia, citologia etc. de uma forma teórica e sem objetividade. Para
Machado, o ensino de biologia deve ser objetivo e prático, tornando o aprendizado eficaz na
medida em que contempla o cognitivo correlacionado ao afetivo.
Nos meios de comunicação em massa, Machado nota que a circulação da ciência é,
geralmente, associada à fauna e à flora de outros países, enfatizando uma biodiversidade que não
condiz com a realidade do Brasil. Para o autor, esses meios quase sempre deturpam as
características das espécies tratadas, provocando desvios na percepção a respeito do meio
ambiente e dificultando a aceitação da natureza brasileira, a qual, diferentemente da
homogeneidade veiculada em filmes e documentários, é caracterizada por sua heterogeneidade.
Quanto às informações veiculadas por meio das relações interpessoais, o cientista conclui
que, de modo genérico, a imagem da natureza torna-se ambígua, sendo diversas vezes associada
ao perigo. Para o autor, nessas informações encontram-se diversas crenças a respeito da vida
animal e vegetal, destacando, sobretudo, os animais como seres perigosos, repulsivos, venenosos
ou transmissores de doenças. Tal procedimento pode, na visão de Machado acarretar fobias que
se refletem no modo de agir frente às questões de cunho ambiental. Ademais, para o escritor, as
crianças associam as personagens de histórias clássicas (lobo mau, saci-pererê, bruxas etc.) à
floresta, atribuindo uma imagem negativa ao lugar. Dessa forma, visando a educação ambiental,
Angelo Machado realizou mais de duzentas palestras sobre conservação do meio ambiente e
dedica-se ainda a escrever livros infanto-juvenis, os quais, sem detrimento de seu valor lúdico,
pautam-se pelos princípios da representação científica.
1.3 Arte
Mesclando realidade e ficção, Angelo Machado descobriu, na literatura infantil/juvenil,
um modo de aliar a arte aos seus conhecimentos científicos, conquistando, paulatinamente, um
lugar de destaque na esfera literária. No entanto, em entrevista concedida ao repórter Neldson
Marcolin, da Pesquisa Fapesp (2007), Machado afirma que, no início da carreira literária,
21
encontrou certa resistência em relação aos seus textos junto às editoras. O motivo, segundo o
autor, seria a mescla de instâncias tidas como inconciliáveis: ciência e literatura, fusão que
poderia provocar rejeição por parte do leitor. Contudo, tal premissa não se confirmou, pois os
livros do cientista são, atualmente, reconhecidos dentro e fora do Brasil.
Contando com 35 livros produzidos, os textos do cientista dividem-se em três
segmentos
4
: 1) história; 2) ecologia; 3) anatomia humana e animal. Embora o cientista Angelo
Machado afirme que seu maior propósito não seja ensinar coisas, é possível perceber, no
conjunto, que os livros apresentam a proposta de veicular determinados saberes da ciência, com
vistas a obter, empregando as palavras de Bakhtin (2003 [1952-1953], p.272), uma compreensão
ativamente responsiva de efeito retardado, a qual poderá refletir ―nos discursos subsequentes ou
no comportamento do ouvinte‖ ou leitor.
As obras de caráter documental misturam ficção e realidade histórica em tramas de
aventuras e humor e são, geralmente, direcionadas aos adolescentes. A primeira obra desse
segmento, Os fugitivos da esquadra de Cabral (1999), relata fatos históricos do descobrimento
do Brasil. Posteriormente, seguindo a mesma ordem, o autor lançou o livro O tesouro do
Quilombo (2001), o qual recupera a história do quilombo de Ambrósio atacado por tropas do
governo de Minas Gerais, em 1746. Vale destacar que essa obra ganhou o Certificado de
Altamente Recomendável para Jovens, concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e
Juvenil (FNLIJ). E por fim, em 2006, Angelo publicou O tesouro do rei, a obra mais recente
desse segmento.
As obras de caráter ecológico explicitam saberes da biodiversidade brasileira e destacam
também a posição valorativa do cientista a respeito do meio ambiente. Alguns livros desse
segmento estabelecem relações com o contexto sócio-histórico do Brasil, em que os problemas
socioambientais ainda são associados ao processo de expansão capitalista. Ou seja, as obras,
entendidas como produções culturais, constituem-se como uma atividade enunciativa que envolve
as condições de produção, considerando não apenas as circunstâncias mais imediatas, mas
também as circunstâncias mais amplas dessa produção os valores, as crenças, os aspectos
sociais, históricos, políticos etc.
Essa premissa pode ser confirmada, por exemplo, na obra Douradinho douradão, rio
abaixo, rio acima, lançada em 2004, cuja história relata a trajetória de sobrevivência de uma
4
Classificação feita por nós.
22
espécie de peixe (dourado) ameaçada de extinção. Com uma história aparentemente simples,
Machado dá explicações a respeito de diversas espécies aquáticas e, ao mesmo tempo, levanta
importantes questões sociais, como a pesca predatória e o desenvolvimento desenfreado das áreas
urbanas e industriais. Muitas obras desse segmento, sem detrimento de suas características
lúdicas e humorísticas, seguem esse mesmo enfoque: inserem conhecimento científico associado
a valores sociais, históricos, culturais da sociedade contemporânea, refletindo-os e refratando-os.
Por fim, o último segmento aborda conhecimentos científicos a respeito de anatomia
humana e animal. Trata-se da coleção intitulada Gente tem, bicho também
5
, composta por cinco
obras (Dente, Nariz, Olho, Garganta, Língua), as quais deixam transparecer, com mais evidência,
os modos de representação do conhecimento científico.
Como se vê, o ativismo estético do cientista e escritor Angelo Machado parece estar em
consonância com as ideias bakhtinianas, pois, para o teórico russo, a atividade estética
reúne no sentido o mundo difuso e o condensa em uma imagem acabada e auto-
suficiente, encontra para o transitório no mundo (para seu presente, o passado
e a sua existência presente) o equivalente emocional que o vivifica e protege,
encontra a posição axiológica a partir da qual esse transitório ganha peso
axiológico de acontecimento, significação e determinidade estável. (BAKHTIN,
2003. [1924-1927], p.177)
Em outras palavras, o ativismo estético possibilita dar forma e acabamento aos elementos
do mundo ético-cognitivo. Assim, ao se transferir esse pensamento para as obras de literatura
infantil/juvenil de Machado, pode-se propor que, na atividade estética, o cientista encontra a
distância necessária que permite dar enformação e acabamento ao inacabamento incessante da
ciência.
5
Dois livros da coleção Gente tem, bicho também foram adotados pelo Programa Nacional do Livro Didático
(PNLD).
23
Capítulo 2 Metodologia
Neste momento, apresentam-se os procedimentos metodológicos adotados para a
realização da análise do diálogo estabelecido entre as esferas científica e literária infantil em
obras do cientista e escritor Angelo Machado. Para tanto, este capítulo está dividido de forma a
justificar a escolha do autor, bem como a seleção do corpus e as categorias analíticas emergidas a
partir do contato entre o objeto de análise e os fundamentos teóricos levantados.
2.1 Seleção do autor e constituição do corpus
Considerando que a intenção desta pesquisa é, conforme já mencionado, verificar como se
o diálogo entre a esfera literária e a esfera científica, justificar a escolha do autor e do corpus
não é tarefa difícil visto que, dentro da contemporaneidade, o cientista multidisciplinar Angelo
Machado particulariza-se por produzir textos infantis aliados a conhecimentos científicos, tendo
produzido, conforme exposto no primeiro capítulo, diversos livros para crianças e jovens (alguns
deles adaptados para o teatro) cujas temáticas envolvem ficção e saberes de diversas áreas do
conhecimento.
Nesse sentido, as obras do cientista Angelo Machado revelam-se um bom material
analítico, uma vez que divulgar ciência para o público infantil por vias literárias requer um
cuidadoso projeto discursivo. Assim, uma vez definido o autor, restava ainda a tarefa de delimitar
o corpus, dada a impossibilidade de examinar, nos limites de uma dissertação, todas as 35 obras
6
já criadas pelo cientista.
O processo de análise iniciou-se com a leitura de cerca de trinta livros, o que indicou a
divisão dos segmentos expostos no capítulo precedente, bem como os critérios para a seleção
do material.
6
Grande parte das obras disponibilizadas para esta pesquisa foi gentilmente cedida pelo próprio autor, a quem
devemos sinceros agradecimentos.
24
Feitas as devidas observações proporcionadas pela leitura, como a classificação temática,
os índices de conteúdo sobre a ciência e o projeto gráfico dos textos, selecionou-se um corpus
composto por oito obras direcionadas ao público infantil. Trata-se dos cinco livros da coleção
Gente tem, bicho também Olho, Nariz, Garganta, Dente, Língua , do seguimento sobre
anatomia, e três livros do segmento ecológico, A viagem de Tamar: a tartaruga verde do mar, O
dilema do bicho-pau e O ovo azul.
A coleção Gente tem, bicho também
7
, publicada pela editora Nova Fronteira em 2004, é,
conforme já mencionado, composta por cinco livros de 32 páginas Língua, Olho, Nariz,
Garganta e Dente destinados ao público infantil. Cada livro da coleção tem dois personagens
principais: a menina Alice, caracterizada como uma criança curiosa e indagadora, e seu avô,
representado como aquele que sabe muitas coisas a respeito de bichos e de pessoas, característica
que pode criar um efeito de verdade perante o que é dito no texto.
Aliada a imagens visuais detalhistas e explicativas, a estrutura dos textos é essencialmente
pautada no diálogo entre as duas personagens. Assim, Alice é a responsável por suscitar as questões
que serão respondidas pelo sábio avô, propiciando a integração dos saberes da ciência ao texto.
Valendo-se de conceitos sobre anatomia, o principal objetivo da coleção parece ser o de informar
como funcionam, em gente e em bicho, os seguintes órgãos: nariz, ngua, garganta, dente e olho, o
que pode caracterizar uma intenção explícita de veicular conhecimento.
as obras do segmento ecológico selecionadas seguem outra linha: os saberes da ciência
o representados em um universo mágico-realista cujos enredos, analogamente ao gênero bula,
o representados por bichos personificados, atenuando os conhecimentos veiculados no texto,
embora possam ser facilmente percebidos pelo leitor adulto.
A viagem de Tamar: a tartaruga verde do mar, publicado em 1997, é um poema narrativo
organizado em 31 páginas cuja história centra-se na trajetória de sobrevivência e aventura de uma
tartaruga-verde, conhecida cientificamente como aruanã. Com esse enredo, o autor narra uma
sucessão de acontecimentos que funcionam como procedimentos para informar sobre as tartarugas
marinhas e outras espécies aquáticas, bem como a respeito da relação entre o homem e a natureza.
7
Segundo Angelo Machado, a coleção Gente tem, bicho também é destinada a crianças a partir de cinco anos de
idade (informação pessoal). Vale ressaltar que três livros dessa coleção (Dente, Nariz e Olho) foram adotados pelo
Programa Nacional do Livro Didático (PNLD 2006), como obras do acervo complementar, e distribuídos nas escolas
e direcionados aos alunos de 1ª e 2ª séries.
25
Na obra O dilema do bicho-pau, a história gira em torno do dilema do inseto por não saber
se é bicho ou pau. Com uma trama lúdica, o texto traz, nas entrelinhas, informações a respeito do
mimetismo. Contudo, os conhecimentos da ciência não são transmitidos em momentos precisos de
explicação ou conceituação, mas incorporados ao cenário criado na obra e às personagens.
Em O ovo azul, semelhantemente às duas obras anteriores, o foco incide nos elementos
fantásticos. Nessa narrativa, participam como personagens dezoito aves silvestres brasileiras, as
quais m funções bem definidas no texto: favorecer a ludicidade e o encantamento e, ao mesmo
tempo, servir de mote para a transmissão implícita de conhecimentos sobre as espécies.
É importante ressaltar que a dimensão visual que acompanha esses livros apresenta, em
relação ao real, veracidade e rigor, características que comumente se encontram nos desenhos
produzidos para fins científicos.
2.2 Critérios de seleção do corpus
Para a seleção do corpus exposto acima, recorreu-se a dois critérios: 1) obras direcionadas a
crianças na fase leitor iniciante/leitor em processo; 2) obras ilustradas por autores com experiência
na esfera científica.
No que tange ao primeiro critério, é importante assinalar que, para definir a faixa etária do
público leitor, recorreu-se aos princípios orientadores sugeridos por Coelho (1993) os quais são
estabelecidos levando em conta a inter-relação entre a idade cronológica do leitor e o vel da
habilidade de leitura. Assim, segundo Coelho (1993), a adequação dos textos às diversas etapas de
desenvolvimento infantil é classificada em pré-leitor, leitor iniciante, leitor em processo, leitor
fluente e leitor crítico.
Pré-leitor (de quinze/dezessete meses aos três anos) é a fase em que a criaa começa a
reconhecer a realidade circundante por meio dos contatos afetivos e táteis, conquistando a linguagem
e, por conseguinte, passa a nomear as realidades à sua volta. Os livros adequados para essa fase
devem apresentar ausência de texto verbal ou textos curtos, humor, mistério, técnica de repetição e o
predomínio absoluto da imagem (ilustrações, gravuras, desenhos) a qual deve sugerir uma
circunstância significativa para a criança etc.
26
Leitor iniciante (a partir de seis/sete anos de idade) é a fase em que a criança pode
reconhecer os signos do alfabeto e a formação das sílabas, ou seja, é a etapa da aprendizagem da
leitura. O predomínio da imagem, a organização simples da narrativa, o humor, a criação de
personagens (humanas ou simbólicas), frases curtas nominais e enunciadas em ordem direta,
compõem as principais características dos livros destinados a crianças dessa etapa leitora.
A partir de oito/nove anos é a fase do leitor em processo, na qual a criança pode ler de
forma mais independente e seu pensamento lógico organiza-se em formas concretas, permitindo
operações mentais, embora a motivação e o estímulo do adulto ainda sejam importantes. Os
elementos formais essenciais das obras destinadas a esse público leitor são: presença das imagens
em diálogo com o texto, enunciados escritos em frases simples, em ordem direta e de comunicação
imediata e objetiva, efabulação com esquema linear princípio, meio e fim , humor, realismo e
fantasia.
leitor fluente, cuja idade é a partir dos dez/onze anos, é a fase em que a
criança/adolescente domina o mecanismo da leitura e compreende o mundo representado no livro.
Nessa fase, a criança é capaz de realizar uma leitura autônoma, apoiando-se em processos de
reflexão que permitem seu engajamento nos fatos narrados e, por conseguinte, possibilitam o
aprofundamento de sua percepção de mundo.
Por fim, leitor ctico (a partir de doze/treze anos de idade) é fase do domínio total da leitura,
da linguagem e da escrita. Nesta etapa, o adolescente manifesta o desenvolvimento do
pensamento reflexivo e crítico, podendo realizar, assim, uma leitura que extrapola a simples fruição
de prazer e emoção.
Dessa forma, busca-se adequar a diversidade de obras às etapas do desenvolvimento
biopsíquico infantil/juvenil e, consequentemente, à sua habilidade de leitura. Levando-se em conta
essa premissa, bem como os princípios orientadores acima mencionados, selecionaram-se todos os
livros que apresentavam características correspondentes às obras adequadas ao leitor iniciante e/ou
ao leitor em processo, ou seja, com idade a partir de seis/sete anos até oito/nove anos.
No entanto, a análise do total de obras que apresentavam tais características ainda mostrava-
se incompatível com os limites de uma dissertão, o que demandou a criação de um segundo
critério para a delimitação do corpus. Com esse objetivo em vista, voltou-se o olhar para as imagens
que acompanham os textos, sendo possível constatar que, produzidas por autores distintos, as
imagens apresentam estilos diversificados.
27
A maior disparidade de estilo verificada na dimensão visual centra-se no aspecto ludicidade
versus realidade, ou seja, algumas imagens seguem uma linha lúdica, caricata, extrapolando os
parâmetros da realidade, tal como se pode observar nos exemplos abaixo:
Figura 1. Obra: Que bicho será que fez o buraco? (MACHADO, 1986, p.6), imagem produzida por Roger
Mello.
outras imagens refletem, de forma mais realista, aquilo que se quer representar:
Figura 2. Obra: Dente (MACHADO, 2004b, p.25), imagem produzida por Luiz Carneiro Rodrigues.
28
Figura 3. Obra: O dilema do bicho-pau (MACHADO, 1997, p, 13), imagem produzida por Raquel
Lourenço.
Assim sendo, o primeiro passo foi separar as obras de acordo com o estilo das imagens para,
na sequência, procurar conhecer a natureza e a função de cada uma delas. O segundo passo foi o de
pesquisar a respeito das esferas de atuação de cada autor da dimensão visual, a fim de confirmar a
hipótese de que o estilo poderia estar relacionado com suas experiências precedentes, cujas posições
valorativas refletir-se-iam na dimensão visual. Bakhtin (2003[1952-1953], p.297) defende que
―Cada enunciado deve ser visto antes de tudo como uma resposta aos enunciados precedentes de um
determinado campo.
Com efeito, entre todos os autores da dimeno visual, verificou-se que dois deles, além de
atuarem na esfera artística, atuam também na esfera científica.
LOR, autor das imagens da coleção Gente tem, bicho também
8
, é médico e cientista profícuo
nas áreas de Ciências Biológicas e Ciências Médicas, sendo também autodidata em artes plásticas.
Raquel Lourenço Abreu, autora das imagens das obras A viagem de Tamar: a tartaruga-
verde do mar, O dilema do bicho-pau e O ovo azul, tamm é pesquisadora formada em Ciências
Biológicas e em Artes Plásticas, com ênfase em ilustração botânica. Fez exposições coletivas de suas
produções e publicou suas imagens tanto em trabalhos cienficos como em literatura infantil
9
.
Tal fato mostrou-se relevante para a pesquisa aqui empreendida na medida em que as
peculiaridades expressivas desses dois autores podem ser afetadas por seus conhecimentos
8
As imagens contidas na coleção Gente tem, bicho também são produzidas por LOR em parceria com sua esposa
Thalma de Oliveira Rodrigues cuja função é, segundo Angelo Machado, atuar no processo de finalização dos
desenhos (informação pessoal).
9
Informações obtidas no livro A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, de Angelo Machado.
29
precedentes em uma determinada área do saber e que, por conseguinte, agem na forma de
representação do objeto, ou seja,
[...] por mais concentrado que esteja no seu objeto, não pode deixar de ser em certa
medida também uma resposta àquilo que foi dito sobre dado objeto, sobre dada
questão, ainda que essa responsividade não tenha adquirido uma nítida expressão
externa: ela irá manifestar-se na tonalidade do sentido, na tonalidade da expressão,
na tonalidade do estilo, nos matizes mais sutis da composão. (BAKHTIN,
2003[1952-1953, p. 298])
Desse modo, levando em conta que o interesse desta pesquisa centra-se não apenas na
dimensão verbal, mas também na dimensão visual dos enunciados de divulgação científica,
estabeleceu-se como segundo critério para a seleção do corpus a escolha de obras cujas imagens são
produzidas por cientistas, assim como o autor dos textos escritos.
2.3 Categorias de análise
Antes que se discorra a respeito das categorias de análise, faz-se necessário observar que o
estudo empreendido nesta pesquisa o partiu de categorias pré-estabelecidas, mas da interação
entre a teoria dialógica do Círculo de Bakhtin e o objeto de análise. Dessa forma, corroborando o
pensamento do autor russo de que ―Independente de quais sejam os objetivos de uma pesquisa, só o
texto pode ser o ponto de partida‖ (BAKHTIN, 2003[1959-1961], p.308), as categorias de análise
surgiram por meio da leitura das obras do cientista-escritor Angelo Machado, das quais partimos
tendo em vista algumas considerações prévias sobre as especificidades da esfera literária (de um
modo abrangente), delineadas principalmente pelas reflexões bakhtinianas, da esfera literária
infantil, à luz de diversos autores, bem como da divulgação científica.
Assim, a análise das dimensões verbais e visuais do corpus evidenciou que o diálogo entre a
esfera científica e a esfera literária se por meio de dois movimentos dialógicos, a saber, a
supremacia do científico sobre o literio e a supremacia do literário sobre o científico.
30
A supremacia do científico sobre o literário foi verificada por meio de três categorias de
análise: 1) esquemas ilustrativos; 2) precisão de tros; 3) diálogo como procedimento de divulgão
da ciência. a supremacia do literio sobre o científico pôde ser constatada por meio de outras
duas categorias: 1) cronotopo e 2) criação de personagens. Juntas, essas categorias possibilitaram
identificar como o diálogo entre a esfera científica e a esfera literária se configura em textos infantis
do cientista-escritor Angelo Machado.
É importante notar que a análise das obras que constituem o corpus é de índole
interpretativa, o que destaca a posição [...] do segundo sujeito, que reproduz (para esse ou outro
fim, inclusive para fins de pesquisa) o texto (do outro) e cria um texto emoldurador (que comenta,
avalia, objeta, etc.) (BAKHTIN, 2003[1959-1961] p. 309).
31
Capítulo 3 A esfera literária infantil/juvenil
A literatura infantil começa a delinear-se com a ascensão da burguesia a partir do século
XVII. Aliada à pedagogia, como observar-se-á mais adiante, este segmento vinculou-se aos
interesses educativos, encerrando, implícita ou explicitamente, certos valores e ensinamentos.
Entretanto, à medida que os textos para crianças e jovens vêm ocupando um espaço privilegiado
dentro e fora do âmbito escolar, a caracterização atual da literatura destinada aos pequenos
manifesta uma moderna transformação temática e estética com vistas a aumentar a recepção de
seus destinatários. Isso não quer dizer que os gêneros pertencentes à esfera literária
infantil/juvenil tenham deixado de lado suas características próprias, bem como o vínculo com os
clássicos, mas adquirido novas configurações
10
.
Assim, o propósito deste capítulo é compreender os aspectos mais relevantes que
constituem a natureza e as funções da literatura infantil/juvenil. Entende-se que, para alcançar
este objetivo, faz-se necessário percorrer, sem grandes incursões históricas, as condições que
determinaram sua origem. Interessa para esta pesquisa verificar os dados mais condescendentes
que influenciaram ou ainda influenciam a natureza e as características deste segmento
literário que se especifica pelo público alvo: o leitor mirim. Para tanto, recorre-se, entre outros, a
estudiosos que refletem sobre a arte literária infantil/juvenil, tais como: Carvalho (1989); Coelho
(1991, 1993); Cunha (1986) e Lajolo e Zilberman (1985).
No entanto, antes de expor as peculiaridades das obras para crianças, é preciso levar em
conta ainda os aspectos que compõem um texto literário no sentido amplo
11
, visto que as obras
direcionadas aos pequenos podem, a priori, manifestar as mesmas especificidades que compõem
a literatura de um modo geral. Sabe-se que revelar a significação precisa da arte literária é uma
tarefa complexa posto que os teóricos do assunto ainda debruçam-se sobre a questão do que é
literatura. Contudo, pode-se traçar aqui, em linhas gerais, a tentativa de delimitá-la e
compreendê-la, considerando as reflexões de autores que se ocuparam e ainda se ocupam em
caracterizar o texto literário. A intenção é levantar, sucintamente, algumas de suas especificações,
10
Essa moderna transformação temática é acompanhada por avançados projetos gráficos, nos quais o visual e o
verbal se mesclam. O papel da iconografia nos livros para crianças será tratado em um capítulo à parte.
11
Esse ponto de partida justifica-se pelo fato de que algumas obras do corpus da presente pesquisa podem gerar
juízos dúbios quanto a sua literariedade.
32
as quais, somadas aos componentes constitutivos da natureza dos textos literários para os
pequenos, também poderão auxiliar na análise empreendida neste trabalho.
3.1 O que é literatura
Lajolo (1982) afirma que centenas de tentativas foram feitas na ânsia de responder a
questão: o que é literatura? Critérios como o tipo de linguagem empregada, as intenções do
escritor, os temas e assuntos de que trata a obra e a natureza do projeto do escritor propõem
identificar o que torna ou não um texto em literatura. No entanto, na visão da autora
Cada uma dessas definições é parcial em si mesma. E em conjunto mais que se
anularem umas as outras, complementam-se, ajustam melhor certos aspectos e,
acima de tudo, correspondem ao que foi ou é possível pensar de literatura num
determinado contexto da vida do homem. (LAJOLO, 1982, p.25)
Eagleton (2000[1943]) também nota que não faltaram tentativas de definir a literatura,
sendo possível, por exemplo, estabelecer como critério de texto literário sua natureza ficcional,
ou seja, a escrita imaginativa. Contudo, tal distinção é, segundo Fiorin e Platão (2000),
problemática na medida em que, por esse critério, torna-se difícil distinguir o real do ficcional em
determinadas circunstâncias. De acordo com esses dois autores, modernamente, diz-se que a
diferença manifesta-se na constatação de que o texto literário tem uma função estética e o texto
não literário tem uma função utilitária. Assim, a obra artística, segundo esse critério, se
caracteriza por apresentar uma linguagem conotativa, ao passo que o texto não literário, de
função utilitária, aspira à denotação. Mas essa distinção parece ainda reducionista, pois é
plausível pensar que o texto literário também pode, ao mesmo tempo, apresentar ambas as
linguagens em função de um todo.
As abordagens de Bakhtin e seu Círculo são bastante profícuas no sentido de estabelecer
critérios que deem conta das particularidades do fazer estético. Em The formal method in literary
scholarship, por exemplo, Bakhtin/Medvedev (1991 [1928]) refletiram criticamente acerca das
especificidades literárias, especialmente aquelas propostas pelo formalismo, cujo postulado
33
teórico não levava em conta a interação entre a obra artística e os fatores sociais, preocupando-se
mais com a divisão entre linguagem prática (cotidiana) e linguagem poética (literária).
