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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM
MESTRADO EM ENFERMAGEM
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: FILOSOFIA, SAÚDE E SOCIEDADEU
ANA MARIA ESPÍNDOLA KOERICH
HOSPITAL COLÔNIA SANT’ANA:
REMINISCÊNCIAS DOS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM (1951 - 1971)
2008
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K78h Koerich, Ana Maria Espíndola
Hospital Colônia Sant’Ana: reminiscências dos trabalhadores de enfermagem
(1951- 1971) / Ana Maria Espíndola Koerich, orientador Miriam Süsskind
Borenstein. – Florianópolis, 2008.
107 f. : il.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina. Centro
de Ciências da Saúde. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem - Opção
Filosofia, Saúde e Sociedade.
Inclui bibliografia.
1. Enfermagem - trabalhadores. 2. Enfermagem - Santa Catarina - Historia.
3. Hospital Colônia Sant’Ana-São José (SC). I. Borenstein, Miriam Süsskind.
II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em
Enfermagem. III. Título. CDU 616-083(816.4)
Catalogação na fonte por: Vera Ingrid Hobold Sovernigo CRB-14/009
ANA MARIA ESPÍNDOLA KOERICH
HOSPITAL COLÔNIA SANT’ANA:
REMINISCÊNCIAS DOS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM (1951 - 1971)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós
Graduação em Enfermagem, da Universidade
Federal de Santa Catarina, como requisito para
obtenção do Título de Mestre em Enfermagem -
Área de Concentração: Filosofia, Saúde e
Sociedade.
Orientadora: Dra. Miriam Süsskind Borenstein
Linha de Pesquisa: História em Enfermagem e
Saúde
2008
Dedicatória
A minha mãe Jucely e ao meu pai Antonio (in memorian)
Ao meu esposo Renato
Aos meus filhos, Fabio e Vinicius
Aos aposentados, razão deste trabalho. Sem vocês nada seria
possível...
AGRADECIMENTOS
Nos agradecimentos recordo as pessoas que fazem parte da minha memória,
presentes e ausentes na minha vida, com suas histórias e ensinamentos, que direta
ou indiretamente foram indispensáveis para o desenvolvimento e conclusão deste
trabalho.
Agradeço a Deus por estar sempre ao meu lado acompanhando e guiando
meu caminho
Ao Renato, esposo e companheiro, pela compreensão nas minhas ausências
e pelo apoio em todos os momentos. A ele “uma página de agradecimentos” não
seria suficiente. Te amo!
Aos meus filhos amados para que este trabalho sirva de exemplo na
caminhada que iniciam. Amo vocês.
A minha orientadora Dra Miriam S. Borenstein, que me “adotou” e me
oportunizou esta maravilhosa experiência. Agradeço-lhe pela confiança que
depositou em mim, pelo incentivo durante a realização deste trabalho, pelas
inegáveis contribuições e críticas pontuais.
Aos membros da banca examinadora, Dra. Miriam S. Borenstein, Drª. Mª
Itayra Padilha, Drª. Mariestela Stamm e DDa. Eliani Costa, que com competência e
sabedoria fizeram valiosas contribuições para a concretização desta pesquisa.
A amiga Eliani Costa que me levou para o GEHCES, me estimulou a voltar
para a academia, compartilhou comigo conquistas, decepções, dificuldades,
alegrias, me orientou e torceu por mim.
Aos docentes do programa de Pós-Graduação em Enfermagem, pela
dedicação com que compartilharam seus saberes.
Aos funcionários do programa de Pós-Graduação em Enfermagem da
Universidade Federal de Santa Catarina e em especial à Claudia Crespi Garcia, pela
disponibilidade e atenção em resolver as questões acadêmicas.
Aos colegas de mestrado, pela convivência construtiva que tivemos, pelo
carinho e companheirismo.
Aos membros do GEHCES, pela amizade e ajuda mútua.
Aos enfermeiros do IPq/SC, pela consideração, apoio e compreensão
inclusive nas trocas de plantão.
A gerente de enfermagem Vera Lúcia Deomário do IP/SC pela compreensão,
apoio e liberação nas horas necessárias.
Aos funcionários do RH do IPq/SC, pela gentileza em prestar informações
indispensáveis para esta pesquisa
As minhas primas Myriam e Jaque, pelo auxílio na transcrição das entrevistas,
pela cumplicidade e amizade.
Ao Daniel Pereira Xavier de Mendonça pela competência e dedicação na
revisão de português.
A Vera Ingrid Hobold Sovernigo, bibliotecária, pela formatação das
referências, além do apoio na fase de acabamento do trabalho.
KOERICH, Ana Maria Espíndola. Hospital Colônia Sant’ana: reminiscências dos
trabalhadores de enfermagem (1951 a 1971). 2008, 107 p. Dissertação (Mestrado
em Filosofia, Saúde e Sociedade) Pós-Graduação em Enfermagem/Universidade
Federal de Santa Catarina, 2008.
Orientador: Dra. Miriam Süsskind Borenstein
Linha de Pesquisa: História em Enfermagem e Saúde
RESUMO
Trata-se de uma pesquisa qualitativa com abordagem sócio-histórica, cujo
objetivo geral foi historicizar o cotidiano dos trabalhadores de enfermagem no
Hospital Colônia Sant’Ana (HCS) de São José/Santa Catarina, no período de 1951
a 1971, através de suas reminiscências. O marco inicial (1951), teve por base os
dez anos de existência da instituição e os fatos científicos, políticos, econômicos e
sociais que contribuíram para o aumento da demanda de pacientes psiquiátricos à
instituição. O marco final (1971), foi delimitado com base na mudança administrativa
do Hospital, que passou a ser administrado pela Fundação Hospitalar de Santa
Catarina (FHSC) e a conseqüente entrada do primeiro enfermeiro, significando a
passagem da enfermagem laica para a profissional. Para a coleta de dados foram
realizadas entrevistas semi-estruturadas com seis trabalhadores aposentados que
exerceram suas atividades na enfermagem do HCS, no período historicizado,
utilizando –se do método de História Oral (H.O). Foram ainda utilizadas outras fontes
documentais como: atas, relatórios, prontuários, fotografias, dissertações, teses,
entre outros. A memória foi utilizada como Referencial Teórico, servindo de eixo
norteador para a realização da pesquisa. O estudo respeitou as Diretrizes e Normas
Regulamentadoras da Pesquisa envolvendo Seres Humanos, recomendadas pela
Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, e foi aprovada pelo Comitê de
Ética em Pesquisa da UFSC, com o Parecer nº 182/08. Para análise e interpretação
dos dados, utilizou-se da análise de conteúdo temática, preconizados por Bardin
(2004) e Minayo (2004), do quais surgiram seis categorias: 1. Os aspectos relativos
ao cenário da instituição; 2. A política clientelista; 3. A utilização da loucura como
fonte de lucro e trabalho; 4. Os saberes e fazeres dos trabalhadores; 5. As relações
que se estabeleceram entre os profissionais, e finalmente, 6. Os fatos que
determinaram a passagem da enfermagem laica para a profissional. A pesquisa
proporcionou historicizar as vivências dos trabalhadores de enfermagem no período
estudado, os seus sentimentos e emoções, bem como, compreender os diversos
aspectos do processo de trabalho individual e coletivo destes trabalhadores de
enfermagem. Foi possível ainda, desvelar como se caracterizou a enfermagem laica
de um hospital colônia, e como se deu a construção dos saberes e fazeres
profissionais da época. Os relatos dos entrevistados foram carregados de emoções,
e se constituíram em importantes fontes documentais para acervo e conhecimento
da enfermagem catarinense e brasileira.
Palavras-chave: Enfermagem, Enfermagem Psiquiátrica,. História. Hospital
Psiquiátrico, Santa Catarina.
KOERICH, Ana Maria Espíndola. Colônia Sant’ana Hospital: nursing worker
reminiscences (1951 to 1971). 2008, 107 p. Thesis (Master’s in Philosophy, Health,
and Society) Nursing Graduate Program / Federal University of Santa Catarina,
Brazil, 2008.
ABSTRACT
This is a qualitative study with a social-historic approach, whose overall
objective was to historicize the day-to-day working experience of nursing workers in
the Colônia Sant’Ana Hospital in São José, Santa Catarina, Brazil from 1951 to 1971,
narrating their reminiscences. The initial date (1951) was based upon the then ten-
year existence of the institution and the scientific, political, economic, and social facts
which contributed to an increased psychiatric demand from the institution. The end
date (1971) was outlined based upon the administrative change in the hospital. From
then on, the hospital was managed by the Santa Catarina Hospital Foundation
(Fundação Hospitalar de Santa Catarina) and the consequent entrance of the first
registered nurse, signifying an official passage from the laic nurse to the professional
nurse. The data was collected through semi-structured interviews with six retired
workers who exercised their nursing activities in the HCS during the period studied,
via the method of Oral History (H.O.). Other documental sources were used as well,
such as: acts, reports, patient charts, photographs, theses, dissertations, and others.
Memory was used as a Theoretical Reference, serving as a guide for completing the
study. This study respected the Regulating Directives and Norms for Research
involving Humans recommended by Brazilian Resolution nº 196/96. It was also
approved by the Ethics in Research Committee at UFSC, under authorization nº
182/08. Thematic content analysis was used to analyze and interpret the data, as
outlined by Bardin (2004) and Minayo (2004). Six categories arose: 1. The aspects
related to the institutional scenario; 2. Client policies; 3. The utilization of madness
as a source of profit and work; 4. Workers’ knowledge and tasks; 5. The relationships
established among professionals, and finally, 6. The facts which determined the
passage of nursing from laic to professional. This study made it possible to historicize
the living experience, the feelings, and emotions of the nursing workers during the
period examined, as well as to better comprehend the diverse aspects of the
individual and collective work processes of these nursing workers. It also made it
possible to perceive how laic nursing was characterized in a Colonial Hospital, as
well as how professional and personal knowledge and tasks was constructed during
those times. The research subjects’ reports were heavily emotional, and were
constituted in important documental sources for state and national nursing records
keeping and knowledge.
Keywords: Nursing. History. Psychiatric Nursing. History. Psychiatric Hospital.
Santa Catarina.
KOERICH, Ana Maria Espíndola. Hospital Colônia Sant’ana: reminiscencias de los
trabajadores de enfermería (1951 a 1971). 2008, 107 p. Dissertación (Maestria en
Filosofia, Salud y Sociedad) Pós-Graduação em Enfermagem/Universidade Federal
de Santa Catarina, 2008.
RESUMEN
Se trata de una investigación cualitativa con abordaje socio-histórica, cuyo
objetivo general fue historiar el cotidiano de los trabajadores de enfermería en el
Hospital Colônia Sant’Ana (HCS) de São José/Santa Catarina, en el período de
1951 a 1971, a través de sus reminiscencias. El marco inicial (1951), tuvo como
base los diez años de existencia de la institución y los hechos científicos, políticos,
económicos y sociales que contribuyeron para el aumento de la demanda de
pacientes psiquiátricos a la institución. El marco final (1971), fue delimitado con base
en la mudanza administrativa del Hospital, que paso a ser administrado por la
Fundación Hospitalaria de Santa Catarina (FHSC) y la consecuente entrada del
primer enfermero, significando el pasaje de la enfermería laica para la profesional.
Para la recolección de información fueron realizadas entrevistas semiestructuradas
con seis trabajadores jubilados que ejercieron sus actividades en la enfermería del
HCS, en el período historiado, utilizando el método de Historia Oral (H.O). Fueron
además utilizadas otras fuentes documentales como: actas, informes, historias
clínicas, fotografías, disertaciones, tesis, entre otros. La memoria fue utilizada como
Referencial Teórico, sirviendo de eje norteador para la realización de la
investigación. El estudio respetó las Directrices y Normas Reglamentarias de la
Investigación con Seres Humanos, recomendadas por la Resolución nº 196/96 del
Consejo Nacional de Salud, y fue aprobada pelo Comité de Ética en Investigación de
la UFSC, con el Parecer nº 182/08. Para análisis e interpretación de los datos, se
utilizó el análisis de contenido temático, preconizados por Bardin (2004) y Minayo
(2004), de lo cual surgieron seis categorías: 1. Los aspectos relativos al escenario
de la institución; 2. La política clientelista; 3. La utilización de la locura como fuente
de lucro y trabajo; 4. Los saberes y el hacer de los trabajadores; 5. Las relaciones
que se establecieron entre los profesionales, y finalmente, 6. Los hechos que
determinaron el paso de la enfermería laica para a profesional. La investigación
permitió historiar las vivencias de los trabajadores de enfermería no período
estudiado, sus sentimientos y emociones, así como, comprender los diversos
aspectos del proceso de trabajo individual y colectivo de estos trabajadores de
Enfermería. Fue posible además, develar como se caracterizó la enfermería laica de
un hospital psiquiátrico, y como se dio la construcción de los saberes y hacer
profesionales de la época. Los relatos de los entrevistados fueron cargados de
emociones, y se constituyeron en importantes fuentes documentales para el acervo
y conocimiento de la Enfermería catarinense y brasilera. .
Palabras-clave: Enfermería, Enfermería Psiquiátrica, Historia. Hospital Psiquiátrico,
Santa Catarina.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Vista parcial do HCS em 1945 ..................................................................48
Figura 2: Vista parcial da capela do HCS em 1949..................................................48
Figura 3: Inauguração do HCS em 1941..................................................................49
Figura 4: Jornal A GAZETA de 1941........................................................................49
Figura 5: Área externa de pavilhões (enfermarias) do HCS em 1941......................50
Figura 6: Entrada principal do HCS em 1941...........................................................52
Figura 7: Sombrinha masculina do HCS em 1965. ..................................................53
Figura 8: Refeitório dos funcionários do HCS em 1941. ..........................................53
Figura 9: Enfermaria com beliches no HCS em 1969. .............................................54
Figura 10: Casa do diretor, administrador, religiosas, moças e trabalhadores do HCS
em 1942. ...................................................................................................................56
Figura 11: Vigilantes do HCS em 1962. ...................................................................59
Figura 12: Irmãs da Divina Providência e trabalhadores do HCS em 1958. ............65
Figura 13: Aparelho de eletroconvulsoterapia do HCS em 1950..............................67
Figura 14: Banheiras do HCS em 1955....................................................................74
Figura 15: Enfermeiros, guardas e vigilantes do HCS em 1941...............................77
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS ................................................................................................ 09
1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................11
2 REVISÃO DE LITERATURA: UMA BREVE HISTÓRIA SOBRE A PSIQUIATRIA
E A ENFERMAGEM PSIQUIÁTRICA........................................................................19
2.1 A PSIQUIATRIA NO MUNDO .............................................................................19
2.2 A PSIQUIATRIA NO BRASIL..............................................................................20
2.3 A PSIQUIATRIA EM SANTA CATARINA NO SÉCULO XX................................21
2.4 A ENFERMAGEM PSIQUIÁTRICA NO HOSPITAL COLÔNIA SANT’ANA DE
1951 A 1971..............................................................................................................26
3 MARCO DE REFERÊNCIA: MEMÓRIA ...............................................................31
3.1 CONCEITOS DE MEMÓRIA...............................................................................32
3.2 MEMÓRIA E HISTÓRIA......................................................................................34
4 METODOLOGIA ....................................................................................................38
4.1 A PESQUISA HISTÓRICA..................................................................................38
4.2 SUJEITOS DA PESQUISA..................................................................................38
4.3 LOCAL DA PESQUISA .......................................................................................40
4.4 COLETA DE DADOS ..........................................................................................41
4.5 TÉCNICA DE COLETA DE DADOS: A HISTÓRIA ORAL...................................41
4.5.1 A entrevista.....................................................................................................43
4.6 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS....................................................45
4.7 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS...............................................................................45
5 REMINISCÊNCIAS DA ENFERMAGEM PRÉ-PROFISSIONAL NO HOSPITAL
COLÔNIA SANT’ANA ..............................................................................................47
5.1 O CENÁRIO........................................................................................................47
5.2 A POLÍTICA CLIENTELISTA..............................................................................56
5.3 A LOUCURA COMO FONTE DE LUCRO E TRABALHO...................................62
5.4 OS SABERES E FAZERES DOS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM.......64
5. 4.1 O ingresso e aprendizado dos trabalhadores de enfermagem .................65
5.4.2 As atividades dos trabalhadores de enfermagem.......................................69
5.5 AS CONDIÇÕES DE TRABALHO......................................................................76
5.6 AS RELAÇÕES ENTRE OS PROFISSIONAIS..................................................81
5.7 A PASSAGEM DA ENFERMAGEM LAICA PARA A PROFISSIONAL ...............84
6 REFLEXÕES SOBRE O VIVIDO...........................................................................88
REFERÊNCIAS.........................................................................................................93
APÊNDICES ...........................................................................................................100
ANEXOS.................................................................................................................104
11
1 INTRODUÇÃO
Foucault (2004), em sua obra intitulada A história da loucura na Idade
Clássica, trata profundamente da concepção da história e do discurso sobre a
loucura. Faz uma forte crítica à forma como a sociedade ocidental do século XIX, até
meados do século XX, se relacionou com a insanidade. O autor contesta o
internamento como a única solução encontrada para a sociedade lidar com a loucura
e, ainda, o domínio exercido pelas concepções médicas em seu tratamento. Refere
que ao final da Idade Média, por volta do século XV, com o desaparecimento da
lepra, a loucura passou a ser confinada. Assim, aquele vazio deixado pelos leprosos
foi ocupado pelos loucos.
Entre os séculos XV e XVIII os países europeus passaram por profundas
transformações sociais, econômicas e políticas, com significativas repercussões no
cotidiano individual e coletivo, bem como nas relações estabelecidas entre os
membros das cidades. A loucura passou a ser objeto de intervenção da medicina.
(FOUCAULT, 2004).
Philippe Pinel (1745-1826), médico francês, foi considerado pai da
psiquiatria, por ter sido responsável pela organização do primeiro hospital
psiquiátrico moderno e do primeiro livro de psiquiatria dos tempos atuais. Foi
indicado para reformar o Hospital Bicetrê de Paris, onde teria realizado o feito
histórico de desacorrentar os alienados, iniciando as transformações dentro da
psiquiatria, fazendo dos albergues filantrópicos instituições médicas com a estratégia
de isolamento, organização do espaço asilar e constituição de uma relação
terapêutica baseada na autoridade. (AMARANTE, 2003).
Esse modelo instituído por Pinel reproduziu-se em toda a Europa, assim
como no Brasil, após trezentos anos de seu descobrimento. No início do século XIX,
em 1808, a vinda da Família Real para o Brasil impulsionou o desenvolvimento
científico, principalmente da medicina. O país apresentava necessidades urgentes
de mudanças estruturais para equipar as cidades, controlar a natureza, sanear o
meio ambiente e controlar as epidemias. (GEOVANINI et al., 2005).
Nesse contexto, surge o Hospital Pedro II, inaugurado em 1852, na cidade
do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Essa foi a primeira instituição oficialmente
criada no país para abrigar e tratar o doente mental. Foi construída com a mesma
12
concepção de enclausuramento do louco e afastamento dos “diferentes” da
sociedade, de acordo com modelo de Pinel. (DESVIAT, 1999).
Na primeira metade do século XX, esse modelo também se multiplicou em
vários Estados brasileiros. Em Santa Catarina, o Hospital Colônia Sant’Ana (HCS)
1
foi inaugurado em 1941, seguindo a política eugenista
2
do governo de Getúlio
Vargas
3
e na perspectiva de que sua construção iria “resolver o problema da loucura
no Estado”. (MELO, 2004, p. 23).
Desde então, o HCS, por mais de meio século, assumiu integralmente a
assistência psiquiátrica no Estado. Essa realidade começou a se modificar somente
na metade dos anos 90, em razão dos reflexos da nova política de saúde mental,
advinda do movimento da Reforma Psiquiátrica no país.
Muito se tem escrito sobre a história da psiquiatria no mundo, no Brasil e em
Santa Catarina. Em nível nacional, destacam-se autores como Kirschbaum (1997),
Resende (2001), Amarante (2003), Costa (2007), que narraram a história da
psiquiatria, a criação dos manicômios e a evolução da assistência psiquiátrica em
vários Estados.
No contexto catarinense, a história tem sido documentada por
pesquisadores vinculados a instituições de saúde e universidades. Ao conhecer
algumas dessas obras, pude perceber o quanto a história do HCS se assemelha à
das demais instituições psiquiátricas brasileiras.
Percebi que, embora os profissionais tenham sido inseridos na assistência
psiquiátrica com certas semelhanças, possuem especificidades em cada uma das
instituições. Foram essas leituras e outras informações oficiais e não-oficiais que
afloraram vários questionamentos e o meu desejo de conhecer o contexto histórico
1
Nos arquivos da instituição foram encontrados documentos com o nome do hospital escrito de duas
formas: Santana e Sant’Ana. Neste estudo a grafia adotada será Sant’Ana. (NOTA DA AUTORA).
2
A questão do cuidado eugênico da raça brasileira foi introduzida no Brasil de início pelos
intelectuais, e em seguida pelos médicos. Eugenia é um termo inventado pelo fisiologista Francis
Galton (1822-1911), que a definiu como o estudo dos fatores socialmente controláveis que podem
elevar ou rebaixar as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente O tema é
bastante controverso, particularmente após ter sido parte fundamental da ideologia de pureza racial
nazista, a qual culminou no Holocausto. Em 1931 foi criado no Brasil o Comitê Central de Eugenismo,
presidido por Renato Kehl e Belisário Penna. Propunha o fim da emigração de não-brancos. O
movimento eugênico brasileiro é bastante heterogêneo, mas vale destacar sua atuação junto à saúde
pública e ao saneamento, bem como à psiquiatria e à “higiene mental” ao longo das décadas de 1920
e 1930, o que permite verificar algumas das principais questões nas quais a questão urbana se
relaciona com o pensamento eugênico. (COSTA, 2007, p. 49-50).