Para esses autores, a comparação entre a linguagem prática e a linguagem poética não
pode ser entendida como índice de literariedade na medida em que a obra artística pode apenas
ser comparada com outros domínios da criação ideológica (ciência, ética etc.), não havendo nada
que justifique seu confronto exclusivo com a linguagem cotidiana. Nesse sentido, a noção de
linguagem como construção artística fechada, na visão de Bakhtin/Medvedev, é inadmissível,
visto que a expressão mais elementar do cotidiano pode ser compreendida artisticamente em
determinadas circunstâncias.
Ademais, conforme mencionado anteriormente, uma das características fundamentais
destacadas por esses autores diz respeito à relação da literatura com os demais domínios culturais.
Dessa forma, a proposição dos autores russos é que a literatura encontra-se em interação ativa e
real com outras esferas ideológicas, posto que:
[...] Cada fenômeno literário, como qualquer outro fenômeno ideológico, é
simultaneamente determinado a partir de fora (extrinsecamente) e de dentro
(intrinsecamente). De dentro do que é determinado pela própria literatura, e de
fora por outras esferas da vida social. Mas, em sendo determinada a partir de
dentro, a obra literária é, assim, determinada externamente, também, para a
literatura que determina ela própria é determinada de fora. E, sendo determinada
a partir de fora, assim que é determinada a partir de dentro, por fatores internos a
determinam precisamente como uma obra literária na sua especificidade e em
conexão com toda a situação literária, e não fora dessa situação. Assim
intrínseco acaba por ser extrínseco, e o reverso. (BAKHTIN; MEDVEDEV,
1991[1928], p.29)
12
.
De acordo com a ponderação exposta acima, a obra artística, enquanto produção cultural,
é determinada por agentes internos e externos. Ou seja, atingida externamente, a literatura reflete
e refrata as circunstâncias sociais, políticas, religiosas, científicas e culturais do contexto
circundante. Internamente, a obra literária é movida por coerções e influências da própria esfera
12
[…] every literary phenomenon, like every other ideological phenomenon, is simultaneously determined from
without (extrinsically) and from within (intrinsically). From within it is determined by literature itself, and from
without by other spheres of social life. But, in being determined from within, the literary work is thereby determined
externally also, for the literature which determines it is itself determined from without. And being determined from
without, it thereby is determined from within, for internal factors determine it precisely as a literary work in its
specificity and in connection with the whole literary situation, and not outside that situation. Thus intrinsic turns out
to be extrinsic, and the reverse. (BAKHTIN; MEDVEDEV, (1991 [1928] p.29).
34
na qual está inserida. Portanto, como bem observou Grillo (2009a), em seu ensaio O método
formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica,
A partir da teoria do reflexo e da refração, Medvedev propõe que a
especificidade da literatura está em ser uma ideologia em grau segundo, no
sentido que ela ‗em seu conteúdo reflete e refrata os reflexos e as refrações das
outras esferas ideológicas (ética, processo cognitivo, teorias políticas, religião
etc.). (GRILLO, 2009a, p. 85, grifos da autora)
Outros aspectos importantes que podem contribuir para destacar as particularidades de um
texto literário foram examinados no ensaio A palavra na vida e a palavra na arte
13
, assinado por
Voloshinov/Bakhtin e publicado em 1926. Nesse texto, são discutidos os componentes que
especificam a forma de um enunciado artístico, sendo este visto como um fenômeno social. Para
tanto, os dois autores russos, antes de empreenderem um entendimento do enunciado poético,
analisam, como exemplo, um discurso de natureza cotidiana, concluindo que, na vida, o discurso
verbal sofre a influência da situação extraverbal imediata que o delineia.
O contexto extraverbal é o que torna, na visão de Voloshinov/Bakhtin (1997[1926]), uma
locução plena de significado, sendo esse contexto determinado por três fatores: 1) o horizonte
espacial comum entre os interlocutores (a unidade do visível: a sala, a janela etc.); 2) o
conhecimento e a compreensão comum da situação por parte dos interlocutores; 3) sua avaliação
comum dessa situação (p.114, grifos dos autores). Acrescentam ainda que,
[...] qualquer locução realmente dita em voz alta ou escrita para uma
comunidade inteligível (isto é, qualquer uma exceto palavras depositadas num
dicionário) é a expressão e produto de três participantes: o falante (autor), o
interlocutor (leitor) e o tópico (o que ou quem) da fala (o herói).
(VOLOSHINOV; BAKHTIN, 1997[1926], p. 122)
14
Todos esses elementos destacados pelos teóricos supracitados evidenciam a existência de
fatores sociais nos discursos produzidos. No entanto, ao adentrar o âmbito do discurso poético
(literário), os teóricos afirmam que,
13
Vale notar que, embora se tenha recorrido à versão em espanhol, as traduções em português das citações são de
Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza.
14
[…] toda palabra realmente pronunciada (o escrita con sentido), que está dormida en un diccionario, es expresión
y producto de la interacción social de tres: del hablante (autor), del oyente (lector), y de aquel de quien o de que se
habla (protagonista). (VOLOSHINOV; BAKHTIN, 1997[1926], p. 122, grifo do autor)
35
É imediatamente óbvio que o discurso na arte não é, e nem pode ser, tão
estreitamente dependente de todos os fatores do contexto extraverbal, de tudo
aquilo que é visto e sabido, como na vida. Uma obra poética não pode confiar
em objetos e eventos do meio imediato como coisas ―entendidas‖, sem fazer
mesmo a mais ligeira alusão a eles na parte verbal do enunciado. A esse respeito,
muito mais é exigido do discurso na literatura: muito do que poderia permanecer
fora do enunciado na vida precisa encontrar representação verbal. Nada deve ser
deixado não dito numa obra poética do ponto de vista pragmático-referencial.
(VOLOSHINOV; BAKHTIN, 1997[1926], p. 124, grifo do autor)
15
De acordo com esse ponto de vista, a relação entre a literatura e o contexto extraverbal
imediato é menos estreita. Assim, ainda segundo esses autores, o discurso literário, embora tenha
mais autonomia, também pode estar enredado no contexto extraverbal por meio de valores sociais
presumidos, os quais devem ser representados na obra poética.
Os referidos teóricos consideram que essas valorações sociais determinam as escolhas
lexicais do autor e a percepção destas escolhas pelo ouvinte (leitor). O autor, explicam, não
escolhe suas palavras no dicionário, mas no contexto da vida no qual as palavras encontram-se
impregnadas de valores. Nesse sentido, o leitor ocupa uma posição especial na criação artística na
medida em que seu papel tem um efeito determinador no estilo do discurso literário.
As especificidades da obra literária também estão presentes no texto O autor e a
personagem na atividade estética no qual Bakhtin (2003[1924/1927]) expõe a relação entre o
autor-criador e a personagem, entendidos como constituintes da obra artística. Segundo o teórico
russo, o autor-criador possui uma consciência que abrange a consciência e o mundo da
personagem, pois
[...] nesse excedente de visão e conhecimento do autor, sempre determinado e
estável em relação a cada personagem, é que se encontram todos os elementos
do acabamento do todo, quer das personagens, quer do acontecimento conjunto
de suas vidas, isto é, do todo da obra. (BAKHTIN, 2003[1924-1927] p.11)
Assim, a ideia que permeia todo o texto refere-se à existência de um excedente de visão
exercido pelo autor-criador cuja função é dar acabamento ao todo artístico. Ou seja, o autor, nas
15
Desde el principio está claro que en un enunciado literario la palabra no se encuentra, ni puede encontrarse, en la
misma dependencia estrecha de todos los momentos del contexto extraverbal, de todo lo inmediatamente visible y
conocido como sucede en la vida. Una obra poética no puede apoyarse en las cosas y en los acontecimientos
circundantes más próximos como en algo sobreentendido, sin introducir una sola alusión a ellos en la parte verbal del
enunciado. Desde este ángulo a la literatura se le demandan, desde luego, requerimientos muchos mayores: muchas
cosas, que en la vida se quedaron fuera del marco del enunciado, ahora deben encontrar un representante verbal.
Desde el punto de vista pragmático-objetual en una obra artística no debe Haber cosas no dichas. (VOLOSHINOV;
BAKHTIN, (1997[1926], p.124)
36
palavras de Bakhtin, tem uma consciência que não apenas enxerga tudo o que as personagens
enxergam e conhecem, mas também enxerga algo que, a princípio, é inacessível às próprias
personagens.
Para Bakhtin (2003[1924/1927]), o contexto do autor insere-se no âmbito ético-cognitivo e
ético formal, ao passo que o contexto da personagem insere-se somente no âmbito ético-cognitivo da
vida.
Seguindo esta ideia, sua análise estética centra-se no autor-criador, entendido como aquele
que vivencia a existência da personagem em posições axiológicas distintas daquelas em que vivencia
sua própria existência. Portanto, como salienta o teórico russo, o acontecimento estético pressupõe
duas consciências que não coincidem.
A luta do autor por uma imagem definida da personagem é, segundo o pensador russo, uma
luta consigo mesmo, evitando, assim, a fusão de ambos em um todo único, tal como pode acontecer
nas obras autobiográficas. Mas Bakhtin também reconhece a possibilidade de o autor transpor suas
próprias ideias nas atitudes da personagem, tendo em vista a significação teórica ou ética (política,
social) dessas ideias, visando persuadir quanto a sua veracidade ou difundi-las, ―mas o
estamos diante de um princípio esteticamente produtivo do tratamento da personagem [...]
(BAKHTIN, 2003[1924-1927], p.8).
De acordo com as reflexões bakhtinianas, quando o autor e a personagem coincidem,
estando lado a lado ou frente a frente como inimigos, tem-se o acontecimento ético; quando não
personagem, tem-se um acontecimento cognitivo e, por fim, quando a outra conscncia é
consciência de Deus, tem-se um acontecimento religioso.
Dessa forma, o pensador russo postula que o autor deve posicionar-se exteriormente com
vistas a elaborar o acabamento estético da personagem, pois quando ambos formam um todo
único, ocorre uma duplicação valorativa, a qual compromete a forma estética acabada. Assim, ao
tratar da forma espacial e temporal da personagem, Bakhtin (2003[1924/1927]) define a
exterioridade como aquela que não integra o horizonte concreto de minha visão, ou seja, sempre que
o outro se põe à minha frente, sua imagem externa se insere no espaço e sua vida interior, no
tempo. Nesse sentido, a imagem externa somente pode ser contemplada e acabada por meio da visão
do outro. Nas palavras de Bakhtin:
37
Minha imagem externa o pode vir a ser um elemento de minha caracterização
para mim mesmo. Na categoria do eu, minha imagem externa não pode ser
vivenciada como um valor que me engloba e me acaba, ela pode ser assim
vivenciada na categoria do outro, e eu preciso me colocar a mim mesmo sob essa
categoria para me ver como elemento de um mundo exterior plástico-pictural e
único. (BAKHTIN, 2003[1924-1927], p. 32-33, grifo do autor)
O homem, ainda segundo Bakhtin, tem uma necessidade estética absoluta do outro na
medida em que esse outro é o único ser capaz de instituir uma visão externamente acabada da
personalidade do eu transportando-o para ―um novo plano de existência‖ (p.33).
Como se pode notar, para o teórico, o acontecimento estético está vinculado ao excedente de
visão e ao distanciamento espacial e temporal do autor em relação ao todo da obra artística,
possibilitando a esta um acabamento significativo e valorativo. Acredita-se que o mesmo pode
ocorrer na criação da dimensão visual do corpus ora analisado cujos autores, determinando ―valores
plásticos e picturais como cores, tons, formas, linhas, imagens, gestos, poses, rostos, etc.‖
(BAKHTIN, 2003[1924-1927], p.55), ocupam uma posição externa que forma e acabamento
estico ao já dito no texto verbal.
Dessa forma, as categorias estéticas de autor, personagem, acabamento e distanciamento
(o excedente de visão em relação à construção temporal, espacial e semântica do herói), formam,
na visão do teórico russo, a base de uma estética geral.
Tal proposta, semelhantemente, pode ser observada no texto O problema do conteúdo, da
forma e do material na criação verbal (1923-1924), em que os aspectos desenvolvidos também
convergem para a questão da necessidade de criação de uma estética geral que possa auxiliar a
análise das especificidades da arte.
Neste texto, Bakhtin tece críticas à estética material, observando que:
Realmente, o estético, de certo modo, encontra-se na própria obra de arte, o
filósofo não o inventa, mas para compreender cientificamente a sua
singularidade, a sua relação com o ético e o cognitivo, seu lugar no todo da
cultura humana, e, enfim, os limites de sua aplicação, necessita-se da filosofia
sistemática com os seu métodos. O conceito de estético não pode ser extraído da
obra de arte pela via intuitiva ou empírica: ele será ingênuo, subjetivo e instável;
para se definir de forma segura e precisa esse conceito, necessidade de uma
definição recíproca com outros domínios, na unidade da cultura humana.
(BAKHTIN, 1993[1923-1924], p. 16, grifos do autor)
38
Como se pode constatar na proposição acima, mais uma vez, o teórico correlaciona a arte
aos domínios da vida e da ciência e, por conseguinte, com a ética e a cognição. Ou seja, a
determinação da especificidade do fazer estético dar-se-ia, segundo Bakhtin (1993[1923-1924]),
por meio de sua relação com a realidade do conhecimento (ou do fazer científico) e do
comportamento ético. Para o autor russo, a principal diferença reside no fato de que a ciência,
enquanto mundo da realidade una do conhecimento, é inacabada e está sempre aberta, ao passo
que a obra artística ―transfere‖ a realidade conhecida (aspectos da vida e do conhecimento) para
um outro plano axiológico, submete-a a uma nova unidade, ordena-a de modo novo:
individualiza-a, concretiza-a, isola-a, arremata-a‖ (BAKHTIN, 1993[1923-1924], p.33), dando
acabamento e criando uma nova relação axiológica com os elementos que se tornaram
realidade para o conhecimento e para o ato:
A atividade estética não cria uma realidade inteiramente nova. Diferentemente
do conhecimento e do ato, que criam a natureza e a humanidade social, a arte
celebra, orna, evoca essa realidade preexistente do conhecimento e do ato a
natureza e a humanidade social enriquece-as, completa-as, e sobretudo ela cria
a unidade concreta e intuitiva desses dois mundos, coloca o homem na natureza,
compreendida como seu ambiente estético, humaniza a natureza e naturaliza o
homem. (BAKHTIN, 1993[1923-1924], p.33, grifos do autor)
O acabamento estético, conforme mencionado neste capítulo, é uma noção importante
para a caracterização da obra literária na medida em que, para Bakhtin e seu Círculo, somente na
arte, a realidade cognitiva e a vida encontram uma ―unificação concreta e intuitiva‖ determinada
pela posição externa do autor-criador, sendo este entendido como um elemento constitutivo do
todo artístico. Vale ressaltar que, na visão bakhtiniana, outro traço distintivo entre a forma
artística e a cognitiva é que esta última é destituída de autor-criador. Segundo Bakhtin
(1993[1923-1924], o autor-criador ocupa uma posição essencial fora do acontecimento,
permitindo que a atividade artística formule e conclua o acontecimento por meio da
exterioridade. É este acabamento que diferencia o fazer estético do fazer científico e do ato ético,
pois no interior do próprio conhecimento e do próprio ato esta unificação e esse acabamento são
radicalmente impossíveis‖ (p.36). Tal asserção mostra-se extremamente relevante para os fins do
presente trabalho visto que, como observar-semais adiante no corpus selecionado, a ciência
refletida e refratada nas obras de literatura infantil do escritor-cientista Angelo Machado é isolada
39
e enformada em um novo plano axiológico, transformando-se em um acontecimento acabado, o
que é impossível na esfera científica.
Para Bakhtin (1993[1924-1924]), a atividade estética tem mais autonomia em relação à
díade ética-cognição já que ela cria a sua própria realidade, na qual a realidade do conhecimento
e do ato se apresenta positivamente admitida e transformada: nisso constitui a singularidade do
campo estético‖ (p.33). Assim, de acordo com o teórico russo, na arte, e não no ato e no
conhecimento, pode-se perceber a novidade, a originalidade e a liberdade do fazer artístico. Ou
seja, somente vistas de fora, a vida cotidiana, a religião, a política, a ciência etc. encontram, na
totalidade, um acabamento, sendo este determinado pela consciência extraposta e criadora do
autor.
À guisa de conclusão, é importante ressaltar que as breves considerações expostas acima
não têm o objetivo de esgotar o assunto, mas, levando em conta as contribuições de diversos
autores e, sobretudo, de Bakhtin, levantar algumas especificidades do fazer estético que
permitirão refletir acerca do diálogo entre a arte e a ciência. Assim, passa-se à próxima seção,
buscando identificar as características da esfera literária infantil/juvenil que, somadas às
peculiaridades literárias destacadas, poderão iluminar a análise.
3.2 O que é literatura infantil
Conceituar e delimitar a esfera literária infantil, assim como a literatura em si, não é tarefa
fácil. Para Coelho (1993), a literatura destinada aos pequenos cumpre as mesmas funções da
literatura não infantil, ou seja, é arte criadora que une os sonhos e a vida prática, o imaginário e o
real, os ideais e sua possível/impossível realização. No entanto, na literatura infantil algumas
especificidades que a diferenciam das demais, seja pela singularidade do destinatário, seja pela
natureza formadora que o gênero adquiriu desde sua origem:
40
[...] O livro infantil é entendido como uma ―mensagem(= comunicação) entre
um autor-adulto (= o que possui experiência do real) e um leitor-criança (= o que
deve adquirir tal experiência). Nessa situação, o ato de ler (ou de ouvir), pelo
qual se completa o fenômeno literário, se transforma em um ato de
aprendizagem. É isso que responde por uma das peculiaridades da Literatura
infantil. (COELHO, 1993, p. 27, grifos da autora)
Tal fato pode ser importante para os fins dessa pesquisa, pois, ao que tudo indica, a
literatura infantil/juvenil, sem detrimento de seu valor estético, encerra nas entrelinhas uma
intencionalidade formadora e ideológica. Faz-se necessário observar que, na sua gênese, a
literatura infantil era um instrumento de uso pedagógico. No entanto, relacionar a literatura para
os pequenos com a pedagogia provoca discussão, pois, na atualidade, quem reaja contra essa
vocação em defesa de sua qualidade unicamente recreativa. Mas, é preciso considerar que a
literatura infantil sempre manteve uma finalidade utilitária, a qual, hoje, parece corporificar-se
em um discurso voltado para a formação do indivíduo. Desta forma, Coelho observa que:
[...] dentro de um sistema de vida contemporânea (pressionado pela imagem,
pela velocidade pela superficialidade dos contatos humanos e da comunicação
cada vez mais rápida e aparente...), acreditamos que a Literatura (para crianças
ou para adultos) precisa urgentemente ser descoberta, muito menos como mero
entretenimento (pois deste se encarregam com mais facilidade os meios de
comunicação de massa), e muito mais como uma aventura espiritual que engaje
o eu em uma experiência rica de Vida, Inteligência e Emoções. (COELHO,
1993, p. 28, grifos da autora)
Assim sendo, considera-se que a literatura infantil/juvenil, enquanto produção cultural
voltada para seres em formação, ainda é considerada uma forte aliada das escolas e famílias,
auxiliando no processo de desenvolvimento global dos pequenos. É importante ressaltar que esse
caráter formador pode ser historicamente explicado, pois, conforme mencionado, a literatura
infantil surge como um recurso eficiente para a educação das crianças, suscitando a constante
polêmica quanto à sua natureza literária ou pedagógica.
Nesse sentido, voltando-se ao passado, verifica-se que a literatura infantil ocidental,
segundo Coelho (1991), originou-se nas narrativas primordiais
16
as quais remontam a fontes
orientais heterogêneas e cuja propagação no ocidente europeu deu-se na Idade Média, por
16
A Literatura Primordial, ainda que não transcrita em material perene, é caracterizada como aquela que percorreu os
tempos sendo preservada pela memória dos povos (COELHO, 1991).
41
meio da oralidade. No entanto, é na França, na segunda metade do século XVII, que se manifesta
uma preocupação mais acentuada acerca dos textos direcionados às crianças.
De acordo com Lajolo e Zilberman (1985), os escritores franceses não detiveram a
exclusividade do desenvolvimento da literatura infantil, pois sua manifestação deu-se ao mesmo
tempo na Inglaterra, onde os acontecimentos de fundo econômico e social influíram na
demarcação das características adotadas nos gêneros. Segundo as autoras, as primeiras obras tidas
como literatura infantil, na verdade, não foram especialmente criadas para os pequenos, mas
englobadas como literatura apropriada à criança, sendo que as publicações realmente
direcionadas ao público mirim surgiram somente a partir do século XVIII. Obras como as
Fábulas de La Fontaine, As aventuras de Telêmaco, de Fénelon, Os contos de mamãe Gansa, de
Charles Perrault compõem as primeiras manifestações literárias adaptadas ao público
infantil/juvenil.
Assim, regida por um panorama histórico de transformações sociais, a literatura destinada
aos pequenos surgiu em meio a uma nova concepção de infância que resultou no fim do
infortúnio vivido pelas crianças da sociedade antiga, as quais cumpriam as mesmas atividades
dos adultos: trabalhavam, presenciavam momentos como o nascimento, a doença, a morte,
participando ainda das discussões políticas, festas, guerras, audiências, execuções etc. Entretanto,
com a extinção do poder feudal, o Estado Moderno encontrou na família nuclear a base
necessária para propagar uma ideologia pautada no individualismo, no recato e na motivação do
afeto entre os cônjuges e filhos:
Antes da constituição deste modelo familiar burguês, inexistia uma consideração
especial para com a infância. Esta faixa etária não era percebida como um tempo
diferente, nem o mundo da criança como um espaço separado. Pequenos e
grandes compartilhavam dos mesmos eventos, porém nenhum laço amoroso
especial os aproximava. (ZILBERMAN, 1998, p.13)
Dessa forma, o segmento destinado aos pequenos, segundo Zilberman e Magalhães
(1984), justificava-se historicamente por estar relacionado a um contexto social demarcado pela
valorização da família e pela distinção especial concedida à infância, enquanto faixa etária e
estado existencial. Ou seja, a criança passa a deter um novo papel na sociedade, o que favoreceu
o surgimento de objetos industrializados (brinquedos) e culturais (livros), bem como de novos
campos da ciência, tais como a pedagogia e a pediatria (LAJOLO; ZILBERMAN, 1986).
42
Diante deste novo panorama, a burguesia estabilizou-se como classe social, passando a
reivindicar e a conquistar, de forma progressiva, o poder político. Para tanto, a classe estimulou
instituições que pudessem trabalhar em seu favor, tendo em vista consolidar uma posição política
e ideológica.
De acordo com Lajolo e Zilberman (1985), a primeira dessas instituições é a família a
qual passa a viver de forma mais privada, ou seja, menos participativa publicamente:
A manutenção de um estereótipo familiar, que se estabiliza através da divisão do
trabalho entre seus membros (ao pai cabendo a sustentação econômica, e à mãe,
a gerência da vida doméstica privada), converte-se na finalidade existencial do
indivíduo. Contudo, para legitimá-la, ainda foi necessário promover, em
primeiro lugar, o beneficiário maior desse esforço conjunto: a criança. A
preservação da infância impõe-se enquanto valor e meta de vida, porém, como
sua efetivação somente pode se dar no espaço restrito, mas eficiente, da família,
esta canaliza um prestígio social até então inusitado. (LAJOLO; ZILBERMAN,
1985, p.17, grifos das autoras)
A privatização
17
da vida familiar distanciou a criança da vida social. Dessa forma, a
escola
18
, segunda instituição nomeada para contribuir com a solidificação política e ideológica da
burguesia, possibilitou a (re)ligação entre os pequenos e a sociedade, qualificando-se ―como um
espaço de mediação entre a criança e a coletividade, o que mostra a complementaridade entre
essas instituições e a neutralização do conflito possível entre elas‖ (LAJOLO; ZILBERMAN,
1985, p.17).
Assim, com o crescimento da sociedade e da modernização, a literatura infantil passa a
ser considerada mercadoria:
Numa sociedade que cresce por meio de industrialização e se moderniza em
decorrência dos novos recursos tecnológicos disponíveis, a literatura infantil
assume, desde o começo, a condição de mercadoria. No século XVIII,
aperfeiçoa-se a tipografia e expande-se a produção de livros, facultando a
proliferação dos gêneros literários que, com ela, se adequam à situação recente.
(LAJOLO; ZILBERMAN, 1985, p.18)
17
Conforme Capparelli (s/d), o termo privatização remete aos novos modos de conceber a vida familiar a partir de
meados do século XVI, época em que as pessoas passaram a se ordenar longe das vias públicas, resguardando-se em
casa.
18
Facultativa até o século XVII, a escola passa a ser obrigatória a todas as crianças da sociedade (burguesa ou
proletária), tirando diversos operários mirins das fábricas com o objetivo a prepará-los para a vida adulta (LAJOLO;
ZILBERMAN, 1985).
43
A união entre a literatura e a escola, segundo Lajolo e Zilberman (1985), iniciou-se a
partir da habilitação da criança para o consumo de obras impressas, tendo em vista que esse
consumo dependia da capacidade leitora dos pequenos. Dessa maneira, as obras literárias infantis
constituíram-se como instrumentos da pedagogia ao unirem-se ao ensino, assumindo um caráter
educacional útil à formação moral da criança e que inspirava a confiança da burguesia.
Tencionava-se transmitir valores ou padrões reverenciados pela sociedade e que deveriam ser
incorporados pelos mais novos. No entanto, a relação entre a literatura infantil e a pedagogia
dificultou o reconhecimento estético do seguimento. Ou seja, por ter uma natureza pragmática e
um fim didático, a literatura infantil associou-se a ―uma atividade comprometida com a
dominação da criança‖ (ZILBERMAN, 1998, p.14).
3.2.1 O início da literatura infantil/juvenil no Brasil: vocação nacionalista e pedagógica
A literatura infantil no Brasil surge, segundo os estudiosos do assunto, no final do século
XIX, coincidindo também com uma época de transformações sociais, econômicas e culturais, tais
como o fim da escravatura, o advento da República e o cultivo do café em padrões mais
avançados. Essa nova situação acelerou a urbanização e configurou a existência de um possível
público consumidor de livros infantis e escolares. No entanto, as estruturas sociais anacrônicas e
a superficialidade dos avanços conferiram ao segmento infantil uma natureza conservadora,
instrutiva e nacionalista, ou seja, um caráter cívico e pedagógico
19
.
A natureza pedagógica e didática atribuída à literatura infantil/juvenil em terras brasileiras
também era condicionada pelos modelos clássicos infantis europeus que forneciam o material
para as adaptações e/ou traduções que antecederam a real produção literária para crianças. Assim,
traduções, como Contos seletos das Mil e uma noites, As aventuras do celebérrimo barão de
Münchhausen, de Carlos Jansen, Cuore, de João Ribeiro, e Juca e Chico, de Olavo Bilac,
marcaram, segundo Zilberman e Lajolo (1986), o primeiro momento da literatura infantil no
19
O caráter pedagógico/didático ao qual a literatura infantil associou-se também é, segundo Zilberman e Lajolo
(1986), devido ao ranço dos padrões europeus nos quais a literatura brasileira se inspirava.
44
Brasil. Vale, ainda, destacar a importância de Figueiredo Pimentel que, segundo as autoras, a
pedido da livraria Quaresma, reuniu e adaptou diversas histórias infantis do acervo europeu.
As adaptações dessas obras para a realidade linguística brasileira apontavam para uma
tendência nacionalista que transformou a literatura para crianças em um meio de representar a
grandeza, a modernidade, o civismo e o patriotismo vigentes no país:
De um lado, a literatura infantil se converte facilmente em instrumento de
difusão das imagens de grandeza e modernidade que o País, através das
formulações de suas classes dominantes, precisa difundir entre as classes médias
ou aspirantes a elas no conjunto das camadas urbanas de sua população. De
outro, inserida no bojo de uma corrente mais complexa de nacionalismo, a
literatura infantil lança mão, para a arregimentação de seu público, do culto
cívico e do patriotismo como pretexto legitimador. (ZILBERMAN; LAJOLO,
1986, p.18)
Desse modo, obras como Os contos pátrios, de Olavo Bilac e Coelho Neto, Histórias da
nossa terra, de Julia Lopes de Almeida, Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bonfim
exemplificam e marcam a incumbência patriota do primeiro momento da literatura infantil.
Ademais, esses textos manifestavam a preocupação com o escrever corretamente, reforçando o
caráter modelar que a literatura para crianças evocava nesse período, ou seja, ―além de fornecer
exemplos de qualidades, sentimentos, atitudes e valores a serem interiorizados pelas crianças,
outro valor a ser assimilado, e que o texto deve manifestar com limpidez, é a correção de
linguagem‖ (LAJOLO; ZILBERMAN, 1985, p.43).
Nesse sentido, vê-se que, no Brasil, os laços entre a literatura infantil e a escola/didatismo
também não foram diferentes, pois recebendo incentivo da classe média, era interessante que essa
instituição meio de ascensão social e a literatura infantil se unissem com vistas à
disseminação de valores, sendo, portanto, essencialmente educativa.
Dessa maneira, como se pode observar, as primeiras obras brasileiras de literatura infantil
eram orientadas para a transmissão de valores ideológicos, definidos por Coelho (1991), como:
nacionalismo, intelectualismo, tradicionalismo cultural, moralismo e religiosidade, os quais, na
visão da autora, ainda se fazem presentes nas obras para crianças. De acordo com esses
apontamentos, considera-se que nenhuma obra literária é ingênua ideologicamente, em especial
aquela destinada ao público infantil, visto que as relações hierárquicas estabelecidas entre autor e
leitor são mais evidentes.
45
É interessante ressaltar que o propósito das observações levantadas até aqui não é emitir
juízos de valor acerca da polêmica entre a literatura infantil e a propensão pedagógica, mas
explicitar que sua natureza formadora advém de suas origens históricas e culturais. Assim,
conforme bem observou Bakhtin (2003[1970/1979]), não é possível compreender o texto literário
fora do contexto cultural de uma época, pois esse vínculo pode orientar a leitura no tempo
presente e, por conseguinte, auxiliar na busca por elementos que permitam apreender os sentidos
emanados na obra artística.
3.2.2 Alguns gêneros da esfera literária infantil
A esfera literária infantil/juvenil engloba diversos gêneros discursivos que se adequam às
condições e às finalidades do referido campo. Coelho (1993) observa que ―vista a essencialidade
do gênero-matriz (a ficção) e das formas narrativas básicas (conto, novela ou romance)‖ e da
divergência quanto aos ―rótulos‖ atribuídos a essas diversificações formais, prefere adotar o
termo ―espécie‖ para referir-se aos textos que constituem a esfera literária para os pequenos. No
entanto, para os fins desta pesquisa se adotada a noção de gênero tal como postulada por
Bakhtin (2003[1952-1953). Para o teórico russo, os gêneros do discurso são enunciados (orais ou
escritos) relativamente estáveis que refletem as condições e as finalidades de cada campo da
atividade humana por meio de três elementos: o conteúdo temático, o estilo e a construção
composicional. Esses três elementos ―estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são
igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação
(BAKHTIN, 2003[1952-1953], p.262).
Dessa forma, considerando o conteúdo temático, o estilo e a construção composicional, os
gêneros da esfera literária são constituídos por: fábulas, contos de fadas, lendas, contos
maravilhosos, poemas etc., os quais, mesmo não sendo primordialmente criados para o público
mirim, foram incorporados à literatura para crianças. Para exemplificar, expõem-se a seguir, de
maneira bastante sucinta, as especificidades dos gêneros mais difundidos na esfera literária
infantil.
46
3.2.2.1 Fábula
De natureza simbólica, a fábula é uma narrativa curta cuja ação é representada por
animais humanizados, aludindo a uma circunstância humana exemplar. Uma de suas
características marcantes é a presença da ―moral da história‖ que objetiva transmitir valores aos
leitores, sendo sempre relacionados com as atitudes do homem em sociedade.
Nota-se que a presença simbólica do animal expõe alegoricamente elementos da natureza
humana os quais se relacionam com os personagens escolhidos, tais como a força, a majestade e
o poder figurados pelo leão; a astúcia simbolizada pela raposa; o trabalho representado pela
formiga etc. Segundo Coelho (1993), o simbolismo animal relaciona-se com o totemismo e com a
zoolatria, representando uma das formas mais interessantes da visão de mundo do homem. Sua
origem remonta a épocas antigas, sendo reinventada no Ocidente por Esopo e posteriormente
aperfeiçoada por Fedro. No século XVII, La Fontaine reinventou a fábula, introduzindo-a
permanentemente na literatura ocidental. Nos dias atuais, no que concerne às suas características
essenciais, o gênero mantém-se quase inalterado, sendo ainda apreciado pelo público infantil.
3.2.2.2 Lenda
A lenda também é uma narrativa breve (em verso ou em prosa) baseada na tradição oral e
consiste, segundo Coelho (1993), no relato de fatos em que a supremacia imaginária ultrapassa os
limites do histórico e do verdadeiro. Conforme cita a autora, Câmara Cascudo nota que a lenda
[...] conserva as quatro características do conto popular: antiguidade,
persistência, anonimato e oralidade. Os processos de transmissão, circulação e
convergência são os mesmos que presidem à dinâmica da literatura oral. Muito
confundido como mito, dele se distancia pela fundação e confronto.
(CASCUDO, 2000[1954], p. 328)
47
De acordo com Coelho (1993), o folclore brasileiro é muito produtivo em lendas e
diversas delas têm sido utilizadas pelos escritores, tais como: Mãe d’água, Mãe da lua, Cobra
grande, Mula sem cabeça, Boto, Curupira, Cainamé etc.
3.2.2.3 Conto maravilhoso
As narrativas maravilhosas, segundo Coelho (1993), transcorrem no universo da magia,
da fantasia ou do onírico, ―onde tudo escapa às limitações ou contingências precárias da vida
humana e onde tudo se resolve por meios sobrenaturais‖ (p.154). Elementos como castelos,
palácios, carruagens, bruxas, objetos gicos, gênios, florestas encantadas, reis, rainhas,
princesas, príncipes, tapetes voadores, botas de sete léguas, mpadas mágicas, anões, gigantes
etc., fazem parte desse mundo imaginário que, nos seus primórdios, era destinado aos adultos,
mas que, posteriormente, caiu no gosto das crianças.
A autora observa que, de acordo com a tradição, as narrativas maravilhosas foram
classificadas em conto maravilhoso e conto de fadas. Contudo, esses dois gêneros diferem, um do
outro, quanto à natureza dos acontecimentos que narram, pois a forma ―conto maravilhoso‖
equivale, na sua visão, aos modelos das antigas narrativas orientais, disseminadas pelos árabes,
tal como a coletânea As mil e uma noites, sendo considerada uma das mais exaltadas reuniões de
contos maravilhosos cujo núcleo das aventuras é de natureza material/social/sensorial.
3.2.2.4 Conto de fadas
Destinado ao adulto e incorporado à literatura infantil, o conto de fadas é de origem
céltica e distingue-se do conto maravilhoso por apresentar um caráter espiritual/ético/existencial.
O núcleo central dos contos de fadas desenvolve-se dentro da magia feérica, na qual os seres
fictícios são providos de forças sobrenaturais.
48
Para Coelho (1993), a fada constitui um dos símbolos mais fascinantes do gênero, porque
expressa uma possível mediação para a concretização das aspirações da consciência humana:
Limitado pela materialidade de seu corpo e do mundo em que vive, é natural que
o homem tenha precisado sempre de mediadores mágicos. Entre ele e a possível
realização de seus sonhos, aspirações, fantasia, imaginação... sempre existiram
mediadores (= fadas, talismãs, varinhas mágicas,...) e opositores (= gigantes,
bruxas, ou bruxos, feiticeiros seres maléficos...). E até hoje bem sabemos que
nossa vida decorre entre ―mediadores‖ e ―opositores‖ das mais diversas
naturezas [...] (COELHO, 1993, p. 155, grifo da autora)
Nesse sentido, é importante ressaltar que essas narrativas são marcadas por valores
ideológicos implícitos ou explícitos, que objetivam transmitir aos leitores crianças ou não
certos preceitos morais e éticos que fizeram, ou ainda fazem parte, do contexto sócio-histórico
em que estão inseridas.
3.2.2.5 Poesia
A poesia infantil brasileira surgiu nos fins do século XIX com o compromisso de também
contribuir para a formação educativa das crianças, tendo em vista impor-lhes ―bons sentimentos‖.
Coelho (1993) observa que a memorização de poemas fazia parte do sistema educativo e cabia
aos alunos recitá-los em datas comemorativas. Essa intenção educativa favoreceu a propagação
dos poemas narrativos e exemplares os quais encerravam nas entrelinhas sentimentos pátrios,
filiais, fraternais, caridosos, generosos etc.
Com a ruptura modernista (a partir dos anos 1920), poemas que a princípio eram
direcionados aos adultos começam a ser apreciados pelo público infantil. A razão estava no
caráter lúdico incluído no objeto poético, aguçando os sentidos dos pequenos leitores.
a poesia infantil contemporânea pretende, segundo Coelho (1993), induzir a criança a
desvendar algo à sua volta e a conhecer novas experiências que, ―ludicamente, se incorporarão
em seu desenvolvimento mental/existencial‖ (p.201).
49
Para Lajolo e Zilberman (1985), a função pedagógica inerente à poesia infantil tem sido
lentamente abandonada na medida em que os textos poéticos contemporâneos destacam a
―tematização do cotidiano infantil‖ e a ―adoção, por parte do autor, de um ponto de vista que
compartilha com seus pequenos leitores a anticonvencionalidade, quer na linguagem, quer no
recorte com a realidade‖ (p.148). Como a imaginação faz parte da natureza da criança, o aspecto
lúdico e o jogo com as palavras presentes na poesia contribuem para despertar-lhes o
encantamento. Assim, como bem observou Góes (1984):
A criança tem alma poética e é profundamente criadora. Ela recebe, pois, como
um sedento bebe água, os versos do poeta que encontram ressonância especial e
perfeita em seus pequenos corações e nas suas almas não conspurcadas. Por isso
mesmo deve chegar a ela a poesia elevada, bela, verdadeira obra de arte. Que
seja capaz de provocar emoções autênticas, criando um sentido elevado de
justiça, beleza e sentimentos nobres. Que crie uma emoção duradoura, um prazer
estético, enfim que as sensibilize, transmitindo uma sensação de encantamento.
(GÓES, 1984, p.178)
No entanto, dependendo da faixa etária do leitor, a linguagem metafórica dos poemas nem
sempre pode ser compreendida, embora seja capaz de aguçar sua sensibilidade. Coelho (1993)
afirma que os textos poéticos mostram-se como um meio eficaz para a percepção sensorial da
criança, ampliando sua habilidade de pensar, ouvir, falar e escrever.
3.2.3 A literatura infantil no contexto atual do Brasil
Se no século XIX a literatura infantil brasileira surge como um dos produtos que visava
auxiliar na educação da criança, hoje, com um olhar mais atento, pode-se propor que ela cumpre,
de certa forma, a mesma função, mas no sentido de formar ―leitores de arte, leitores de mundo,
leitores plurais‖ (GREGORIN FILHO, 2009).
Ressalta-se também que, na atualidade, a produção literária infantil brasileira leva em
conta ainda as etapas de desenvolvimento do leitor e suas respectivas competências, pois,
50
[...] uma produção literária/artística para as crianças que não nasce apenas da
necessidade de se transformar em mero recurso pedagógico, mas cujas principais
funções são o lúdico, o catártico e o libertador, além do cognitivo e do
pragmático, já que visa a preparar o indivíduo para a vida num mundo repleto de
diversidades. (GREGORIN, 2009, p.29-30)
Dessa forma, as produções literárias infantis contemporâneas subsidiadas por técnicas
visuais, projetos gráficos avançados, materiais diversificados etc. mostram-se menos
conservadoras, considerando seus destinatários como seres capacitados a refletir, criticar,
concordar, discordar e tirar suas próprias conclusões acerca dos assuntos tratados no texto. Ou
seja, empenhadas em estimular a criatividade e atuar na formação do conhecimento sobre o
mundo.
Segundo Zilberman (1998), a literatura para crianças vem apresentando uma perspectiva
mais realista ―na criação dos textos, ao mostrar a vida ‗tal qual é‘ ao leitor mirim‖ (p.88),
evidenciando, assim, um propósito verista.
No passo dessa nova configuração, algumas produções literárias infantis atuais parecem
privilegiar os assuntos mais imediatos relacionados a questões sociais, econômicas e culturais da
realidade brasileira, visando talvez adequar-se tanto ao momento histórico em que estão
inseridas, quanto aos temas transversais destacados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais
20
(doravante PCNs):
Na última LDB, com a criação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, houve a
inserção dos chamados Temas Transversais [...].
Após a inserção desses temas, houve uma larga produção de textos literários
para crianças nos quais assuntos como ética, pluralidade cultural e diversidade
são abordadas, de maneira a trazer para a criança e os jovens a discussão de
assuntos pertinentes ao momento social político e cultural nos nossos dias.
(GREGORIN FILHO, 2006, p.7)
A representação de tais temas na literatura infantil confirma a ideia bakhtiniana de que a
arte literária reflete e refrata outros domínios da atividade humana, os quais estão em constantes
transformações visto que também são subordinados às modificações sociais, econômicas,
históricas e culturais em que estão inseridos.
20
De acordo com Gregorin (2009), PCNs são as diretrizes elaboradas pelo Governo Federal para orientar a educação
no Brasil e são construídos por disciplinas.
51
É preciso mencionar que, conforme nota Gregorin Filho (2009), as questões levantadas
nos temas transversais não estão presentes apenas no texto literário infantil na medida em que,
obviamente, esses assuntos atravessam todas as esferas de atividade humana. Mas, com a
mencionada criação dos PCNs, a produção editorial para crianças está paulatinamente mais
engajada nos assuntos que envolvem a ética, a pluralidade cultural, o meio ambiente, a saúde e a
orientação sexual (conhecidos como temas transversais).
Assim, considerando que a literatura infantil, desde sua origem, sempre manteve fortes
relações com o pedagógico, pode-se dizer que as obras produzidas atualmente, de certa forma,
ainda ―estão voltadas à formação do indivíduo‖. Ou seja, embora, mais moderna, a literatura para
os pequenos pode guardar certos resquícios de sua natureza didática, mas uma natureza didática
―não enquanto súdita ao ensino de boas maneiras (de se comportar ou de falar e escrever)‖ e sim
enquanto propiciadora de reflexão, visão de mundo, conhecimento, imaginação, ludicidade etc.,
fornecendo elementos para a emancipação pessoal, o que é a finalidade implícita do saber‖
(ZILBERMAN, 1998, p. 21-26).
É o que se verifica nas obras de Angelo Machado, autor contemporâneo de 35 obras
infanto-juvenis, conforme mencionado no capítulo 1. Nelas é possível verificar uma proposta
realista sem detrimento de seu aspecto lúdico no que diz respeito às questões relacionadas à
história, cultura, sociedade, meio ambiente, saúde e ciência. Segundo este autor, o objetivo
principal de suas obras não é divulgar ou ensinar, mas desenvolver o gosto pela leitura e a
curiosidade, embora acabe reconhecendo que
uma corrente na literatura infantil que diz que o livro infantil não deve
ensinar nada; se ensinar deixa de ser literatura. Meu ponto de vista é diferente: o
livro não deve, mas pode ensinar. Às vezes a realidade é mais interessante ou
poética do que a ficção. Em meus livros infanto-juvenis procuro misturar as duas
coisas, mas sempre no final um capítulo que permite ao leitor separar o real
do ficcional. Assim, o livro que é de literatura serve também para divulgar
ciência. [...] estou convencido de que divulgar ciência para criança é mais
importante do que para adulto. Para adulto, você apenas divulga conhecimento.
Para criança você também faz isso, mas contribui para formar cidadãos com
mentalidade indagativa ou até mesmo novos cientistas. (MACHADO, 2002, p.
148-152)
Dentro da conjuntura atual da literatura infantil, pode-se propor que os livros produzidos
pelo cientista-escritor, longe de serem rotulados como instrumentos puramente pedagógicos,
configuram-se como produções culturais que podem ―englobar histórias veristas ou fantásticas,
52
miscigenar gente e animais antropomorfizados, simbolizar ou simplificar situações humanas
existenciais (ZILBERMAN, 1998, p.61), aliando, a todas estas possibilidades, saberes de
diferentes áreas do conhecimento.
Talvez seja por esse caráter globalizador e formador que alguns livros do referido
cientista-escritor têm sido adotados pelo PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), fazendo
parte dos acervos de obras complementares
21
para uso em sala de aula. Esses acervos são
encaminhados às escolas públicas de ensino fundamental (1º e anos), tendo, entre outros, o
objetivo principal de ampliar o universo de referências culturais dos alunos em distintos campos
do conhecimento (ciências da natureza e matemática, ciências humanas e linguagens e códigos),
configurando como materiais de apoio ao processo de alfabetização e formação do leitor
(PORTAL DO MEC, s/d).
À luz das discussões desenvolvidas neste capítulo, considera-se, em termos gerais, que os
livros infantis, sem detrimento de sua natureza artística e lúdica, podem veicular determinada
parcela de conhecimento, visando a formação do indivíduo, no sentido de contribuir para seu
desenvolvimento intelectual, cognitivo e cultural. Obviamente não se afirma aqui que esta seja
sua única finalidade ou que a literatura destinada às crianças e aos jovens deva ser caracterizada
somente como um instrumento didático de que se servem a escola e/ou a família para modelar
atitudes ou transmitir conhecimentos, ideias e ideologias pré-concebidas, encaminhando-os para
um significado único, ao contrário, deve caracterizar-se como um material plurissignificativo, o
qual aliado ao lúdico e ao prazeroso, é capaz de ampliar a percepção de mundo, despertar o senso
crítico, estimular a curiosidade e o imaginário, construir conhecimento, provocar empatias,
enfim, formar leitores literários autônomos.
21
De acordo com o Edital de convocação para inscrição no processo de avaliação e seleção de obras
complementares para o PNLD 2010, consideram-se obras complementares aquelas que: a) abordam conteúdos
curriculares de forma lúdica, despertando o interesse dos alunos para as diversas áreas do conhecimento; b) recorrem
a projetos editoriais capazes de motivar o interesse e despertar a curiosidade de crianças dessa faixa etária; c) usam
linguagem verbal e recursos gráficos adequados a alunos em fase inicial do processo de alfabetização; d)
configuram-se, por esse conjunto de características, como obras capazes de colaborar com o processo de ensino-
aprendizagem para este nível, especialmente em situações de sala de aula; e) apresentam-se em uma das seguintes
modalidades: livro-texto ilustrado - que aborde temas das áreas de conhecimento [...]; livro de imagens, com ou sem
legendas - que apresente cenas e/ou objetos de interesse lúdico-pedagógico; livro ―de palavras‖- que explore, com
objetivos lúdico-pedagógicos, o vocabulário de campos temáticos e/ou de esferas de atividade humana pertinentes
para o aluno desses anos de escolaridade (EDITAL DE CONVOCAÇÃO PARA INSCRIÇÃO NO PROCESSO DE
AVALIAÇÃO E SELEÇÃO DE OBRAS COMPLEMENTARES PARA O PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO
DIDÁTICO PNLD 2010, 2008, p.2).
53
Capítulo 4 Algumas interpretações acerca da divulgação científica
Sabe-se que na esfera da ciência circulam textos de diversas áreas do conhecimento os
quais, difundidos como textos científicos, são escritos por e para especialistas. De linguagem
complexa, esses textos exigem do leitor conhecimento profundo sobre determinado assunto.
Entretanto, considerando que os processos, as descobertas e os avanços da ciência também são de
interesse da humanidade, cientistas e jornalistas produzem textos que exteriorizam a ciência em
outras esferas de atividade humana, atingindo, em linguagem acessível, o grande público.
Dessa forma, diante da crescente veiculação de saberes da ciência para um público não-
especialista, diversas abordagens têm sido levantadas em relação à definição e à função da
divulgação científica na sociedade. Para compreender algumas dessas abordagens, esta seção
pretende expor as propostas de alguns autores que se debruçaram sobre o referido discurso.
4.1 A divulgação científica como uma atividade de reformulação
Authier-Revuz (1998[1982]) observa que a divulgação científica é, tradicionalmente,
entendida como uma atividade de disseminação de saberes da ciência para a comunidade externa
à sua produção o público leigo da grande massa. Para esta autora, a divulgação científica é uma
prática de reformulação textual-discursiva de um discurso-fonte (doravante D1) em um discurso
segundo (doravante D2) em função de um novo receptor. Nas palavras da autora:
A DC inscreve-se em um conjunto que compreende tradução, resumo, resenha e,
também, textos pedagógicos adaptados a este ou àquele nível, análises políticas
reformuladas na ―direção de‖ tal ou tal grupo social, mensagens publicitárias em
função de um ―alvo‖ visado etc. (AUTHIER-REVUZ (1998[1982], p. 108, grifo
da autora)
De acordo com a mesma teórica o discurso segundo produto da divulgação científica é
resultado de um trabalho de reformulação do discurso-fonte o qual, ao contrário da tradução,
deixa ver, em diversos níveis, os processos de reformulação.
54
O primeiro nível compreende uma estrutura enunciativa global do discurso relatado que
faz do discurso-fonte (científico) o objeto do discurso segundo (divulgação científica).
No segundo nível, tem-se a constituição do fio do discurso marcado por operações locais
explícitas de citação, tradução, ajuste e glosa. Dessa forma, a autora parte do quadro da
enunciação para distinguir a divulgação científica dos demais gêneros de reformulação,
recorrendo a uma dupla estrutura enunciativa na qual os diversos elementos (os interlocutores e o
quadro da enunciação tanto de D1 quanto de D2) ―são excedentes fortemente realizados‖
(AUTHIER-REVUZ, 1998[1982], p.110).
A reformulação do discurso relatado, em sua visão, estabelece no D2 a alusão de D1 e a
sua enunciação, tornando D2 seu objeto explícito. Assim, a divulgação científica tem como
objetivo fazer chegar ao público leigo conhecimentos de um discurso fonte que se configura
como um discurso sobre o mundo. A autora ressalta, ainda, que
[...] não é enunciando, por sua vez, em D2, um discurso do mesmo tipo adaptado
ao novo receptor como é o caso, parece-nos, das enciclopédias e manuais ,
mas sim apoiando-se, explicitamente, sobre este discurso D1.
Esquematicamente, a mensagem não é da forma ‗os genes são...‘ mas ‗ X
disse/acaba de dizer/diz que os genes são...‘ (AUTHIER-REVUZ, (1998[1982],
p. 110, grifo da autora)
Outro aspecto mencionado pela autora diz respeito aos parâmetros do ato da enunciação
de D1, tais como: pessoas, datas, lugares, modalidades e circunstâncias presentes no fio do texto.