3
Getúlio Dornelles Vargas (19/4/1882 - 24/8/1954) foi o presidente que mais tempo governou o Brasil,
durante dois mandatos, entre os anos de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954.
13
do HCS, por um viés ainda não explorado.
Assim, surgiu a ideia de realizar uma pesquisa histórica tendo como sujeitos
do estudo as pessoas que trabalharam na instituição após 10 anos de sua criação.
Após 12 anos de trabalho como enfermeira do Centro de Saúde do Bairro
Colônia Santana, tive a opção de transferir meu vínculo para o Instituto de
Psiquiatria do Estado de Santa Catarina (IPq-SC), antigo HCS
4
, em fevereiro de
2005. Tendo o bairro Colônia Santana como local de moradia e de trabalho,
naturalmente mantinha contato frequente com as pessoas que trabalhavam no HCS,
assim como com outras que já haviam se aposentado e que também residiam
naquela comunidade.
Conversar com os aposentados era o que mais me encantava. Estes
exerceram a enfermagem numa época em que a atividade ainda não era
profissionalizada, isto é, não era exigida nenhuma formação específica para sua
prática. Eram trabalhadores
5
de uma atividade complexa, porém sem formação
prévia.
Os contatos casuais com essas pessoas proporcionavam conversas
cujo tema era o trabalho que haviam desenvolvido na instituição. Estas deixavam
transparecer a necessidade de narrar suas lembranças. Durante os diálogos,
percebiam-se em seus semblantes expressões de alegria e tristeza à medida que
relatavam os vínculos pessoais e profissionais estabelecidos, uns duradouros e
outros que ficaram somente em suas lembranças. Situações deprimentes, curiosas e
algumas até hilariantes. Quando falavam do passado, expressavam com a voz
embargada de emoção, o sentimento de saudade, despertando nesta que os ouvia o
desejo de narrar suas histórias.
A maioria dessas pessoas tinha pais, tios e primos que também já haviam
trabalhado no HCS. Grande parte dos moradores da comunidade Colônia Santana
trabalha ou já trabalhou no hospital, uma vez que alguns vieram para o bairro com
essa finalidade. Essa foi a primeira de minhas curiosidades, mas outras foram
surgindo. Passei a me questionar também: como e por que essas pessoas
começaram a trabalhar na psiquiatria? Por que haviam procurado este emprego?
4
Em janeiro de 1995, o HCS passou por mudanças administrativas. Foi descredenciado pelo
Ministério da Saúde por sete dias, surgindo em seu lugar o Instituto de Psiquiatria do Estado de Santa
Catarina (IPq-SC).
5
Trabalhador de enfermagem é compreendido neste estudo como os enfermeiros práticos, guardas e
vigilantes. (NOTA DA AUTORA).
14
Qual era a formação e o perfil dessas pessoas? Por que foram trabalhar na
enfermagem? Que práticas eram exercidas? Como eram as relações entre os
trabalhadores que lá atuavam? Como se davam as relações entre os trabalhadores
e os pacientes? Como se caracterizavam as condições da jornada de trabalho?
Como era a realidade dos pacientes? Como esses trabalhadores percebiam os
pacientes?
Também percebi nas conversas informais que essas pessoas que haviam
trabalhado no antigo HCS não tiveram nenhuma formação específica para atuarem
em enfermagem, muito menos em psiquiatria. Começaram a trabalhar no referido
hospital ainda muito jovens, desconhecedores do processo saúde/doença e
normalidade/insanidade.
Autores como Costa (2002, p. 140), quando se referem à formação dos
trabalhadores de nível médio desse hospital, registram que:
boa parte dessas pessoas recebeu como herança e única opção, a
possibilidade de trabalhar em psiquiatria. Vivem a longo tempo perto
do hospital, numa comunidade que oferece poucas possibilidades de
outros empregos, se acostumaram a conviver com a comunidade de
pacientes, misturando um pouco da cultura hospitalar com a familiar.
São filhos, irmãos, primos ou sobrinhos de trabalhadores que já
trabalharam ou ainda trabalham no hospital e se acostumaram a
fazer o que sempre foi feito acriticamente, sem pensar na
possibilidade de “fazer diferente”.
À medida que me aprofundava nas questões relativas à história dos
trabalhadores de enfermagem do antigo HCS, mais aguçava minha curiosidade. Por
esse motivo, ao ser convidada a participar do Grupo de Estudos de História do
Conhecimento de Enfermagem e Saúde (GEHCES)
6
vinculado ao Programa de Pós-
Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),
resolvi ingressar no grupo com a finalidade de aprofundar meus conhecimentos.
Durante dois anos, participei das reuniões científicas do GEHCES e me
integrei aos seus projetos de pesquisa. Em 2007, após o processo seletivo, ingressei
no Curso de Mestrado em Enfermagem (UFSC) apresentando como proposta um
6
O objetivo geral do GEHCES é desenvolver estudos que tratem da retrospectiva e perspectiva da
enfermagem no cenário político, cultural, educacional, social nacional e internacional. As sub-linhas
de pesquisa são: identidade profissional; práticas realizadas pelos profissionais; modos de
organização da profissão; relações de poder que se estabeleceram entre os profissionais da
enfermagem com os demais membros da equipe de saúde; Educação de enfermagem na perspectiva
histórica. (PADILHA; BORENSTEIN, 2007).
15
projeto de pesquisa histórica sob o HCS: Memória dos trabalhadores de
enfermagem, vinculado ao projeto “Enfermagem em Santa Catarina de 1940 a 2000,
60 anos de história
7
”.
Percebi na ocasião que minhas indagações poderiam se constituir em um
tema original e relevante, pois pouco se sabe sobre a inserção e trajetória dos
trabalhadores de enfermagem naquela instituição, bem como sobre as práticas
realizadas no cotidiano do trabalho da enfermagem.
Assim, dando continuidade a este projeto e com o intuito de responder aos
meus questionamentos, apresento como questão norteadora desta pesquisa: como
era o cotidiano dos trabalhadores de enfermagem no HCS, no período de 1951 a
1971, a partir de suas reminiscências?
O período escolhido como corte inicial para este estudo (1951) está
fundamentado principalmente nos dez anos da existência do HCS, e nos fatos
científicos, políticos, econômicos e sociais acontecidos paralelamente.
Vários documentos e estudos evidenciam a percepção dos profissionais de
saúde mental da década de 50, que apontam para a ineficiência do modelo
instituído.
Em um relatório encaminhado ao governo do Estado em 1951, o Dr. Antonio
Santaella, diretor do HCS na época, destacava o crescente aumento do número de
doentes mentais no Estado encaminhados para internação (SANTAELLA, 1951).
Serrano (1998, p. 11) refere que o “discurso psiquiátrico” a partir dos anos
50 defendia a internação psiquiátrica como o melhor recurso para o tratamento da
doença mental. Essa concepção médica resultou, ao longo dos anos, num grande
número de doentes para internarem, com a consequente superlotação e aumento do
gasto hospitalar
8
.
Borenstein et al (2004, p. 76) relatam que, desde sua inauguração, o HCS
apresentava-se superlotado: “demonstrando claramente a falência deste modelo na
assistência psiquiátrica catarinense”.
De 1951 a 1971, a assistência em saúde mental em Santa Catarina se
mantém nos moldes estabelecidos pela política nacional caracterizada, segundo
Santos (1994, p. 89-90), “pelo modelo de gestão asilar da loucura, sustentada numa
7
Projeto coordenado pela professora Dra. Miriam Süsskind Borenstein e financiado pelo CNPq.
8
Em 1952, o HCS possuía o maior orçamento hospitalar de Santa Catarina. (SERRANO, 1998).
16
incipiente rede psiquiátrica, voltada para a reclusão dos diagnosticados como
doentes mentais”. O autor ressalta que a internação psiquiátrica aumentou
vertiginosamente no HCS, impulsionada principalmente pelo saber teórico adotado
pela psiquiatria.
Inicialmente, o HCS pertencia ao Estado e era administrado pelas irmãs da
Divina Providência
9
. Em 1971, passou a ser administrado pela Secretaria de Estado
da Saúde (SES), por meio da Fundação Hospitalar de Santa Catarina (FHCS)
10
.
Boa parte dos hospitais de Florianópolis e de alguns municípios catarinenses
já era administrada pela então FHSC. Com essa nova administração, o HCS passou
por uma reestruturação física e organizacional, contando a partir daí com as equipes
multidisciplinares. Para constituírem essas equipes, vários profissionais foram
contratados, entre eles o primeiro enfermeiro da instituição, em 1971. Iniciou-se
assim a constituição da enfermagem nos moldes profissionais, fato que se constitui
no marco final deste estudo.
Portanto, o corte histórico deste trabalho foi escolhido em razão destes dois
marcos: o inicial – o ano de 1951, quando o HCS completa dez anos de existência,
fato que foi acompanhado de outros eventos, os quais foram caracterizados
principalmente pelo aumento da demanda psiquiátrica no HCS – e o final (1971),
representado pela necessidade de reestruturação do hospital e pela posterior
passagem de sua administração para a FHSC (o que culmina com a entrada do
profissional enfermeiro na instituição). Esse fato provoca uma série de
transformações na enfermagem, que até então era predominantemente laica, dando
início à enfermagem profissionalizante de forma gradativa e irreversível.
Definido e contextualizado o período de corte deste estudo, apresento como
objetivo geral da pesquisa: historicizar o cotidiano dos trabalhadores de enfermagem
no HCS, no período de 1951 a 1971, a partir de suas reminiscências
11
.
Proponho como objetivos específicos: 1) identificar os motivos e a forma
de inserção dos trabalhadores de enfermagem no HCS; 2) verificar quais eram as
9
Neste estudo as Irmãs da Divina Providência também eram chamadas de religiosas e freiras.
(NOTA DA AUTORA).
10
A FHSC foi criada em 1965 e reformulada em 1970 através das leis nº. 3.765, de 15/11/1965, e nº.
4.547, de 31/12/1970, e o HCS teve sua incorporação concretizada em 24/05/1971. (TEIXEIRA,
1993).
11
Do latim: reminiscentia. Aquilo que se conserva na memória; lembrança, memória, recordação. A
faculdade da memória. Lembrança vaga. (FERREIRA, 2004).
17
práticas de enfermagem efetivamente realizadas no HCS; 3) desvelar o cotidiano
protagonizado, lembrado e vivenciado pelos trabalhadores de enfermagem no
período de estudo.
Para a elaboração deste estudo foi feita pesquisa histórica utilizando-se a
memória como referencial teórico e a história oral como técnica de coleta de dados.
A pesquisa histórica nos últimos anos vem assumindo renomado prestígio.
Várias profissões têm buscado a construção de sua história na perspectiva de
conhecer o passado, como uma maneira de entender seu presente e visualizar seu
futuro. Os profissionais de enfermagem também vêm desenvolvendo um gradual
interesse pelos aspectos históricos da profissão, fatos que têm incentivado as
escolas de enfermagem e os grupos de pesquisas a se aperfeiçoar para responder à
demanda. (BARREIRA, 1999).
A memória tem sido utilizada como recurso para a construção da história.
Memória é tudo aquilo que é lembrado por uma pessoa ou sua capacidade de
lembrança. Memória não é história; tampouco representa um depósito de tudo que
nos aconteceu, e sim tudo que registramos em nossa mente. História é a narrativa
que montamos a partir da memória, a construção do que lembramos. A memória é,
por excelência, seletiva. Guardamos aquilo que, por um motivo ou por outro, tem –
ou teve – algum significado em nossas vidas. Ela constitui o suporte fundamental da
identidade individual e coletiva. (KESSEL, 2008, p.79).
Assim, percebendo a importância da memória para a construção deste
estudo, busquei nas lembranças/reminiscências dos trabalhadores aposentados do
HCS desvelar as ações de enfermagem desenvolvidas por estes, no período entre
1951 a 1971.
A intenção de realizar este estudo/pesquisa partiu da observação de que há
poucos trabalhos sobre a história das práticas desenvolvidas pelos trabalhadores de
enfermagem no HCS que procuram identificar os motivos pelos quais essas pessoas
passaram a trabalhar na enfermagem, bem como investigar como se deu a sua
inserção, quais as práticas de enfermagem desenvolvidas e como eram exercidas.
No Brasil existem, no entanto, diversos trabalhos que abordam a história da
enfermagem brasileira e a constituição da enfermagem psiquiátrica. Fraga (1993),
em seu estudo, busca apreender as características da prática de enfermagem
desempenhada por diversos agentes, suas concepções sobre saúde/doença mental
no Estado de Ceará.
18
Borenstein et al (2004) desenvolveram pesquisa semelhante em Santa
Catarina. Embora esses estudos sejam regionalizados, mostram aspectos gerais da
assistência psiquiátrica que são comuns em vários Estados brasileiros.
Kirschbaum (1997) foca a relação existente entre o projeto psiquiátrico
implementado no Brasil a partir do final do século XIX e as práticas de preparação
do pessoal de enfermagem desenvolvidas em instituições psiquiátricas brasileiras
entre os anos 20 e 50, utilizando a história oral como método de pesquisa.
Outros trabalhos merecem destaque, como os de Geovanini et al (2005),
Porto e Amorim (2007), Oguisso et al (2007), por tratarem da história da
enfermagem brasileira de modo geral. A leitura desses trabalhos e de outros acima
mencionados foi imprescindível para compreender a história das práticas de saúde e
da psiquiatria brasileira, bem como a importância da enfermagem nesse contexto.
A reflexão sobre essa lacuna no conhecimento da enfermagem, associada
aos questionamentos e contextualização realizados, justifica o presente estudo. Este
também pretende contribuir para a construção do conhecimento da enfermagem, em
particular da enfermagem psiquiátrica catarinense, constituir-se em fonte histórica
para outros pesquisadores interessados na história da enfermagem psiquiátrica e,
finalmente, colaborar para o acervo do GEHCES/UFSC e para a reflexão dos
profissionais de saúde mental.
19
2 REVISÃO DE LITERATURA: UMA BREVE HISTÓRIA SOBRE A PSIQUIATRIA
E A ENFERMAGEM PSIQUIÁTRICA
2.1 A PSIQUIATRIA NO MUNDO
Conforme já evidenciado, até o século XVIII, na Europa, os hospitais não
possuíam finalidade médica. Em geral caracterizavam-se por serem grandes
instituições filantrópicas destinadas a abrigar os indivíduos considerados
"indesejáveis" à sociedade, como: leprosos, sifilíticos, aleijados, mendigos e loucos.
Praticamente direcionavam-se à exclusão social da pobreza e de indesejáveis
produzidos pelos regimes absolutistas da época.
Na ocasião da Revolução Francesa, o hospital de Bicetrê, em Paris, era
considerado uma verdadeira "casa de horrores" onde os internados – loucos, em sua
maioria – eram abandonados à própria sorte. (DESVIAT, 1999).
As reformas políticas e sociais instituídas na Europa no fim do século XVIII e
início do século XIX colocaram o francês Philippe Pinel como ator protagonista da
forma de pensar e tratar a loucura, que passa a ser vista como questão médica e
como uma doença que poderia e deveria ser tratada. Foi desse modo que surgiu o
hospício, hospital psiquiátrico, ou manicômio, como instituição de estudo e
tratamento da alienação mental. O chamado "tratamento moral", praticado pelos
alienistas, incluía o afastamento dos doentes do contato com todas as influências da
vida social e de qualquer contato que pudesse modificar o que era considerado o
"desenvolvimento natural" da doença. Dessa forma, pressupunha-se que a alienação
poderia ser mais bem estudada e sua cura poderia ser alcançada (DESVIAT, 1999).
Na constante tentativa de dominar a loucura e defender-se de tudo o que o
louco representava, as instituições psiquiátricas no mundo inteiro se transformaram
em locais de repressão, onde o paciente era isolado do mundo.
A partir dessas mudanças, o médico passou a ser a figura central da vida do
louco. A psiquiatria buscava a cura, e para isso experimentavam-se vários tipos de
tratamento. Grandes nomes se destacaram na medicina por suas pesquisas e
inovações na área; alguns dignos de nota, como Franco Baságlia, Jean Étienne
20
Dominique Esquirol, Philippe Pinel, William Tuke, entre outros. (AMARANTE, 2003).
Baságlia (1991, p. 14) afirma que na história da psiquiatria encontramos
grandes nomes de psiquiatras, porém no que se refere ao doente mental “só existem
denominações ou rótulos de loucos, como histeria, esquizofrenia, mania, astenia,
etc, etc...”. Afirma ainda que a história da psiquiatria é a história dos psiquiatras, e
não dos doentes. Desde 1700, esse tipo de situação tem amarrado
indissoluvelmente o doente ao seu médico, criando uma situação de dependência da
qual o doente não mais conseguiu se libertar. O autor constata, dessa forma, que a
psiquiatria tem atuado de forma repressiva, com uma história de poderosos, isto é,
“a história dos médicos e não dos doentes”, e refere que o “Estado sempre a usou
para oprimir os doentes pobres, isto é, a classe operária que não produz”. Assim,
com base em Baságlia (1991), parece-me que de fato a história da loucura sempre
teve os psiquiatras como protagonistas e os loucos como meros figurantes.
O hospício passou a ser uma instituição disciplinar para a reeducação do
louco/alienado. Nesse espaço de reclusão, o médico/alienista representava a figura
de autoridade a ser respeitada e imitada nesse projeto pedagógico.
Com o passar do tempo, a grande maioria dos indivíduos que chegavam a
essas instituições nunca mais conseguiu sair. Essa situação perdurou em todos os
manicômios e hospícios surgidos na Europa e nos países colonizados durante mais
de dois séculos.
2.2 A PSIQUIATRIA NO BRASIL
Geovanini et al (2005) assinalam que no Brasil as ideias alienistas de
Esquirol e Pinel passaram a ser assimiladas quase integralmente, contribuindo para
a constituição do manicômio/asilo/hospício, que se instala de forma sedimentada no
país. Com a construção do primeiro hospício, sucessivamente outras instituições do
gênero foram edificadas, como o Asilo João de Deus, em Salvador (1874), e o
Hospício São Pedro, em Porto Alegre (1884). Outro local importante na gênese da
psiquiatria como ciência no Brasil foi o Hospital Psiquiátrico Juqueri, em São Paulo,
em 1898. Este foi construído também fora da zona urbana da cidade de São Paulo,
conforme o pensamento hegemônico da época. Isso dava legitimidade à exclusão
21
de indivíduos indesejáveis mas que não se enquadravam no sistema penal. As
técnicas de tratamento mais utilizadas eram: alternância de banhos quentes e frios,
malarioterapia, traumatoterapia, laborterapia. (AMARANTE, 2003).
Essas instituições surgidas no final do século XIX, assim como outras que
foram construídas no início do século XX, selaram definitivamente o processo de
exclusão do doente mental no Brasil, incluindo-se nesse contexto Santa Catarina,
com a construção do HCS, em 1941.
Segundo Rocha (1994, p.7) a instituição psiquiátrica:
vinha atender à necessidade do espaço organizado para a cura dos
alienados, bem como ao projeto normatizador dos médicos. A
vigilância era uma característica básica do hospício: os doentes
deviam ser vigiados permanentemente. Eram utilizados meios de
persuasão para que eles se tornassem calmos e obedientes; se
necessário, eram usados também meios repressivos para criar a
docilidade e assegurar a ordem.
Arejano e Padilha (2005, p.78-82) enfatizam que um dos aspectos que
determinaram a construção dos hospitais colônias no Brasil, nas décadas de 30 e 40
do século XX, foi decorrente de um inquérito realizado pelo Serviço Nacional de
Doenças Mentais (SNDM) concluído em 1941, no qual se constatou a existência de
20.526 doentes internados nos hospitais brasileiros. Assim, o Serviço Nacional de
Doenças Mentais (SNDM), na época, elaborou um plano para a construção de 4000
leitos nos Estados da federação, com a ajuda técnica e financeira da União. O tipo
padrão de construção preconizado deveria ser o modelo de “hospital colônia,
considerado como modalidade hospitalar moderna”. Nesse período foram
construídos hospitais colônias em quase todas as capitais do país.
2.3 A PSIQUIATRIA EM SANTA CATARINA NO SÉCULO XX
Em Santa Catarina, no final do século XIX, a assistência aos loucos
concentrava-se em Florianópolis. Eles eram trancafiados na cadeia que ficava no
térreo do prédio, onde hoje está instalada a Câmara dos Vereadores (centro da
cidade/Praça XV de novembro). Lá se recolhiam os loucos, os escravos
22
malcomportados e os “paus d’água”
12
do Desterro. (PEREIRA, 2003).
Melo (2002) narra que Padre Lux e o Bispo Dom João Becker, no início do
século XX, em 1905, criaram o Hospício de Azambuja (Brusque), com capacidade
para 20 pacientes, pensando em abrigar os doentes mentais do Estado de Santa
Catarina. Em 1923, em Joinville, passou a funcionar também o Hospício Oscar
Schneider, com capacidade para 100 leitos (posteriormente foi ampliado, chegando
a possuir em sua totalidade 250 leitos).