O D2 caracteriza-se por apresentar uma ancoragem temporal da enunciação, recorrendo, portanto,
a advérbios como ―hoje‖, atualmente, agora, até o momento presente, nestes últimos
anos‖, situando e datando os acontecimentos como um momento dentro de um desenvolvimento.
Outra regularidade apontada por Authier-Revuz são as expressões: ―lembremos, brevemente, o
esquema, resumamos os trabalhos‖ etc., as quais se constituem como atividade enunciadora do
divulgador. Além disso, tem-se a junção do divulgador e do leitor representados em um ―nós‖
perante um ―eles‖ dos cientistas.
No fio do discurso, Authier-Revuz destaca diversas formas de associar o discurso
científico ao discurso do cotidiano
22
cujo resultado aparece no discurso de divulgação científica:
22
Authier-Revuz (1998[1982]), no fio do discurso, denomina as formas D1 de científica (C) e as formas de D2 de
quotidiana (Q).
55
Pode-se remeter as diversas formas que associam os dois discursos, no D2
científico e quotidiano (C e Q) , a dois tipos principais: aquele que, na cadeia,
os justapõe, religados por uma equivalência metalingüística; e aquele que os
sobrepõe, poder-se-ia dizer, fazendo, alternadamente, de um dos dois o ponto de
referência implícito a partir do qual se estabelece a distância metalingüística
marcada sobre o outro. (1998[1982], p. 115, grifo da autora)
Assim, de forma alternada, tanto as palavras científicas quanto as do cotidiano, se
apresentam no discurso de divulgação científica, ou seja, ―cada sistema funciona como uma
metalíngua do outro‖ (AUTHIER-REVUZ, 1998[1982], p.116).
O uso do itálico e, sobretudo, as aspas são formas que, segundo a autora, servem para
designar uma palavra que é tida como imprópria ao discurso em que se figura ou como
pertencente a um discurso do outro. Dessa forma, nos textos de divulgação científica, as palavras
científicas entre aspas denotam que as mesmas são dos especialistas fora da realidade
linguística do leitor , mas se as aspas incidem sobre palavras do cotidiano (corrente), estas
denotam que não são as da ciência.
O discurso de divulgação científica é, segundo ela, constituído por essas formas de
―vaivém entre os dois discursos‖, revelando-se heterogêneo. Desse modo, a divulgação da
ciência, ao realizar um trabalho ostensivo com as palavras, ―coloca o enunciador-divulgador na
posição metalingüística distanciada‖ (AUTHIER-REVUZ, 1998[1982], p.121). Assim, esses
textos revelam, para a pesquisadora, um encontro de dois discursos o científico e o cotidiano
que são colocados em contato em um discurso um, na sua heterogeneidade, que institui a si
próprio como um lugar de encontro e não como um simples instrumento de transmissão‖
(1998[1982], p.121, grifo da autora). Dessa maneira, o discurso de divulgação da ciência é
considerado, na visão da autora, como uma prática discursiva específica que mostra um discurso
explícito que dubla a voz do outro, evidenciando a natureza dialógica inerente à linguagem.
4.2 A divulgação cientifica como gênero discursivo particular
Zamboni (2001), em seu livro Cientistas, jornalistas e a divulgação científica, contesta a
ideia de que o discurso de divulgação da ciência seja uma atividade de reformulação de saberes
56
científicos e reporta-se ao estudo de Authier-Revuz (1998]1982]) com vistas a apresentar uma
abordagem diversa à desta autora.
Ao retomar o referido trabalho, Zamboni tece ressalvas às considerações feitas pela autora
no quadro da enunciação, bem como no fio do discurso. No primeiro caso, Zamboni indica que o
discurso relatado não pode representar uma característica do discurso de divulgação científica,
pois esta é uma característica inerente a diversos gêneros e tipos textuais. Outra ressalva apontada
pela autora é em relação ao discurso relatado direto dos cientistas de que fala Authier-Revuz.
Para a autora, as citações em discurso direto, por vezes utilizado, já foram vulgarizadas no
discurso científico, não representando, portanto, a voz dos cientistas. Ademais, o discurso de
divulgação, para Zamboni, não pertence ao campo científico, mas está vinculado ao campo de
transmissão de informações.
No segundo caso fio do discurso , Zamboni observa que a ão de colocar em contato
dois discursos não é uma característica exclusiva da divulgação científica tal como propõe
Authier-Revuz, pois
O trabalho de ―colocar em contato dois discursos‖ é característico, a meu ver, do
tratamento que recebe todo e qualquer discurso de especialidade ao ser
transformado num discurso de transmissão de informação. Ou seja, não é
específico do discurso da divulgação científica fazê-lo. (ZAMBONI, 2001, p.
68, grifo da autora)
O discurso científico e o de divulgação da ciência são, na visão de Zamboni (2001), duas
entidades distintas que se desenvolvem em lugares enunciativos específicos cuja emissão e
recepção não são ocupadas pelos mesmos participantes, embora o mesmo enunciador (o próprio
cientista ou jornalista) possa estar atuando tanto no discurso científico quanto no discurso de
divulgação.
A autora observa que se deve levar em conta o processo de enunciação o qual abrange
diversas circunstâncias que se tornam fatores condicionantes da produção discursiva, a saber: o
suporte, a intenção de comunicação, o assunto tratado, o tipo textual etc.
Assim sendo, para a estudiosa supracitada, a divulgação científica é um trabalho de
formulação de um discurso novo que se articula ao campo científico. A autora encontra nas ideias
de Bakhtin, o alicerce para propor que a divulgação da ciência constitui um gênero discursivo
particular, ―resultado de um efetivo trabalho de formulação discursiva, no qual se revela uma
57
ação comunicativa que parte de um ‗outro‘ discurso e se dirige para ‗outro‘ destinatário‖
(ZAMBONI, 2001, p.xix, grifo da autora).
Desse modo, partindo da noção de gêneros do discurso postulado por Bakhtin, Zamboni
afirma que, do ponto de vista temático, a divulgação científica caracteriza-se como um gênero ao
concentrar-se no assunto ciência e tecnologia, vinculando-o ao campo de transmissão de
informação. A especificidade do gênero, segundo a mesma autora, está na difusão de conteúdos
próprios à temática científica e adaptados em função de um público leigo. Prosseguindo, no que
tange ao estilo do gênero, Zamboni afirma que o discurso de divulgação, por dirigir-se ao público
não especializado, utiliza recursos analogia, generalizações, aproximações, comparações,
simplificações que contribuem para constituir um estilo específico dessa atividade.
Já do ponto de vista da construção composicional, a estudiosa argumenta que as formas de
estruturação do discurso de divulgação científica, bem como os tipos de ligação entre o locutor e
os parceiros do ato comunicativo põem em funcionamento múltiplos procedimentos discursivos
recuperação de conhecimentos implícitos, fórmulas de envolvimento e segmentação da
informação os quais se caracterizam como modos típicos de organização.
4.3 A divulgação científica como uma modalidade de relação dialógica
Grillo (2006), em seu artigo A noção de tema do gênero na obra do Círculo de
Bakhtin, discorda da definição de Zamboni (2001). Para tanto, a autora aponta três aspectos que
merecem ser considerados em relação à classificação da estudiosa a quem se opõe:
Primeiramente, a divulgação científica não é um gênero discursivo particular,
mas realiza-se em diversos gêneros: reportagem, artigo, pergunta/resposta do
leitor, editorial, manual, aula etc. Em segundo lugar, a divulgação científica não
se restringe ao campo de transmissão de informações, mas se constitui em uma
prática discursiva que adquire especificidades em razão de três campos
ideológicos: o científico, materializado, entre outros, nas revistas Ciência Hoje e
Pesquisa Fapesp, produzidas, respectivamente, por sociedade científica e por
organismo de financiamento e fomento à pesquisa; o da informação midiática ou
da transmissão de informações, presente em textos de revistas do mercado
editorial (Galileu, Superinteressante etc), em jornais diários de diferentes
midiuns (impresso, radiofônico, televisivo, digital); e o campo educacional,
expresso em livros didáticos, aulas, feiras de ciência etc. Por fim, o assunto
58
―ciência e tecnologia‖ não compreende, como vimos, a complexidade da noção
de tema do gênero, merecendo, portanto, uma abordagem mais adequada.
(GRILLO, 2006, p.1829)
De acordo com Grillo (2009b), a divulgação científica, é ―a exteriorização da ciência e da
tecnologia para outras esferas da atividade humana‖, cuja finalidade não é o avanço do estado de
conhecimentos de uma área do saber, mas a criação de uma cultura científica. Com esta criação,
busca-se tanto a formação de uma opinião pública que se mobilize em relação aos saberes e às
orientações da esfera científica, quanto a formação de uma cultura individual:
A divulgação de saberes científicos é importante na medida em que insere a
ciência no conjunto de manifestações culturais de uma sociedade, o que implica
a sua incorporação em práticas situadas sócio-historicamente, o seu diálogo com
outros produtos culturais, bem como a sua assimilação dialógica crítica entre os
valores culturais dos cidadãos. Nesse processo de exteriorizão, os
conhecimentos científicos e tecnológicos entram em diálogo com os de outras
esferas, sobretudo com a ideologia do cotidiano, mas também com as esferas
artística, política, jornalística, etc. (GRILLO, 2009b, p.218-219)
Nessa perspectiva, entre todas as abordagens expostas acima, ratifica-se e assume-se,
nesta pesquisa, a ideia defendida por Grillo (2006, 2008, 2009) de que a divulgação científica não
constitui um gênero discursivo, mas uma ―modalidade particular de relação dialógica‖ na qual a
esfera da ciência mostra-se em diálogo com outras esferas de atividade, valendo-se dos mais
diversos gêneros do discurso.
4.4 A divulgação científica como literatura
Veicular saberes científicos por meio de obras literárias o é uma prática discursiva
recente, pois segundo Reis (s/d), o empenho em tornar o discurso científico acessível ao grande
público teria se iniciado em 1686, com o livro de Bernier le Bovier de Fontenelle, Entretiens sur
la pluralitè des mondes. No entanto, o autor faz ressalvas quanto a essa informação na medida em
que a disseminação de conhecimentos científicos feita por Bovier atingiria somente a aristocracia.
59
Na atualidade, a divulgação das descobertas da ciência pode atingir um público bem mais
amplo, materializando-se seja em gêneros das esferas jornalística e educacional, seja em gêneros
da esfera literária.
No que concerne à esfera literária, cita-se o gênero ficção científica, o qual, criado entre
os séculos XVII e XX, tem como principal característica aliar conhecimento científico a histórias
fantásticas, embora, por vezes, esse conhecimento seja usado para transcender os limites cnicos
de uma época e criar perspectivas ainda impossíveis. Assim, a ficção científica utiliza ―a ciência e
a tecnologia para criar situações, cenários, espaços, enredos e personagens que não seriam
possíveis ou plausíveis de outro modo‖ (MILLER Jr. 2007, p.14-15).
Toma-se como exemplo de ficção científica a obra Vinte mil léguas submarinas, do
francês Julio Verne, um dos precursores desse gênero. Na referida obra, publicada pela primeira
vez em 1869, o autor narra as aventuras vividas por personagens dentro do potente submarino
Nautillus, o qual, construído por chapas de aço e acionado pela eletricidade, era capaz de navegar
todos os mares e superar todos os obstáculos, o que não acontecia com os submarinos existentes
na época da produção da obra, uma vez que estes eram de pequeno porte e moviam-se pela força
mecânica (MILLER Jr., 2007). Nesse sentido, é importante notar que, conforme Miller Jr. (2007)
destaca, a ficção científica é um gênero marcado pela temporalidade, visto que os conhecimentos
explorados por ela comumente vinculam-se às percepções técnico-científicas da época em que
foram produzidas, embora apresentem equipamentos ou máquinas que tecnologicamente
ultrapassam os do tempo em que o texto foi escrito
23
.
A união entre a ciência e a literatura tem sido objeto de estudo de teóricos e
pesquisadores, os quais veem nesse vínculo diferentes abordagens e possibilidades de utilizações.
Entre esses estudos, menciona-se a obra A divulgação científica como literatura, em que Mora
(2003) discute a intersecção de saberes científicos em obras literárias, postulando que ―a
divulgação é uma recriação do conhecimento científico, para torná-lo acessível ao público‖
(p.13), ou seja, deve ser entendida como um ato de dar nova forma a algo que já existe.
A autora considera que a comunicação da ciência para o público leigo apresenta um
abismo que aparentemente não se pode ultrapassar: ―a linguagem superespecializada da ciência
moderna‖ (p.7). Assim, a divulgação científica tem a função de, segundo seu ponto de vista,
23
As obras que constituem o corpus desta pesquisa parecem não se enquadrar nessa perspectiva, visto que o
conhecimento veiculado nas obras de Angelo Machado relaciona-se com a realidade científica atual. Além disso, não
há menção a aspectos e maquinismos futurísticos nos livros aqui analisados.
60
tornar acessível esse conhecimento superespecializado, criando uma ligação entre o mundo da
ciência e os outros mundos e possibilitando a integração dos saberes científicos à cultura do
público leigo.
De acordo com a autora, o texto científico e o texto de divulgação científica não se
confundem, embora haja em ambos os discursos pontos convergentes. Para Mora (2003), os
recursos disponíveis para um e outro são condicionados pela intenção discursiva. O primeiro se
vale de técnicas, de metodologias teóricas e práticas e diversos tipos de linguagem as quais dão
suporte e sentido aos seus conceitos. O segundo dispensa uma linguagem especializada para
―utilizar apenas as ferramentas da linguagem natural para recriar os conceitos da ciência,
reproduzir as imagens, usar os moldes e resguardar o espírito do conhecimento científico‖ (p. 8).
Na sua visão, a divulgação da ciência como literatura deve ser primordialmente uma
atividade de escrita mais centrada nos conteúdos humanizadores como questões existenciais e
menos em processos e descobertas da ciência. Para tanto, a autora vale-se de diversos autores que
utilizaram a divulgação da ciência como objeto estético (Stephen Jay Cold, Carl Sagan, George
Greenstein e Richard Dawkins) para propor a união entre essa modalidade e a literatura,
apontado-a com uma forma de garantir a aceitação e a permanência da ciência na cultura.
O sentido da divulgação científica, segundo Mora, aponta para duas vertentes: a da
necessidade e a do prazer, ligadas pela ideia de que o público não especialista encontra-se em
desvantagem ao ficar excluído das conquistas da humanidade:
A vertente do prazer faz referência à desvantagem de não se poder fruir da
―emoção‖ da ciência; a vertente da necessidade assinala que aqueles que nada
sabem de ciência estão excldos de contribuir, de alguma forma mais séria, para
o debate do efeito que ela tem sobre nossas vidas. (MORA, 2003, p. 31, grifo da
autora).
Dessa forma, o público seria beneficiado se fosse instruído a apreciar os valores estéticos
e intelectuais da ciência ao invés de inculcar somente o seu valor utilitário. Ou seja, aliar ciência
e literatura pode, de acordo com Mora, resultar em bons textos de divulgação, desde que tenham:
base na história e na tradição
emprego da ironia e do humor
entrelaçamento de arte e ciência
uso de analogias e metáforas
recurso ao cotidiano
61
um lugar para a metafísica e a religião
referência à cultura popular
reconhecimentos dos erros humanos
dessacralização da ciência (Mora, 2003, p. 87)
Mora acredita que o uso desses recursos ultrapassa a simples comunicação e pode garantir
a vigência dos textos e despertar o prazer no leitor, causando uma emoção afetiva ou estética.
Assim, no entendimento da pesquisadora, o êxito desse tipo de texto depende de uma concepção
de divulgação científica como literatura que emprega recursos literários, envolve-se com
inquietações humanas, recria de forma inovadora e ―não olha para ciência como conhecimento
isolado, mas a submerge no mar das preocupações intelectuais partilhadas pelos seres humanos‖
(MORA, 2003, p.109). Essas características garantiriam, na sua visão, a aceitação e a
permanência do discurso de divulgação científica.
Pinto (2007), em sua tese de doutorado Divulgação científica como literatura e o ensino
de ciências, baseia-se, entre outras, nas contribuições de Mora (2003), para propor um estudo a
respeito da divulgação científica como literatura, classificado-a em divulgação científica canônica
e divulgação científica não canônica.
A divulgação científica canônica, segundo o ponto de vista do autor, é aquela cuja
linguagem tem atributos particulares‖ (p.89), pois nessa modalidade o texto veicula conceitos
científicos numa linguagem explícita. Ou seja, não presumindo que o leitor saiba dos conceitos
tratados, o saber científico é descrito de modo gradativo e pormenorizado.
Em relação à divulgação científica não canônica, o pesquisador observa que, nessa outra
modalidade, o conhecimento é veiculado como algo conhecido do leitor, sem empregar
explicações conceituais detalhadas. De acordo com Pinto, na divulgação científica não canônica,
o foco está nas contradições e conflitos existentes nas personagens que, ―em geral, não passam
pelo discurso da ciência, mas pelo entendimento da dimensão subjetiva, apelando, em alguns
casos, para reflexões relativas à dimensão do inconsciente‖ (p.92-93).
Já a divulgação canônica é impessoal, não apresentando personagens específicas e a
narrativa concentra-se mais nos assuntos da ciência, visando sua dimensão conceitual.
Entre as funções mais constantes dentro das obras de divulgação científica como
literatura, está, segundo o pesquisador, a dimensão da formação humana do leitor/aprendente:
62
Particularmente acredito que o resgate da utopia e dos sonhos da educação, e
especificamente no ensino de ciências, implica em inserir a dimensão científica e
técnica num panorama de diálogo permanente com a cultura, na medida em que
se torna possível o intercâmbio entre ciência, arte, beleza, humanismo e
literatura. (PINTO, 2007, p.56)
Nesse sentido, ao ponderar a possibilidade de uma educação científica humanizadora, o
pesquisador parece acentuar o diálogo com Mora (2003), no sentido de que a divulgação
científica deve voltar-se não para a compreensão e construção de conceitos, mas também para
as inquietações existenciais.
4.5 Uma breve reflexão
Nos últimos cinquenta anos, a divulgação de ideias, processos e resultados de pesquisas
tem, de acordo com Candotti (2002), avançado pouco. Divulgar o saber científico para a grande
massa requer, seja por meio de textos literários ou não, esforço e boa vontade na medida em que
―a divulgação científica não é apenas página de literatura, na qual as imagens encontram as
palavras (quando as encontram), mas exercício de reflexão sobre os impactos sociais e culturais
de nossas descobertas‖ (CANDOTTI, 2002, p.17), sendo, portanto, uma prática condicionada às
valorações históricas, ideológicas e culturais da sociedade.
Desse modo, a ciência é um patrimônio da humanidade e como tal deve ser acessível à
grande massa, visto que os progressos científicos influenciam seu modo de viver e compreender o
mundo.
63
Capítulo 5 - Imagem e texto
No capítulo 3, observou-se que a produção literária infantil, na sua gênese, não foi
exatamente criada para o público mirim, mas adaptada com fins utilitaristas. Essas adaptações
perduraram até a conscientização da necessidade de criar obras específicas para crianças, fato que
originou o processo de expansão editorial tanto no Brasil quanto no exterior. Com esse
crescimento, a produção de livros infantis passou a ser alvo de interesse de escritores, ilustradores
e editores, gerando mudanças qualitativas no segmento. Nessa ordem de ideias, a imagem
(ilustrações, desenhos, fotografias) passou a ser um elemento indispensável para tornar as obras
mais atrativas, embora arraigada em certo caráter pedagógico e formador.
Considerando os procedimentos imagéticos como parte constitutiva dos livros destinados
aos pequenos, este trabalho não poderia negligenciar a dimensão visual do corpus ora analisado,
sendo, portanto, necessário levar em conta as principais funções da imagem como um todo,
contemplando também os pressupostos teóricos de autores que se dedicaram ao estudo do
material visual na literatura infantil. Assim, observar-se como Aumont (1995), Camargo
(1998), Coelho (2003), Dondis (2000), Haynes (1995), Oliveira (2004) refletiram sobre diversos
aspectos, funções e usos de imagens, os quais, sem a pretensão de uma exposição exaustiva, serão
explorados neste capítulo com vistas a compreender o papel que as imagens podem exercer na
literatura para crianças.
5.1 Imagem
As imagens
24
têm sido meios de manifestação da cultura desde as pinturas pré-históricas
das cavernas, milênios antes do aparecimento do registro da palavra pela escritura (NÖTH,
24
O universo imagético se divide em dois domínios, a saber, o domínio das representações visuais (desenhos,
pinturas, gravuras, fotografias, ilustrações etc.) e o domínio imaterial das imagens mentais (visões, fantasias,
imaginações, esquemas, modelos etc.) (NÖTH, 1999). Convém, portanto, estabelecer que, nos limites desta
dissertação, só serão consideradas as imagens como modos de expressão visual, referentes ao primeiro domínio.
64
1999). Progressivamente, a sociedade tem sido atingida, com grande velocidade, pela inserção de
imagens, as quais cumprem funções das mais diversas ordens.
Aumont (1995) observa que nenhuma produção de imagens é ingênua, pois elas, ao
contrário, são criadas para usos específicos, sejam eles informativos, publicísticos, religiosos,
ideológicos etc., sendo quase sempre relacionados com o universo realístico do espectador.
Segundo o autor, o diálogo entre a imagem e o real dá-se por meio da tricotomia
elaborada por Arnheim (1969):
a)Um valor de representação: a imagem representativa é a que representa coisas
concretas (―de um nível de abstração inferior aos das próprias imagens‖).
b)Um valor de símbolo: a imagem simbólica é a que representa coisas abstratas
(―de umvel de abstração superior aos das próprias imagens‖).
c)Um valor de signo: para Arnheim, uma imagem serve de signo quando
representa um conteúdo cujos caracteres não são visualmente refletidos por ela.
(AUMONT, 1995, p.78-79, grifo do autor)
Para Aumont (1995) poucas imagens materializam com exatidão apenas uma dessas três
divisões, das quais a maioria participa simultaneamente. De acordo com o autor, a imagem visa
também estabelecer relações com o mundo real por meio de três modos: o simbólico, o
epistêmico e o estético.
No modo simbólico, as imagens serviam, inicialmente, como símbolos religiosos, ―vistos
como capazes de dar acesso à esfera do sagrado pela manifestação mais ou menos direta de uma
presença divina‖ (AUMONT, 1995, p.80). Hoje, o uso do símbolo abrange um campo mais
amplo e não se restringe apenas ao universo religioso.
No modo epistêmico a imagem apresenta informações (visuais) sobre o mundo. Esse
modo foi, segundo Aumont, desenvolvido e ampliado desde o início da era moderna, com o
aparecimento de gêneros documentários. Já no modo estético, a imagem cumpre a função de
agradar seu receptor, despertando-lhe sensações específicas.
Em todos esses modos de relação com o real, a imagem tem como princípio, no conjunto,
a esfera do simbólico, cuja função primordial é ―reforçar, reafirmar e explicitar‖ a relação dos
indivíduos com o mundo visual.
Para Dondis (2000), a expressão e a recepção de imagens também se dão em três níveis: o
representacional quando se identifica o que se tendo como base as experiências anteriores e
o meio ambiente , o abstrato propriedade sinestésica de um acontecimento visual diminuído a
65
suas formas visuais essenciais e elementares e o simbólico amplo sistema de símbolos
codificados que o homem criou e aos quais atribuiu significados. Os três níveis contribuem, na
visão do autor, para a concepção, criação e refinamento de toda obra visual, atuando sobrepostas
numa ação recíproca.
Na dissertação de mestrado Poesia infantil e ilustração: estudo sobre ou isto ou aquilo de
Cecília Meireles, Camargo (1998) propõe considerar onze funções da imagem
25
: função
representativa, função descritiva, função narrativa, função simbólica, fuão expressiva, função
estica, função lúdica, função conativa, função metalinguística, função tica e pontuação.
Seguindo essa ordem, o autor nota que a imagem terá função representativa quando
orientada a reproduzir a aparência do ser a qual se refere. Tal função pode ter uma natureza
genérica, como no caso dos ícones, ou pode ser muito específica, como no caso da caricatura, na
qual se pode reconhecer, por meio de traços, uma pessoa determinada.
De modo semelhante à anterior, a imagem com função descritiva também é orientada para
o seu referente. Camargo observa que entre a função representativa e a função descritiva não
propriamente diferença de natureza, mas de grau: a representação tem caráter sintético, enquanto a
descrição tem caráter analítico; uma é concisa, a outra, prolixa (CAMARGO, 1988, p. 44-45). É
comumente encontrada em fotografias as quais podem ser utilizadas tanto em livros didáticos quanto
em livros informativos. Segundo o autor, em outros casos, o desenho desempenha melhor essa
fuão, como no caso do desenho de anatomia, o qual expressa, com mais evidência, detalhes que a
fotografia dificilmente seria capaz de realçar.
Para Camargo, a imagem terá função narrativa quando orientada para seu referente, mas
situando o ser representado em devir, através de transformações (no estado do ser representado) ou
ões (por ele realizadas). Trata-se de sequências narrativas, especialmente, feitas por imagens,
podendo apresentar intervenções do código escrito, usualmente, conhecidas como livros de
imagens.
A função simbólica da imagem é orientada para um significado sobreposto ao seu
referente e pode ser investida de significados convencionais. Assim, para ser compreendida, a
imagem com valor simbólico deverá ser identificável pelo conhecimento prévio do receptor.
Na função expressiva, a imagem é orientada para seu emissor, revelando seus sentimentos
e valores:
25
Segundo Camargo (1998), as funções da ilustração constituem um caso particular das funções da imagem.
66
A imagem pode expressar sentimentos e valores pessoais, interpessoais (do autor
em relação a outra pessoa), intrapessoais (inconscientes), do autor em relação a
objetos (inclusive a natureza) e valores socioculturais, ultrapassando, assim, o
universo pessoal e a abrangência dessa função explicitada na proposta
jakobsoniana. Nesse sentido, conforme sua abrangência, a função expressiva pode
permitir - entre outras - abordagens psicológicas, sociais e antropológicas.
(CAMARGO, 1988, p. 50)
Ou seja, as imagens que reproduzem posturas corporais e expressões fisionômicas são, na
visão do autor, propícias para indicar sentimentos e emoções e, por conseguinte, terão função
expressiva.
Segundo Camargo, a imagem terá função estética quando realçar a estruturação dos
elementos visuais que a configuram, tais como linha, cor, forma, luz, espaço etc. Além disso, tal
configuração visual pode ser estabelecida por meio de diversos níveis de organização: estruturas
lineares, formais, cromáticas etc., agenciando repetições, alternâncias, simetrias, contrastes etc.
A fuão dica, encontrada em obras denominadas de livro-jogo, orienta-se pelo jogo, seja
em relação ao emissor, ao referente, à forma da mensagem visual ou ao destinatário:
[...] a imagem enfatizará o jogo em relação ao referente quando apresentar
situações cômicas; enfatizao jogo em relação à forma da mensagem quando
utilizar um estilo caricato; e, em relação ao destinatário, quando estimular a
participação do leitor, por exemplo, configurando-se como jogo. (CAMARGO,
1988, p.52, grifo do autor)
Na função conativa, a imagem é orientada para o destinatário com vistas a exercer
influência em seu comportamento por meio de artifícios persuasivos ou normativos. De acordo
com Camargo, a modalidade persuasiva está presente na publicidade, nas propagandas políticas,
religiosas etc. a modalidade normativa pode ser encontrada na sinalização do trânsito, em que
sinais gráficos e ícones determinam ou proíbemões.
A função metalinguística da imagem dá-se quando esta for orientada para o próprio
código visual ou a ele relacionada, ―como situações de produção e recepção de mensagens visuais,
citação de imagens etc.‖ (CAMARGO, 1998, p.53).
A imagem tem função tica quando dirigida para o suporte da imagem, destacando seu
papel no discurso visual.
Por fim, o autor propõe que a imagem tem função de pontuação quando é orientada para o
texto sinalizando seu início, seu fim ou suas partes. Trata-se de elementos visuais como a cor, a
dimensão e o tipo de letra que sinalizam partes, pausas ou destacam dados importantes do texto.
67
Como se pode perceber, Camargo, ao sugerir onze diferentes funções para a imagem,
dialoga com as funções da linguagem propostas por Jakobson. O autor nota que as fuões
elencadas por Jakobson não se restringem ao texto verbal e, portanto, podem estar presentes em
outros sistemas sígnicos:
[...] parece que muito mais do que apenas ornar ou elucidar um texto, a imagem
pode representar, descrever, narrar, simbolizar, expressar, brincar, persuadir,
normatizar, pontuar, além de enfatizar sua própria configuração, chamar atenção
para o seu suporte ou para o código visual. Homologamente ao que ocorre no
código verbal, essas diferentes funções não resultam do monolio de uma
determinada função, mas de diferentes hierarquizações dessas funções.
(CAMARGO, 1998, p.61, grifo do autor)
Isto posto, considera-se também que a função de determinada imagem depende do
acabamento dado pelo espectador, sendo este um elemento essencial na constituição dos sentidos
de qualquer tipo de texto (visual ou verbal). Ou seja, o sentido não é apenas condicionado ao que
a imagem emana, mas também às impressões particulares de cada espectador, considerando,
ainda, que tais impressões são atravessadas por aspectos cognitivos, ideológicos, culturais, sociais
etc. Além disso, a capacidade da imagem abrange muitos aspectos, tais como: reforçar
visualmente alguma informação, estabelecer a proximidade daquilo que se com o real,
compreender, construir ou desconstruir o conhecimento em outro plano diverso ao do verbal.
5.1.1 Imagem no livro infantil
Conforme mencionado, o despontar da literatura para crianças não se deu de forma
repentina, mas construída paulatinamente em um contexto cultural regido por forças
transformadoras atuantes. Entretanto, no Brasil, em meados dos anos 1970, o livro destinado aos
pequenos teve um crescimento acelerado que, graças a uma concepção supostamente mais
moderna, fez surgir novos escritores e ilustradores. Tal expansão deu-se não apenas quantitativa,
mas também qualitativamente apoiada por uma nova consciência pedagógica:
68
Desvinculada de quaisquer compromissos pedagógicos (e mesmo insurgindo
contra o ‗direcionismo didático‘ que predominara nos anos anteriores), a nova
literatura infantil/juvenil obedece às novas palavras de ordem: criatividade,
consciência de linguagem e consciência crítica. (COELHO, 2000, p. 130)
Como um objeto novo,
26
o livro infantil tornou-se um espaço em que narrativas em prosa
ou poesia desenrolam-se por meio de palavras e imagens, tendo em vista dar ―forma e concretude
a novas maneiras de ver e construir o real‖ (COELHO, 2000. p.127). Dessa forma, o uso
recorrente de imagens em obras literárias para crianças passou a ser uma eficaz mediadora para
estabelecer ―relações de prazer, de descoberta e de conhecimento entre a criança e o mundo-das-
formas‖ (COELHO, 2000, p.131).
Ademais os procedimentos imagéticos, como parte constitutiva do livro destinado às
crianças e aos jovens, configuram-se como um possível instrumento de compreensão da
linguagem escrita. A esse respeito Coelho (1993) nota que:
É, pois, devido a esse caráter sincrético e globalizador do pensamento infantil
que a psicologia da aprendizagem privilegia a imagem como fator básico nos
processos de alfabetização e dos mecanismos da leitura, uma vez que a
visualização das formas facilita a comunicação imediata entre a criança e a
situação proposta pelo texto. é conceito incorporado pela didática moderna
que a linguagem visual dos desenhos, imagens ou ilustrações associadas à
linguagem verbal é das mais eficazes como processo educativo, não no sentido
de promover o encontro da criança com o imaginário literário (que tanto a
seduz), mas também de seu desenvolvimento psicológico. (COELHO, 1993, p.
179-180, grifo da autora)
De acordo com a mesma autora, o valor psicológico/pedagógico/estético/emocional da
linguagem da imagem/texto sintetiza-se nas seguintes constatações:
Estimula o olhar, como agente principal, na estruturação do mundo interior da
criança, em relação ao mundo exterior que ela está descobrindo.
Estimula a atenção visual e a capacidade de percepção.
Facilita a comunicação entre a criança e a situação proposta pela narrativa, pois
lhe permite a percepção imediata e global do que vê.
Concretiza relações abstratas que, através da palavra, a mente infantil teria
dificuldades em perceber; e contribui para o desenvolvimento da criança para a
seleção, organização, abstração e síntese dos elementos que compõem o todo.
Pela força com que toca a sensibilidade da criança, permite que se fixem, de
maneira significativa e durável, as sensações ou impressões que a leitura deve
26
Expressão cunhada por Coelho (2000).
69
transmitir. Se elaborada com arte e inteligência, a imagem aprofunda o poder
mágico da palavra literária e facilita à criança o convívio familiar com os
universos que os livros lhe desvendam.
Estimula e enriquece a imaginação infantil e ativa a potencialidade criadora, -
natural de todo ser humano e que, muitas vezes, permanece latente durante toda
a existência, por falta de estímulo. (COELHO, 1993, p.181, grifo da autora)
Por outro lado, autores como Palo e Oliveira (1986) afirmam que as imagens encontradas
no livro infantil nem sempre são tão dialógicas como parecem. Para as estudiosas, o mais comum
é sobressair um tom monológico, no qual se ressalta a informação construída pelo texto verbal
em detrimento daquela oriunda do visual: ―a imagem transforma-se num simples apêndice
ilustrativo da mensagem linguística (p.15). Trata-se, na visão das autoras, de uma função
pedagógica que recorre ao uso de imagens como procedimento para materializar, determinar e
preencher algo que, na imaginação da criança, poderia se transformar em possíveis espaços vagos
de construções imagéticas.
O que de fato não se deve negar é a potencialidade sedutora que a dimensão visual exerce
no pequeno leitor. Ademais, cumprindo funções específicas, as imagens do livro infantil,
dialogicamente aliadas ao texto escrito, são, geralmente, parte indispensável para a produção de
sentidos.
5.1.2 Ilustração e ilustração científica
A ilustração é, normalmente, entendida como um ramo particular do universo imagético.
Camargo (1998) a define como a ―imagem que acompanha um texto‖, considerando que suas
funções somente são obtidas quando a imagem é vinculada ao verbal.
Semelhantemente, a Associação dos Designers ADG (2000) postula que uma imagem
é considerada ilustração quando sua função for corroborar ou exemplificar o conteúdo de um
texto de livro, jornal ou revista ou qualquer outro tipo de publicação‖ (p.59).
Dondis (2000) afirma que a ilustração traz uma informação visual a um determinado
público, informação que, em geral, significa a expansão de um texto verbal.
70
Oliveira (2004) demonstra, em sua tese de doutorado Reflexões sobre a imagem e
ilustrações: pelos Jardins de Boboli, que ilustrar é informar, persuadir ou narrar por meio de
imagens, estando ―inexoravelmente‖ atrelada à temporalidade dos acontecimentos.
A ilustração informativa é, nas palavras do autor, compromissada com o conhecimento e a
clareza de informações, como, por exemplo, ilustrações sobre medicina, botânica etc.
Considerando que toda imagem é persuasiva, Oliveira, ao classificar uma ilustração como sendo
persuasiva, refere-se ao uso específico de marketing e publicidade de algum artigo ou
acontecimento. Já a ilustração narrativa é sempre associada ao texto, o qual pode ser literário ou
não.
Dessa forma, conforme os pressupostos dos teóricos mencionados, uma ilustração,
comumente, apoia-se no texto escrito, tendo, entre outros, o propósito de exemplificar,
ornamentar, informar, complementar, reforçar, narrar, descrever, em linguagem imagética, algo já
dito no texto verbal. Para alguns estudiosos, considera-se ilustração a imagem obtida tanto por
meio de métodos manuais de representação como desenho, pintura e gravura, quanto de
reprodução técnica, como a fotografia‖ (OLIVEIRA; CONDURO, 2004, p.336).
Além de todas as finalidades elencadas acima, ainda um tipo de representação
ilustrativa que serve à ciência. Trata-se da ilustração científica, a qual recorre a técnicas que vão
desde desenhos feitos a lápis até imagens animadas por computação gráfica (INSTITUTO DE
BIOLOGIA). Assim, entendida como um tipo de representação figurativa, Oliveira e Conduro
(2004), apoiados em FORD (1992), notam que as finalidades da ilustração científica são:
registrar, traduzir e complementar, por meio da imagem, observações e
experimentos científicos que vão desde a descrição de espécies microscópicas de
animais e vegetais até anatomia humana, passando pela arqueologia,
paleontologia, mineralogia, geologia, cartografia, astronomia, arquitetura, física,
engenharia e história natural de uma infinidade de seres vivos e sua relação com
a paisagem ou nichos onde vivem. (OLIVEIRA; CONDURO, 2004, p.336)
De acordo com estes dois pesquisadores, o autor (o qual pode ser um cientista ou um
artista) de um livro com ilustrações de plantas ou animais deve levar em conta o público alvo,
visto que, ao ser direcionado para um público de não especialistas, o apelo visual torna-se mais
importante do que o compromisso com a precisão. Mas, se a publicação é científica, as
representações devem ser claras e cientificamente precisas, ―e não esteticamente atraentes‖
(p.336). Neste ponto, cabe mencionar que, na visão de Marques (2006), a ilustração científica
71
pode ser considerada uma obra de arte por ser uma criação de um artista que recorre aos seus
conhecimentos estéticos e sensibilidade para comunicar uma mensagem. No entanto, conforme
notam Oliveira e Conduro (2004), a relação entre a arte e a ciência é bastante controversa na
medida em que alguns consideram a ilustração científica como um trabalho artesanal, decorrente
do ―emprego de habilidades artísticas‖ a serviço da informação, outros a classificam como arte
utilitária. Seguindo esta ideia, os autores enfatizam que
Devido ao espectro de complexidade plástica nas imagens científicas, quando se
folheiam livros ilustrados ou se analisam reproduções de ilustrações científicas
de animais e plantas separadas do seu contexto primário, natural ou original
ou seja, na publicação científica , algumas delas podem ser consideradas
artísticas, dependendo do ponto de vista do observador. Em outras reproduções,
embora a beleza estética ou mesmo a ‗caligrafia‘ do autor sejam identificadas,
sua finalidade clara é atender à ciência e não à arte. (OLIVIERA; CONDURO,
2004, p.336)
Por meio da análise de vinte ilustrações coloridas de diferentes espécies de barbeiro
produzidas por desenhistas do Instituto Oswaldo Cruz na década de 1970, as quais foram julgadas
inadequadas por não pertencerem aos domínios da arte, em virtude de suas características
funcionais, e consideradas inúteis para a ciência, em razão da pouca objetividade, Oliveira e
Conduro (2004) discutem algumas questões sobre a representação na arte e o relacionamento
entre a ciência e a arte na imagem científica:
Os conceitos do que é e do que não é arte são relativos. Algumas das
possibilidades de consagração de uma imagem como obra de arte são o seu
acolhimento em um dos diversificados meios e instâncias de consagração, como
museus, salões e academias de arte; o reconhecimento, por parte do público
leigo e dos artistas, de suas qualidades estéticas; e a sua entrada no mercado de
arte. Uma maneira de legitimação de uma imagem original ou reprodução
como arte é vê-la emoldurada para prazer estético. Reproduções de obras de
muitos autores que se dedicaram à ilustração científica são amplamente
comercializadas. E, graças à empatia que causam devido a cores, formas e
exotismo dos animais e plantas representados, vêm sendo bastante
popularizadas. Não raramente nos deparamos com uma delas emolduradas na
parede da sala de estar de um amigo ou na recepção de um consultório médico.
Tais representações de vegetais em flor ou de tucanos de bico e plumagem
multicor em seu hábitat, por suas qualidades decorativas, são vistas como arte,
embora sua finalidade inicial tenha sido a taxonomia. (OLIVIERA; CONDURO,
2004, p.374)
72
Ademais, para determinar o nível artístico ou científico de uma imagem, além dos
objetivos da produção e do suporte em que tal imagem pode ocorrer, deve-se levar em conta o
acabamento dado pelo observador. Nesse sentido, uma imagem produzida para fins científicos
pode ter uma dupla orientação, pois, se a espécie representada apenas consegue despertar um
elevado grau de clareza e precisão em relação à realidade, é possível que somente as funções
didática, descritiva e informativa sejam apreendidas. No entanto, se a imagem consegue despertar
empatia e equilíbrio entre esta precisão científica e possíveis qualidades estéticas, pode-se
propor que ela ainda cumpra uma função estética. É o que se pode notar em algumas imagens
presentes nas obras de literatura para crianças e jovens do cientista e escritor Angelo Machado.
Nelas, é possível perceber tanto representações imagéticas objetivas e precisas em relação à
realidade quanto moderada liberdade artística, beleza plástica e ludicidade. Ou seja, inseridas em
obras literárias e direcionadas ao público infantil/juvenil, tais imagens perdem, de certa forma,
suas qualidades essencialmente científicas, visando, aparentemente, funcionar como um objeto
artístico.
Convém ressaltar que, ao contrário da arte, a finalidade primeira das ilustrações
científicas é representar fielmente algo decorrido de observações minuciosas, devendo, portanto,
ser objetiva e seguir os princípios da ciência com vistas a veicular, de forma exata, a informação
pretendida. Entretanto, ratifica-se novamente que, dependendo do suporte, do público alvo, do
saber veiculado e, sobretudo, do acabamento dado pelo observador, uma ilustração científica
pode servir tanto à ciência quanto à arte. Pois, se por um lado, destinada ao público especializado
ou não, a ilustração científica cumpre a principal função de atribuir realismo e perfeição ao ser
representado e, por conseguinte, fornecer concretude ao conhecimento divulgado, por outro, ela
pode, ao mesmo tempo, dependendo do que é representado, exibir qualidades plásticas passíveis
de despertar a empatia nos observadores, configurando-se muitas vezes como arte.
Conforme mencionado, algumas imagens contidas no corpus selecionado para este
trabalho exemplificam esta possibilidade, visto que, mesmo direcionadas a leitores não
especializados, as representações de animais, insetos e plantas utilizadas apresentam, em relação
à realidade, exatidão, riqueza de detalhes e clareza, podendo, em alguns aspectos, dialogar com as
ilustrações científicas. Mas materializadas em obras literárias para crianças, estas imagens
cumprem, além do objetivo de informar, descrever, representar, a função de despertar o afeto, a
73
curiosidade, atrair a atenção, estabelecer conexões entre o figurativo e a fantasia, e, sobretudo,
ampliar, reforçar e complementar os sentidos produzidos no/pelo texto verbal.
5.1.3 Artes visuais à luz das noções bakhtinianas: a análise de Deborah Haynes
Haynes (1995), ao debruçar-se sobre a análise de artes visuais, em seu livro Bakhtin and the
visual arts, faz uma interessante abordagem acerca da proposta estica do pensador russo, tendo
como base para suas reflexões os postulados bakhtinianos presentes em O autor e a personagem na
atividade estética‖, Para uma filosofia do ato, Arte e responsabilidade e O problema do
conteúdo, do material e da forma na criação literária
27
.
A autora nota que a maior parte das teorias estéticas leva em conta apenas a categoria da
beleza, outras priorizam o objeto estético e aquelas que privilegiam o expectador. No entanto,
Haynes (1995) ressalta que a teoria bakhtiniana centra-se na estética do próprio processo criativo,
especialmente, na atividade do autor ou do artista criador. Este processo criativo o pode ser
considerado aleatório, ou seja, é sempre orientado ―axiologicamente, cognitivamente, socialmente,
politicamente, economicamente e religiosamente (p. 101)
28
. Dessa forma, na visão de Haynes, o
objetivo do teórico russo era criar uma estética geral que levasse em conta a interação entre a cultura
e as formas de atividade criativa. De acordo com esta autora, a percepção e a compreensão da
atividade criadora dependem do contexto social, político e econômico, componentes que estão
situados no interior da obra de arte. A inquietação de Bakhtin era, segundo Haynes (1995), entender
como os seres humanos, situados espacial e temporalmente, percebem, interpretam e o forma ao
objeto, ao texto ou à outra pessoa e como essa percepção se forma em um todo acabado.
Haynes, citando Michel Holquist, observa a exisncia de três eixos que norteiam os estudos
da obra de Bakhtin: 1) a compreensão de seus escritos a partir do diálogo estabelecido com outros
pensadores como Hermann Cohen, Theodor Lipps, Pavel Medvedev e Valentin Voloshinov; 2) a
posição de suas obras em relação com trabalhos mais atuais sobre o mesmo tema, como a crítica
27
Segundo Haynes (1995), Bakhtin não preparou esses textos para publicação, tendo sido editados por seus
executores na antiga União Soviética.
28
Creative activity is not a random and indifferent value, but it always is axiologically oriented: that is, it is related
to values. Both the work and the world in which it lives are alive, cognitively, socially, politically, economically, and
religiously.‖ (HAYNES, 1995, p.101)
74
literária a respeito de Rabelais, Dostoiévski ou Tolstoi, por exemplo; 3) a extensão de suas ideias em
novas direções.
Assim, ao apresentar as ideias bakhtinianas em seu texto, a autora afirma que o foco
principal de seu estudo privilegia o terceiro eixo, ou seja, conduzir as reflexões de Bakhtin em novas
situações. Desse modo, noções como: outsideness (exterioridade), answerability (respondibilidade) e
unfinilizability/finalizability (inacabamento/acabamento), consideradas centrais para a proposta
estica bakhtiniana, são as bases da análise de Haynes acerca de obras de artistas como Cindy
Sherman, Kasimir Malevich e Sherrie Levine.
Para Haynes, os trabalhos desses artistas exemplificam bem a observação de Bakhtin acerca
de obras que imitam o mundo ou outras literaturas, tendência apontada pela autora como
contemporânea.
A estudiosa reconhece, ainda, a dificuldade em analisar as artes visuais a partir das
categorias propostas por Bakhtin, mas assevera que noções como autor e personagem destacam a
possibilidade de uma conexão dinâmica entre o artista (criador ou autor de uma obra de arte) e outra
consciência, expressa no/pelo trabalho do autor. Além disso, uma das maiores contribuições do autor
russo para a teoria estética e visual é, segundo Haynes, oferecer uma forma mais equilibrada de
interpretar os artefatos culturais por meio da análise do conteúdo, da forma e do material, categorias
discutidas por Bakhtin em O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária
(1923-1924) e retomadas na obra de Haynes.
O núcleo de discussão da autora é semelhante ao que foi desenvolvido no capítulo 3, o que
torna desnecessária a exposição detalhada acerca da obra Bakhtin and the visual arts.
Por fim, corrobora-se a ideia defendida por Haynes (1995) no que tange à possibilidade de
estender as noções bakhtinianas para a análise o apenas do material verbal, mas também do
material visual, incluindo-se aí esculturas, retratos, quadros, desenhos, imagens etc.
75
Capítulo 6 - A supremacia do científico sobre o literário
Conforme exposto no capítulo 3, uma das peculiaridades literárias destacada por Bakhtin e
seu Círculo diz respeito à sua capacidade de refletir e refratar outros domínios da cultura,
enformando e dando acabamento a algo que, na vida, seria impossível. É o que ocorre no corpus
selecionado: nele o científico encontra certo acabamento e enformão em dois sistemas sígnicos, o
verbal e o visual e entre eles surgem relações dialógicas.
Para Bakhtin, as relações dialógicas são possíveis entre toda espécie de enunciados da
comunicação discursiva. Nesse sentido, pode-se propor que, aqui, tanto a dimensão verbal quanto a
dimensão visual são constituídas por enunciados confrontados em um único plano de sentido, os
quais ―acabam em relação dialógica‖ (BAKHTIN, 2003 [1959-1961], p.323).
Além disso, segundo o teórico russo, as relações dialógicas dão-se entre enunciados integrais
de diferentes sujeitos do discurso, considerados como autores, tal qual se pode encontrar no corpus
deste trabalho: enunciados concretos de duas instâncias autorais distintas (o autor da dimensão
verbal e o autor da dimensão visual). Assim sendo, daqui para frente, observar-se-á como se o
diálogo entre a ciência e a arte no texto verbal e no texto visual das obras selecionadas.
É importante destacar que a noção de texto é aqui entendida à luz da refleo desenvolvida
por Bakhtin em O problema do texto na lingüística, na filologia e em outras ciências humanas
(2003[1959-1961]). Para ele, texto, em sentido amplo, é ―qualquer conjunto coerente de signos‖,
sendo determinado como enunciado por dois elementos: 1) a sua ideia (intenção); 2) a realizão
dessa intenção, fatores esses que determinam a natureza do texto. Am disso, segundo Bakhtin, o
texto é a ―expressão da consciência que reflete algo. Quando o texto se torna do nosso
conhecimento, podemos falar do reflexo do reflexo‖ (p.318-319).
Levando em conta tais considerações, sintetiza-se (de modo bastante genérico) que, neste
trabalho, entende-se por texto verbal os enunciados escritos. Por extensão, o texto visual
corresponde às imagens. Já o texto verbovisual refere-se às imagens acompanhadas por legendas e o
resultado da parceria entre o texto verbal e o visual.
De acordo com Bakhtin (2003 [1959-1961], p.308), todo texto tem um sujeito, um autor
(um falante ou quem escreve)‖. Tal proposição, permite pensar que a produção imatica, assim
como o ato da fala ou da escrita, é também um ato constituído pela singularidade do sujeito que a
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produz, sendo, portanto, entendida aqui como um texto visual constituído por autoria. Seguindo este
pensamento, sugere-se que, no corpus da presente pesquisa, os enunciados de literatura infantil são
dialogicamente produzidos por diferentes autores os quais se encontram posicionados de forma
ativa, isolando a ―realidade conhecida e avaliada‖ (a ciência) e a inserindo na obra artística como um
objeto estético aparentemente formulado e acabado. Ou seja:
Naturalmente, a forma estética transfere essa realidade conhecida e avaliada para
outro plano axiológico, submete-a a uma nova unidade, ordena-a de modo novo:
individualiza-a, concretiza-a, isola-a, arremata-a, mas o recusa a sua
identificação nem a sua valoração: é justamente sobre elas que se orienta a forma
estética. (BAKHTIN, 1993[1923-1924], p. 33, grifo do autor)
Com estas considerações e o referencial teórico em vista, o que se propõe daqui em diante é
o exame das oito obras que compõem o corpus da pesquisa cujo resultado destacou que o dlogo
entre a esfera científica e a esfera literária em textos de Angelo Machado -se em diferentes
gradações no sentido de que, devido à ênfase dada, em alguns livros é possível observar (na
dimensão verbal, visual ou verbovisual) a presença da ciência de forma mais explícita e contundente,
ao passo que, em outras, os aspectos literários o mais evidenciados, embora nestas seja possível
notar também, nas entrelinhas, a participação da ciência no todo das obras.
Assim sendo, embora a divulgação científica esteja presente em todo o corpus, destacou-se
que nos cinco livros da colão Gente tem, bicho também a ciência é o ponto central dos textos,
configurando sua primazia em relação ao literário. É importante notar que em A viagem de Tamar:
a tartaruga-verde do mar, O ovo azul e O dilema do bicho-pau verificou-se um movimento
contrário, ou seja, nestas, o que se sobrepõe é o literário.