Nereu Ramos
13
, em 1936, sensibilizado com a situação dos “loucos” em
Santa Catarina e influenciado pela política eugenista do governo federal de Getúlio
Vargas, encaminha mensagem à Assembleia Legislativa manifestando a
necessidade da construção de um estabelecimento para tratamento de doentes
mentais. (SANTOS, 1994).
Quase dois anos se passaram entre a ideia de governar e a aquisição do
terreno para a construção do complexo manicomial. No relatório enviado ao
presidente Getúlio Vargas referente ao exercício de 1938, Nereu Ramos escreve:
[...] empôs ouvir especialistas, entre os quais o ilustre doutor
Waldemiro Pires, ilustre diretor da Divisão de Assistência a
Psicopátas do Departamento Nacional de Saúde, adquiriu o
Govêrno, por cento e setenta contos de réis
14
, no lugar Maroim, do
município de São José, extensa área de terras para a instalação dum
hospital-colônia nos moldes sugeridos pelos que, com autoridade
técnica para dizer, foram consultados e ouvidos [...] (RAMOS, 1939).
O hospital recebeu o mesmo nome do bairro Colônia Santana
15
, criado pela
família de imigrantes alemães Koerich em 1925. Essas terras, de propriedade, dessa
família, foram vendidas ao governo do Estado em 1938, destinando-as
exclusivamente para a construção do HCS. (SILVA, 2001).
Em 10 de novembro de 1941, o HCS foi inaugurado com capacidade para
300 leitos. Seus primeiros pacientes chegaram juntamente com as irmãs da Divina
Providência, provenientes dos hospitais de Azambuja e Oscar Schneider.
12
Indivíduo que tem o hábito de beber álcool compulsivamente, beberrão. (FERREIRA, 2004).
13
Nereu de Oliveira Ramos foi governador de Santa Catarina por voto indireto. Assumiu a presidência
da República do Brasil após o suicídio do titular, Getúlio Vargas.
14
Réis: moeda corrente no Brasil (1693 até 1942).
15
O nome Colônia Santana dado à localidade foi uma homenagem a Santa Ana, da qual a família
Koerich era devota. Construíram uma igreja na localidade em homenagem à santa, onde colocaram
sua imagem. (FARIAS, 2001).
23
(BENOSKI, 2002). A instituição iniciou suas atividades em janeiro de 1942, com 311
pacientes, ou seja, já com superlotação. Esse fato foi se concretizando
historicamente, e para Serrano (1998, p.10) “esta condição inicial selou ‘sua vocação
ao inchaço’”.
De acordo com Melo (2004, p.24), quando o HCS foi inaugurado os
governantes e a sociedade catarinense acreditavam que o problema da saúde
mental no Estado parecia estar superado. Havia uma expectativa que esse hospital
seria a solução para todos os problemas de doença mental no Estado, porém, com o
passar dos primeiros anos, a cultura da exclusão e do manicômio foi se
aperfeiçoando, e se observou um aumento progressivo da demanda psiquiátrica
para internação no HCS, bem como o aumento sucessivo de gastos.
Em 1942, o governador Nereu Ramos apresentou ao presidente da
República um relatório prestando contas sobre o HCS. O governador relatou que
sua construção foi realizada com recursos do governo do Estado de Santa Catarina
e que havia tido um custo total de Cr$ 2.862.434.860
16
.
Desde o início do funcionamento do HCS, o diretor Dr. Agripa de Castro de
Faria relatava que a instituição recebia pacientes acima de sua capacidade. Durante
sua gestão, o médico manifestou em relatórios sua insatisfação perante os pedidos,
por parte de autoridades, de internação permanente de pacientes crônicos e de
criminosos que aguardavam julgamento. Na maioria dos ofícios enviados pelo diretor
do HCS ao poder público consta a solicitação frequente de verbas para o aumento
do espaço físico. (MELO, 2002).
Teixeira (1993, p.21) destaca que entre as primeiras providências
administrativas da gestão do Dr. Santaella
17
estavam a construção de um pavilhão
para tuberculosos, o aumento do número de leitos e a ênfase no atendimento aos
doentes agudos, procurando dar uma dinâmica mais moderna ao HCS. Outra
proposta da direção foi o atendimento “hetero-familiar”, que consistia na adoção de
famílias substitutas, além das reformas nas enfermarias e outras dependências, da
aquisição e substituição de novos maquinários, da aquisição de revistas científicas e
da organização da biblioteca. Em 1952, o HCS chega a possuir 800 pacientes.
Teixeira (1993) relata que em 1953 o HCS foi considerado um modelo
16
Cr$: símbolo do Cruzeiro tornado moeda nacional em 1942.
17
Diretor do HCS de 1951 a 1955.
24
institucional, em nível nacional, para o atendimento de doentes crônicos, ou seja,
internos com “exíguas possibilidades de obterem altas”.
Dados da década de 60, nas fontes pesquisadas, praticamente não foram
encontrados, somente Santos (1994, p. 92) assinala a manutenção da política
catarinense nessa década, enfatizando altas taxas de internação no HCS.
De 1941 a 1964, o HCS foi administrado pelas Irmãs da Divina Providência.
A partir de 1965 foi criada a Fundação Hospitalar de Santa Catarina (FHSC). Esta
era uma fundação autárquica vinculada à Secretaria de Estado da Saúde, instituída
pela lei n. 3.765, de 15 de novembro de 1965, que estabelecia reformas
administrativas e determinava outras providências com o objetivo de executar a
política de saúde e organizar uma rede hospitalar
18
. (FONTOURA, 1997).
Em 1971, o HCS passa a ser administrado pela FHSC, passando sua
direção, administração e controle efetivamente para as mãos dos psiquiatras. Com
essa incorporação, iniciou-se uma nova política de atuação psiquiátrica no Estado, a
qual buscava a interiorização da assistência psiquiátrica, já que até então esta se
concentrava basicamente em Florianópolis. A justificativa para essa política de
interiorização era a necessidade de implementação da psiquiatria preventivista
19
ou
comunitária, bem como de cortar gastos por parte do Estado. (SANTOS, 1994).
Acompanhando essa política, alguns hospitais psiquiátricos brasileiros, e
posteriormente o HCS, foram divididos em vários setores com base na divisão
administrativa regional do Estado (Centro Administrativo Regional de Saúde –
CARS), cada um correspondendo a uma região. Essa divisão objetivava manter os
hábitos e costumes do local de procedência do paciente e facilitaria a comunicação
com a equipe de tratamento de seu município, após sua alta. (PEREIRA, 2003).
Desde sua criação até a década de 70 do século XX, o HCS sofreu várias
reformas, tanto físicas quanto estruturais, aumentando gradativamente suas
instalações e capacidade para receber cada vez mais pacientes. Chega em 1970
18
Pelo decreto n. SES-09 de 24 de março de 1971.
19
Essa política de interiorização da assistência psiquiátrica teve como modelo a chamada psiquiatria
de setor, iniciada nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, com base na transformação
das condições asilares após a Segunda Guerra Mundial. A psiquiatria de setor consiste em “[...] um
projeto que pretende fazer desempenhar à psiquiatria uma vocação terapêutica, o que segundo os
seus defensores não se consegue no interior da estrutura hospitalar alienante. Daí a ideia de levar a
psiquiatria à população, evitando ao máximo a segregação e o isolamento do doente, sujeito de uma
relação patológica familiar, escolar, profissional, etc. Trata-se portanto de uma terapia in situ: o
paciente será tratado dentro do seu próprio meio social e com o seu meio, e a passagem pelo
hospital não será mais do que uma etapa transitória do tratamento. (AMARANTE, 1995, p. 36).
25
com 2.300 pacientes internados – e sua capacidade era para alojar somente 1000
(mil) leitos. (TEXEIRA, 1993).
A partir da década de 80 do século XX, começa a ocorrer no país um
movimento que culminou com a Reforma Psiquiátrica e o início da transformação do
modelo de assistência psiquiátrica. Esse modelo foi deflagrado nacionalmente a
partir da I Conferência de Saúde Mental, realizada em 1987, culminando, anos mais
tarde, com a lei 10.216 em 2001
20
. (TENÓRIO, 2002).
Em Santa Catarina, porém, a Reforma Psiquiátrica dá seus primeiros sinais,
muito timidamente, a partir de 1990, e só vai atingir maior repercussão em 1994.
Mesmo com indicativo do Ministério da Saúde (MS) e da Organização
Mundial da Saúde (OMS) para reversão do modelo hospitalocêntrico de atendimento
da saúde mental, o HCS se mantém funcionando como ambulatório e como principal
“porta de entrada” para internações. Independentemente das auditorias empreitadas
pelo MS, a instituição conserva suas características asilares, com instalações
antigas e precárias, e condições desumanas de atendimento.
Assim, em dezembro de 1994, os técnicos do MS realizaram uma visita no
HCS e emitiram um parecer sugerindo seu descredenciamento do Sistema Único de
Saúde (SUS).
Em razão desse fato, uma “nova era” inicia na psiquiatria catarinense,
caracterizada pela extinção do HCS e o surgimento do Instituto de Psiquiatria do
Estado de Santa Catarina (IPq-SC). Este passa a ser estruturado com duas áreas de
atendimento. O Centro de Convivência Santana destinava-se aos moradores
institucionalizados, ou seja, pessoas que permaneceram longos anos no antigo
HCS. A outra área de atendimento passou a ser composta de cinco unidades de
internação psiquiátrica para pacientes de curta permanência hospitalar,
denominadas unidades de internação psiquiátrica (UIP).
Assim, o IPq-SC, enquanto instituição que se destina a tratar e reabilitar o
portador de transtorno psíquico
21
, passa a ser protagonista de um processo de
modernização através do qual busca adequar-se cada vez mais às propostas do MS
e melhorar progressivamente as condições de atendimento aos pacientes
20
Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona
o modelo assistencial em saúde mental.
21
Portador de transtorno psíquico, termo advindo da Reforma Psiquiátrica, e sofredor psíquico, termo
que designa o portador de doença mental pelo Código Internacional de Doenças (CID) – OMS 10º
revisão – 10 dados adaptados da Classificação Estatística Internacional de Doenças.
26
psiquiátricos. Os municípios catarinenses passaram a se organizar também para
efetivação das redes de saúde mental, criação de Centro de Apoio Psicossocial
(CAPS), ambulatórios e outros dispositivos previstos nos programas do MS para a
área de saúde mental.
Em 16 de maio de 2001, a lei 10.216, que determina a proteção e
assistência do portador de doença mental e os novos rumos assistenciais, após
mais de 30 anos tramitando no Congresso Nacional finalmente foi sancionada. Essa
é a marca histórica da legalização dos ideais em prol dos direitos humanos dos
loucos, realidade que vem sendo gradativamente conquistada pela grande maioria.
Neste novo século, o IPq-SC ainda se mantém como principal suporte para o
atendimento dos doentes mentais em Santa Catarina. Possui em suas dependências
270 pacientes que vivem na instituição, procedentes de vários locais do Estado,
aguardando que os municípios efetivem suas redes assistenciais para que possam
retornar para os seus lares. Dessa forma, Santa Catarina e o IPq-SC poderão
efetivamente mudar esse curso e construir uma nova história em saúde mental.
2.4 A ENFERMAGEM PSIQUIÁTRICA NO HOSPITAL COLÔNIA SANT’ANA DE
1951 A 1971
Para se compreender melhor o contexto social e político em que se
desenvolveu a enfermagem psiquiátrica no HCS, faz-se necessário contextualizar
um pouco a história da enfermagem psiquiátrica no Brasil.
Autores como Kirschbaum (1997) e Fraga (1993) caracterizaram as práticas
da enfermagem psiquiátrica ao longo do tempo. Referiram que a enfermagem
realizou cuidados diretos aos doentes mentais, aplicando procedimentos
disciplinares, sujeitando-os ao objetivo de manter a ordem asilar. Assim, os agentes
de enfermagem contribuíram para que os médicos, em cada época,
implementassem os diferentes projetos psiquiátricos.
Geovanini et al (2005, p. 33) assinalam que a formação de pessoal de
enfermagem, no Brasil, se deu para atender aos hospitais civis e militares e,
posteriormente, às atividades de saúde pública. No Rio de Janeiro, a partir da
transformação do Hospício Pedro II em Hospício Nacional de Alienados, em 1890, a
27
nova administração do hospício foi assumida por médicos que dispensaram os
serviços das Irmãs da Divina Providência e organizaram a “Escola Profissional de
Enfermeiros e Enfermeiras”, que mais tarde veio a se transformar na Escola Alfredo
Pinto (atual Escola Anna Nery).
Porto e Amorim (2007, p. 87) referem que, com a criação da Escola
Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras da Assistência a Alienados, foi
“necessária a contratação de enfermeiras. Nesse sentido, a direção do hospital
contratou cinco enfermeiras francesas, que permaneceram na instituição de 1891 a
1894”.
O nome dado à escola – Alfredo Pinto – foi uma homenagem ao Dr.Alfredo
Pinto Vieira de Mello, ministro da Justiça e Negócios Interiores, responsável pela
aprovação do regimento interno da Escola Profissional de Enfermeiros e
Enfermeiras. “Esta se desdobrou em três sessões: a mista, a masculina e a
feminina”, sendo a seção feminina denominada Escola Profissional de Enfermeiras
Alfredo Pinto. Assim, essa escola “foi um desdobramento da Escola Profissional de
Enfermeiros e Enfermeira da Assistência a Alienados”. (PORTO E AMORIM, 2007,
p. 93- 94).
Segundo Rocha (1994, p. 6) a enfermagem profissional surgiu no Brasil
somente em 1923, com a criação da Escola Anna Nery no Rio de Janeiro.
Padilha (1997) assinala que a Escola Anna Nery foi a primeira escola
profissional criada no Brasil, pois, antes de 1923, não havia se desenvolvido no país
o sistema nightingale de formação das nurses. Longe de arbitrar contra ou a favor
dessa questão, retomo a fala de Tavares (1999, p.22), que sem mencionar uma ou
outra escola referiu que “a inserção da enfermagem na psiquiatria brasileira deu-se
com a criação do Hospital Pedro II”.
Para Tavares (1999, p.22), “a enfermagem psiquiátrica brasileira não se
desenvolveu na direção da construção de seu próprio estatuto científico; ela nasceu
no hospício” e foi marcada pela precariedade da assistência e pela baixa
qualificação profissional.
A história do Hospital Colônia Sant’Ana tem sido narrada por pesquisadores
de várias áreas, no entanto o contexto de formação e desenvolvimento da
enfermagem psiquiátrica não tem sido foco dessas pesquisas.
Algumas enfermeiras pesquisadoras como Costa (2002), Borenstein et al
(2004; 2007), vinculadas à instituição e ao GEHCES, vêm desenvolvendo pesquisas
28
focalizando a história da enfermagem no HCS, em várias épocas e sob variados
prismas, como parte de um macroprojeto do grupo de pesquisa.
Ao me propor trabalhar com a memória dos trabalhadores aposentados de
enfermagem de 1951 a 1971, considerei importante realizar a revisão de literatura
de algumas obras que trataram da enfermagem no HCS.
Borenstein et al (2004) realizaram uma pesquisa sobre a história do HCS no
período entre 1940 a 1960. De todos os estudos realizados, a obra citada
certamente é a que contém o maior número de informações, além de abarcar parte
do período de minha pesquisa. Daí posso afirmar que essa pesquisa se tornou
indispensável em todas as fases de construção de meu estudo e se constituiu na
principal fonte secundária utilizada nesta síntese histórica.
Esta revisão bibliográfica e documental não teve por objetivo tornar-se um
confronto aos fatos relatados pelos sujeitos desta pesquisa, pois, de acordo com
Bosi (2006, p. 37), “os livros de história que registram esses fatos são também um
ponto de vista, uma versão do acontecido, não raro desmentidos por outros livros
com outros pontos de vista”.
Borenstein et al (2004, p. 68) relatam que “desde o início do funcionamento
do Hospital Colônia Sant'Ana, foram as irmãs da Congregação da Divina Providência
que assumiram todos os serviços que lá foram criados” e que detinham o poder de
decisão para resolver as questões administrativas e de pessoal. Enfatizaram que,
além das irmãs que atuavam no serviço de enfermagem, havia o “enfermeiro chefe e
os vigilantes”, que na realidade eram pessoas sem qualificação para o trabalho de
enfermagem, inclusive o chamado “enfermeiro”
22
, que era um “prático com
conhecimento razoável”
23
. O “enfermeiro” não era um profissional com formação
específica na área, muito menos um profissional de nível universitário. Era uma
pessoa que se diferenciava dos demais trabalhadores de enfermagem porque sabia
ler e escrever melhor, além de possuir algum conhecimento prático e atributos
políticos.
Quanto às Irmãs que atuavam na enfermagem, as autoras referem que:
além de ministrarem os cuidados de higiene, conforto e alimentação,
realizavam os procedimentos considerados os mais complexos na
época, tais como: injeções, curativos, soros, e algumas poucas,
22
Nesta pesquisa o enfermeiro prático será designado somente por “enfermeiro” (entre aspas).
(NOTA DA AUTORA)
23
Definição feita por um dos entrevistados da pesquisa realizada. (BORENSTEIN et al., 2004, p. 68).
29
costumavam realizar as anestesias, utilizando-se para isto as
máscaras de Obredame
24
, nas pequenas cirurgias feitas no Hospital.
Borenstein et al (2004) ainda relataram que os trabalhadores eram
contratados por indicação de terceiros para trabalhar na enfermagem e moravam, ou
passavam a morar, na comunidade após a admissão. Não havia, segundo as
autoras, “uma preocupação com o conhecimento desses trabalhadores em relação
ao trabalho que iriam realizar”. A infraestrutura oferecida ao pessoal de enfermagem
e pacientes no HCS “estava distante do ideal”, e as acomodações dos pacientes
eram precárias, além de superlotadas.
As péssimas condições de trabalho e seus reflexos na assistência aos
doentes mentais no HCS têm sido tema de vários trabalhos. Costa (2002) refere que
historicamente a enfermagem desenvolveu suas atividades em condições
desumanas, o que contribuiu para que os profissionais de enfermagem se
desumanizassem também. Costa e Borenstein (2004) afirmam que os agentes de
enfermagem recebiam pouca ou nenhuma informação específica para atuarem em
psiquiatria. Assim, chegavam às instituições normalmente sem orientação formal,
eram introduzidos no cotidiano da assistência, aprendendo a lidar com o
desconhecido e com o improviso.
Em 1971, a equipe de enfermagem do HCS passou a ser composta de
atendentes de enfermagem, poucos auxiliares de enfermagem e um enfermeiro.
Essa composição da equipe não foi obtida nas fontes citadas, mas por informação
dos trabalhadores mais antigos, que passaram a trabalhar na enfermagem a partir
de 1971. Gradativamente, essa composição foi se modificando e incorporou o
técnico de enfermagem à equipe. Os atendentes de enfermagem, no entanto, se
mantiveram em maioria, em detrimento do número de enfermeiros, que sempre
esteve abaixo da necessidade legal e percebida. Atualmente, por exigência legal, os
profissionais de enfermagem devem ter a formação específica na área da saúde,
segundo a lei
25
do exercício profissional de enfermagem.
A partir da entrada do enfermeiro na instituição, a enfermagem – que era
24
A máscara de Obredame era colocada sobre a boca e o nariz do paciente e este era anestesiado a
partir da utilização de éter sobre a respectiva máscara e pela inalação deste pelo paciente.
(BORENSTEIN et al., 2004).
25
Lei nº 7.498 de 25 de junho de 1986
30
totalmente laica, submissa, formada somente por profissionais sem qualificação para
o trabalho e sem formação escolar de primeiro grau – passou a assumir um papel
científico e relevante na instituição. O enfermeiro promoveu profundas
transformações no modelo assistencial de enfermagem, além de ter contribuído para
modificar sensivelmente as características e qualificação de seus trabalhadores.
Atualmente, 94% dos trabalhadores de enfermagem
26
da instituição possuem cursos
profissionalizantes.
26
RH/IPq-SC, 2008.
31
3 MARCO DE REFERÊNCIA: MEMÓRIA
Um marco referencial pode ser definido como um:
conjunto de conceitos e pressuposições, derivados de uma ou mais
teorias ou modelos conceituais de enfermagem ou de outras áreas
do conhecimento, ou até mesmo originado das próprias crenças e
valores daqueles que o concebem, para utilização na sua prática
com indivíduos, famílias, grupos ou comunidade, atendendo a
situações gerais ou específicas na área de assistência,
administração ou ensino de enfermagem. (SILVA; ARRUDA, 1993, p.
85).
Considerando tratar-se de um estudo histórico, mais precisamente um
estudo que envolve a memória dos trabalhadores de uma instituição psiquiátrica,
uma teorização sobre a memória torna-se imprescindível, uma vez que será o
referencial teórico que subsidiará as análises. Para tanto, foram selecionados
autores como Thompson (2002), Le Goff (2003), Halbwachs (2004), Bosi (2006),
entre outros.
Bosi (2006) se tornou uma importante autora para abordar os aspectos
relevantes da memória. A autora publicou em 1994 a primeira edição de Memória e
sociedade: memórias de velhos, obra na qual realizou um admirável estudo sobre a
memória partindo de lembranças de velhos. Designou essa façanha como uma
“interseção” entre memória e velhice: “colhi memórias de velhos”, referiu Bosi (2006,
p.39).
Cabe assinalar que a autora baseou seu estudo sobre memória nas
observações de Henri Bérgson, autor de Matière et mémoire (1959). Trata-se de um
extenso estudo sobre memória, caracterizado por Bosi (2006, p. 69) como “um
rastreamento da bibliografia contemporânea” sobre o assunto.