Tendo em vista facilitar a apresentação dos resultados, a análise será dividida em dois
capítulos. Neste, apresentam-se os aspectos que permitem observar a supremacia do científico sobre
o literário. No próximo, a análise busca evidenciar que os procedimentos usados em A viagem de
Tamar: a tartaruga-verde do mar, O ovo azul e o Dilema do bicho-pau conferem uma natureza
menos científica às narrativas, configurando a supremacia do literário sobre o científico.
Conforme exposto acima, a ciência mostra-se mais enfática na coleção Gente tem, bicho
também, o que pode ser constatado por meio do uso de três categorias: 1) esquemas ilustrativos; 2)
precisão de traços; 3) diálogo como procedimento de divulgação da cncia.
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6.1 Esquema ilustrativo: relações dialógicas entre texto e imagem
O uso de esquemas ilustrativos mostrou-se mais recorrente em três livros da coleção Gente
tem, bicho também, (Garganta, Língua e Olho), apresentando, algumas vezes, mais de uma
ocorrência em cada obra. Grillo (2009b), retomando Brasquet-Loubeyre (1999), observa que o
esquema ilustrativo ―fornece, por meio de formas simplificadas, uma representação concreta, entre
outros, das etapas de um processo; e, como toda ilustração, suas formas e cores procuram
aproximar-se do figurativo ou imitar a realidade‖ (p.19).
Levando em conta tal definição, ao verificar a presença de esquemas ilustrativos no corpus
selecionado, observou-se que o uso desse recurso, aliado ao texto verbal explicativo, propicia a
supremacia do conhecimento científico sobre o literário, a qual aparece materializada nos referidos
esquemas de três formas: a primeira, nas dimensões verbal e visual (texto e esquema ilustrativo), a
segunda, mais evidente no visual (esquema ilustrativo) e a terceira, no verbovisual (esquema
ilustrativo e legenda). Veja- se a seguir cada um desses momentos:
Mais ou menos. A orelha ajuda o som da música a entrar no buraco que ela
tem. Daí, o som segue por um túnel até no fundo, onde fica uma espécie de
tambor chamado tímpano. O som faz o ―tambor‖ tocar e você ouve a música.
(MACHADO, 2004c, p.9)
Figura 4. Obra: Garganta, referente ao trecho acima
No primeiro exemplo, tirado do livro Garganta, é cil perceber que as duas dimensões
(verbal e visual) dialogam harmoniosamente com o objetivo de divulgar saberes da ciência. Nesse
sentido, do ponto de vista visual, tem-se um esquema ilustrativo no qual estão representadas as
imagens de um rosto em perfil, um tambor e a respectiva reprodução simlica do seu som,
elementos que, juntos, objetivam explicar o processo de funcionamento do aparelho auditivo.
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No texto escrito, nota-se um discurso que, impulsionado pelo conhecimento científico,
também assume um caráter essencialmente explicativo. Ou seja, em ambos há, usando os termos de
Bakhtin, um acontecimento cognitivo
29
, não sendo possível identificar a presea de personagens,
por exemplo, (considerada, na vio bakhtiniana, um dos elementos fundamentais na construção da
obra artística). Logo, pode-se propor que, ao menos nesse exemplo, a consciência do autor-criador
o abarca a conscncia e o mundo da personagem, pois, como bem observa Grillo (2009b), ―[...] a
consciência da ciência é uma consciência única que ignora a individualidade do sujeito cognoscente
em proveito do conhecimento‖ (p.220).
Como se pode observar, o exemplo dado mostra que o verbal e o visual estabelecem uma
relação dialógica de complementaridade, isto é, o sentido do enunciado verbal é aperfeiçoado pelas
imagens, tendo em vista preencher possíveis lacunas no entendimento do assunto. Além disso, a
imagem pode, ainda, tornar mais concretas as explicações desenvolvidas no enunciado verbal e, por
conseguinte, facilitar a compreensão. Ou seja, aqui, tanto o material verbal quanto o material visual
m o propósito de inserir saberes da ciência no universo do pequeno leitor, recorrendo, para tanto, a
um discurso explicativo e didático.
o exemplo abaixo, mostra a circunstância em que o saber científico é mais enfático e
explícito na dimeno visual:
Isso mesmo. Agora experimente de novo com a língua encostada nos dentes de
baixo.
Vô, não sai direito, fica muito diferente.
Viu? A língua ajuda. É como dizem os versinhos:
É a boca que fala.
É a boca que canta.
Mas a língua ajuda.
O som da garganta.
Alice colocou a mão na garganta de sua cachorrinha:
Vamos, Brisa. Fale ―lá, lé, li, ló, lu‖. Brisa Augusta olhou para Alice e fez:
Au, au, au, au, au.
Vô, a garganta dela também treme quando late porque ela tem corda vocal.
É, Alice.
Mas, vô, ela só sabe latir. (MACHADO, 2004c, p. 21)
29
A noção bakhtiniana de ―acontecimento cognitivo‖ foi observada por Grillo (2009b) em seu artigo ―Enunciados
verbo-visuais na divulgação científica‖.
79
Figura 5. Obra: Garganta, referente ao trecho acima
O esquema ilustrativo acima é composto por uma figura humana, evidenciando alguns
óros internos, com o rigor, a clareza e o didatismo de um desenho utilizado para fins científicos.
Assim, o visual, por apresentar-se complexo demais para a faixa etária à qual se destina, constitui
uma relação diagica de dependência com o texto escrito para produzir sentido, ou seja, o esquema
sozinho não consegue explicar o saber referido no texto escrito. Este, por sua vez, embora também
pareça elaborado para transmitir conhecimento, intercala o nero poema à prosa, criando, pela
sonoridade, musicalidade, rima e ritmo, um tom dico ao conjunto e, ao mesmo tempo, atenuando,
de certa forma, a intenção de transmitir saberes. Ademais, neste trecho, percebe-se a presença das
falas das personagens (a, Alice e Brisa Augusta), procedimento que, neste caso, mesmo estando a
servo da ciência, pode remeter o leitor às convencionalidades narrativas.
Dessa forma, do ponto de vista verbal, pode-se sugerir que, no trecho acima, pela categoria
proposta por Pinto (2007), tem-se um exemplo de divulgação científica não canônica, haja vista que
o discurso da ciência aparece, de certa forma, de modo implícito. No entanto, a dimensão visual
segue em uma direção inversa, mais explícita e científica, direcionada para a função descritiva e
informativa da imagem.
No livro Olho, verificaram-se dois esquemas ilustrativos que remetem o texto mais ao
âmbito da ciência do que ao da literatura, relacionando-se dialogicamente ao enunciado escrito como
uma forma de complemento da explicação já dada:
Ah, sei, está faltando essa parte aqui disse Alice, tocando de leve seu
próprio olho.
Isso mesmo, são as duas pálpebras com seus cílios explicou o avô.
A pálpebra de baixo é menor e se mexe muito pouco. A de cima é maior e se
move muito mais.
E ainda tem essa parte aqui, cheia de cabelos comentou Alice.
É a sobrancelha.
80
Vamos ponha as pálpebras e a sobrancelha no seu desenho e escreva os nomes.
Bem no meio, a pupila, mais para fora, a íris, depois, a esclera; na frente, a
córnea. Em cima e embaixo, as pálpebras, e bem mais acima, a sobrancelha
(MACHADO, 2004f, p.9).
Figura 6. Obra: Olho, referente ao trecho acima
Esse exemplo, composto pela imagem descritiva das partes que compõem o olho, diferencia-
se dos anteriores por apresentar uma legenda explicativa independente do texto escrito. Ou seja,
aqui, o acontecimento cognitivo mostra-se mais preponderante na dimensão verbovisual, na qual,
novamente, não referência a personagens, embora estas sejam, mais uma vez, percebidas na
dimensão verbal por meio do diálogo estabelecido entre elas
30
.
No âmbito do texto visual, pode-se propor que o esquema ilustrativo acima desempenha
duas funções: a primeira é a de tornar concreto aquilo que possa parecer abstrato no conteúdo verbal,
tal como a menção a termos científicos da anatomia humana: cílios, lpebras, íris etc.; a segunda é
a de descrever visualmente o órgão explicitado no texto escrito, evidente pelo uso das setas
indicativas.
No enunciado verbal, percebe-se que o diálogo entre as personagens tem a finalidade de
facilitar a circulação da ciência na medida em que as réplicas estabelecidas prestam-se, sobretudo, à
explicação e à descrição das partes do olho. Ou seja, aqui o discurso das personagens não é
orientado para suas próprias caracterizões e ideias, mas, sobretudo, para a remissão aos saberes da
ciência. Assim, na totalidade, conforme mencionado anteriormente, a relação estabelecida entre o
texto verbal e o texto verbovisual é de complementação como reforço didático, procedimento que,
levando em conta o leitor previsto, pode favorecer a fixação dos saberes veiculados na obra.
Na segunda ocorrência, ainda do livro Olho, o discurso de divulgação científica materializa-
se explicitamente tanto no esquema ilustrativo quanto no texto verbal:
30
Mais adiante veremos que, na maior parte, o diálogo entre as personagens também está voltado para a veiculação
do conhecimento.
81
Estou impressionada, vô, com o tanto de imagens que atravessa as pupilas e
vai para dentro dos olhos, meu Deus!
O avô continuou explicando como os olhos funcionam.
A parte do fundo do olho aonde chegam as imagens das coisas se chama
retina. Dela saem milhares de fios bem finos que se prolongam até o interior da
cabeça e levam as imagens para o cérebro. É que a gente vê. Mas isso é
complicado demais para você entender. O interessante é que dentro do olho tem
uma lente chamada cristalino que inverte as imagens.
Então a imagem do Marco Antonio vai ficar de cabeça para baixo?
Vai, mas quando ela chega ao cérebro, ele corrige. (MACHADO, 2004f, p.14)
Figura 7. Obra: Olho, referente ao trecho acima
Mais uma vez, é possível observar, no exemplo acima, que ambas as dimensões do
enunciado servem à divulgação do conhecimento. No âmbito do visual, por exemplo, vê-se que o
esquema ilustrativo mostra o perfil de uma menina (a qual em nenhum momento é referida como
personagem e sem indícios de expressões faciais), evidenciando o globo ocular e o processo de
captação e inversão da imagem realizado pelo cérebro. Do ponto de vista verbal, o discurso também
transmite um conteúdo essencialmente explicativo e informativo, o que, normalmente, podem ser
características do discurso de divulgação científica.
6.2 A precisão de traços: relações dialógicas com a ilustração científica
Conforme exposto no capítulo 5, a ilustração científica tem como principal característica a
busca pela objetividade e pelo rigor dos detalhes daquilo que representa. Uma ilustração científica
pode, para Pereira (2007), reconstituir o passado, recuperando, em imagens, as espécies que
desapareceram do planeta, bem como projetar o futuro. Ademais, conforme Oliveira e Conduro
(2004), além das finalidades de registrar, traduzir e complementar observações e experimentos
82
científicos, a ilustração científica tem um fim informativo, descritivo e didático, visando facilitar a
compreensão das características dos seres ou dos objetos que estão sendo tratados em um texto
escrito.
Assim sendo, esse tipo de desenho é um trabalho investigativo que exige domínio de
cnicas, grande capacidade de percepção visual e conhecimento científico (PEREIRA, 2007). Nesse
sentido, os autores das imagens que compõem o corpus desta pesquisa levam vantagem, pois,
conforme mencionado anteriormente, tanto LOR quanto Raquel Lourenço são, além de artistas
plásticos, cientistas atuantes, o que pode explicar a representação visual minuciosa das espécies de
animais e da anatomia humana que acompanha os textos. Além disso, o fato de os ilustradores
serem conhecedores dos assuntos tratados pode, talvez, promover relações dialógicas de
complementaridade e concordância entre as duas dimensões (verbal e visual).
Voltando-se ao corpus ora analisado, percebe-se que as características das imagens que
acompanham os textos de Angelo Machado podem ser relacionadas às características da ilustração
científica. Ou seja, considera-se que essas representações imagéticas dialogam com as ilustrações
científicas, prestando-se, primordialmente, à veiculação de saberes da ciência, apresentando, em
alguns momentos, pouca função estética. É importante ressaltar que não estamos negando o valor
estético (e lúdico) dessas imagens, mas apenas enfatizando que sua função representativa, no todo
acabado, é voltada para a verdade do conhecimento científico.
Semelhantemente aos esquemas ilustrativos, esse aspecto foi mais recorrente nas obras da
coleção Gente tem, bicho também
31
, como se pode observar nos casos a seguir:
Agora quero ver se minha neta descobre esta charada. O que é, o que é: um
bicho que tem um nariz muito grande e comprido, de quase um metro, que mexe
para todos os lados e pode até segurar coisas com ele?
Ah... não sei.
É um bicho gigante.
Já sei: é o elefante.
Isso mesmo. A tromba do elefante é um nariz comprido e mole que serve para
muitas coisas além de cheirar e respirar. (MACHADO, 2004e, p.24)
31
As particularidades da ilustração científica também podem ser encontradas nas obras A viagem de Tamar: a tartaruga
verde do mar, O dilema do bicho-pau e O ovo azul, mas nessas as imagens ganham mais ludicidade e beleza plástica, o
que pode camuflar a objetividade e a precio presentes em seus traços.
83
Figura 8. Obra: Nariz, referente ao trecho acima
Camaleão faz a mesma coisa. Quando ele um inseto, ele estende a ngua,
pega-o rapidamente e recolhe. Assim, ele consegue insetos que estejam muito
longe. (MACHADO, 2004d, p 16)
Figura 9. Obra: Língua, referente ao trecho acima
No tigre e no leão devem ser maiores ainda comentou Alice.
Isso mesmo. dez mil anos existiam tigres enormes e ferozes chamados
tigres-de-dente-de-sabre. Os caninos deles eram tão grandes que saíam da boca.
Eles eram bravos?
Bravíssimos. Todos os bichos tinham medo deles.
Até os dinossauros.
Não, porque dez mil anos os dinossauros tinham desaparecido.
(MACHADO, 2004b, p.14)
84
Figura 10. Obra: Dente, referente ao trecho acima
Vô, existe olho vermelho?
Existe em alguns bichos. A íris de muitas aves, por exemplo, é vermelha.
(MACHADO, 2004f, p.14)
Figura 11. Obra: Olho, referente ao trecho acima
Vô, existe bicho que canta e dança?
Existe. Um deles é o tangará, um passarinho lindo. Os machos têm cabeça
vermelha, uma beleza. No início da primavera, os tangarás se reúnem e fazem
um bailado. Os machos cantam e dançam, tentando conquistar as fêmeas para
casar.
Então é uma espécie de Baile de casamento.
Isso mesmo. Onde é esse baile?
Dentro da mata virgem, numa clareira da mata onde entra um pouco de sol, os
tangarás cantam e dançam. Curiosa, Alice perguntou:
Mas como é esse canto e essa dança?
Vou explicar, mas vocês têm que me ajudar, cantando e dançando junto
comigo. (MACHADO, 2004c, p.29)
85
Figura 12. Obra: Garganta, referente ao trecho acima
Como se pode ver em todos os recortes acima, os animais representados, ao contrário do que
comumente se nos desenhos feitos para figurarem em livros infantis, apresentam objetividade,
clareza e precisão. Assim, não é difícil relacioná-los às ilustrações usadas para fins científicos.
Contudo, deve-se ressaltar que, considerando o público alvo (a criança) e, por conseguinte, o
acabamento dado por ele, tais imagens podem despertar a empatia e a admiração no leitor mirim,
uma vez que as gravuras de bichos, na literatura infantil, m um papel fundamental na ativação do
imaginário da criança. No entanto, vale lembrar que as imagens de animais nas obras destinadas aos
pequenos, quase sempre, são associadas a aspectos humanizadores (como expressões de alegria,
tristeza, dor, hesitação etc.) e se inscrevem no âmbito da magia, como no caso da bula, por
exemplo. Contrariamente, o que se pode notar nestes exemplos o representações de animais que
eso de acordo com as suas características reais e executando, inconscientemente, atos que atendam
aos seus hábitos de sobrevivência
32
.
Desse modo, pode-se sugerir que as representações das escies tratadas nas obras da
coleção Gente tem, bicho também o compromissados com o conhecimento e a precisão, ou seja,
o imagens de natureza informativa, para mencionar uma expreso de Oliveira (2004). Entretanto,
vale observar que o sentido dessas figuras é, conforme o conhecimento de mundo do leitor mirim,
subordinado ao enunciado escrito na medida em que, sozinhas, essas gravuras seriam mais
condicionadas às impressões particulares do pequeno espectador. Mas, atreladas ao texto verbal, elas
tendem a restringir o sentido àquilo que ele informa. Em outras palavras, entre o material visual e o
verbal tem-se uma relação dialógica de depenncia.
32
Essas imagens podem ser associadas à orientação naturalista de Père Faucher que, segundo Coelho (1993),
dominou o cenário cultural do início do século XIX. De acordo com a autora, essa tendência recusa o maravilhoso e
vincula-se ao pensamento que dominou a Educação Renovada nos anos 1920/1930.
86
É interessante observar ainda que, se por um lado, a dimensão visual desses exemplos pode
ser associada ao rigor dos desenhos científicos, por outro, a linguagem usada na dimensão verbal é
bastante simplificada, visto que não faz uso de uma terminologia específica, preocupando-se
principalmente em favorecer o entendimento das explicações veiculadas nos textos. Ao que tudo
indica, levando em conta que o pequeno leitor tem um papel determinante nas escolhas lexicais, os
enunciados verbais desses recortes, sem comprometer a veracidade das informações, lançam mão de
maior liberdade linguística, objetivando uma maior aproximação com a realidade da criança. Um
bom exemplo é a intercalação do gênero adivinha próprio do universo infantil ao texto, tal como
no livro Nariz (figura 8), o que pode propiciar um efeito lúdico no sentido de que esse gênero se
apresenta como uma brincadeira ou um jogo à criaa.
Já a dimensão visual, por estar inserida em obras que se pautam pelos princípios de
representação científica, não dispõe da mesma autonomia, visto que qualquer transgressão em
relação às características das espécies poderia acarretar prejuízos ao todo do enunciado.
Em síntese, essas considerações estendem-se a todos os recortes expostos acima, nos quais
as imagens parecem mais compromissadas com a precisão e o conhecimento e menos com possíveis
efeitos estilísticos, fantasiosos e lúdicos da linguagem imagética.
6.3 O diálogo a serviço da ciência
A supremacia da ciência sobre o literário é verificada, ainda, nos trechos em que o diálogo
estabelecido entre as personagens favorece a disseminação do conhecimento científico, isto é, nesses
casos, o diálogo não determina a caracterização das personagens, mas está sempre a serviço da
construção do conhecimento
33
.
Desse modo, a estrutura composicional sica das obras da coleção é constituída pelas
plicas entre as personagens, podendo ser relacionada aos aspectos do diálogo socrático, nero
observado por Bakhtin (2008[1963]), em Problemas da ptica de Dostoiévski.
33
Vale ressaltar que esse traço, assim como os demais já apontados, é mais representativo nas obras da coleção
Gente tem, bicho também.
87
O diálogo socrático, na visão do teórico russo, se baseia na noção socrática da natureza
dialógica da verdade. De acordo com esse método, a verdade dá-se por meio do processo de
comunicação dialógica ―entre os homens‖.
Esse gênero, segundo o pensador russo, apresenta dois procedimentos fundamentais: a
síncrese e a anácrise. Ancrese é o confronto de pontos de vista diferentes sobre o mesmo objeto.
a anácrise constitui-se por ―métodos pelos quais se provocam as palavras do interlocutor, levando-o
a externar sua opinião e externá-la inteiramente‖ (p.126). Ou seja, para Bakhtin (2008[1963]), a
anácrise é a técnica de provocar a palavra pela palavra, objetivando ―trazer à luz as verdades
correntes‖.
Este último procedimento, denominado anácrise, pode ser relacionado com o diálogo
estabelecido entre as protagonistas das obras da coleção Gente tem, bicho também, objetivando
sustentar o processo de divulgação do conhecimento científico. Para exemplificar a recorrência
desse tipo de diálogo, selecionou-se um fragmento de cada obra da referida coleção:
Vô, então peixe não respira?
Respira, mas é diferente de gente e dos bichos terrestres. Em vez de pulmão,
ele tem brânquias, também chamadas de guelras. Ele respira quando o ar,
misturado com a água, passa nas brânquias. (MACHADO, 2004e, p.24)
Figura 13. Obra: Nariz, referente ao trecho acima
88
Vô para que serve a sobrancelha, só para enfeitar a cara?
É claro que enfeita, mas não é só para isso. A sobrancelha não deixa o suor da
testa cair dentro do olho. A sobrancelha ajuda a proteger o olho.
Vô, então gente careca de sobrancelha deve viver com o olho cheio de suor.
Que ideia, menina! Eu nunca ouvi falar de gente careca de sobrancelha.
(MACHADO, 2004f, p.15)
Figura 14. Obra: Olho, referente ao trecho acima
Vô existe algum bicho que sabe dançar?
Existe. As abelhas não falam nem cantam, mas elas se comunicam pela dança.
Quando uma abelha descobre um canteiro de flores, ela chega na colmeia e
começa a dançar.
Deve ser de alegria porque achou as flores.
Não é bem assim. Um cientista alemão descobriu que, conforme o jeito de
danças, a abelha ensina às outras abelhas o caminho para chegar nas flores.
(MACHADO, 2004c, p.27-28)
Figura 15. Obra: Garganta, referente ao trecho acima
89
Vô, planta carnívora tem dente?
Não. Ela prende os insetos dentro de uma folha ou flor, mas não os mastiga.
Mas vamos continuar falando sobre os dentes de gente. Você mostrou os
incisivos e os molares. E este aqui como se chama? perguntou o avô,
indicando um dente pontudo em sua própria boca.
Alice observou com atenção.
Vamos, como se chama este dente?
Alice pensou... pensou... e respondeu:
Esqueci.
Pois vou ensinar um jeito que você nunca mais vai esquecer. Abra a boca da
Brisa Augusta.
Ao ouvir seu nome, Brisa Augusta abanou o rabo de satisfação. Alice abriu sua
boca e apareceram dois dentes pontudos em cima e dois embaixo. Toda alegre a
menina disse:
Olhe, vô. Cachorro também tem dentes pontudos, mas eles são muito maiores
que os seus. (MACHADO, 2004b, p.8)
Figura 16. Obra: Dente, referente ao trecho acima
Vô, quer dizer que o Aníbal e os outros bichos sentem gosto na língua?
A maioria sente.
Até o Aníbal?
Os papagaios e as araras sentem. Observe que, quando eles comem, põem a
língua no alimento. Mas na maioria das aves a língua não é importante para o
paladar, e em muitos peixes ela nem existe. Vamos continuar. Veja se sabe para
o que mais serve a língua. (MACHADO, 2004d, p.11)
90
Figura 17. Obra: Língua, referente ao trecho acima
Antes que se discorra acerca dos trechos acima, é importante mencionar que a junção desses
exemplos justifica-se pela proximidade de análise que os fragmentos oferecem.
Dessa forma, genericamente, nessas passagens, é possível verificar que os diálogos
estabelecidos entre as personagens cumprem o papel de conduzir a inserção e o aprofundamento dos
saberes em pauta. Ou seja, o que se é a interlocução entre Alice e seu avô, personagens que têm
as plicas como procedimento central de transmissão do conhecimento científico, formando um
jogo de perguntas e respostas, o qual também pode ser um modo de aproximação ao universo do
leitor visto que, além de remeter às conversas cotidianas, o par dialógico pergunta-resposta é muito
utilizado pelos pequenos.
Para construir esse diálogo, a personagem Alice é sempre a primeira a suscitar
questionamentos que conduzirão seu interlocutor (o avô) a expressar, em palavras, os saberes
científicos que poderão aclarar suas inquietações e que, por conseguinte, serão transmitidos ao
pequeno leitor. Nesse sentido, o desenvolvimento do diálogo, como meio de acesso ao
conhecimento, mostra com mais evincia a função explicativa e informativa presente nesses
exemplos, permitindo observar que, em sua manifestação, esse procedimento institui a primazia do
saber científico sobre o literário, visto que, na literatura, o diálogo configura-se como uma técnica da
linguagem narrativa que visa fornecer mais objetividade às personagens e às situações. Ou seja,
pautado pela marca da oralidade, o diálogo na literatura presta-se especialmente à caracterização das
personagens, pois, como bem observa Coelho (1993), ―é a oportunidade que o autor a elas de se
revelarem diretamente ao leitor‖ (p.80).
Mas os recortes selecionados mostram que a incorporação do diálogo, nas obras do corpus,
o cumpre a fuão de elucidar as peculiaridades das personagens ou os aspectos da situação. Ou
91
seja, aqui o diálogo caracteriza-se pelo jogo de perguntas e respostas entre as duas personagens
principais, tendo em vista a finalidade de expor os saberes da ciência. Isto pode ser observado
também no âmbito da dimensão visual na medida em que, em nenhum dos recortes acima, as
personagens são representadas em interação. O que se vê são imagens que estabelecem com o texto
verbal uma relação dialógica de complementação didática/explicativa, propiciando, ainda,
acabamento ao já mencionado no enunciado escrito. Assim, nota-se, por meio dos exemplos citados,
umaão conjunta (verbal e visual) que busca ―trazer à luz as verdades correntes‖.
Entretanto, se nesses trechos as personagens não podem ser explicitamente caracterizadas
com traços definidos, é importante mencionar que suas particularidades são reveladas nas primeiras
ginas dos livros pela voz do narrador, único momento de determinação e caracterização artística
das mesmas, como se pode constatar a seguir:
Livro Nariz [...] Alice foi visitar o avô. Ele sempre tem uma resposta para
os porquês de sua neta. Explica tudo sobre as pessoas e os bichos [...]
(MACHADO, 2004e, p.1, grifos nossos)
Livro Olho Alice gosta muito de seu avô, que também gosta muito dela. Ele
sabe de muitas coisas interessantes sobre as pessoas e os bichos. Alice é
muito curiosa e vive perguntando coisas a seu avô. Ele responde e explica
tudo e, quando não sabe responder, olha nos livros. (MACHADO, 2004f,
p.2, grifos nossos)
Livro Garganta o avô de Alice é muito inteligente e sabe de muitas coisas,
principalmente sobre pessoas e os bichos. Ele explica tudo para neta e
mostra figuras nos livros. (MACHADO, 2004c, p.1, grifos nosso)
Livro Dente Naquele momento entrou seu avô. Ele sabe muitas coisas sobre
os bichos e sobre as pessoas. Explica tudo para a neta e mostra as figuras
nos livros, sempre misturando gente com bicho. (MACHADO, 2004b, p. 1,
grifo nossos)
Livro Língua De repente a porta se abriu e entrou seu avô. Ele era muito
inteligente e sabia muitas coisas sobre os bichos e as pessoas. Explicava tudo
com muita paciência, mostrava as figuras nos livros e, quando não
compreendia alguma coisa ia pesquisar nas enciclopédias. (MACHADO,
2004d, p.2, grifos nossos)
Nos trechos destacados acima, o avô é caracterizado como aquele que explica, tendo
autoridade nos assuntos tratados, e a menina Alice é, como qualquer criança, descrita como curiosa e
indagadora. Assim sendo, conforme os recortes selecionados para análise, o diálogo estabelecido
entre Alice e o avô pode ser visto como um procedimento de que se serve o autor-criador para
converter o que poderia ser um momento de autodefinição da personagem em um meio de divulgar
o conhecimento científico ao leitor criança.
92
6.4 Breve síntese do dialogismo entre imagem e texto
O primeiro momento de análise do corpus permitiu observar que o encontro entre a esfera
literária infantil e a esfera científica -se, verbal, visual e verbovisualmente, pela primazia da
ciência sobre literário, sendo isto mais evidente nos livros da coleção Gente tem bicho tamm, cujo
objetivo principal parece ser o de levar conhecimento científico a respeito de anatomia, fisiologia e
comportamento.
Assim, partindo do princípio de que uma das especificidades da literatura é a de refratar e
refletir outros domínios da cultura e de que um desses domínios pode ser o científico, verificou-se
que a transmissão da ciência, na coleção ora analisada, pôs-se em relevo sobremaneira por meio do
uso de três procedimentos: esquemas ilustrativos, precisão dos traços nas imagens e diálogo como
procedimento de divulgação da ciência.
A análise empreendida procurou observar ainda os tipos de relações dialógicas que foram
estabelecidas entre os enunciados verbais e os enunciados visuais. Na totalidade, foi possível
constatar dois tipos de relações dialógicas entre texto e imagem: complementação como reforço
didático e dependência semântica (isto é, os efeitos de sentidos produzidos pelos enunciados visuais
o subordinados ao enunciado verbal).
No que tange ao primeiro tipo, a verificação dos esquemas ilustrativos possibilitou destacar
que, dos quatro exemplos selecionados, três apresentaram, em conexão com os enunciados verbais,
relações dialógicas de complementação, reforçando a transmissão dos saberes da ciência. Assim,
parece que a fuão primeira dessas imagens é a de intensificar, em outro signo, odado no verbal.
Semelhantemente, na seção O diálogo como procedimento de disseminão da ciência, a
primazia do científico sobre o literário evidenciou que as imagens também exercem um diálogo de
complementação didática com o texto verbal, podendo facilitar a compreensão dos saberes
científicos, visto que alguns deles, considerando oblico-alvo, apresentam certa complexidade.
a relação de dependência entre a imagem e o texto pôde ser detectada em dois exemplos
dos esquemas ilustrativos e em todos os recortes da seção A precisão de traços: relões dialógicas
com a ilustração científica. Nesses exemplos, foi possível constatar que a dimensão visual
(considerando a faixa etária do destinatário das obras) o apresenta autonomia semântica, sendo
dependentes do texto escrito para refletir a informação veiculada na dimensão verbal. No entanto, os
93
textos escritos, por sua vez, também dependem, de certa forma, das imagens, pois os assuntos
tratados podem não fazer parte do conhecimento de mundo da criança e transformar-se-iam em
abstrações.
Embora se saiba que a produção de um livro envolve cooperativamente um grande projeto
editorial no qual se incluem os aspectos gráficos, é importante notar que nem sempre as imagens
selecionadas estabelecem uma relação coerente com o texto verbal. Não se afirma aqui que possíveis
incoerências entre a dimensão verbal e a dimensão visual constituem uma deformidade ou ainda que
as imagens devam se restringir minuciosamente ao texto escrito como uma tradução do mesmo, mas
considera-se que ambas as dimensões, no livro infantil, precisam dialogar de forma harmoniosa,
tendo em vista não apenas a função de ornamentar o texto verbal, atender as expectativas estéticas
do público-leitor etc., mas tamm a de favorecer, de certa forma, a apreensão do dito.
Assim, sendo, pode-se dizer que, no corpus ora analisado, as vozes do autor da dimensão
verbal e do autor da dimensão visual estabelecem, na totalidade, uma relação dialógica de
concorncia, considerada na visão bakhtiniana como uma das formas mais importantes de relações
dialógicas. ―Trata-se de um determinado acontecimento dialógico nas relões mútuas entre os dois
e não de um eco‖ (BAKHTIN, 2003 [1959-1961], p.331).
94
Capítulo 7 A supremacia do literário sobre o científico
Neste capítulo de análise, verificar-se-á, nas obras do segmento ecológico O ovo azul, A
viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar e O dilema do bicho-pau, um movimento dialógico
contrário ao que foi exposto no capítulo anterior. Ou seja, nestas obras, a circulação da ciência é
veiculada implicitamente por procedimentos verbais e visuais que comumente são encontrados
nos gêneros da esfera literária infantil, remetendo mais o leitor ao universo ficcional
34
. Vale
mencionar que a constituição de dois capítulos de análise não sugere dois conjuntos de dados
examinados separadamente. A intenção é facilitar a percepção de como o diálogo estabelecido
entre a esfera científica e a esfera literária infantil se configura de modo distinto no corpus
selecionado para este trabalho.
Assim, se nas obras da coleção Gente tem, bicho também o diálogo entre estas esferas dá-
se pela supremacia da ciência sobre o literário, em A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do
mar, o Dilema do bicho-pau e O ovo azul esse contato dá-se pela supremacia do literário sobre o
científico, identificada por meio de duas categorias analíticas: 1) cronotopo
35
e 2) criação de
personagens. Nessas obras, como será observado daqui para frente, a divulgação da ciência é
integrada ao todo do texto, podendo ser perceptível para um leitor adulto, mas sutil (ou
imperceptível) aos olhos de um leitor criança.
Dessa forma, levando em conta as peculiaridades acerca do fenômeno literário,
destacadas no capítulo 3, pode-se propor que, em relação com outros domínios da cultura humana
tal como o científico há nas obras ora analisadas o predomínio de elementos da esfera literária
destinada às crianças, apresentando, inclusive, as regularidades estruturais da narrativa, além da
presença de personagens representadas por bichos que expressam atitudes humanas, tal como as
personagens do gênero fábula. Feitas estas breves considerações, passa-se à análise dos
mencionados textos.
34
Sendo os enunciados de divulgação científica o foco de interesse desta pesquisa, a análise abordará somente os
trechos favoráveis à circulação da ciência.
35
Noção desenvolvida por Bakhtin em ―Formas de tempo e de cronotopo no romance: ensaios de poética histórica
(1997[1937-1938]) e em O romance de educação e sua importância na história do realismo‖ (2003[1936-1938]).
95
7.1 O cronotopo como pano de fundo para a divulgação científica
De acordo com Bakhtin, cronotopo é a ―interligação fundamental das relações temporais e
espaciais, artisticamente assimiladas em literatura‖ (BAKHTIN, 1993[1937-1938] p.211),
variando ―em qualidades; diferentes atividades e representações sociais dessas atividades
presumem diferentes tipos de tempo e espaço.‖ (MORSON; EMERSON, 2008, p. 384).
O cronotopo, conforme ressalta Grillo (2008), é capaz de orientar a análise do discurso
romanesco por meio de três aspectos: sua variedade, sua temática e as relações entre as diversas
esferas da cultura. Nesse sentido, a autora explica que
Primeiramente, os grandes cronotopos tipologicamente estáveis (da praça
pública, do mundo maravilhoso num tempo de aventuras, da estrada, da soleira
ou crise e da mudança de vida, do salão-sala de visita etc.) determinaram as
variantes mais importantes do gênero romanesco nas primeiras etapas de sua
evolução. Eles funcionaram como formas literárias para representar o contexto
sócio-histórico em que os romances foram produzidos. Em segundo lugar, os
cronotopos são os centros organizadores dos principais acontecimentos
temáticos do romance. (GRILLO, 2008, p.66)
Dessa forma, as reflexões de Bakhtin acerca do cronotopo podem auxiliar na análise aqui
empreendida, pois, ao que tudo indica, a circulação da ciência nas referidas obras entrelaça-se de
forma implícita e sintetizada no conjunto de acontecimentos representados os quais são
delineados em determinado tempo-espaço. Ou seja, ―no cronotopo, os acontecimentos do enredo
se concretizam, ganham corpo e enchem-se de sangue‖ (BAKHTIN, 1993[1937-1938] p. 355).
Assim, embora o cronotopo representado nas obras O dilema do bicho-pau, O ovo azul e
A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar manifeste aspectos de um tempo-espaço real, os
trechos a seguir destacam que o autor sugere um mundo criado cujas personagens integram-se
mais ao universo da imaginação, remetendo (na maior parte da narrativa) o pequeno leitor a ―um
tempo de acontecimentos excepcionais e fora do comum‖ (BAKHTIN, 1993[1937-1938], p.
238), ou seja, ao evento específico da fantasia, favorecendo, por meio da liberdade de criação
artística, a supremacia do literário sobre o científico, conforme mostram os exemplos a seguir:
96
O bicho pau nasceu na grande goiabeira do quintal da casa da fazenda.
Desde pequeno era muito curioso e vivia perguntando as coisas:
Mãe, quem mora na casa grande?
É fazendeiro.
Mas eu vi foi uma menina.
É a filha do fazendeiro
Mãe, filha de fazendeiro come folha igual bicho-pau?
Não. Ela come é comida feita no fogão.
No dia seguinte, o bicho-pau voltava com as mesmas perguntas:
Mãe, eu sou bicho ou eu sou pau?
Impaciente a mãe respondia:
Quer saber de uma coisa? Você é bicho-graveto.
O bicho-pau pensava, e perguntava de novo:
Mãe, o que é graveto?
Graveto? Graveto é um pauzinho
Ah, então eu sou bicho-pauzinho.
Isso mesmo, respondia a mãe.
O bicho-pau pensava, pensava e tornava a perguntar:
Mãe se me plantarem eu nasço?
Que pergunta meu filho. Você já nasceu.
Mas, mãe, é nascer igual planta, crescer folha, brotar todo.
Mas que bicho-pau mais curioso resmungava a mãe. Pare com tanta
perguntação e vai comer sua folha de almoço. (MACHADO, 1997, p.5-6)
Figura 18. Obra: O dilema do bicho-pau, referente ao trecho acima
97
Dona Jaó voltou para sua mata, assentou-se no seu ninho, fechou os olhos com
pensamento positivo. Sua força de vontade foi aumentando, até ploc! Botou um
ovo cor-de-rosa. Toda alegre, chamou as outras aves, e todas admiraram o lindo
ovo que havia botado. (MACHADO, 1998, 14-15)
Figura 19. Obra: O ovo azul, referente ao trecho acima
Mamãe tartaruga-verde
Chegou na praia ao luar;
Fez um buraco na areia
E começou a botar. (MACHADO, 2004a, p.4
Figura 20. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, referente ao trecho acima
98
Como se vê nos recortes selecionados, de um modo geral, os três exemplos trazem, verbal
e visualmente, a representação de um cronotopo específico. O espaço representado é o da
natureza (―na grande goiabeira do quintal da fazenda‖, ―na mata‖, ―na praia‖), no qual ocorrerão
os acontecimentos da narrativa e, por conseguinte, no qual as personagens, orientadas pela
vontade discursiva e valorativa do autor-criador, organizam as representações fantásticas e
realistas contidas nas obras, criando uma atmosfera propícia para os assuntos relacionados a
Ciências Biológicas. No que tange à temporalidade, pode-se sugerir que, no todo, o tempo
revelado é o da vida natural (dos dias e noites, dos ciclos da natureza etc.), o qual também, em A
viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, abarca os fenômenos sociais e históricos. Como
observou Bakhtin:
O tempo se revela acima de tudo na natureza: o movimento do sol, das estrelas,
o canto dos galos, os objetos sensoriais visíveis das estações do ano; tudo isso,
em uma relação indissolúvel com os respectivos momentos da vida humana, dos
costumes, da atividade (do trabalho), constitui o tempo cíclico em um grau
variado de intensidade. (BAKHTIN, 2003[1937-1938], p.225)
Ou seja, nesse cronotopo, habitado por personagens humanizadas bicho-pau, tartaruga-
verde, macuco, jaó, perdiz, inhambu-chororó etc. , o autor encontra o ponto de partida da
imaginação criadora, realizando movimentos que conduzem o leitor não apenas ao universo da
fantasia, mas também de informações relacionadas ao conhecimento na área de Ciências
Biológicas.
Nesse sentido, o cronotopo criado em O dilema do bicho-pau organiza um enredo que
culmina em explicar o processo de mimetismo, fenômeno característico da espécie tratada na
obra. Em O ovo azul, a narrativa condensa informações a respeito de espécies de aves que botam
ovos coloridos.
a obra A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar diferencia-se das demais por
apresentar uma temática ampla, visto que não abarca conhecimentos a respeito de espécies
aquáticas, mas também sugere um diálogo entre o contexto da narrativa e o contexto extraverbal
(o qual, obviamente, é subordinado às implicações ideológicas ligadas ao ideário
conservacionista), em que ―São dadas imagens radicalmente diferentes de um único homem, nele
reunidas conforme as diferentes épocas, as diferentes etapas de sua existência‖ (BAKHTIN,
1993[1937-1938] p. 237-238):
99
Logo, veio o pescador
Com um balaio na mão,
Carregou todos os ovos
Enterrados lá no chão.
Todos os ovos, menos um,
Esquecido no lugar
E foi dele que nasceu a tartaruga Tamar. (MACHADO, 2004a, p.6, grifos
nossos)
Figura 21. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, referente ao trecho acima
Igualzinho sua mãe,
Chegou na praia ao luar.
Fez um buraco na areia,
começou logo a botar.
De repente, um barulho.
Santo Deus! Mas que horror!
Ele mata e tira os ovos.
Ele é um pescador. (MACHADO, 2004a, p.26, grifos nossos)
100
Figura 22. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, referente ao trecho acima
Conforme mencionado no capítulo 3, o enunciado poético é, segundo Bakhtin/Voloshinov
(1997[1920/1924]), afetado pelo fluxo unitário da vida social, refletindo a base econômica
comum e entra em interação e troca com outras formas de comunicação (p.112)
36
.
Assim sendo, embora os recortes da obra A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar
não façam referências explícitas ao contexto sócio-histórico, o leitor poderá inferi-lo como
―formas da própria realidade efetiva‖ na medida em que a situação representada reflete, em certos
momentos, o mundo real:
A obra e o mundo nela representado penetram no mundo real enriquecendo-o, e
o mundo real penetra na obra e no mundo representado, tanto no processo da sua
criação como no processo subseqüente da vida, numa constante renovação da
obra e numa percepção criativa dos ouvintes-leitores. (BAKHTIN,
1993[1937-1938] p. 358)
Ou seja, o leitor poderá apreender que a história dialoga com a realidade. Ademais, no
referido texto de Machado, o leitor pode ainda tomar ciência desse diálogo por meio da
explicação contida na contracapa do livro, na qual o autor, a partir de sua contemporaneidade
inacabada, observa:
36
Pero, por supuesto, esta forma peculiar de comunicación no aparece aislada: participa en la corriente única de la
vida social, refleja en la base económica común y entra en interacción e intercambio de fuerzas con otras formas
de comunicación. (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1997 [1920/1924] p. 112)
101
Depois de 49-54 dias, dos ovos enterrados na areia nascem tartaruguinhas que
imediatamente saem correndo em direção ao mar. E têm de correr mesmo,
porque existem muitos animais, como por exemplo, os caranguejos, que tentam
comê-las nesse trajeto. Os cientistas demonstraram que o que orienta as
tartaruguinhas nesse caminho é o reflexo da luz da lua sobre o mar. Entretanto,
os maiores inimigos das tartarugas marinhas, como a aruanã, têm sido os
homens, que, em várias partes do mundo, roubam seus ovos e as matam
para comer, principalmente quando saem para botar ovos na praia. Por
isso, a maioria das tartarugas marinhas, como a aruanã (tartaruga-verde), está
ameaçada de extinção. Para protegê-las, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) criou o Projeto Tartaruga Marinha,
mais conhecido como Projeto Tamar, que por meio de eficiente trabalho de
educação ambiental, e com o apoio da fundação Tamar, está mudando a atitude
dos pescadores e das populações de nosso litoral, que começam a proteger as
tartarugas marinhas [...].
Do que foi visto, é fácil perceber que, com exceção das brincadeiras da
tartaruguinha, fruto da imaginação do autor, a história da tartaruga-verde,
personagem deste livro, representa bem de perto o que está acontecendo
hoje com as tartarugas-verdes na vida real. (MACHADO, 2004, contracapa,
grifos nossos)
Dessa forma, considerando que todo enunciado leva em conta seus participantes e o que o
leitor já conhece a respeito de determinado assunto e determinado contexto neste caso a ameaça
de extinção da espécie de tartaruga pela ação do homem e o projeto de proteção idealizado pelo
IBAMA, conhecido como Projeto TAMAR , o autor elabora seu discurso visando não apenas
divertir ou transmitir conhecimento científico, mas também obter uma postura responsiva do
leitor em relação aos fatos. A esse respeito Bakhtin (2003[1952-1953]) explica: [...] o ouvinte,
ao perceber e compreender o significado (lingüístico) do discurso, ocupa simultaneamente em
relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente),
completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo [...] (p.271). No caso da literatura, a compreensão
responsiva do outro aparece de forma especial visto que ―Os gêneros da complexa comunicação
cultural, na maioria dos casos, foram concebidos precisamente para essa compreensão ativamente
responsiva de efeito retardado‖. (BAKHTIN, 2003[1952-1953], p.272).
Seguindo essa premissa pode-se dizer que, em certa medida, o autor antecipa, no fim
deste poema narrativo, uma das possíveis respostas do leitor, talvez a mais idealizada por ele: a
transformação da imagem (ou consciência) do homem:
102
Mas Tamar assustou-se à toa. O tempo tinha passado e o pescador aprendido
que, se matasse as tartarugas e tirasse os ovos, elas acabariam. Ele parou,
olhou para ela, deu um sorriso e continuou seu caminho. (MACHADO,
2004a, p. 27, grifos nossos)
Figura 23. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, referente ao trecho acima
Nos trechos grifados, pode-se ver a posição ideológica que permeia a obra, cujos valores
visam a transformação da consciência humana. Como observou Bakhtin (1993[1937-1938]), ―Os
motivos de transformação e de identidade do indivíduo comunicam-se a todo o mundo humano, à
natureza e às coisas criadas por ele‖ (p.235).
Nesse sentido, entende-se que o cronotopo assimilado nas obras de Angelo Machado
participa, ao mesmo tempo, da criação de um universo fantástico/realista, sendo o fio condutor da
circulação do conhecimento científico, ainda que este apareça implicitamente. Ou seja,
diferentemente dos livros da coleção Gente tem, bicho também, os saberes da ciência são
introduzidos, não em momentos precisos, mas no conjunto de ações, acontecimentos ou fatos
representados por personagens humanizadas que orientam a construção do sentido geral do texto,
levando assim ao seu tema central.
103
7.2 Criação de personagens: a ciência implícita
Conforme mencionado, se no capítulo anterior a circulação da ciência mostrava-se
explicitamente ora no texto verbal, ora no texto visual e ora no texto verbovisual, nas obras do
segmento ecológico ela se expressa, verbal e visualmente, de forma indireta no todo da narrativa,
sem recorrer a explicações, inferências ou categorizações conceituais:
O tempo foi passando, o bicho-pau cresceu e ficou enorme. Sua brincadeira
preferida era ficar paradinho com as pernas da frente esticadas adiante da
cabeça escondendo as antenas. Parecia um pau de verdade. Pouco a pouco
passou aquela mania de querer ser lápis de cor. Um dia, ele tomou uma decisão:
Mãe, vou embora. Quero conhecer o mundo. Morar com você nesta
goiabeira está ficando chato.
No começo, a mãe não gostou, mas acabou concordando. Afinal de contas,
estava na hora de seu filho arrumar uma companheira.
Está bom, pode ir, mas tome cuidado com os passarinhos. Tem muito
passarinho que adora comer insetos. Não se esqueça de que você é um
inseto.
O bicho-pau despediu-se da mãe, saiu do quintal da fazenda e começou a andar
pelo chão em direção à floresta. De vez em quando parava, ficava pensando. Em
sua cabeça vinha sempre aquela dúvida que tinha desde de criança:
Eu sou bicho ou eu sou pau?
Devagarinho, começou a subir o tronco de uma árvore com suas pernas
enormes e seu corpo compriiiiiiiiiido. Enquanto subia ia cantando baixinho:
Eu não sei se sou um bicho
Eu não sei se sou um pau
Se sou pau que vira bicho
Ou bicho que vira pau. (MACHADO, 1997, p. 6-7, grifos nossos)
Figura 24. Obra: O dilema do bicho-pau, referente ao trecho acima
104
No âmbito do texto escrito, o trecho acima destaca um dos momentos em que a ciência é
apresentada implicitamente ao leitor mirim, materializando-se como parte da narrativa. A grande
questão da personagem a respeito de sua própria condição, enquanto bicho ou pau, serve de
âncora não apenas para o desenvolvimento da narrativa, mas também para a explicação das
características do referido inseto. Trata-se, conforme mencionado, do mimetismo, fenômeno
que faz um animal ou inseto parecer-se com outro ou confundir-se no meio ambiente. Dessa
forma, ao contrário do que foi visto na dimensão verbal da coleção Gente tem, Bicho também, o
diálogo estabelecido entre as personagens serve para revelar suas peculiaridades as quais, ao
mesmo tempo, também revelam os saberes que envolvem o inseto.
Deste modo, embora não haja a primazia do saber científico, têm-se apenas nestes trechos
quatro informações acerca do bicho-pau
37
: 1) é um inseto grande; 2) tem movimentos lentos; 3)
um de seus predadores é o pássaro; 4) seu processo de camuflagem consiste em ―ficar paradinho
com as pernas da frente esticadas adiante da cabeça escondendo as antenas.‖ (MACHADO, 1997,
p.6). No entanto, tais informações não estão em evidência, o que confirma o procedimento usado
pelo autor: aliar a ciência à constituição dos acontecimentos, cujo enfoque parece incidir nos
aspectos lúdicos e estilísticos do discurso, tal como a intercalação do gênero poema à narrativa.
No que tange à dimensão visual, observa-se que a imagem relaciona-se dialogicamente
com o texto escrito no sentido de reforçar a natureza lúdica da história visto que também não se
propõe à função primeira de transmitir conhecimento, pois, apesar de apresentar traços precisos
do inseto, o que se vê em primeiro plano é a criação da personagem, representada pelo bicho-pau,
manifestando atitudes, expressões e sentimentos humanos, como a alegria demonstrada no rosto
do inseto, por exemplo.
Semelhantemente, em O ovo azul nota-se que a divulgação dos conhecimentos da ciência
é sutilmente apresentada ao leitor criança, figurando por toda a narrativa. Assim, mesclando
ficção e realidade, a história inicia com a fala do narrador apresentando um fato aparentemente
inexplicável que desencadeia diversos acontecimentos os quais, por conseguinte, também
sustentam os saberes veiculados no texto:
37
A obra O dilema do bicho-pau, analisada por Pinto (2007), foi classificada como obra não canônica de divulgação
científica a qual ―teria como centralidade a dimensão subjetiva da existência humana, usando o discurso da ciência
como mola propulsora vibrando em direção a algo que o leitor estaria ávido para ouvir‖ (p.107).
105
Dona Macuca botou um ovo azul e ficou apaixonada por ele. Passava horas e
horas admirando o ovo, a coisa mais bonita que fizera em toda sua vida.
Realmente, era lindo, azul-esverdeado, a casca lisa e brilhante como se fosse
porcelana. (MACHADO, 1998, p.3)
Figura 25. Obra: O ovo azul, referente ao trecho acima
Como se vê, tanto no âmbito do texto verbal quanto do texto visual, a narrativa
aparentemente não deixa transparecer qualquer indício de que a obra tratará de algum saber
advindo da esfera científica. Mas, com o desenrolar da história é possível ver que a presença da
ciência se constrói no enredo cujo foco está nas aves que botam ovos coloridos. Assim, com um
olhar mais atento pode-se notar que no recorte destacado os autores da dimensão verbal e da
dimensão visual fazem menção a uma espécie de ave (macuco) que é capaz de botar ovos azuis, o
que talvez passe despercebido pelo leitor, devido ao fato de a informação estar inserida em um
acontecimento vivido por uma personagem-animal cuja caracterização remete ao fantástico.