Bosi (2006, p. 43) refere que as observações de Bérgson sobre a memória
devem ser avaliadas em relação aos conceitos de memória, e que não desenvolveu
em seu trabalho os conceitos de memória. Seu “alvo específico” foi a “análise de
memória de mulheres e homens idosos”. Resgata o conceito de lembrança de
William Stern referindo que a “lembrança é a história da pessoa e seu mundo,
enquanto vivenciada”:
A função da lembrança é conservar o passado do indivíduo na forma
que é mais apropriada a ele. O material indiferente é descartado, o
32
desagradável alterado, o pouco claro ou confuso simplifica-se por
uma delimitação nítida, o trivial é elevado à hierarquia do insólito; e
no fim formou-se um quadro total, novo, sem o menor desejo
consciente de falsificá-lo. (STERN, 1957 apud BOSI, 2006, p. 68).
Para Bosi (2006), quando o passado é narrado por um sujeito, pode ocupar
quase todo o espaço mental deste, como no caso dos velhos enfermos e
aposentados, como pode também ser desdenhado e esquecido.
3.1 CONCEITOS DE MEMÓRIA
Entender os mecanismos de funcionamento da memória humana constitui
um dos grandes desafios da ciência moderna. Já na tentativa de sua definição esse
termo mostra toda a sua complexidade.
A memória genericamente pode ser compreendida como a capacidade de
lembrar fatos passados. Certamente que esse ato agrega variados fenômenos
biológicos, psicológicos e sociais.
Para Bosi (2006, p. 47) a memória é pessoal e intransferível, conserva-se
atuando no presente, num processo contínuo de lembrança, significação e
socialização. A autora assinala que:
pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes,
misturando-se com as percepções imediatas, como também
empurra, desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da
consciência. A memória aparece como força subjetiva, ao mesmo
tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora.
A função da memória para a autora “é o conhecimento do passado, que se
organiza, ordena o tempo, localiza cronologicamente”. Memória é a faculdade do
tempo, e a história deve “reproduzir-se de geração em geração, gerar muitas outras,
cujos fios se cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos”. (BOSI,
2006, p. 89-90).
Le Goff (2003, p. 419- 469) refere que a memória “é um elemento essencial
do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das
33
atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje”. O autor
desenvolve um estudo vasto sobre a memória, suas características funcionais e
patológicas. Refere que a compreensão do estudo da memória “abarca a psicologia,
psicofisiologia, neurofisiologia, biologia”, e acrescenta ainda a psiquiatria, para a
compreensão de suas perturbações. Assinala que a memória como propriedade de
conservar certas informações remete, em primeiro lugar, a um conjunto de funções
psíquicas graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações
passadas, ou que ele representa como passadas. Pode ser compreendida, ainda,
como sendo qualquer forma de recordação e se encontra presente nas palavras que
dizemos, nos passos que damos e nos sonhos que construímos.
Segundo Meihy (2002, p. 61), a memória individual e a coletiva “dependem
uma da outra e uma se explica pela outra”, no entanto a memória coletiva não
abrange somente as especificidades da memória das pessoas, mas apresenta o
conjunto dessas especificidades em um contexto maior, no nível cultural e social. A
memória individual, para o autor, serve para dar sentido às situações sociais.
Compreendendo a memória como uma construção social, Halbwachs (2004,
p.75) reforça essa percepção referindo que a memória apoia-se sobre o “passado
vivido”, o qual permite a construção de uma história do indivíduo. A memória
individual transforma-se numa construção coletiva uma vez que o homem é um ser
eminentemente social.
A memória individual não está isolada e frequentemente toma como
referência pontos externos ao sujeito. O suporte em que se apoia a memória
individual encontra-se relacionado às percepções produzidas pela memória coletiva
e pela memória histórica A memória coletiva é pautada na continuidade e deve ser
vista sempre no plural (memórias coletivas), pois as memórias de um indivíduo ou de
um país estão na base da formulação de uma identidade, em que a continuidade é
vista como característica marcante. (HALBWACHS, 2004, p. 57-59).
Assim, de acordo com os vários conceitos encontrados, observei que o
termo memória é multifacetado e se caracteriza como um fenômeno social. O
conceito de memória coletiva elaborado por alguns autores aparece ligado aos
conceitos de memória individual e história, e associado às ideias de tradição,
consciência coletiva, identidade social e construção histórica.
Dentro da multiplicidade dos conceitos lidos, e de alguns aqui apresentados,
pude apreender que a memória contribui para abordar aspectos da cultura popular,
34
da vida em família, dos hábitos e costumes de uma localidade, da religiosidade, do
trabalho, das profissões, entre outros, que sem dúvida nos remetem à constituição
social da memória.
3.2 MEMÓRIA E HISTÓRIA
Ao recorrermos à memória dos relatos e testemunhos das épocas passadas,
estamos transformando essas narrativas em história, fazendo com que um
amontoado de fatos ganhe significado. A importância do narrador histórico não está
em apresentar uma imagem do passado, mas em transformá-la em uma experiência
única e que possa renovar o futuro com seu reconhecimento no presente. (TELES,
2002).
Conforme Delgado (2003, p.20) “a relação da memória com a história é bem
mais complexa, e envolve, concomitantemente, apropriação, diálogo, destruição e
contribuição [...] apesar de distintas, possuem um substrato comum: são antídotos
do esquecimento”.
Em relação a esse processo, Alberti (2004, p. 23) refere que a “recordação
de algum acontecimento varia de pessoa para pessoa, conforme importância que se
imprime a esse acontecimento no momento em que ocorre, e no momento em que é
recordado”.
De acordo com Sanna (2002, p.18):
o que se torna objeto de interesse nessa memória é a interpretação
que os sujeitos da pesquisa fazem do que vivenciaram. Não se trata
pura e simplesmente de tratá-los como fontes de dados, mas de
partilhar com eles, o julgamento que fazem desse passado, para só
então tornar-se possível a análise reflexiva dessa história.
Oliveira (2008) afirma que o elemento narrativo nunca se extinguiu da
produção historiográfica, no entanto ele, na maior parte das vezes, foi combatido
pelo paradigma moderno de história. Acrescenta que, na história tradicional, o
historiador era um narrador de acontecimentos dotado de procedimentos de oratória.
A nova história começou a se interessar por toda atividade humana. Esta
possibilita contar histórias de fatos que nunca haviam sido antes considerados, por
35
exemplo: a infância, a morte, a loucura, o clima, os gestos, o corpo, a leitura, a fala e
o silêncio e, principalmente, a história das mulheres, comprovando que tudo e todos
têm uma história. (BURKE, 1992).
Novas fontes passaram a ser utilizadas e construídas, e a história oral
passou a ser implementada. Esse tipo de técnica, fonte, método de pesquisa,
costuma se utilizar da memória.
Thompson (2002, p. 213) assinala que a terapia da reminiscência tem sido
um elemento impulsionador para o acontecimento de mudanças e acredita que seus
fundamentos têm poder transformador.
Ao estudar a memória, percebi muitas vezes a frágil linha que a distingue da
história e a dificuldade para delimitá-las dentro das várias ciências que a estudam.
Porém, nessa gama de informações, não se pode deixar de constatar a inestimável
contribuição dos pesquisadores e teóricos da memória em todas as áreas. A
investigação sobre esse tema vem acumulando novos conhecimentos ao longo do
tempo.
Independentemente do avanço das pesquisas em todas as áreas, e no caso
particular da neurociência, sabe-se que há muito ainda a ser descoberto em termos
de funcionamento do cérebro. A memória humana aguarda ser totalmente
desvendada, e isso passa necessariamente por muitos estudos.
Apesar da existência de vários modelos que se propõem a explicar e
classificar a memória, o mais importante é saber os processos que envolvem a
aquisição, armazenamento e evocação de cada tipo de memória. Para isso, o
primeiro passo é saber que não existe uma memória, mas sim vários tipos de
memória que se relacionam para formar "a memória" que usamos cotidianamente.
Bosi (2006, p.79-83) analisa o processo de envelhecimento sob o ponto de
vista da memória. A autora refere que a velhice é um acontecimento natural, assim
como a adolescência. No entanto, a velhice é uma fase cheia de preconceitos, e o
“velho sente-se um indivíduo diminuído, que luta para continuar sendo um homem”.
A autora cita Batisde (1965), que faz uma distinção entre senilidade e senescência,
os quais devem ser entendidos respectivamente como um fenômeno patológico e
como um estado normal do ciclo da vida. Lembra que a tenacidade do ser humano
certamente diminui com a velhice, mas a capacidade de associação e meditação
aumenta. O idoso também necessita de atenção e precisa ser ouvido, pois isso o
estimula a reter fatos. O mundo social possui riqueza e diversidade que podem
36
chegar-nos pela memória do velho, pois este:
de um lado, busca a confirmação do que se passou com seus
coetâneos, em testemunhos escritos e orais, investiga pesquisa,
confronta esse tesouro de que é guardião. De outro lado, recupera o
tempo que correu e aquelas coisas que, quando as perdemos, nos
fazem sentir diminuir e morrer. (BOSI, 2006, p. 83).
Bosi (2006, p. 84) refere que “não basta um esforço abstrato para recriar
impressões passadas, nem palavras exprimem o sentimento de diminuição que
acompanha a impossibilidade”. Apesar de o tônus vital se perder com o processo de
envelhecimento e que não seja mais possível captar as sensações do mundo da
mesma forma:
quando passamos na mesma calçada, junto ao mesmo muro, o ruído
da chuva nas folhas nos desperta alguma coisa. Mas, a sensação
pálida de agora é uma reminiscência da alegria de outrora. Esta
sombra tem algo parecido com a alegria, tem o seu contorno: é uma
evocação.
O termo reminiscência aparece em Bosi (2006) e outros autores como
sinônimo de memória e é frequentemente utilizado quando se refere à memória dos
velhos.
Para Thompson (2002, p. 40) a reminiscência vem sendo utilizada por
profissionais que cuidam de idosos como terapia e acrescenta que:
cada vez mais os especialistas em envelhecimento têm reconhecido
que entregar-se a reminiscências pode ser uma maneira interessante
de os idosos manterem o sentimento de identidade em um mundo
em mudança. Ainda mais notável, isso pode ser utilizado para
reanimar o espírito de quem está profundamente alienado e
deprimido, e até mesmo uma forma de tratamento de idosos
psicóticos ou dementes.
A narrativa da reminiscência dos trabalhadores aposentados no serviço de
enfermagem do HCS foi utilizada neste estudo, acreditando-se que para
compreendermos uma profissão é necessário estabelecer sua relação com os
acontecimentos que ocorreram ao longo do tempo. Os estudos desses
acontecimentos interessam de modo especial à enfermagem, pois, conforme referiu
Barreira (1999, p. 90), “a construção de uma memória coletiva é o que possibilita a
37
tomada de consciência daquilo que realmente somos, enquanto produto histórico”.
Assim, de acordo com a autora, o “desvelamento da realidade mediante o estudo da
História da Enfermagem é libertador e permite um novo olhar sobre a profissão”, e
acrescenta:
O movimento da história oral, que vem sendo amplamente difundido
nas diversas regiões do país, quer ligado às elites, quer ligado aos
grupos de pouca visibilidade social como a enfermagem, oferece a
possibilidade da criação de acervos para o uso no ensino e na
pesquisa.
Para se compreender a enfermagem enquanto prática social é necessário
entender que esta é condicionada pelo contexto onde atua, portanto influencia e é
influenciada pela sociedade, e produz forças que estão presentes no campo da
saúde.
Finalmente, após pontuar algumas características relativas à memória e às
suas articulações, acredito que através desta poderei contribuir para a construção da
história da enfermagem no HCS de 1951 a 1971, utilizando-me da memória
individual e coletiva dos trabalhadores que atuaram nesse período e que, de forma
direta ou indireta, foram agentes importantes em sua constituição.
38
4 METODOLOGIA
4.1 A PESQUISA HISTÓRICA
Este estudo teve como proposta metodológica a realização de uma pesquisa
qualitativa com abordagem histórica. O método da pesquisa histórica caracteriza-se
como uma abordagem sistemática por meio de coleta, organização e avaliação críti-
ca de dados que têm relação com ocorrências do passado. (WOOD; HABER, 2001).
O objetivo de toda pesquisa é descobrir algo novo, corroborar com algo já
conhecido ou refutá-lo. O motivo que leva o pesquisador a realizá-la é o
aprendizado, seja do método científico, das técnicas empregadas ou ainda do
estudo em questão. É um método de aprendizagem e de benefícios para o
pesquisador e também para a comunidade na qual a pesquisa está inserida.
(STEFANO, 2005).
A pesquisa histórica geralmente é realizada para compreender o passado e
pode lançar luz sobre os comportamentos ou práticas atuais. Esse conjunto de
atividades constitui o método de trabalho que ajuda o pesquisador a conduzir sua
investigação. Esta foi precedida de uma conveniência metodológica e teórica que se
afinou à medida que ocorreu a interação com o todo.
Padilha e Borenstein (2005, p. 577) assinalam que:
a fim de compreender como efetivamente deve-se realizar uma
investigação histórica é necessário que o pesquisador siga alguns
passos fundamentais 1) definição, justificativa e delimitação do tema;
2) objetivos da pesquisa; 3) quadro teórico e as hipóteses; 4) coleta
de dados, as fontes; 5) a crítica e a validação dos dados; 6) a análise
e interpretação dos dados, a síntese.
4.2 SUJEITOS DA PESQUISA
De acordo com Alberti (2004), a escolha dos entrevistados deve ser guiada
pelos objetivos da pesquisa. Como o objetivo foi o de historicizar o cotidiano dos
trabalhadores aposentados da enfermagem do HCS, as pessoas selecionadas para
39
serem entrevistadas foram os vigilantes, os guardas e os chamados “enfermeiros”,
que participaram da enfermagem no HCS, no período descrito, e forneceram
depoimentos significativos.
Os sujeitos da pesquisa foram selecionados através do cadastro do setor de
recursos humanos do IPq-SC, no período estabelecido, levando-se em consideração
os seguintes critérios: 1) ter atuado no serviço de enfermagem do HCS no período
de estudo; 2) possuir uma boa memória sobre o desenvolvimento da enfermagem e
sobre o HCS; 3) e, finalmente, possuir disponibilidade de tempo e interesse em
participar.
Inicialmente, foram contatadas para a pesquisa onze pessoas, das quais
seis participaram do estudo. Alguns não aceitaram alegando motivos pessoais, e
outros por terem apresentado problemas de saúde no transcorrer da pesquisa.
Assim, este estudo foi realizado com a participação de duas vigilantes, dois guardas
e dois “enfermeiros”.
Os entrevistados apresentaram objeções quanto à divulgação de sua
identificação e imagem. Assim, nas narrativas, foram utilizadas como identificação
somente as abreviaturas de suas atividades: a função de vigilante foi identificada
com a abreviação VG; o guarda recebeu a abreviação GR; e o “enfermeiro”, EF.
Para se caracterizarem os sujeitos da pesquisa, estão descritos no quadro a seguir
alguns dados de interesse para a pesquisa.
EF1: nasceu em 20/02/1940, tem 68 anos, casado, teve quatro filhos, possui primeiro grau
incompleto, reside no bairro de Praia Comprida (São José - SC). Desenvolveu suas
atividades por 15 anos no HCS (de 1959 a 1974), aposentando-se por invalidez devido a
doença mental. Após a aposentadoria trabalhou como fiscal de obras municipal.
Atualmente, não exerce nenhuma atividade laborativa. De seus familiares, 20 trabalharam
ou ainda trabalham na instituição (dois irmãos, dois cunhados, quatro tios, quatro primos e
oito sobrinhos).
EF2: nasceu em 16/01/1933, tem 75 anos, casado, teve duas filhas, possui primeiro grau
incompleto, reside no bairro de Praia Comprida (São José - SC). Desenvolveu suas
atividades por 14 anos no HCS (de 1960 a 1974), aposentando-se por invalidez devido a
doença mental. Atualmente, não exerce nenhuma atividade laborativa. De seus familiares,
seis trabalharam ou ainda trabalham na instituição (um tio, um genro, e quatro primos).
GR1: nasceu em 12/05/1926, tem 82 anos, casado, teve 15 filhos, analfabeto, reside no
bairro de Colônia Santana (São José - SC). Desenvolveu suas atividades por 36 anos no
HCS (de 1944 a 1980), aposentando-se por tempo de serviço. Atualmente, não exerce
nenhuma atividade laborativa. De seus familiares, 20 trabalharam ou ainda trabalham na
instituição (seis filhos, dois irmãos, dois cunhados, dois tios, três sobrinhos, uma nora, três
genros, uma neta).
40
GR2: nasceu em 02/10/1940, tem 68 anos, viúvo, teve dois filhos, possui primeiro grau
completo e também fez o curso de auxiliar de enfermagem. Reside no bairro de Colônia
Santana (São José - SC). Desenvolveu suas atividades por 21 anos no HCS (de 1964 a
1985), aposentando-se por tempo de serviço. Atualmente trabalha no hospital de Custódia
do Estado de Santa Catarina. De seus familiares, nove trabalharam ou ainda trabalham na
instituição (a mãe, o padrasto, três primos, um sobrinho, um tio, dois cunhados).
VG1: nasceu em 08/08/1940, tem 68 anos, casada, teve cinco filhos, possui primeiro grau
incompleto. Reside no bairro de Colônia Santana (São José - SC). Desenvolveu suas
atividades por 32 anos no HCS (de 1953 a 1985), aposentando-se por tempo de serviço.
Atualmente, não exerce nenhuma atividade laborativa. De seus familiares, 14 trabalharam
ou ainda trabalham na instituição (o sogro, o marido, dois irmãos, três cunhados, três
primos, dois filhos, um genro e uma nora).
VG2: nasceu em 12/07/1935, tem 73 anos, viúva, teve dois filhos, possui primeiro grau
incompleto. Reside no bairro de Colônia Santana (São José - SC). Desenvolveu suas
atividades por 22 anos no HCS (de 1954 a 1976), aposentando-se por invalidez devido a
doença mental. Atualmente, não exerce nenhuma atividade laborativa. De seus familiares,
oito trabalharam ou ainda trabalham na instituição (um filho, uma nora, uma neta, dois
irmãos, três cunhados).
Para preservar o direito dos entrevistados e garantir que não sofressem
qualquer forma de exposição ou sujeição, foi fundamental estabelecer um clima de
confiança e cumplicidade com o entrevistador. O trabalho com história oral de
pessoas anônimas ocorre para “evitar a identificação pública de depoentes
importantes ou para evitar o constrangimento envolvendo terceiros [...] para não
expor a si ou a sua família”. (MEIHY, 2002, p.121).
Conforme Bosi (2006, p. 37) evidenciou, “não é preciso dizer que o motivo
da pesquisa foi explicado com toda a clareza aos sujeitos, e que ele sempre teve
autoridade sobre o registro de suas lembranças e consciência de sua obra”.
4.3 LOCAL DA PESQUISA
As entrevistas foram realizadas nas residências dos participantes, local
escolhido por eles para evitar que se deslocassem e por ser mais aconchegante.
Além das entrevistas, foram também coletados documentos no setor de recursos
humanos do IPq-SC, em seu acervo histórico na SES, no Arquivo Público do Estado
de Santa Catarina e na biblioteca da UFSC.
41
4.4 COLETA DE DADOS
A coleta de dados foi realizada com base nas entrevistas com os
participantes, por meio de um Roteiro de entrevista (Apêndice 1), produto este
caracterizado como fonte primária. Também foram utilizados outros documentos
originais, relatórios, fotografias, jornais da época e revistas.
No levantamento de dados, o investigador necessita distinguir as fontes
primárias das secundárias. As fontes primárias se caracterizam por serem
informações de primeira mão, como o primeiro registro de um invento, as palavras
de um declarante (entrevistas, discurso e outros). São os contatos mais diretos com
os acontecimentos ou situações históricas. As fontes secundárias são relatos de
segunda ou terceira mão de acontecimentos históricos, por exemplo as coletâneas,
as enciclopédias e outras obras. (PADILHA; BORENSTEIN, 2005).
4.5 TÉCNICA DE COLETA DE DADOS: A HISTÓRIA ORAL
A história oral foi utilizada nesta pesquisa para que os aposentados
pudessem historicizar o cotidiano vivenciado no HCS através de suas
reminiscências.
Alberti (2004, p. 17) assinala que a história oral pode ser “definida como
método de investigação científica, como fonte de pesquisa, ou ainda como técnica
de produção e tratamento de depoimentos gravados”. Portanto, pela importância e
relevância, abordarei um pouco a história oral, uma vez que esta permeia todo o
trabalho, constituindo-se na metodologia de pesquisa.
A história oral se ocupa em conhecer e aprofundar conhecimentos sobre
determinada realidade por meio de conversas com pessoas que focalizam
lembranças pessoais importantes em suas vidas. Possibilita ainda que indivíduos
pertencentes a segmentos sociais geralmente excluídos possam ser ouvidos e ter
registradas suas próprias visões de mundo e as do grupo social ao qual pertencem.
A história oral registra a experiência de uma só pessoa ou de diversas pessoas de
uma mesma coletividade que presenciaram, testemunharam, participaram de
42
acontecimentos, conjecturas, visões do mundo que se pretende investigar.
(ALBERTI, 2004).
A história oral se desenvolveu após a Segunda Guerra Mundial, devido aos
avanços tecnológicos (como o gravador) e ao imperativo de conhecer as
experiências vividas pelos soldados, familiares e vítimas da guerra, através dos
relatos orais. Em 1950, surgiram os primeiros historiadores nos Estados Unidos.
(REINALDO; SAEKI; REINALDO, 2003, p. 66).
Para Meihy (2002, p.89), no Brasil a moderna história oral iniciou de fato em
1979 e progrediu após 1983, embora houvesse surgido na década de 70.
Acrescenta que “somente depois de um amadurecimento que implicou aproximação
de diferentes tendências foi que se afinaram os debates capazes de promover
espaços coletivos para a combinação de opiniões”. Refere ainda que a expressão
história oral foi publicada pela primeira vez em 1977, como resultado da dissertação
de mestrado de Carlos Humberto Pederneiras Corrêa (UFSC), intitulada História
oral: teoria e técnica.
Ainda para o autor, a história oral é um “recurso moderno usado para
elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à vida social de
pessoas”. Assinala que é a “história do tempo presente e também conhecida por
história viva”. (MEIHY, 2002, p. 13).
A história oral se apresenta como forma de apreensão de experiências de
pessoas dispostas a falar sobre sua vida mantendo um acordo com o contexto
social. Sua base é o depoimento gravado, por isso é necessário que haja os três
elementos, que são: o entrevistador, o entrevistado e o gravador (MEIHY, 2002).
A principal característica da história oral é a postura com relação à história e
às configurações socioculturais que privilegia a recuperação do vivido conforme
concebido por quem o viveu. Nesse sentido não se pode pensar em história oral
sem biografia e memória. (ALBERTI, 2004, p.23).
Como fenômeno renovado, a partir do uso de entrevistas a história oral tem
aproximado pessoas e instituições preocupadas com aspectos importantes da vida
contemporânea. Para Meihy (2002, p. 32), trabalhos de história oral atentam
“registrar a trajetória das pessoas idosas e por meio delas recompor aspectos da
vida individual, do grupo em que estão inseridas ou da conjuntura que as acolhe”.
A história oral, utilizada como metodologia nesta pesquisa, possibilitou ao
entrevistado ser ouvido, abriu espaço na história para aqueles que não tiveram vez
43
sobre a sua própria história, através da memória.
4.5.1 A entrevista
Minayo (2004, p.108) refere que a entrevista é “conversa a dois, feita por
iniciativa do entrevistador, destinada a fornecer informações pertinentes para um
objeto de pesquisa, e entrada (pelo entrevistador) em temas igualmente pertinentes
com vistas a este objetivo”.
As vantagens da utilização de coleta de dados utilizando a técnica de
entrevistas semiestruturadas, de acordo com Boni e Quaresma (2005, p. 75), quase
sempre produzem uma melhor amostra da população de interesse. Essa técnica
serve para entrevistar pessoas que não sabem ler ou escrever, possibilitam a
correção de enganos dos informantes e é elástica quanto à duração, permitindo uma
cobertura mais profunda sobre determinados assuntos. A interação entre o
entrevistador e o entrevistado é favorecida.
Neste estudo, a coleta das fontes orais foi realizada a partir de entrevistas
semiestruturadas, com as pessoas consideradas importantes no processo. No inicio
de cada encontro, após explicar os objetivos do estudo e procedimentos
relacionados com a realização da entrevista, foi solicitado a assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice 2). Conforme preconiza a técnica de
história oral, foram respeitados os locais e horários disponíveis e de preferência do
entrevistado.
As entrevistas foram registradas em gravador digital, gravadas em CD-ROM
e duraram em média 90 minutos cada. Foram realizadas a transcrição, a
transcriação, e a categorização das falas de acordo com a ordem e quantidade de
aparecimento nas entrevistas. A cada fala que indicava uma possível categorização,
fui desenvolvendo uma marca de identificação, para posterior classificação.
A transcrição foi realizada de forma que as narrativas fossem totalmente
preservadas em seu conteúdo, incluindo os regionalismos e as características
fraseológicas. Meihy (2002, p.172) assinala que “o acervo fraseológico e a
caracterização vocabular de quem contou a história devem permanecer indicados”.
Essa fase foi um pouco complicada em razão do excesso de palavras mal
44
pronunciadas, em voz baixa, por vezes sussurradas entre pausas e silêncios.
Essa etapa foi sucedida pela transcriação, que compreendeu a textualização
do conteúdo transcrito, tendo o cuidado para que o significado de cada fala, aqui
também, não fosse modificado sob o risco de perder a originalidade. Nessa etapa,
utilizei as ferramentas gramaticais para que a redação se tornasse linear e a leitura
mais agradável e entendível. Assim, as informações ficaram mais compreensíveis,
possibilitando uma melhor organização.
A estratégia seguinte foi marcar um novo encontro com cada entrevistado
para fazer a conferência do texto, com o objetivo de que tomassem conhecimento do
conteúdo integral de suas falas. Nessa oportunidade, foi realizada a leitura do
conteúdo de cada entrevista e solicitada autorização desta, para uso e acervo do
GEHCES, o que foi validado com a assinatura dos entrevistados na Carta de
Cessão de Entrevista (Apêndice 3). Após essa fase, foi providenciado o arquivo
digital das entrevistas (CD-ROM).
À medida que as entrevistas foram sendo realizadas, pude observar que
alguns assuntos se repetiam, o que era um indicativo para finalizá-las. Assim,
conforme ressalta Alberti (2004, p. 37), “quando as entrevistas começam a ser tornar
repetitivas, continuar o trabalho significa aumentar o investimento enquanto o
retorno é reduzido já que se produz cada vez menos informação”.
Após essas etapas, as falas foram agrupadas de acordo com as
características similares encontradas nas entrevistas e foram classificadas e
identificadas com títulos que se ajustassem a essa classificação, e assim surgiram
as categorias. À medida que progredia o trabalho, outras categorias foram
aparecendo. No final havia seis categorias, conforme descritas abaixo:
1. O cenário
2. A política clientelista
3. A loucura como fonte de lucro e trabalho
4. Os saberes e fazeres dos trabalhadores
5. As relações entre os profissionais
6. A passagem da enfermagem laica para a profissional
45
4.6 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
Foi realizada a análise com base na teorização sobre memória de acordo
com estudiosos do tema, principalmente Bosi (2006). O conteúdo de cada entrevista
foi contextualizado com as fontes documentais e com o momento social, econômico,
político e cultural da época historicizada.
A análise de conteúdo ocorreu seguindo-se as orientações de Bardin (2004)
e Minayo (2004), estabelecida em três fases. A primeira correspondeu à pré-análise,
que consistiu na organização das categorias propriamente ditas, visando torná-las
mais funcionais e sistematizar as ideias iniciais. A segunda fase, a mais cansativa,
foi a exploração de todo o material, seguida da terceira etapa, a qual consistiu no
tratamento e interpretação dos resultados obtidos, com base no referencial sobre
memória. Assim, os dados “brutos” foram tratados de maneira a serem significativos
e válidos. (BARDIN, 2004; MINAYO, 2004, p.104). Foi na terceira fase que muitas
das categorias mudaram a titulação inicial para que melhor representassem o
conteúdo nela incluído.
4.7 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS
Este estudo foi norteado pela portaria n. 196/96 do Conselho Nacional de
Saúde (1996), que dispõe sobre “Diretrizes e Normas” da pesquisa com seres
humanos, especialmente no que diz respeito ao consentimento livre e esclarecido, e
assegura o cumprimento dos aspectos éticos.
Como este trabalho foi realizado com pessoas além de outras fontes,
cuidados especiais foram observados na realização dos contatos, como acerto
prévio dos encontros (horário e local) e explicitação dos objetivos do estudo.
Os sujeitos que concordaram em participar da pesquisa, assinaram o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido e a carta de Cessão de Entrevista, conforme a
resolução n. 196/96, de 10 de outubro de 1996, que trata das pesquisas que
envolvem seres humanos.
Segundo Polit e Hungler (2004), a análise dos aspectos éticos de uma
46
pesquisa é desejável e, em vários casos, exigida pela instituição em que será
conduzida. Esta pesquisa só foi realizada após a aprovação do projeto no Comitê de
Ética do IPq-SC, em 8 de julho de 2008 (Anexo 1) e, posteriormente submetido ao
Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFSC, sendo aprovado com
o parecer consubstanciado no projeto nº. 182/0, no dia 28 de julho de 2008 com
base no CONEP/ANVS – Resoluções 196/96 e 251/97 do Conselho Nacional de
Saúde do MS (Anexos 2 e 3).
47
5 REMINISCÊNCIAS DA ENFERMAGEM PRÉ-PROFISSIONAL NO HOSPITAL
COLÔNIA SANT’ANA
Neste capítulo apresento os resultados obtidos na pesquisa realizada com
os trabalhadores aposentados da enfermagem no HCS de 1951 a 1971,
estabelecendo uma análise reflexiva de suas falas.
Através de seus relatos passei a percorrer virtualmente os caminhos
profissionais que os depoentes trilharam. Essa “viagem” me auxiliou a compreender
suas experiências e escolhas pessoais e profissionais, a identificar suas
dificuldades, conflitos e satisfações em suas vivências.
Sem me preocupar em narrar uma história linear do HCS, busquei desvelar
o contexto histórico, social, político, econômico e laboral dos sujeitos da pesquisa,
dentro do cenário e do período a serem historicizados. Não procurei narrar uma
história simplesmente, mas relacionar e comparar as falas dos depoentes entre si,
analisá-las com base no referencial sobre memória e trazer à tona parte da história
ainda não contada, das práticas da enfermagem laica do HCS.
A análise das narrativas dos entrevistados possibilitou-me explorar diversos
aspectos dos processos de trabalho individual e coletivo, e perceber como se deu a
construção de seus saberes e fazeres profissionais e pessoais no cotidiano. Seus
relatos foram carregados de emoção e se constituíram em importantes fontes, as
quais, juntamente com outras fontes orais, documentais e iconográficas
27
, foram
organizadas e agrupadas em seis (6) categorias de acordo com as informações das
quais derivaram seus títulos e subtítulos.
5.1 O CENÁRIO
A história do HCS, já contextualizada anteriormente, demonstrou que sua
construção foi resultado da política eugenista em Santa Catarina, a partir das
primeiras décadas do século XX.
Inaugurado no final do ano de 1941, o HCS iniciou suas atividades somente
27
As figuras contidas nesta pesquisa são do acervo do IPq/SC. (NOTA DA AUTORA)
48
em janeiro de 1942. Os primeiros pacientes chegaram juntamente com as Irmãs da
Divina Providência, provenientes das cidades de Brusque e Joinville-SC. (BENOSKI,
2002).
Figura 1: Vista parcial do HCS em 1945
Figura 2: Vista parcial da capela do HCS em
1949.
Autores como Piai (1997), Melo (2002) e Borenstein et al (2004) assinalam a
importância do papel das irmãs desde o início das atividades no HCS. Segundo
esses autores, estas vieram para atuar junto à administração da instituição, a pedido
do governador Nereu Ramos.
A inauguração do HCS foi um fato marcante para a sociedade catarinense e
foi noticiada nos meios de comunicação da época, como o jornal A Gazeta, do qual
foi extraído o texto abaixo
[...] Somente ao espírito de um predestinado poderá se atribuir a
grandiosidade dos monumentos que têm surgido e se apresentam
como marcos perenes duma época de realizações transcendentais,
que não se encontra similar na história de nossa terra. [...]. (A
GAZETA, 1941).
49
Figura 3: Inauguração do HCS em 1941.
Figura 4: Jornal A GAZETA de 1941.
Estiveram na inauguração o presidente do Brasil na época, Getúlio Vargas, o
governador do Estado de Santa Catarina, Nereu Ramos, e o Dr. Agripa de Castro
Faria, médico e diretor do HCS. Pela importância da solenidade, compareceram
também diversas autoridades com suas esposas e pessoas da elite social.
Em seu depoimento, GR1 fala da chegada dos primeiros pacientes ao HCS
e da expectativa dos moradores locais:
O premero ônibus que veio de Brusque pra cá, era num
domingo.Todo mundo tava ali,nós vinha da igreja, quando acabo a
missa e fiquemo esperando. Dali a pouco mais, elis chegaro. Ficamo
apavorado, com medo. Tinha gente qui dizia né: a colônia se acabo,
acabo com o luga aqui. Mas qui nada, o lugá cresceu. Inté aí, só
tinha moradô parente do falecido Balduíno, do falecido Irineu e do
meu pai, é que era o mais velho daqui. Adispois encheu di gente.
Esse entrevistado atualmente tem 82 anos, apresenta aspecto físico frágil,
expressão serena e voz terna. Encantou-me a delicadeza de seu depoimento e a
riqueza de detalhes no conteúdo de suas falas, o que me fez retomar Bosi (2006, p.
39):
Quando a memória amadurece e se extravasa lúcida, é através de
um corpo alquebrado: espinha torta, coração acelerado, dentes
falhos, urina solta, a cegueira, a ânsia, a surdez, as cicatrizes, a íris
apagada, as lágrimas incoercíveis. Se as lembranças às vezes
afloram ou emergem, quase sempre são uma tarefa, uma paciente
reconstituição.
50
O HCS foi propositalmente construído em área rural, na localidade de
Maroim, município de São José, distante de Florianópolis (capital do Estado de
Santa Catarina) aproximadamente 27 km
28
. Segundo discurso de seus idealizadores
o local tinha um estilo sóbrio e agradável, bem como uma paisagem encantadora.
(FONTOURA, 1997).
Sua edificação seguiu os parâmetros arquitetônicos de outros hospícios
brasileiros, baseado no sistema pavilhonar, interligando pavilhões por meio de
corredores, os quais possuíam pátios em suas laterais, conforme descreve Fontoura
(1997), e pode ser visualizado na figura a seguir.
Figura 5: Área externa de pavilhões (enfermarias) do HCS em 1941.
As reminiscências dos entrevistados em relação ao cenário do hospital se
concentram mais na área das enfermarias. Referiram que o piso era de madeira e
encerado, as janelas e portas, também de madeira, eram pintadas de verde.
Falaram do aspecto das enfermarias superlotadas e do cenário desesperador
encontrado pela manhã,
conforme narrativa de VG2:
Di manhã quando a gente chegava, tinha que tirá todos os pacientes
prá fora. Eles ficavu no pátio, na sombrinha durante o dia. Nós tinha
que jogá água em toda a enfermaria prá limpá, Era cocô prá tudo que
era lado. Era um mau chero horrivi.
28
Em razão da melhoria do transporte e com a construção de nova estrada de acesso no início da
década de 80, a distância foi encurtada em aproximadamente 5 km. Para a época, os 27 km de
distância representavam grande barreira para chegada ao HCS, pois a estrada era de chão, estreita,
com muitas curvas por entre morros. (NOTA DA AUTORA).
51
Quanto aos outros espaços do hospital, os entrevistados citam algumas
áreas como refeitório, lavanderia, celas, sem no entanto descrever detalhes. Esse
fato provavelmente deve estar vinculado ao tempo de permanência desses
trabalhadores dentro das enfermarias, seus espaços de trabalho.
No período de construção observa-se que houve uma preocupação dos
projetistas com o grau de periculosidade que alguns pacientes pudessem oferecer.
Segundo depoimentos dos entrevistados, os pacientes agitados, agressivos e os
criminosos eram colocados em celas:
Aquele tempo a gente cuidava de criminosa. Tinha deis celas e
naquelas celas ficava as criminosas mais agitada. Pra limpa as celas
só depois delas tá dormindo. A comida era por baxo da porta numa
abertura, nóis não entrava. Era chamado os guarda pra entra lá e dá
os remédio (VG1).
Em 1942, o governador Nereu Ramos apresentou um relatório ao presidente
da República descrevendo a estrutura da instituição composta de “cinco pavilhões
para ambos os sexos, com instalações modernas de raios–x, laboratório, gabinete
dentário, serviço de oto-rino-laringológico, bloco cirúrgico, serviço de balneoterapia e
de identificação”. (RAMOS, 1942, p.7).
Arejano e Padilha (2005, p.78-82) enfatizaram que esse foi o tipo padrão de
construção para os asilos psiquiátricos da década de 40, com modalidade hospitalar
moderna, autossuficiente, eficiente e menos dispendiosa. Esse novo modelo
atendia:
[...] plenamente aos objetivos terapêuticos e econômicos propostos
por seus idealizadores, possibilitando a cura dos doentes pelo
trabalho agropecuário e em pequenas oficinas. Essa proposta
resolve os impasses da assistência psiquiátrica da época: o número
crescente de internações e os gastos do Estado [...].
Após um ano de funcionamento, o governador Nereu Ramos enviou novo
relatório ao presidente da República destacando a eficiência do manicômio como um
“modelar estabelecimento destinado ao recolhimento e tratamento dos psicopatas”,
e que “dia a dia vai aperfeiçoando seus serviços e completando suas instalações”.
(RAMOS, 1944, p.84-85). Destacou ainda o aumento do espaço físico da instituição,
com a construção de dois novos pátios, galpão para tecelagem, pocilga, aviário,
necrotério, sala de autópsia. Informou também sobre o plano de construção de um
52
matadouro de gado com o objetivo de produção e abastecimento do HCS e de
outros hospitais do Estado. (MELO, 2002).
Figura 6: Entrada principal do HCS em 1941.
Os pacientes, inicialmente, eram internados em enfermarias situadas em
duas alas: uma feminina e outra masculina, separadas por um corredor central de
acesso à parte interna do hospital. Até o final da década de 60, já existiam quinze
enfermarias para internação, que possuíam de 60 a 120 leitos, mas acomodavam
um número sempre superior de pacientes.
No pátio de cada ala, havia uma construção coberta e aberta, com uma
coluna central, denominada “sombrinha”. Borenstein et al (2004, p. 73) se referem a
essa estrutura como um local que:
possuía uma forma arredondada, feito de concreto, com cobertura de
telhas e bancos a sua volta, não havia porta. Os pacientes
costumavam realizar voltas circulares, por tempo indeterminado.
Permaneciam neste local, por longos períodos. Um local que não
proporcionava nenhuma ajuda terapêutica, ao contrário, mantinha-os
isolados, dentro de seu próprio mundo, proporcionando a
manutenção do seu quadro psiquiátrico.
53
Figura 7: Sombrinha masculina do HCS em 1965.
Em 1948 foi inaugurado um pavilhão destinado aos pacientes agitados, e
iniciadas outras obras, como as casas para engenho de farinha, usina de açúcar,
armazém e refeitório para os funcionários. (MELO, 2002).
Figura 8: Refeitório dos funcionários do HCS em 1941.
Na mensagem apresentada à Assembleia Legislativa, o governador em
exercício, José Boabaid
29
, refere que durante o ano de 1948 o poder público não
cessou de atender aos pedidos da direção do HCS, aumentando progressivamente
suas instalações para abrigar cada vez mais pacientes. (BOABAID, 1949, p. 28).
29
Vice-governador de Santa Catarina no período de 1947 a 1951.
54
No início da década de 50, conforme já enfatizado anteriormente, o discurso
psiquiátrico defendia a internação como o melhor recurso para tratamento de doença
mental, tendo como consequência imediata o aumento do número de internos e dos
gastos hospitalares, além de sucessivas adaptações do espaço físico. Naquela
época foram construídos novos pavilhões e contratados mais funcionários, entre
eles quatro médicos (um psiquiatra, um tisiologista, um cirurgião e um clínico).
Houve aumento do número de leitos, além de reformas administrativas e nos
fichários dos pacientes. (SERRANO, 1998).
O hospital seguiu seu curso, sendo sempre preparado para receber mais
internos, o que determinava os pedidos sucessivos de investimentos por parte do
Estado. Em 1957, o HCS já possuía capacidade para 550 leitos e o número de
pacientes estava acima de 800. (BENOSKI, 2002).
Figura 9: Enfermaria com beliches no HCS em 1969.
A preocupação dos diretores em justificar os investimentos realizados pode
ser observada em várias mensagens apresentadas à Assembleia Legislativa, ricas
em detalhes, como a que foi encaminhada pelo governador Ivo Silveira
30
. Este relata
que no ano de 1969 foram realizadas diversas reformas nos pavilhões e adquiridos
utensílios para a cozinha, 300 beliches, máquinas de escrever e calcular, e um
automóvel da marca Corcel Standart. (BENOSKI, 2002).
Em 1968, a instituição já figurava entre os hospícios nacionais que possuíam
30
Governador de Santa Catarina de 1966 a 1971.
55
os “chamados leitos-chão”
31.
Em 1970, o HCS tinha 2200 internos em precárias
condições assistenciais. (SERRANO, 1998, p. 11). Fontoura (1997) também registra
que no transcorrer dessa década aumentou consideravelmente o número de
internos no hospital, repercutindo catastroficamente na infraestrutura, nas
acomodações, na higiene dos pacientes e na atenção médica.
VG1, um dos mais jovens dos entrevistados, trabalhou na instituição até
1985 e referiu que no início da década de 70 o HCS tinha dobrado seu espaço físico,
que havia sempre obras em andamento e que o número de pacientes aumentou
consideravelmente.
Lá por volta de 1970 mais ou menos, a colônia tava muito maior do
que quando eu entrei. Tinha enfermaria e paciente prá tudo que é
lado. Só se falava em aumentá prá cá, aumentá prá lá...
Provavelmente VG1 não compreendia que o fato relatado era resultado da
implementação de uma política nacional que foi seguida criteriosamente pelos
médicos e governantes catarinenses, e sua fala inocente corrobora com a literatura.