Com o desenvolver da narrativa, outras personagens-aves são construídas com vistas a
favorecer a veiculação das descobertas científicas:
se você escolher outra cor, porque azul é o meu e cor-de-rosa de nossa
prima Jaó. Dona Inhambu-Chororó concordou, e Dona Macuca lhe ensinou o
segredo.
Ela se sentou no ninho, fechou os olhos com pensamento positivo, foi aumentando,
aumentando sua força de vontade até que, ploc!, botou um ovo cor de chocolate
No dia seguinte, Dona Macuca recebeu visita de outra prima, Dona Inhambu-
chororó. Ela olhou o ovo azul e pensou:
Que beleza! Eu queria botar um ovo assim.
E, dirigindo-se a Dona Macuca:
Prima, ensine-me o segredo dos ovos coloridos.
106
claro, com tons de violeta. E todas as aves se admiraram do lindo ovo que ela havia
botado. (MACHADO, 1998, p.16-17)
Figura 26. Obra: O ovo azul, referente ao trecho acima
A notícia de que as parentas da Macuca estavam botando ovos coloridos chegou aos
ouvidos de Dona Perdiz. Ela desceu dos campos do alto da serra onde morava, foi
visitar sua Prima Macuca e com ela aprendeu o segredo.
Preste atenção, prima falou-lhe a Macuca. Cuidado para não repetir nenhuma
cor. temos ovo azul, cor-de-rosa e chocolate. Veja se escolhe uma cor bem
diferente.
Deixe isso por minha conta, prima.
Fez um ninho ali mesmo, assentou-se nele e fechou os olhos com pensamento
positivo. Sua força foi aumentando, aumentando até que ploc!, botou um ovo...
vermelho! Foi um alvoroço.
Impossível! disse o bem-te-vi quando soube do acontecido.
Ovo vermelho não existe!
Não existe? Exclamou o João-de-barro , pois vá lá ver. Vermelho cor de vinho.
Lindíssimo! Lindíssimo! falava sem parar a rolinha.
Nunca imaginei ver um ovo como este exclamou a velha saracura.
Fenômeno! Fenômeno! Não cansava de falar o papagaio-do-peito-rocho.
E todas as aves se admiraram com a beleza daquele ovo cor de vinho.
(MACHADO, 1998, p.18-19)
107
Figura 27. Obra: O ovo azul, referente ao trecho acima
Como visto acima, não se trata de uma história de bichos falantes para crianças que
está sendo narrada, mas, nas entrelinhas, o que a ciência tem revelado a respeito das espécies
citadas ao longo do texto. Dessa forma, as explicações científicas para o fenômeno das aves que
botam ovos coloridos são apresentadas em um limite tênue entre a ficção e o real.
A ficção é materializada, verbal e visualmente, pelas personagens aves que povoam a
narrativa, falando, agindo e expressando suas emoções como os humanos, fato que remete o leitor
aos textos encontrados no gênero fábula, no qual os protagonistas da história são animais
personificados.
O real apresenta-se verbalmente materializado na informação acerca das espécies que
botam ovos coloridos, conforme mencionado acima. no âmbito da dimensão visual, os trechos
mostram que o real pode ser observado nas representações imagéticas das espécies mencionadas,
cujos detalhes conservam a precisão das aves encontradas na natureza, sendo possível identificá-
las por meio da legenda explicativa encontrada na contracapa da obra:
Aves ilustradas no livro (por página, da esquerda para direita):
p.3: macuco; p.4-5: papagaio-do-peito roxo, saracura-três-potes, macuco, bem-
te-vi, urubu-rei e gaivota; p.6-7: ararajuba, seriema, macuco, jandaia-verdadeira;
p.8-9: macuco, maritaca e maritaquinha; p.11, casal de macucos; p.13: j e
macuco; p.14-15: jaó, japim, frango-d‘água-azul e pica-pau-rei; p. 16: macuco e
inhambu-chororó; p.17: inhambu-chororó; p.18-19: casal de macucos e
andorinha; p.21: perdiz e saracura-três-potes; p.22-23: perdiz, jaó, macuco,
inhambu-chororó, cada um com seus filhotes. (MACHADO, 1998, contracapa)
108
Vale destacar ainda outra explicação científica materializada na obra, aparecendo,
novamente, subtendida na narrativa fabulosa:
Deslumbrada com a beleza e o sucesso que faziam seus ovos coloridos, Dona
Perdiz, Dona Inhambú-Chororó e Dona Jresolveram imitar Dona Macuca. Não
chocariam seus ovos para que os filhotes não os quebrassem ao nascer. Mas os
maridos não queriam ovos bonitos, queriam filhotes. Por isso, tomaram uma
decisão: sentaram-se nos ninhos e começaram eles mesmos a chocar os ovos.
Depois de 19 dias, nasceram os filhotes, mas todos os ovos se quebraram.
Revoltadas com a destruição de ovos tão bonitos, as quatro esposas disseram: Ah!
Vocês chocaram os ovos, pois então agora cuidem dos filhotes. E foram embora.
Desde então, nas aves da família do macuco, as fêmeas botam ovos coloridos, mas
são os machos que os chocam e cuidam dos filhotes. (MACHADO, 1998, p, 23)
Figura 28. Obra: O ovo azul, referente ao trecho acima
Neste trecho, explica-se que o período de incubação dos ovos dessas aves é de 19 dias e
que ―nas aves da família do macuco, as fêmeas botam ovos coloridos, mas são os machos que os
chocam e cuidam dos filhotes‖, embora tudo isso apareça bastante diluído em um enredo
cativante. Ou seja, as informações entrelaçam-se com as ações das personagens, o que poderia
gerar, no leitor mirim, certa dubiedade em relação ao que é ou não verdadeiro na história. Dessa
forma, orientado por essa possibilidade de resposta futura do leitor, após o término da narrativa, o
autor-escritor antecipa na última página o que é real na obra:
109
O Macuco e seus Parentes na Vida Real
Aves que botam ovos azuis, chocolate, cor-de-rosa e até vermelhos. Será
realidade ou simples ficção, fruto da imaginação do autor? Muitos leitores
provavelmente estão com esta dúvida na cabeça. Pois é a pura verdade. Os
parentes do macuco, que os cientistas incluem na família dos tinamídeos, botam
os ovos mais bonitos do mundo, coloridos e brilhantes, como se fossem polidos
ou esmaltados, parecendo porcelana.
Nessa família estão não só os principais personagens desta história, o macuco, o
jaó, a perdiz e o inhambu-chororó, mas muitas outras aves, como a codorna, o
zabelê, o inhambu-relógio, inhambu-galinha, inhambu-chitã e outros. A maioria
das espécies de tinamídeos vive nas matas, a exemplo do macuco, o jaó e muitos
inhambus, mas alguns preferem os campos abertos, como a perdiz e a codorna.
Andam no chão, onde procuram frutas caídas, coquinhos e insetos para se
alimentar e raramente levantam vôo. São muito perseguidas pelos caçadores,
especialmente o macuco, que é do tamanho de uma galinha grande. Esse fato e a
destruição das matas onde vivem fizeram com que o macuco e alguns de seus
parentes (jaó e codorna-buraqueira) estejam hoje ameaçados de extinção.
O ninho do macuco, como o de seus parentes das matas, é uma simples
depressão no chão, coberta de folhas, onde a fêmea bota os ovos. O período de
incubação é de 19 dias. Fato quase único entre as aves, na família do macuco são
os machos e não as fêmeas que chocam os ovos e cuidam dos filhotes. Na
realidade, toda essa história foi inventada para explicar como isso aconteceu [...].
(MACHADO, 1998, p.24)
Tendo em vista a natureza formadora das obras de Angelo Machado, sugere-se que a
resposta antecipada ao que é real nos textos é um aspecto composicional relevante, na medida em
que isto pode orientar o olhar do leitor criança acerca do acabamento que deve ser dado em
relação aos saberes em pauta.
De maneira análoga, a última obra analisada neste capítulo A viagem de Tamar: a
tartaruga-verde do mar traz as mesmas características destacadas anteriormente. Ou seja,
embora a ênfase também recaia nos aspectos lúdicos e fantásticos da narrativa, é possível
depreender referências a alguns saberes da ciência, tal como observar-se-á mais adiante. No
entanto, conforme discutido, tal obra diferencia-se das demais por refletir e refratar
explicitamente um determinado contexto sócio-histórico, oferecendo, portanto, além da literária e
da científica, a possibilidade analítica da dimensão social. Assim sendo, pode-se sugerir que o
real não materializa-se nos momentos em que a circulação da ciência se faz presente, mas
também pela alusão a uma dada época expressa no livro, ainda que transformada pelo olhar
distanciado e valorativo do autor:
110
Todas as palavras e formas que povoam a linguagem são vozes sociais e
históricas, que lhe dão determinadas significações concretas e que se organizam
no romance em um sistema estilístico harmonioso, expressando a posição sócio-
ideológica diferenciada do autor no seio dos diferentes discursos da sua época.
(BAKHTIN, 1993 [1934-1935], p.106)
Emoldurada por esses aspectos, a divulgação científica corporifica-se tacitamente ao
longo de todo o poema narrativo para explicar as características de vários animais marinhos:
Linda! Toda verdinha,
Lá estava Tamar,
perdida na praia grande,
procurando se encontrar.
Lá do céu a luz da lua,
Refletiu-se sobre o mar,
E Tamar saiu correndo
Para o espelho do luar.
Foi então que um caranguejo,
de repente a quis pegar
e Tamar mais que depressa
se escondeu dentro do mar. (MACHADO, 2004a, p.7)
Figura 29. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, referente ao trecho
acima
111
Foi nadando até o fundo
e voltou pra respirar.
Tantas cores, tantos peixes,
que beleza é o mar! (MACHADO, 2004a, p.9)
Figura 30. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, referente ao trecho
acima
No âmbito do material verbal, pode-se notar que o autor, além de revelar a posição
valorativa acerca da espécie marinha e da topografia descrita, cria a personagem tendo em vista
não apenas a sua caracterização dentro de um contexto ficcional, mas também a veiculação de
informações advindas de pesquisas e observações científicas. Nesse sentido fica fácil perceber
que nas entrelinhas das estrofes acima se tem a explicação de que a tartaruga-verde, ao nascer,
guia-se pelo reflexo da lua para chegar ao mar, que um de seus predadores naturais é o
caranguejo e que a espécie sobe à superfície para respirar. Deste modo, assim como os
acontecimentos vividos pela protagonista, as explicações são transmitidas de forma progressiva
ao longo do poema, como mostra também o excerto abaixo:
Tamar ficou grande e sua fome ficou maior ainda. não gostava dos bichinhos
que as tartaruguinhas comiam. Queria comer plantas, muitas plantas, e o mar
dali não tinha. Mas, desde pequenininha, dentro de sua cabeça havia um mapa
que mostrava o caminho para uma ilha cheia de plantas submarinas. Decidiu
então fazer uma viagem até lá. (MACHADO, 2004a, p.19)
112
Figura 31. Obra: A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, referente ao trecho acima
Como se pode verificar, mais uma vez, a ciência apresenta-se incorporada no enredo:
desde pequenininha, dentro de sua cabeça havia um mapa que mostrava o caminho para uma
ilha cheia de plantas submarinas. Decidiu então fazer uma viagem até ‖. Assim, o leitor vai
sendo envolvido em um universo em que realidade e fantasia coadunam-se.
Na dimensão visual, a ciência aparece igualmente incorporada, ratificando o dito no
poema. Nota-se, por exemplo, que as ilustrações da tartaruga são estilizadas, visto que, no último
recorte, por exemplo, ela parece manifestar alegria ao se lembrar da rota que precisará fazer para
encontrar ―uma ilha cheia de plantas submarinas‖. Mas é importante observar ainda a precisão
contida nos traços do animal, o que é visível na riqueza dos detalhes cujos formatos e cores
encontram correspondência com o real. Dessa forma, o leitor, mesmo que não tenha uma
experiência concreta com as espécies ou com a topografia mencionada, poderá compreender a
sua ligação com o mundo imediato por meio de seu conhecimento prévio.
E é assim, inserida no mundo da poesia, que a ciência e a dimensão social presentes em A
viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar vão sendo verbovisualmente apresentadas, podendo,
em um primeiro momento, até passar despercebidas pelo pequeno leitor, mas bastante evidentes
aos olhos daquele que vê além da história narrada.
113
7.3 Em síntese
A análise empreendida neste capítulo revelou que o diálogo entre a esfera literária e a
esfera científica nas obras O ovo azul, A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar e O dilema
do bicho-pau, do cientista-escritor Angelo Machado, se por meio da supremacia do literário
sobre o científico, a qual é instaurada, entre outros, pela representação artística de um cronotopo
tempo-espaço e pela criação de personagens bichos.
No que tange ao primeiro aspecto, viu-se que, nas obras analisadas, o cronotopo da
natureza, construído verbovisualmente, é um traço importante para a constituição das narrativas
visto que situa o leitor mirim em um tempo-espaço determinado. Além disso, nos três livros
trabalhados, o cronotopo representado não contribui para o desenvolvimento dos
acontecimentos, mas também serve de pano de fundo para os saberes da área de Ciências
Biológicas.
Em relação ao segundo aspecto, depreendeu-se que a ciência aparece integrada na
caracterização das personagens figuradas por animais humanizados e nos acontecimentos da
narrativa. Sabe-se que na literatura infantil o papel dos bichos quase sempre está ligado a uma
situação humana exemplar e a um caráter ético e moral. Contudo, nas referidas obras, a criação
de tais personagens adquirem uma função especial: ajudam a construir um mundo fantástico,
despertam o encantamento e ancoram os conhecimentos científicos veiculados no texto. Dessa
forma, pode-se afirmar que o discurso de divulgação da ciência é refletido e refratado de forma
implícita, visto que não aparece em momentos precisos ou específicos de explicação, mas
atrelado às personagens e aos acontecimentos vividos pelas mesmas.
No que diz respeito à dimensão visual dos recortes, verificou-se que as imagens, na
totalidade, estabelecem uma relação dialógica de concordância/conformidade, visto que ancoram
e reforçam o já dito na dimensão verbal. O foco dessas imagens, diferentemente das obras da
coleção Gente tem, bicho também, incide nas características das personagens, as quais, embora
apresentem traços precisos e realistas, são acabadas por elementos lúdicos. Ou seja, movido pela
novidade, pela originalidade e pela liberdade do fazer artístico, o material visual, assim como o
material verbal, também une o real e o trans-real.
114
Por fim, de forma genérica, a análise constatou que, em relação à realidade do
conhecimento, as obras O ovo azul, A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar e O dilema do
bicho-pau encontram sua superioridade sobre o científico no fato de que o discurso de divulgação
científica, enformado e acabado de modo distinto do das obras da coleção Gente tem, bicho
também, não assumem a função primeira de informar, embora não se possa negar que, nas
entrelinhas, os textos analisados apresentam uma natureza didática, no sentido de veicular,
implicitamente, conhecimento em função da formação do leitor criança.
115
Considerações finais
Conforme visto no breve percurso histórico, a literatura infantil universal nasce como um
produto que buscava auxiliar na educação da criança, servindo de apoio tanto para as escolas
quanto para as famílias, que transmitia regras de boa conduta, valores e padrões que deveriam
ser incorporados pelos pequenos. No Brasil não foi diferente, pois, motivada por questões sociais,
a literatura para crianças adquiriu um caráter cívico e pedagógico (inspirado talvez nos padrões
europeus) que a transformou em um veículo capaz de refletir a grandeza, a modernidade, o
civismo e o patriotismo corrente no país, fato que favoreceu o vínculo entre a literatura infantil e
a prática pedagógica e, por conseguinte, atribuiu-lhe uma função notavelmente utilitária.
Embora este vínculo não tenha sido totalmente desfeito, pode-se dizer que a natureza
utilitária inerente à literatura infantil tem ganhado novos contornos na medida em que se propõe
mais a contribuir para a formação do indivíduo e menos a ditar normas de bom comportamento
ou patriotismo. Com esse discurso, a produção literária para os pequenos tem, na atualidade, se
esforçado para atender as demandas de seu público consumidor, aprimorando, entre outros, suas
técnicas gráficas e, sobretudo, sua temática.
Assim, aliados a uma visualidade sedutora, os textos infantis contemporâneos privilegiam
a reflexão e refração de assuntos pertinentes ao contexto político, cultural, social e científico dos
nossos dias, propiciando, portanto, um constante diálogo entre esta esfera literária e as demais
esferas de atividade. Um bom exemplo disto pôde ser visto no corpus selecionado para esta
pesquisa, em que a ciência é refletida e refratada por procedimentos verbais e visuais, conferindo-
lhe um acabamento inexistente na esfera científica.
Deste modo, concebendo a divulgação científica como uma modalidade de relação
dialógica que pode figurar entre diversas esferas de atividade sob os mais variados gêneros do
discurso, a pesquisa aqui empreendida se propôs a responder a seguinte questão: como se o
diálogo entre a esfera literária infantil e a esfera científica em textos de Angelo Machado?
Com o objetivo de responder a questão acima, observou-se os procedimentos verbais e
visuais alçados pelo autor para pôr em diálogo as referidas esferas, bem como os tipos de relações
dialógicas estabelecidas entre a dimensão verbal e a dimensão visual. Na totalidade do corpus, a
116
análise constatou que este diálogo se por meio de dois movimentos dialógicos: a supremacia
da ciência sobre o literário e, inversamente, a supremacia do literário sobre a ciência.
No que tange ao primeiro movimento, viu-se que a ciência tornou-se mais evidente nas
cinco obras da referida coleção devido ao uso de procedimentos como os esquemas
ilustrativos, a precisão de traços presente nas representações imagéticas e o emprego do diálogo a
serviço da ciência, propiciando um elevado grau de detalhamento e descrição dos conhecimentos
sobre anatomia comparada.
a supremacia do literário sobre o científico deu-se pela aplicação de procedimentos
ficcionais como a criação de um tempo-espaço determinado e a criação de personagens, que,
embora também estejam presentes em obras da coleção Gente tem, bicho também, em A viagem
de Tamar: a tartaruga-verde do mar, O dilema do bicho-pau e O ovo azul, ganham configurações
literárias mais bem acabadas.
Analisando cada um desses aspectos separadamente, constatou-se que, nas obras que
compõem a coleção sobre anatomia, os esquemas ilustrativos, enquanto procedimento da
dimensão visual, procuram fornecer uma representação concreta do conhecimento já veiculado na
dimensão verbal, cumprindo uma função descritiva e informativa. Assim, o que se vê nos
esquemas selecionados para a análise é a construção conjunta de um discurso verbal e visual
notavelmente explicativo e didático que se transforma em um acontecimento cognitivo
determinado a divulgar os saberes da ciência.
A precisão de traços, comumente encontrada nas ilustrações para fins científicos, é um
procedimento recorrente nas imagens de todas as obras do corpus. No entanto, conforme
mencionado acima, é nas obras da coleção Gente tem, bicho também que esse aspecto mostra-se
mais representativo visto que, cumprindo principalmente uma função descritiva, as produções
imagéticas, explicitamente compromissadas com a clareza e o rigor, não aludem ao universo da
fantasia, ou seja, estão voltadas para a verdade do conhecimento científico, ratificando o dito
na dimensão verbal.
No que tange ao diálogo a serviço da ciência, constatou-se que este é uma técnica
discursiva bastante presente no corpus, embora se manifeste também de modo peculiar nas obras
da mesma coleção no sentido de que nesta o diálogo entre as personagens funciona não apenas
como uma estratégia de aproximação ao leitor, mas também como um método dialógico que
facilita a circulação direta da ciência ao longo dos textos.
117
Assim sendo, com uma estrutura composicional fundamentada no par dialógico pergunta-
resposta, considerou-se que nas obras Língua, Nariz, Garganta, Olho e Dente os conhecimentos
científicos a respeito da anatomia humana e animal são transmitidos ao pequeno leitor em um
movimento semelhante à acrise, técnica pertencente ao gênero diálogo socrático, que tem
como principal método provocar a palavra por meio da palavra, construindo para os textos um
efeito de verdade e contribuindo para remeter o pequeno leitor para o universo do saber. Assim,
viu-se na análise dos recortes que a personagem Alice, por meio da interrogação, suscita os
questionamentos que conduzem à inserção do conhecimento, transmitido pelas elucidações do
sábio avô, atribuindo ao diálogo uma função explicativa e didática, a qual é ratificada e
complementada na dimensão visual, em que as representações imagéticas relacionam-se ao saber
em pauta.
Mostrando-se mais representativos nas obras da coleção aqui trabalhadas, concluiu-se que
os três procedimentos discutidos acima promovem a supremacia da ciência sobre o literário no
sentido de que seus efeitos tornam explícita e enfática a veiculação de conhecimentos científicos,
aproximando-se mais de um acontecimento cognitivo, para usar os termos de Bakhtin.
Em direção oposta seguem as obras do segmento ecológico A viagem de Tamar: a
tartaruga-verde do mar, O dilema do bicho-pau e O ovo azul, cuja análise constatou que os
procedimentos empregados, tanto pelo autor da dimensão verbal quanto pelo da dimensão visual,
propiciam a supremacia do literário sobre o científico, dada pela criação de um tempo-espaço
circunscrito na natureza e de personagens (bichos humanizados e representantes das espécies
tratadas no texto), os quais ganham expressividade em função de uma situação aparentemente
fictícia que remete ao lúdico, ao fantástico. Assim, emoldurada por estes procedimentos, a
veiculação da ciência aparece embutida nas sequências narrativas, sem incorrer a explicações
minuciosas. No entanto, considera-se que a criação do cronotopo da natureza e a criação de
personagens-bichos também tenham sido escolhidas para sublinhar um universo condizente com
os saberes veiculados nas obras, tendo, por conseguinte, uma finalidade implicitamente
formadora no sentido de provocar a reflexão do pequeno leitor acerca de assuntos relacionados a
biologia e ecologia. É interessante observar que a dimensão visual dessas obras apresenta, ao
mesmo tempo, duas propostas: uma realista e outra ficcional. A realista, de função descritiva,
recai na precisão e no rigor presentes nas imagens produzidas por Raquel Lourenço, buscando
representar, de forma mais realista possível, a natureza e as espécies descritas nos textos. A
118
ficcional, de função estética, é vista na personificação das personagens-bichos, as quais, nos
moldes das protagonistas do gênero fábula, possuem expressões faciais e atitudes humanas,
remetendo o leitor ao universo do imaginário.
Dessa forma, pode-se inferir que estes procedimentos favoreceram a inserção da ciência
de forma menos precisa nas obras do segmento ecológico, já que o conhecimento não aparece em
trechos ou imagens puramente explicativas, mas incorporado na totalidade da narrativa.
No que diz respeito às relações dialógicas estabelecidas entre o material verbal e o
material visual das obras, a análise pôde evidenciar que, quando o científico se sobrepõe ao
literário, predominam dois tipos de dialogismo: relação dialógica de complementação como
reforço explicativo e didático e relação dialógica de dependência semântica. Por outro lado,
quando o literário se sobrepõe ao científico, constatou-se que as imagens estabelecem com o
texto escrito a relação dialógica de conformidade, visto que também mesclam o real e a ficção.
O primeiro tipo apresentou-se nos momentos em que a dimensão visual uniu-se à
dimensão verbal com vistas a exercer um diálogo de complementação no sentido de não apenas
facilitar a compreensão do já dito, mas também reforçar e explicar em outra linguagem os saberes
revelados ao pequeno leitor.
O outro tipo, relação dialógica de dependência, mostrou-se recorrente nos momentos em
que as imagens, considerando o público alvo das obras, não apresentavam autonomia semântica,
sendo, portanto, dependentes do texto escrito para produzir sentido. Vale lembrar que neste caso,
levando em conta a complexidade dos saberes em pauta, o verbal também depende, de certa
forma, da imagem a ele vinculado para eliminar eventuais abstrações.
A relação dialógica de conformidade entre o material visual e o material verbal presente
em O dilema do bicho-pau, A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, e O ovo azul
evidenciou que ambos parecem orientados para o mesmo propósito: externar saberes da esfera
científica aliando-os a uma narrativa ficcional.
De tudo isso, pode-se inferir que as obras do cientista e escritor Angelo Machado,
entendidas como produções culturais constituídas por elementos verbais, visuais e verbovisuais
cujo objetivo contempla não apenas o desenvolvimento cultural, ético e estético da criança, mas
também a formação de leitores mais conscientes acerca dos processos, estudos, pesquisas e
descobertas do fazer científico, apresentam uma proposta de divulgação científica como literatura
119
que oscila de explícita e circunscrita a momentos precisos das obras a implícita e integrada aos
aspectos literários.
Considera-se que a ciência, refletida e refratada em textos infantis de Angelo Machado,
ganha acabamentos distintos devido à posição externa ocupada pelos autores (escritor e
ilustrador) a qual, submetida às intencionalidades dos mesmos, não se mantém de forma simétrica
em todas as obras, visto que na coleção Gente tem, bicho também o acabamento dado aos saberes
da ciência diferencia-se dos das obras A viagem de Tamar: a tartaruga-verde do mar, O dilema
do bicho-pau e O ovo azul no sentido de que naquelas os saberes da ciência transformam-se em
um acontecimento cognitivo e nessas transformam-se em elementos da criação literária.
120
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