No acervo do IPq-SC, conservado por interesse dos enfermeiros,
encontram-se muitas fotos do cenário do HCS, a maioria sem a identificação da
época e do local fotografado.
De acordo com Melo (2004, p. 5) o HCS, em menos de dez anos de
existência, transformou-se em um “constante canteiro de obras”. Essa observação
também foi evidenciada por outros autores como Teixeira (1993) e Santos (1994)
quando descreveram as sucessivas obras e inaugurações de novos pavilhões para
receber cada vez mais pacientes.
O aumento constante da demanda de pessoas para internação psiquiátrica,
assunto já explorado neste estudo, foi resultado de várias políticas implantadas
desde a década de 40 até o final da década de 70, deixando marcas tristes na
assistência psiquiátrica em Santa Catarina. Esse cenário começa a se transformar a
partir da década de 80 do século XX, com os movimentos em prol de uma reforma
na assistência psiquiátrica.
31
As pessoas eram internadas sem a disponibilidade de vaga, sendo acomodadas em colchões no
chão, quando disponível. Eram os chamados “leitos-chão”. Infelizmente, na atualidade devido à
diminuição do número de leitos para internação sem a devida oferta de trabalhos substitutivos na
mesma proporção, o IPq-SC ainda utiliza esse dispositivo, internando pacientes além de sua
capacidade.
56
5.2 A POLÍTICA CLIENTELISTA
Devido à grande distância dos centros urbanos de referência na época –
Florianópolis, no projeto de construção do HCS foi prevista a construção de casa
para o diretor, o administrador, religiosos, médicos e outros funcionários. Até mesmo
alojamento para as mulheres solteiras (casa das moças) procedentes de outras
regiões havia no projeto. Alguns funcionários eram beneficiados com lotes de terra
do Estado para construírem suas casas, criando dessa forma, segundo Silva (2001,
p. 39), uma “relação histórica clientelista, um certo jogo de compadrio”. Compreendo
essa expressão como a concessão de favorecimentos prestados aos funcionários
como prêmio para trabalhar com os doentes e a loucura.
A política clientelista adotada pelo governo catarinense incluía ainda as
despesas referentes ao pagamento de contas de luz e de água das residências dos
funcionários, o que estimulava as pessoas a ir trabalhar e morar nessa comunidade,
que logo ficou formada em sua grande maioria por pessoas que trabalhavam no
hospital e seus descendentes.
A fala de EF1 mostra claramente essa condição:
A casa da frente do hospitau era do diretô, e a casa de tras era do
administradô. E lá trás, tudo era roça. Na frente da casa do
administradô tinha um laranjau, O cara ia chamá ele de noite prum
negócio urgente, e já trazia um saco de laranja. As veis nem ia lá pra
chamá ele por necessidade, era só pra trazê laranja. Depois mais
tarde, os otros funcionáro invadiro e começaro a fazê casa pra eles
também. Era quase tudo filho di funcionáro que depois continuavo
trabalhando. Naquela época, ninguém pagava água, nem luz. Saía
tudo por conta do hospitau. Depois que a Fundação entrô, é que foi
se acabando aos pouco. Aí depois eu saí do hospitau.
Figura 10: Casa do diretor, administrador, religiosas, moças e trabalhadores do HCS em 1942.
57
Essa política na maioria das vezes favorecia a empregabilidade dos amigos,
parentes e amigos dos amigos dos políticos locais, independentemente de terem ou
não qualificação para o trabalho. Para as funções de vigia e para as atividades de
enfermagem, por exemplo, não era exigida nenhuma formação específica ou nível
de escolaridade, mas sim a vinculação política partidária ou o apadrinhamento. Para
ocupar o cargo de diretor e desempenhar as atividades de médico, era exigida do
profissional a formação específica, além da vinculação política. Já o cargo de
administrador era somente um cargo político.
GR2 fala da dificuldade em conseguir pessoas qualificadas que aceitassem
trabalhar no HCS:
Naquela época, pra achá um médico psiquiatra pra vi pra qui era
difícil. Aí, eles davo tudo, condução, casa pra morá, alimentação.
Eles davo tudo pro médico vi pra cá trabalha, se não, não vinhu. Aqui
era interio, na época. Então o médico não queria ficá aqui. Aí depois,
começo a vi mais médico, aí, tinha uma Kombi que pegava eles lá no
centro e trazia eles pra cá.
Conforme destacado, as condições administrativas e clientelistas do trabalho
favoreciam a contratação e a permanência dos funcionários, em especial dos
trabalhadores de enfermagem. Porém, certamente o trabalho mal remunerado e as
condições precárias existentes não estimulariam sua permanência se não houvesse
outras vantagens, conforme evidenciam os relatos dos entrevistados a seguir:
Em mil novecentos e sessenta e quatro, o salário era precário. Eu
trabalhava lá no centro, na construção civil, e vim pra cá, mesmo
ganhando menos, porque era vantage aqui. Porque a gente
trabalhava o méis, pudia chove, ventá, mas recebia e tinha folga
(GR2).
Ah! Era muito ruim, credo a gente fazio tanta coisa. A gente gostava
porque a gente tinha que trabalhá, mas, que era difícil era, trabalhá
com doente, como nóis trabalhava, com doente criminosa. As
condições pra mim era péssima (VG1).
Ah, era brabu, era muito selviço, muitos não guentavo, nóis não
paravo. Lá era vinte e quatro por vinte e quatro hora, depois passô
pra trabaiá noite sim, noite não (GR1).
Embora tenha realizado busca na documentação existente, nenhum
documento que comprovasse os depoimentos acima (como escala de serviço ou
58
comprovante de pagamento, por exemplo) foi encontrado. Mas a veracidade dos
narradores não se constituiu em uma preocupação, pois, conforme assinalou Bosi
(2006, p. 37), o “interesse está no que foi lembrado, no que foi escolhido para
perpetuar a história de sua vida”.
Se por um lado os políticos protegiam principalmente os filiados partidários,
não pertencer a esse grupo significava ser perseguido e até excluído, conforme
pode ser compreendido nas palavras dos trabalhadores que vivenciaram tais
situações, como EF1:
Depois que teve a eleição do Celso Ramos
32
, o hospitau era UDN e
PSD. Eu era do PSD! Meu pai e eu ia lá votá naquele primeiro ano
pru Celso Ramo. Eu fui perseguido pelo partido da UDN porque era
eles que mandava. Eu era pra sê chamado na primeira turma, eu já
tava trabalhando oito meses lá dentro como voluntário. Eu já tava
fazendo tudo. Meu serviço tava sendo perfeito e por causa da política
eu fui passado pra trás. Não me anomearo. Eu fui anomeado depois
que o Celso Ramo ganho a eleição. Eu tinha votado pro Celso
Ramos, ele ganho, aí eu entrei [risos].
A memória desse acontecimento político narrado por EF1 evidencia o jogo
cotidiano travado pelos entrevistados, no contexto de uma política de
favorecimentos, ou de perseguição. O entrevistado fala com certa indignação,
característica de quem se sentiu prejudicado. Bosi (2006, p. 453) refere que na:
memória política, os juízos de valor intervém [sic] com mais
insistência. O sujeito não se contenta em narrar como testemunha
histórica “neutra”. Ele quer também julgar, marcando bem o lado em
que estava naquela altura da história, e reafirmando sua posição.
As falas evidenciam que as causas que levaram os entrevistados a exercer
atividades no HCS foram motivadas pela necessidade pessoal e pela pobreza
familiar, e não por vocação. Todos tiveram seus contratos efetivados com base nos
critérios políticos, e o trabalho no hospital representava uma excelente oportunidade
de .emprego e garantia de estabilidade de vida.
O processo de admissão dos funcionários não era formal, isto é, não havia
concurso público. Normalmente, as pessoas iniciavam como voluntárias e assim
permaneciam por algum tempo, sem receberem nenhuma remuneração até que
32
Governador de Santa Catarina de 1961 a 1966.
59
fossem nomeadas
33
.
Meu pai era lavradô e naquela época a situação era ruim. Fui então
obrigado a me virar por fora. Uns amigo meu me indicaro pra i pra lá,
trabalhá como voluntário. Depois de um ano de trabalho voluntário, a
gente conseguia a vaga. Depois fui nomeado pelo Estado (EF1).
No tempo do dotô Shereda, ele disse pra mim fica trabalhando dois
meses pra vê se podia passá ou não. Aí, quando chegô os dois
meses ele disse: o senhor pode i lá faze os documento qui tá
aprovado.Mas quem falou com ele foi um tio da minha senhora. Ele
conseguiu porque ele era político lá em Angelina (EF2).
O meu padrasto era envolvido em política, aí o vereadô, conseguiu
uma vaga pra mim, aí o meu padrasto fez com que eu viesse aqui
pro hospital (GR2).
Quanto à contratação de mulheres para trabalhar no HCS, era exigido, além
do fator político-partidário, que fossem solteiras. Após o casamento, dificilmente
poderiam continuar a trabalhar, e eram orientadas pelas freiras a pedir demissão
caso optassem pelo casamento. As entrevistadas referiram que essa condição
imposta não era do conhecimento dos diretores, e sim uma exigência das freiras.
Figura 11: Vigilantes do HCS em 1962.
Uma das entrevistadas relatou que, independentemente dessa exigência,
muitas mulheres se casaram e permaneceram trabalhando graças à influência
33
Ser nomeado significava ter sua contratação efetivada pelo Estado. Era um ato do governo do
Estado oficializado e publicado em portaria. (NOTA DA AUTORA).
60
política, porém outras não “protegidas” tiveram de sair.
Naquela época, a moça soltera que fosse casá, as freras diziu qui
era obrigadu a pedi demissão, por isso, eu não falei pra ninguém que
ia casá. Premero falei com um político que era amigo do diretô, pra
eu não saí. Eu fiquei trabalhando depois de casada mais as freras
não quiriu, elas não gostavo não (VG2).
Dessa forma, muitas mulheres casaram na comunidade e ali tiveram seus
filhos, os quais à medida que cresciam também iam trabalhar no HCS, passando o
ofício de geração em geração, como uma herança familiar. Ainda nos dias atuais,
essa característica se mantém e repercute na assistência de forma direta, uma vez
que tudo relacionado ao cotidiano familiar – como conflitos, festas, nascimentos,
mortes e outros eventos – intervém no dia-a-dia do trabalho, e vice-versa.
Dos seis entrevistados, foram identificados 65 parentes que também foram
ou ainda são trabalhadores da instituição. Para exemplificar, VG1 teve o sogro, o
marido, dois irmãos, dois cunhados, uma cunhada e três primos que já trabalharam
no hospital e lá se aposentaram na mesma época. Atualmente trabalham ainda dois
filhos, um genro e uma nora.
O fato de os descendentes e agregados da família dos entrevistados
trabalharem no HCS é relatado por eles como um desejo, uma dádiva e orgulho. O
desejo das pessoas que moram no bairro Colônia Santana para trabalhar na
instituição ainda é muito forte. O trabalho faz parte de suas histórias, e é comum ser
tema das conversas no seio familiar, abordando o hospital e os pacientes. Segundo
Bosi (2006, p. 423):
[...] as lembranças do grupo doméstico persistem matizadas em cada
um de seus membros e constituem uma memória ao mesmo tempo
una e diferenciada. Trocando opiniões, dialogando sobre tudo, suas
lembranças guardam vínculos difíceis de separar.
A relação próxima das famílias residentes, no entanto, não contribuiu para a
compreensão e aceitação do doente como parte integrante da comunidade. O
convívio é limitado aos cumprimentos e pequenas doações feitas aos pacientes nos
muros de suas casas. Mesmo os pacientes que hoje moram na comunidade em
residenciais terapêuticos são discriminados, às vezes de forma declarada e outras
veladas. Um exemplo da forma declarada de preconceito em relação ao doente
61
mental é o cemitério local, que é dividido em duas partes. Os pacientes moradores
que morrem no hospital e cujas famílias inexistem ou não se responsabilizam pelo
encaminhamento do corpo são enterrados no cemitério do bairro, porém em uma
área distinta do local destinado às pessoas da comunidade. Existe a cultura local de
não permitir que os pacientes do hospital sejam enterrados na área destinada à
comunidade e vice-versa.
Os pacientes manifestam alegria ao serem reconhecidos e cumprimentados
pelas pessoas da comunidade que conhecem há longa data. São tratados na
maioria das vezes com cordialidade, são presenteados com um cafezinho oferecido
no portão ou no quintal da casa, cigarro ou alguma guloseima. Essa forma de
convivência também tem suas raízes históricas, e foi verbalizada por um dos
entrevistados ao se referir ao programa hetero-familiar implantado durante um tempo
no hospital:
Nóis levava elis pra nossa casa, elis trabaiavam um poquinho,
fumava um cigarrinho, noís dava comida pra elis. Elis gostava de sair
do hospitáu e fica fora trabaiando.Elis ficavu agradecido e melhoravu
da doença. (VG2).
Os vínculos entre as diversas famílias da comunidade também se
fortaleceram por causa do trabalho, pois muitos iniciaram seus relacionamentos
amorosos no hospital, formaram suas famílias, as quais se entrecruzaram por meio
de seus descendentes. Embora as famílias fossem mais numerosas, o fato de
trabalharem no mesmo local ampliava ainda mais as relações familiares. Os filhos
dos amigos passavam a ser como sobrinhos, e as relações tornavam-se mais
intensas.
Os entrevistados reconhecem que a política da época fazia com que o
trabalho no HCS fosse almejado, pois o salário, mesmo sendo baixo, possibilitava
uma vida tranquila, pois não precisavam gastar com muitas coisas, como pagamento
de contas públicas, alimentação, aluguel, entre outros.
Dessa forma se observa como uma política de saúde implementada numa
sociedade determina o modo de vida das pessoas, favorece a formação de
aglomerados residenciais, determina uma forma de sobrevivência, contribui para o
desenvolvimento de uma cultura local com mitos e preconceitos que vão sendo
transmitidos de geração em geração, deixando seus reflexos durante anos.
62
5.3 A LOUCURA COMO FONTE DE LUCRO E TRABALHO
O estudo da história do HCS não é somente parte da história da assistência
psiquiátrica em Santa Catarina. Representa também parte da história de outras
instituições de saúde mais antigas do Estado, do desenvolvimento do bairro Colônia
Santana, de seus moradores, dos psiquiatras e da política local. Não há como negar
que a mão-de-obra dos loucos está intimamente ligada a essa questão, pois seus
trabalhos renderam lucro aos cofres públicos.
Assim como outros hospitais colônias do Brasil, o HCS foi construído para
ser uma instituição autossuficiente. Neste, a produção advinda dos trabalhos
implementados como laborterapia, e mantidos à custa de poucos trabalhadores e
muitos pacientes, foi tão positiva que sustentava não somente o complexo
psiquiátrico, como também outras instituições do Estado.
De acordo com GR1:
Era déis, vinte, trinta pacienti com os zotro empregado Os
empregado só comandavu os serviço. Os pacienti trabalhavu em
tudo. Era na horta, olaria, criação de abeia, curral dos porco, criação
de gado, carneiro, vaca de leite, lenha, mandioca, cana, moinho de
trigo, de milho, torrava café, moia ,era também na oficina de móvis.
Eles fazia farinha, dava uns 500 sacos de farinha por ano. Eles
levavo um poco de farinha pro hospital de Santa Teresa, pra eles
comê, pro hospital Nereu Ramo, tudo com trabalho dos pacienti
.
Para Santos (1994, p. 94) essa concepção da “loucura como fonte de lucro e
trabalho” levou ao aumento do número de internos, que teve como principal causa “o
fato do louco ter sido considerado fonte de lucro pela iniciativa privada”,
influenciando sobremaneira as políticas de saúde mental em nível nacional. O autor
reitera essa observação afirmando que:
A política de construção de hospícios - colônias, assim como o
trabalho como forma de tratamento, não foi adotada apenas como
alternativa de tratamento e nem unicamente como alternativa para
diminuir os gastos do Estado. Esta política foi incrementada
justamente por ir ao encontro dos interesses do incipiente capitalismo
brasileiro, que necessitava cada vez mais de mão de obra. Era
preciso que todos trabalhassem inclusive os doentes mentais.
(SANTOS, 1994, p. 33).
63
Em 1956, o governador Irineu Bornhausen
34
encaminha uma mensagem à
Assembleia Legislativa, referente ao exercício de 1955, demonstrando a produção
de diversos setores do HCS que, além de suprirem as necessidades da instituição,
geraram “lucro aos cofres públicos, com a quantia de Cr$ 659.176,90”.
(BORNHAUSEN, 1956), o que comprova a autossuficiência e inclusive o superávit
da instituição.
O constante aumento de internos e as verbas pagas pelo Estado destinadas
à manutenção do complexo asilar garantiam a lucratividade da instituição, bastante
reforçada pela mão-de-obra dos trabalhadores mal remunerados e, principalmente,
pela mão-de-obra explorada e gratuita dos pacientes, como pode ser compreendido
de acordo com o depoimento abaixo:
Os paciente é que fazio a maioria das coisas. Eles fazio tudo e o
funcionário comandava, só ficava administrando. Cada funcionáro
tinha uma equipe. Cortavu a lenha pra cozinha, pra lavanderia.
Quando eu entrei no hospital tinha dois mil e quinhentos pacientes
mais ou menos e tinha mais de trezentos pacientes ou mais que
trabalhavo. Os funcionáro pegava os paciente na sombrinha e levava
lá pro morro, trabalha de foice e machado, corta lenha, e eles fazio
questão de trabalhá. Acho que era menos sofrimento prá eles ficá
trabalhando de que tá lá na sombrinha (GR2).
O trabalho, de certa forma, acompanhava a concepção social, haja vista que
as atividades de roça e outras braçais eram destinadas aos pacientes homens,
enquanto as pacientes mulheres, acompanhadas de funcionárias, desenvolviam
atividades mais domésticas, como exemplifica VG1:
Algumas mulheres ia prá costura quando tavo bem. Outras ajudava
um pouco na lavação, na faxina. Elas ia lá com a gente lá na frente,
todas ajudavu. Elas ajudavu a amarrá uma doente pra faze insulina,
choque, tudo isso. Aquela que tava bem boa, trabalhava, elas
mesmo quiriu e os médico mandavo que elas fizesse, porque era até
bom pra elas, pra melhorá
.
A cultura da exploração da mão-de-obra do doente mental como parte do
tratamento era indiscutivelmente uma visão da psiquiatria e de seus trabalhadores, e
ainda permanece na memória social dos funcionários, passando de geração em
geração. Hoje ainda é comum no serviço de enfermagem do IPq-SC a existência de
34
Governador de Santa Catarina no período de 1951 a 1956.
64
uma falsa crença de que o doente mental internado pode ter seu processo de
melhora acelerado se for capaz de desenvolver tarefas dentro da instituição, como a
limpeza dos sanitários da enfermaria, considerada por muitos uma atividade inferior.
Pode-se observar que na história da psiquiatria muitos lucraram em curto
prazo. Os trabalhadores do HCS, em vários níveis, tiveram, além do emprego e da
estabilidade, garantias e gratificações que extrapolavam o mero contrato trabalhista.
Ganharam terreno e casa, recebiam parte da produção agrária, tinham assistência
médica, entre outros benefícios. A cultura de exploração da mão-de-obra do “louco”
era uma prática aceita sem questionamento. Em contrapartida o doente era
recompensado com fumo e autorização para circular na área externa do hospital.
Ao longo da história, o surgimento dos hospitais psiquiátricos demonstrou
que, longe de trazer a cura aos doentes, estes serviram de depósitos de pessoas e
se constituíram em fonte de lucro. Ator importante no processo da Reforma
Psiquiátrica Brasileira e autor de vários livros, Paulo Amarante evidencia em suas
obras que o hospital psiquiátrico tal como foi concebido em nada contribuiu para a
recuperação do paciente ou sua reintegração social. A instituição assumiu
características exclusivamente asilares, o doente transformou-se em mercadoria e a
sua doença em fonte de lucro. (AMARANTE, 2003).
5.4 OS SABERES E FAZERES DOS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM
Nesta categoria é identificada a forma de ingresso dos trabalhadores no
hospital e na enfermagem, as atividades que exerciam e as condições de trabalho.
Por apresentar muitas peculiaridades e aspectos a serem retratados, esta foi
organizada em três (3) subcategorias.
No início da década de 50 do século XX, acontece uma ampliação no HCS,
com a construção de novas alas e a contratação de mais trabalhadores para atender
o maior número de internos. Nessa época, foram contratados 24 vigilantes e 8
“enfermeiros”, que juntamente com as religiosas formavam o quadro de
trabalhadores da enfermagem. Santos (1994) refere que as religiosas eram em
maior número, seguidas pelos vigilantes.
Embora as Irmãs da Congregação da Divina Providência fossem
65
responsáveis por vários serviços e setores no HCS, como cozinha, costura,
lavanderia, sala de raios-x, farmácia e enfermagem, o enfoque dado pelos sujeitos
deste estudo foi a atuação das irmãs como supervisoras, fiscalizadoras, pessoas
que atuavam mais como administradoras do cuidado, dando maior ênfase à punição
e controle das atividades desempenhadas pelos demais trabalhadores de
enfermagem.
Figura 12: Irmãs da Divina Providência e trabalhadores do HCS em 1958.
5. 4.1 O ingresso e aprendizado dos trabalhadores de enfermagem
Geralmente os trabalhadores, para serem contratados, passavam por um
período como voluntários em vários setores da instituição. Porém, quando havia
urgência na contratação ou apadrinhamento político, eram imediatamente admitidos
em um determinado setor.
EF2 iniciou suas atividades como “enfermeiro”:
Eu já gostava de cuida de doente, e quando eu fui pra colôna fiquei
como voluntário na enfermagi. Eu sempre trabalhei na enfermagi,
depois mais no final eu comecei a trabalhá com os médico, leva os
doente pro médico vê, passa remédio, essas coisa.
66
Passar a trabalhar no setor de enfermagem era considerado um prêmio, isto
é, quando o funcionário era considerado competente, ele passava a exercer suas
funções na enfermagem, mas também tinha de ter vínculo político partidário. O auge
dessa escalada era ocupar o cargo de “enfermeiro”.
Sê enfermero era melhó porque ganhava mais, tinha menos serviço
e tinha sala separada pra descansá. Eu fazia tudo igual a eles,
muitas vezis nóis fazia sozinho porque eles não tavo o dia todo,
então eu podia sê enfermero também (GR2).
O depoimento de GR2 encerra certa ingenuidade ou desconhecimento das
funções do “enfermeiro”, levando-se em consideração que o funcionário que
assumia essas funções era uma pessoa mais bem qualificada e recebia mais
informações das religiosas e dos médicos, por força de suas atividades. Assim, ele
se diferenciava pelo seu saber, e não somente pelo seu fazer.
Atualmente, a enfermagem é uma profissão formada por diversas
categorias, sendo o enfermeiro o único profissional da equipe formado em uma
faculdade que desenvolve funções privativas, com base na lei nº. 7.498/86. No
entanto, era bastante comum, e ainda é, outras categorias considerarem ter o
mesmo saber do enfermeiro, e consequentemente a mesma capacidade e
autoridade para fazer.
Porém, ainda considerando-se que o fazer do adulto ativo inibe “o lembrar”
pelo fato de que ele está integrado e absorvido pelo fazer. No caso do idoso, como
não desenvolve mais o seu “fazer’, é o lembrar que passa a substituir e assimilar o
fazer”. Dessa forma, “lembrar agora é fazer”. E assim o velho pode superestimar seu
fazer e seu saber do passado (BOSI, 2006, p. 480).
Para a autora:
todo e qualquer trabalho, manual ou verbal, acaba-se incorporando
na senilidade, no sistema nervoso do trabalhador; este, ao recordá-lo
na velhice, investirá na sua arte uma carga de significação e valor
talvez mais forte do que a atribuída no tempo da ação. (BOSI, 2006,
p. 480).
GR1 também iniciou suas atividades em outro setor e depois, por política, foi
promovido para a enfermagem.
Eu comecei serrando lenha, na roça com os pacientes. Depois fui
trabalhá na cochera. Aí mudô a dereção, eu fui anomiado como
67
vigilanti e fui trabalhá dentro no hospital no nono pavilhão que era
enfermaria masculina, junto com as irmã. Depois trocaro a minha
anomiação e mi botaro como auxiliá de serviço médico.
De acordo com Kirschbaum (1994), os trabalhadores de enfermagem
iniciavam suas atividades sem receberem qualquer treinamento formal e aprendiam
no cotidiano. As narrativas dos entrevistados nesta pesquisa mostram também que
no HCS não havia preparo, exigência técnica prévia ou alguém designado para fazer
a capacitação ou treinamento de pessoal.
Porém, se não havia nenhum critério técnico a ser seguido para a
contratação de pessoal para trabalhar na enfermagem, uma questão era levada em
conta, a de gênero: os homens eram contratados para cuidar dos pacientes
masculinos e as mulheres das pacientes femininas. Isso se aplicava somente aos
guardas e vigilantes, pois o mesmo não acontecia com o “enfermeiro”. Para se
ocupar esse cargo, eram escolhidos somente homens, os quais atendiam pacientes
de ambos os gêneros. Estes não se envolviam em atividades rotineiras, como o
banho e a troca de roupa das pacientes.
Alguns entrevistados referiram que aprenderam suas tarefas com os
médicos e as freiras, e outros com colegas mais antigos, e até com os pacientes.
EF2, por exemplo, aprendeu suas atividades com o “enfermeiro chefe”: “ele que me
ensinou a fazê injeção, choque elétrico, insulina”. EF1 referiu que aprendeu com os
próprios pacienti. Quando eu cheguei, fiquei lá uma semana
observando. Aprendi a fazê corativo. Teve um médico que ensinô a
gente a faze choque. Ele fez várias vezes num boneco. Depôs ele
fez num paciente na nossa frente, pra nois vê, e assim a gente
pegava prática.
Figura 13: Aparelho de eletroconvulsoterapia do HCS em 1950.
68
GR1 referiu que aprendeu a fazer as atividades de enfermagem com as
freiras: ”elas dexavo os remedo tudo marcadinho e a gente decorava a cor deles e
dava pros paciente”. Identifiquei também, entre os entrevistados, um que afirmou
que aprendeu:
[...] por sê curioso, vendo e observando. Gostava da enfermagi,
acreditei, aprendi por conta, assim, de vê. Os enfermero ficavu só di
manhã, então tudo era feito pelos vigilanti. Mesmu quando tinha um
enfermero de plantão,,ele não dava conta. Aí pedia prá outro pessoal
fazê. E todo mundo fazia sem tê conhecimento de causa, e todo
mundo dava sorte de não machucá nenhum paciente ou de fazê
injeção no lugá errado (GR2).
VG2 aprendeu com “o enfermeiro chefe” quando começou a trabalhar na
enfermaria:
Ele dexava o remédo tudo marcado, tali hora assim, tali remédo, tali
paciente, tali cosa. Quem trabalhava di noite já dexavo o remédo
tudo já marcadinho, prontinho na bandeja praquele que pegava di
manhã e quem fazia as injeções era nóis e os enfermero.
Essa prática relatada acima por VG2, de preparar a medicação para outro
funcionário administrar, tem sido bastante combatida ao longo dos anos pelos
enfermeiros. Hoje em dia, ainda há a necessidade de supervisão e orientação
constante por parte dos enfermeiros, para que isso não ocorra. Provavelmente essa
prática se deve à existência de grande quantidade de pacientes e medicação a ser
preparada, e o número reduzido de trabalhadores. Historicamente, nas enfermarias
do HCS havia apenas um funcionário no plantão noturno e somente a partir da
década de 90, passou a contar com dois
35
.
A ausência de informação e capacitação técnico-científica para os
trabalhadores de enfermagem foi por muito tempo uma realidade, contribuindo
historicamente para a composição de uma categoria submissa e acrítica, com baixo
poder reivindicatório e desconhecimento de suas potencialidades e importância no
contexto da saúde.
35
Informação obtida pelos enfermeiros que trabalharam na Instituição, a partir da década de 90.
69
5.4.2 As atividades dos trabalhadores de enfermagem
Quanto ao desenvolvimento das atividades de enfermagem, havia uma
divisão entre os que comandavam e os que obedeciam, ou seja, entre o trabalho
intelectual e o manual. Borenstein et al (2004, p. 68) relataram que desde o início as
irmãs da Divina Providência assumiram e comandavam todos os serviços no
hospital, como os:
serviços de limpeza, cozinha, lavanderia, rouparia, costura, horta,
farmácia e até a enfermagem, eram elas que comandavam. Em
geral, decidiam sobre tudo e todos, costumavam determinar as
necessidades e estabelecer as prioridades e soluções, embora o
diretor da instituição estivesse permanentemente presente, pois
morava em frente ao Hospital e ficasse envolvido com a mesma.
Os entrevistados deste estudo se encontravam na posição dos que
obedeciam, mesmo o “enfermeiro”, que assumia funções de maior complexidade.
De modo geral, de acordo com os entrevistados, o “enfermeiro” realizava a
escala de serviço, autorizava as trocas de plantão, passava visitas com os médicos,
auxiliava os médicos nos partos, laqueaduras e pequenas cirurgias, realizava
suturas (quando não havia médico), aplicava eletrochoques
36
, fazia a medicação
parenteral, insulinoterapia
37
, fluidoterapia e curativos nos pacientes internados.
36
O eletrochoque (ECT) foi introduzido na psiquiatria em 1938, pelos psiquiatras italianos Ugo Cerletti
e Lúcio Bini. Caracterizava-se pela passagem de uma corrente alternada, através da caixa craniana
durante um breve espaço de tempo, provocando convulsões. Durante a passagem da corrente
elétrica, observa-se perda da consciência, bem como espasmo muscular generalizado e finalmente a
comatosa, iguais a uma crise convulsiva clássica. A seguir, sobrevém o sono de alguns minutos, em
que o paciente acorda espontaneamente e não se lembra do que ocorreu. Em geral apresenta-se
tranquilo e lentamente vai saindo do seu quadro psiquiátrico agudo. Os eletrochoques são dados
geralmente em série de oito a doze sessões, na razão de um por dia, tendo por base a melhora
clínica. Excluindo-se certas afecções cardiovasculares, os eletrochoques têm poucas
contraindicações. Seu emprego foi consideravelmente restringido após o progresso da
psicofarmacologia. (BORENSTEIN et al., 2007, p. 667).
37
A insulina foi descoberta por dois médicos canadenses, Frederick Banting e Charles Best, em
1921. Caracteriza-se por ser um hormônio secretado pelas células das ilhotas de Langerhans do pan-
creas, responsável pela manutenção do equilíbrio de glicose no corpo. A falta de insulina causa a
diabetes mellitus, ou hiperglicemia (excesso de glicose), enquanto que o seu excesso natural ou arti-
ficial causa hipoglicemia, o qual leva ao coma e a convulsões, devido ao déficit de glicose nas células
cerebrais Na psiquiatria, passou a ser utilizada em 1930, quando Sakel descobriu acidentalmente
que, ao causar convulsões com uma dose excessiva de insulina, o tratamento era eficaz para
pacientes com vários tipos de psicoses, particularmente a esquizofrenia. Este aperfeiçoou a técnica,
que passou a ser chamada de "Técnica de Sakel", para tratar de esquizofrênicos, primeiro utilizada
em Viena e posteriormente em 1934, nos Estados Unidos. (BORENSTEIN et al., 2007, p. 668).
70
Também eram responsáveis pela administração de medicação parenteral e curativos
em pessoas da comunidade.
Os vigilantes eram responsáveis pelos cuidados diretos ao paciente, como
banho, medicação oral, alimentação, observação dos internos, limpeza das
enfermarias, além de auxiliar o “enfermeiro”.
Aos guardas, cabia o trabalho de segurança, além do auxílio aos vigilantes e
ao “enfermeiro” em suas funções. No entanto, nas falas dos entrevistados evidencia-
se uma mistura dessas funções, pois os vigilantes também executavam atividades
que deveriam ser realizadas pelos “enfermeiros”:
Eu fazia faxina, injeção, ajudava no eletrochoque, amarrava as
pacienti pra faze insulina, cuidava das pacienti na cela, no pátio. A
gente era sozinha. Tinha que dá conta. A enfermaria que eu
trabalhava tinha oitenta e pocos pacienti. Antes de amarrá as pacienti
pra faze injeção, nós tinha que faze faxina, desdi a entrada até aqui
na frente, nos corredô. (VG1).
Ah! minha fia, nóis fazia de tudo. Nós dava banho, ajudava a servi a
comida, dava remédo, cortava cabelo, fazia cama, fazia limpeza dos
banhero. A primera coisa que nóis fazia era tirá as paciente da
enfermaria. Dava café, aí tinha aquelas que ia pra sombrinha e as
que não tinha condiçõns de ficá na sombrinha porque fugia, ficavo
presa lá nos quarto (VG2).
Essas informações foram relatadas com aparente orgulho, e de certa forma
surpreende a quantidade de afazeres que foram mencionados. Os trabalhadores se
esmeravam em listar suas atividades, o que pode ser compreendido quando Bosi
(2006, p. 480) explica que “quanto mais a memória revive o trabalho que se fez com
paixão, tanto mais se empenha o memorialista em transmitir ao confidente os
segredos do ofício”.
Nos depoimentos acima, entretanto, também ficou evidenciado que na
história da prática de enfermagem, conforme assinalou Vieira (1990, p.71),
realmente perpetuava a “nomeação de atendentes pela simples troca do instrumento
de trabalho”, ou seja, da vassoura para a seringa.
Não havia definição clara das atividades que os trabalhadores desenvolviam,
e muitas extrapolavam suas competências, uma vez que não tinham formação
sequer para executar as funções de enfermagem, e outras, como a situação descrita
abaixo por EF1, por serem de competência do médico:
Uma veis, um cara cortô o estomago dotro cara com uma faca. Não
71
tinha médico na hora, aí eu e mais dois guarda fomo obrigado
atendê. A freira que trabalhava no Rx veio ajudá. Eu fui fazê a sutura
no cara porque saiu todo o intistino pra fora. Até que veio um clínico
no outro dia, ele viu como é que ficou o serviço, e disse que tava
certo.
Os entrevistados participavam diretamente dos diversos tipos de tratamentos
utilizados na psiquiatria. Enfocaram múltiplas vezes a utilização do eletrochoque e
da insulina, parecendo, portanto, que o primeiro era o mais utilizado. Enfatizaram
que os pacientes melhoravam rapidamente com o eletrochoque, apesar de ser um
tratamento bastante agressivo.
Os relatos a seguir narram alguns detalhes rudimentares na forma como
eram realizados os eletrochoques:
Quando o doente tava muito agitado o guarda ia pegá o paciente e
com toda a força deitava ele na cama, colocava um paninho na boca
pa ele não mordê.e eu com as platina ia e batia na testa dele, nas
fonte, era noventa volts, parece. Então ai era aplicá, mas era só
encostá a platina e ele caía. Aí pronto, podia tá agitado como fosse.
Então dava aquela convulsão nele e depois ficava bom. No outro dia
aplicava de novo, porque os médico receitavu as série de choque,
assim oito ou déis, dependia do estado do paciente (EF2).
Quem fazia o choque era os enfermero e nóis ajudavo. Nóis levavo
as paciente, deitava elas em cima da cama e a gente com toda força
se ajoelhavo em cima das perna dela. Na hora de dá o choque pra
paciente não se levantá e não se quebrá, a gente segurava com tudo
que era força no joelho porque as perna se esticavo. Era feito muito
choque, um monte que até perdia a conta, era vinte, trinta, quarenta
por dia (VG2).
Naquela época o eletrochoque era uma istupidez. Só filmando. Tanto
o tratamento, quanto a preparação da equipe com o paciente. A
gente pegava o paciente como se fosse gado a laço. Eles conheciu a
equipe que fazia o choque. Os paciente ficavo tudo na enfermaria, aí,
quando viam o aparelho eles já tinha medo. Eles ficavo em pé, e aí,
era uma agressão. O funcionário tinha que agredí ou era agridido. O
paciente não queria deitá, mas nóis sigurava o paciente que
agonizava no leito. Na minha época, era feito nuns trinta paciente por
dia, eu acho, mas era tudo indicado pelo médico (GR2).
Quanto ao uso de medicamentos, os entrevistados referiram que eram
administrados comprimidos e também injeções. Mencionaram alguns nomes de
medicamentos como haldol, neozine e amplictil, mas não sabiam quando estavam
administrando um ou outro medicamento, pois aprenderam a decorar as cores dos
72
remédios, e era essa a forma de identificá-los: “o azulzinho, o rosinha”.
O remédo naquele tempo era comprimido, as irmã dexavo tudo
marcadinho pronto pra mim quando saía, qui era o branquinho, o
azuli, o rosa, aí eu marcava o lugarzinho delis. Quando acontecia
alguma coisa errada eu ia lá e chamava ela. Eu não sabia lê nem
escreve, mas as cores dos remédos eu sabia naquele tempo (GR1).
Os entrevistados também não identificavam em suas falas o nome comercial
ou genérico da maioria das drogas injetáveis utilizadas. Somente o neuleptil foi
mencionado por um dos entrevistados, que se referiu a essa medicação como a
“injeção que deixava o cara durinho”, fazendo alusão ao efeito que a droga
exercia
38
.
ra ficava
durinho, todo amarradinho.O cara não andava mais (GR1).
ração ou acompanhamento técnico das atividades desenvolvidas
pelos pa
êntica em sua pesquisa em
quatro hospitais psiq
pital com a manutenção de indivíduos internados por
longo tempo.
Depois começô a vi aquele remédio neulepil? Esse, que o ca
A terapia ocupacional, ou praxiterapia
39
, foi também mencionada com a
compreensão de que o trabalho fazia parte do tratamento e representava uma
possibilidade de o paciente melhorar. Mas, também ficou evidente a exploração da
mão-de-obra dos pacientes, como forma de manter o complexo asilar, não havendo
nenhuma remune
cientes.
Kirschbaum (1994, p. 339) descreveu situação id
uiátricos do Brasil, e assinalou que:
os trabalhos manuais e os agrícolas não teriam somente o objetivo
de manter o doente ocupado para distraí-lo de seus delírios ou evitar
a ociosidade que contribuía para o agravamento da doença, mas
representavam um meio de desenvolver o potencial produtivo do
doente. Isto sem contar a possibilidade que trazia de diminuir os
custos do hos
38
São efeitos resultantes do uso de antipsicóticos típicos ou convencionais antagonistas da dopamina.
Bloqueiam os receptores dopaminérgicos pós-sinápticos em várias áreas cerebrais. Esse efeito se
manifesta por reações distônicas agudas, crise oculogírica, torcicolo, acatisia, rigidez muscular
(principalmente de membros), tremores finos, movimentos involuntários e estereotipados, protusão da
língua, tremores labiais, piscar frequente dos olhos, caretas, batidas sucessivas com os pés no chão
como se estivesse marchando. Esse efeito pode ser inibido com a administração de drogas anti-
histamínicas e com a diminuição e supressão do antipsicóticos. (STUART; LARAIA, 2001).
39
A expressão praxiterapia foi utilizada “a partir dos anos 40 para caracterizar o emprego do trabalho
de pacientes como uma atividade com fins e características terapêuticas nos estabelecimentos
psiquiátricos”. (KIRSCHBAUM, 1994, p. 339,).
73
liar do paciente por
meio de
no e Padilha (2005, p. 79) referem que essa proposta surgiu com o
objetivo de:
s famílias que os recebem, as
chamadas famílias nutrícias.
foi referida pelos entrevistados como um dos
tratamentos utilizado
dia lá e di
noite eu levava eles di volta pra colonia (EF1).
os pacientes para suas casas (ou melhor, para suas
terras) p
A assistência heterofamiliar, já descrita por Teixeira (1993), Fontoura (1997),
Silva (2001) e Borenstein et al (2007), constituiu-se como uma proposta da
instituição para favorecer a integração ou reinserção sócio-fami
sua participação no contexto de uma família substituta.
Areja
integrar o sofredor psíquico a uma pequena família, a título de
solução terapêutica, recriando-se artificialmente o ambiente rural pré-
capitalista, no qual, algumas práticas propostas como estratégias
terapêuticas eram, até certo ponto, espontâneas e de ocorrência
natural da própria organização social da sociedade. No entanto, as
novas práticas terapêuticas, o trabalho agrícola e a assistência
heterofamiliar não levam à cura dos pacientes. O trabalho serve
apenas para manter os setores do asilo em funcionamento, com a
exploração da mão-de-obra gratuita dos pacientes, tanto, pela
instituição psiquiátrica, como pela
Essa atividade também
s no HCS:
Eu levava pra minha casa, dois, três paciente comigo. Eu dava
cigarro pra eles,quando eu chegava em casa, eles almoçavo comigo
depois eu levava eles na roça, nem que não fazio nada, só pra
conversá. Daí eu trazia eles á noite com orde do diretô, só que não
podia explorá o paciente. Tinha veis que eu levava eles pra roça, e
um sentava lá, fazia a rama de mandioca, outro semeva, o outro
ficava lá tirando lenha, fazendo foguera. Eles passavo o
As famílias substitutas na realidade eram representadas pelos próprios
trabalhadores que levavam
ara trabalharem.
Apesar de a literatura descrever alguns trabalhos de autores como Fontoura
(1997), Pereira (2003) e Borenstein et al (2007), os quais afirmaram que a
balneoterapia também se constituiu em um tratamento utilizado no HCS, e apesar de
existirem fotografias que comprovam a existência dessas banheiras para a
realização da técnica, esta não foi mencionada pelos entrevistados. Ao serem
questionados sobre esse tratamento, referiram que as banheiras eram utilizadas
74
para o banho comum das mulheres e também para colocar roupas de molho para
serem lavadas.
Figura 14 Banheiras do HCS em 1955.
o coma
hipoglicêmico. Abaixo
va a
:
Dos tratamentos descritos na literatura, e que também foram mencionados
nos depoimentos, o que mais deixou marcas foi o uso do eletrochoque. Os
aposentados falavam no eletrochoque demonstrando certa perplexidade quanto à
forma como era realizada a técnica. O mesmo já não ocorria quando falavam da
insulinoterapia. Acredito que isso se deve ao aspecto cultural da representação
social do eletrochoque e de sua história, além do fato de que a insulinoterapia era
feita no leito, com a utilização de seringas e medicamentos, parecendo dessa forma
ser mais legítima do que uma técnica em que se utilizava um aparelho elétrico e que
era realizada em condições adversas. Sabe-se, entretanto, que a insulinoterapia é
uma técnica bastante agressiva, com risco iminente de morte pela indução d
são descritos alguns detalhes sobre a insulinoterapia:
Eu amarrava a paciente, e depois o enfemero fazia a injeção. Como
era só um, ele botava o remédo na siringa e eu fazia a injeção.
Porque aplicá pra mim era fácil, era só no músculo, não era ruim. Eu
e o enfermero cuidava delas quando elas entravo em coma e depois
óis dava o chá pra elas acordá. Tinha umas doenti que já custan
acordá, aí tinha que dá bastante chá, que era um melado (VG1).
O paciente deitava na cama, ele era amarrado né? na mão, perna,
tudo, que ali a gente aplicava a insulina, duas a três gotinha e daí ele
ficava lá até começa a suá. As veis se agitava um pouco, mas daí ele
dormecia e entrava em coma. Depois de ele entra em coma, nóis
tinha que aplica a glicose na veia e aí ele se recoperava de novo,
75
tomava chá bem doce e ficava tudo bem. Era nóis que aplicava isso
ssistência heterofamiliar, da eletronarcose e,
menos
paciente recebia uma
injeção endovenosa
caso era grave, ele chegava muito
agitado, então nóis pegava o paciente, às vezi precisava de três,
quatro guarda pra dominá ele.
r”. Este recupera “sua dignidade” ao contar sua experiência
“até o fi
tudo (EF2).
Ainda quanto à modalidade de tratamentos utilizados na época retratada,
Borenstein et al (2007) mencionaram que eram utilizadas a convulsoterapia pelo
eletrochoque, a insulina e pelo cardiazol
40
, além dos psicofármacos, da
balneoterapia, da praxiterapia e a
usualmente, da lobotomia
41
.
EF1 descreveu um tipo de tratamento em que o
seguida da aplicação de eletrochoque:
Era feito a injeção na veia, e depois de dez minutos era aplicado o
eletrochoque. Depois, os pacienti ficavo em observação, ele ia dormi,
talvez o dia todo. Ele chegava a se alimentado com soro. O médico
clínico ia à noite e passava no pavilhão pra vê ele, se ele ainda
tivesse dormindo, ele aplicava o soro. No outro dia o pacienti já
estava restabelecido e fazia nova série. Isso continuava, por
exemplo, uma semana. Os pacienti melhorava noventa por cento
com a sonoterapia, eles saía da crise.Também tinha a sonoterapia
que era só injeção, quando o
A ênfase ao uso de eletrochoque e insulinoterapia por parte dos
entrevistados provavelmente se deve à frequência com que eram utilizados, e
também pelo desconhecimento ou pelo sofrimento que a técnica causava aos
pacientes. De acordo com Bosi (2006, p. 91), o talento de uma pessoa para narrar
sua história “vem da experiência”. A autora enfatiza que a missão do narrador é
extraída “da própria do
m, sem medo”.
A ausência de relato de outros tipos de tratamentos, como o cardiazol, a
40
O choque Cardiazólico ocorria através de convulsões, induzida por esta medicação. Foi
desenvolvida por Lazlo Von Meduna, em 1934. Em 1933, Meduna fazendo algumas observações no
tecido glial que liga as estruturas celulares da córtex de pacientes epiléticos mortos, percebeu que
estes possuíam uma deficiência de estrutura glial, quando comparados com os esquizofrênicos
mortos. Com base nessas descobertas, decidiu utilizar a cânfora e logo depois a empregar uma
preparação de cânfora sintética menos tóxica, Metrazol, também chamado de Cardiazol. Esta droga
tinha o mesmo princípio ativo, o de provocar crise convulsiva com conseqüente eliminação ou
redução da sintomatologia produtiva
.
No entanto, o Metrazol tinha vários inconvenientes práticos,
entre os quais um período de tempo imprevisível entre a injeção e a convulsão, durante o qual o
paciente mostrava-se temeroso e não cooperativo. Além disso, com freqüência as convulsões eram
tão graves que provocavam graves fraturas. (BORENSTEIN et al., 2007, p.667).
41
A lobotomia foi a primeira técnica de psicocirurgia a ser desenvolvida a partir da manipulação
orgânica do cérebro, com o objetivo de curar ou melhorar sintomas de uma patologia psiquiátrica.
76
lobotomia e a eletronarcose, pode ser atribuída ao esquecimento, pois existem
trabalhos
42
e relatos verbais de trabalhadores que falam da utilização da
balneot
as poucas freiras estavam mais ligadas às atividades de
gerenci
enfermagem laica foi dominante durante muito tempo.
5.5 AS CONDIÇÕES DE TRABALHO
s em escalas de 24 horas
de serviço por 48 hor
ti.Todas as enfermaria que eu trabalhei tinha muito
pacienti (GR2).
erapia e da eletronarcose no HCS.
Como já referido, os relatos deixam transparecer que as atividades
exercidas pelos entrevistados extrapolavam a competência profissional e pessoal.
Ao mesmo tempo que não tinham formação específica ou qualquer preparo para
desenvolver boa parte das funções que lhes eram exigidas, na maior parte do tempo
desenvolviam seus fazeres sem supervisão. Os médicos permaneciam pouco tempo
no hospital e
amento.
Parece-me que havia uma ilegalidade constituída, que em virtude daquela
realidade era vista como normal e legal, e que infelizmente foi dominar não somente
na enfermagem psiquiátrica, mas em todas as demais áreas, uma vez que a
Desde o início da criação do HCS, os trabalhadores cumpriam uma jornada
intensa de trabalho, considerada por eles estafante, tanto pelo tipo de pacientes que
cuidavam como pelas atividades que desenvolviam. Os entrevistados relataram que
cumpriam uma jornada de 48 horas semanais, distribuída
as de folga, conforme depoimento:
Eu comecei a trabalhár, vinte e quatro por quarenta e oito hora, uma
coisa assim. Era um ou dois funcionário por enfermaria, com
bastante pacien
Havia diferenciação na distribuição de horários para os trabalhadores de
enfermagem. O “enfermeiro” cumpria uma escala de 6 horas diárias (das 7 às 13
horas) com plantão nos finais de semana e não trabalhava no período vespertino.
Os guardas e os vigilantes não tinham escolha, somente podiam cumprir a escala de
42
Kirschbaum 1994; Borenstein et al, 2007.
77
24/48 horas. Todos os trabalhadores recebiam tecido para confecção de uniforme ou
uniforme pronto, além de calçados, quepe e jaleco duas vezes por ano.
Figura 1 Enfermeiros, guardas e vigilantes do HCS em 1941.
mente cobiçado, pois representava segurança,
devido à
istados evidenciaram certo descontentamento ao se referirem ao
valor do salário:
ois a trabalhá, eu e o
guarda e aí dava de vivê bem, porque os dois
ganhava (VG2).
5:
Os entrevistados referiram que tinham todos os direitos concedidos aos
trabalhadores vinculados ao Estado, como plano de saúde, férias, licenças, décimo
terceiro salário, quinquênio e aposentadoria. O vínculo empregatício estatal, mesmo
não sendo bem remunerado, era alta
s vantagens que agregava.
Os entrev
O salário, comé que eles dizem, era dois mil cruzeiro
43
. Dava pra
antê a casa mais ou menos, por que era em dm
meu marido, se fosse um só, não dava (VG1).
O salário era bem baxo naquela época, quando eu comecei a
trabalhá. Era baxo, mas as coisa também era mais barato. O meu
marido trabalhava de
Apesar de as falas indicarem baixa remuneração salarial, nos documentos
43
Quantia equivalente a R$261,00 atuais.
78
analisados encontrei uma solicitação de 1952, do diretor na época, Dr. Santaella
44
,
solicitando melhores salários para os trabalhadores. Ele destacava a “aflitiva
situação dos funcionários que lidam diretamente com os doentes, mistér sobremodo
perigoso, que por justiça merecem melhores salários”. Esse relatório parece
evidenciar o reconhecimento e valorização desses trabalhadores. Cabe assinalar
que o pedido de aumento de salário não era somente para os trabalhadores de
enfermagem, mas também para os psiquiatras. Acredito que, como reforço de sua
exposição, Dr. Santaella apresentou ao governo do Estado, em 1952, um mapa
demonstrativo contendo o quantitativo de atividades de vários setores. Fez um relato
de dados como aplicação de 10.789 injeções e 7.860 de convulsoterapia (cardiazol,
insulina e eletrochoque) em 1951 e 11.103 aplicações de injeção e 9.991 de
convuls
ue controlavam os guardas e
vigilante
chefe dos guardas e dos vigilantes
abria o relógio para f
cho que foi uns dois ano, depois
foro acabando com ele (VG1).
oterapia (cardiazol, insulina e eletrochoque) em 1952. (SANTAELLA,1952).
Os trabalhadores de enfermagem eram submetidos também a um rigoroso
controle de cumprimento de tarefas, o que nos remete ao que Foucault (2007)
denominou de pirâmide de olhares, ou seja, um sistema de vigilância em que uns
controlam os outros, numa escala hierárquica. Nesse caso em particular, os médicos
delegavam às religiosas o controle dos “enfermeiros”, q
s, que por sua vez controlavam os pacientes.
Essa pirâmide de olhares também pode ser bem evidenciada no sistema
adotado para controlar os trabalhadores do plantão noturno para que não dormissem
durante o horário de serviço, exceção feita apenas ao “enfermeiro”, que tinha uma
sala própria, onde permanecia após realizar suas atividades e poderia dormir. Esse
controle era realizado por um sistema muito curioso, em que os vigilantes e os
guardas tinham de circular com um relógio pendurado no pescoço, no qual havia
uma tira de papel que deveria ser picotada a cada quinze minutos, momento em que
o relógio registrava o horário. Pela manhã, o
azer o controle de horário:
O relójo era pra não dormi, por causa que eles do hospital achavo
que o vigilante e o guarda de plantão da noite dormia. Ai eles
colocaro esse relójo prá dá corda de quinze em quinze minuto,nóis
botava ele dependurado no pescoço, i dava corda com uma
chavezinha, a noiti toda. Aquilo eu a
44
Diretor do Hospital Colônia Sant’Ana de 1951 a 1955.
79
Observa-se,
controle de horário o
tidinho! E tinha
um inteligenti na equipe que já batia a noite toda. Então, a gente só
andava com o relógio por andá, nóis pegavo o relógio e largava em
cima da mesa. O relógio era levado pro chefe, di manhã, ele abria e
el perceber que os locais
em que os doentes
atividades eram in
periculosidade, como
lguém
agitado, tinha que chama o enfermero. Se ele entrasse assim, com
uma bandeja cum três o quatro siringa cheia, cumas quatro agulha
pra aplicá injeção, naquele que tava pertubando lá dentro, os outro
tos, bem como o grande número de pacientes internados, sempre
acima da capacidad
porém, na fala abaixo, que apesar desse rígido e curioso
s trabalhadores exerciam resistência burlando regras:
Na verdade, o relógio não funcionava, tinha funcionário que
boicotava o relógio. Ele abria, picotava tudo e o chefe pensava que o
funcionário não dormia. O funcionário botava das duas às quatro, de
déiz em deiz minutos, atrasava ele e depois botava a trabalhá. Aí
quando o chefe abria o relógio de manhã, tava todo ba
via se os horário tava batido, e ele tinha o nome de todo mundo e os
horário. Tinha funcionário que não sabia disso (GR2).
As condições precárias de trabalho a que os trabalhadores de enfermagem
foram submetidos foram notoriamente destacadas pelos entrevistados. Relataram
que era comum encontrar pacientes graves e até mortos nas enfermarias ou nos
pátios, principalmente nos meses de inverno. Enfatizaram muitas dificuldades
encontradas no cotidiano da assistência, como na hora de administrar a medicação
e, principalmente, no atendimento de paciente agitado, por causa do risco que a
atividade e o ambiente ofereciam. Pelos relatos, foi possív
mentais eram alojados e os entrevistados exerciam suas
salubres, estressantes e representavam alto grau de
pode ser observado na fala abaixo:
Quando dava uma briga à noite no pavilhão, às veis o cara não
gritava, e o guarda não podia vê, porque tinha muita gente O
pavilhão era grande e o guarda não sabia o que tava acontecendo
ali, porque ele ficava na frente do pavilhão. Di veis em quando, ele
dava uma retornada lá dentro, pra olhá. Então, quando tinha a
chegavo, e podia até se agredido. Uma veis me déro um pontapé por
trás que perdi todas as siringa, só achei depois a cuba (EF1).
Os entrevistados, sem exceção, reiteraram falas que refletiam as péssimas
condições de trabalho, as condições insalubres de atendimento, a pobreza e sujeira
dos alojamen
e. Nesse aspecto, EF1 verbalizou que não havia colchão ou
80
cama para todos o
“cocheiras”:
Tinha enfermaria que tinha cama e outra não tinha nada, era um
salão aberto. Então eles ficavo tudo ali, era a mesma coisa que tu
chegá numa cochera, assim, sem querê compará eles com os
. Segundo os entrevistados, existia em média dois a três vigilantes para
cada du
nos anos que se
seguira
com sérios problemas em relação às condições de hotelaria, ao
tratame
ção à saúde mental, a qualidade
assistencial esteve historicamente muito mais distante e somente agora, entre o final
do século XX e o início do século XXI, começa a dar sinais de melhora, apontando
s pacientes e comparou os alojamentos dos pacientes a
animais, mas era assim como os animal, como uma tropa de gado,
tudo misturado.
Um grande número de atividades de enfermagem era executado por poucas
pessoas
zentos pacientes, “tirando por cima”, acrescenta EF2. “Tinha uma enfermaria
no 3º pavilhão, que tinha setenta cama e dormia duzentos paciente, um por cima do
outro”.
Os entrevistados foram unânimes em relatar o excesso de trabalho e de
atividades que exerciam, bem como as precárias condições físicas e estruturais da
instituição. Não percebi em suas falas expressão de sofrimento ou ressentimento,
mas certa compreensão da situação, como parte do contexto e da época vivida. VG2
inclusive verbalizou: “hoje em dia os funcionáro tão no céu. Nós trabalhamo no
inferno”, referindo-se à situação atual do hospital, às condições de trabalho, ao
número de pacientes e aos trabalhadores existentes. De fato,
m após suas aposentadorias, as condições de trabalho e a qualificação
pessoal dos profissionais que atuaram nos hospitais psiquiátricos melhoraram,
porém não na mesma proporção observada nos hospitais gerais.
Hoje, no IPq-SC, as condições de trabalho estão bastante diferenciadas e o
número de funcionários é significativamente superior ao da época retratada. Ainda
se convive
nto oferecido aos internos e às condições de trabalho desfavoráveis a que os
profissionais são submetidos, como excesso de carga horária e sobrecarga de
atividades.
A realidade atual da saúde mental no Estado ainda mostra a baixa
valorização do doente e dos profissionais que desenvolvem atividades junto a esse
setor. Sabe-se que uma assistência de boa qualidade à saúde é uma utopia da qual
mantemos ainda uma grande distância. Em rela
81
para a dignidade do portador de doença mental.
5.6 AS
m no trabalho e deram continuidade às
relaçõe
diretor para ser demitido. GR1, no entanto,
assinala com elas. “Nóis trabalhava só côs ameaço
delas”, fazendo clara
comentário a respeito
VG2 reforça
Não se podia dizê nada, qualqué coisinha elas já mandavo botá na
rua, porque as irmã mandavo. Era elas e os diretô sabe comé? O
que elas levavo pro diretô, ele assinava. E tinha uma irmã qui era
Em relação
ressentidos. VG1 nar
carícias quando foram
e aí mandou
tirá eles e levá pra enfermaria. Mandou fazê choque nos dois. Nós
RELAÇÕES ENTRE OS PROFISSIONAIS
Ao recordarem as relações estabelecidas com outras pessoas, os
aposentados lembraram daqueles com quem conviveram durante anos, ou seja,
colegas de profissão, médicos, religiosas, além dos pacientes.
Das relações que se estabeleceram entre os diversos trabalhadores, muitas
delas se estenderam e permaneceram ao longo de suas vidas, formando inclusive
laços familiares, pois muitos se conhecera
s pessoais e profissionais. Ainda lembraram de pessoas com quem
estabeleceram relações estritamente profissionais, além de outras, que foram
relembradas com pesar e ressentimentos.
Ao se referirem às freiras, alguns entrevistados deixaram claro que o
relacionamento não era dos mais amistosos. Estas agiam de forma coercitiva,
fazendo com que os trabalhadores e os pacientes estabelecessem com elas uma
relação baseada no medo. A qualquer possibilidade de falha ou desagravo, as
freiras encaminhavam o funcionário ao
: “a gente tinha que se dá bem
alusão às ameaças feitas pelas freiras caso fizessem algum
de suas atitudes.
esse sentimento:
muito ruim, ela batia muito nas paciente. Se a paciente não quiria sai
da cama, a irmã tirava a força, de vara, batia, tocava lá pro pátio.
às irmãs, os aposentados não pouparam comentários
ra uma situação em que um casal de pacientes estava trocando
surpreendidos:
A irmã viu lá uma paciente agarrada com um paciente,
82
dissemo qui eles tavo com o estômago cheio, mas ela não quis nem
sabê. Davo o choque de estômago cheio mesmo e tudo tinha que
ficá em segredo, era tudo tapado, Ai, não era nada descoberto, e se
a gente contasse alguma coisa, a gente ia tudo pra rua.
Os entrevistados deixaram transparecer que o ressentimento evidente que
demonstraram em relação às religiosas não estava relacionado às precárias
condições de trabalh
baixo salário e à gra
forma como tratavam
nem pra dá de mamá prum filho. Eu
saía fugida das freras pra amamentá meu filho, mas isto era errado,
era ruim. Quando eu me lembro, o meu filho só queria mamá, ele não
comia no dia que eu trabalhava. Eu ficava fora um dia e uma noite, e
mento entre eles. No entanto, alguns fatos descritos demonstram que esse
suposto
ção de subalternidade fica visível na fala abaixo, quando GR1
descreve a existência
piso do prédio, onde
entrevistado:
Aquela rampa era toda acimentada e nós tinha que encerá e colocá
os tapete. Lá só podia passár os médico e as freras. Nós só podia
) refere que “o que as recordações têm em comum ou em
paralelo
ecimento.
Embora o re
o, à periculosidade que a atividade oferecia, ou mesmo ao
nde quantidade de atividades que deveriam executar, mas na
os pacientes e como eram tratados:
Eu lembro que a gente era como uma escrava, porque a gente tava
só ali dentro, e não podia saí
ele não queria comê. Quantas vezes meu seio saía leite, doía, a
gente ficava toda ruim (VG1).
Em relação aos médicos, a maioria dos entrevistados manifestou que havia
uma relação pautada no respeito e na cordialidade, resultando em um bom
relaciona
bom relacionamento estava na realidade assentado numa relação de
subalternidade e docilidade, tanto em relação aos médicos como em relação às
freiras.
A rela
de uma rampa e de uma escada que dava acesso ao segundo
ficavam internados os pacientes particulares. De acordo com o
passá pela escada. Nem o enfermero e nem o chefe passava pela
rampa.
Bosi (2006, p. 413
”, e que nos chama a atenção, “são as diferenças de observações sobre o
mesmo fato”, o que explica a diferença na forma com que os entrevistados relataram
o mesmo acont
lacionamento dos entrevistados com os médicos, inicialmente,
83
tenha sido descrito c
relato abaixo:
Ah! os médico a gente nem se conversava, eles não falavam com
ninguém. Não havia um médico aqui que fosse assim, mais humano.
Nossa! parecia que eles já eram doente quando vinham pra cá
onstraram que as
relações sociais est
profissional e socia
enfatizaram ainda qu
do era meu amigo. A
gente se dava bem, trocava de plantão. Um ajudava o outro. Se tinha
uma paciente muito agitada na cela, que a gente não tinha corage de
entrá que era muito perigosa, nóis ia chamá os guarda do outro lado
odos os
depoim
s eram realizadas pelos vigilantes e pelos guardas,
demons
entre as diversas categorias de
enferma
A fala abaixo transcrita evidenc
omo harmonioso, para um revelou-se problemático, conforme
(GR2).
Em suas lembranças os aposentados nostalgicamente dem
abelecidas entre os que pertenciam ao mesmo segmento
l eram marcadas por solidariedade e companheirismo, e
e eles se ajudavam na realização de tarefas:
Noís se combinavo, era tudo bem, todo mun
pra ajudá a gente, e eles ajudavo nóis (VG1).
O relacionamento cotidiano dos vigilantes e dos guardas com os
“enfermeiros”, de acordo com as falas, se dava de maneira harmoniosa. T
entos levam a concluir que se ajudavam e se respeitavam mutuamente. No
entanto, havia entre eles uma relação construída culturalmente por poder e
subordinação, pela simples posição hierárquica, e não somente pelo saber.
Conforme foi evidenciado, as pessoas que se diferenciavam no grupo dos
trabalhadores, e que eram protegidos politicamente, eram promovidas a
“enfermeiro”. Nesse cargo, assumiam funções de chefia e se tornavam responsáveis
por algumas atividades consideradas mais complexas. Porém, na ausência do
“enfermeiro”, essas funçõe
trando que a competência para realizar determinados procedimentos estava
pautada não em um saber, mas na relação hierárquica, e não havia nada de
privativo em seu exercício.
Essa confusão de papéis e competências
gem tem sido alvo de muitas controvérsias e, por vezes, gera insegurança
ao enfermeiro por não ter bem definidas, na prática, as funções que lhes são
privativas.
ia o conflito de um dos guardas, que, apesar
84
de afirmar que havia ou claro que não
aceitava sua suposta superioridade no saber:
A gente se dava bem com os enfermero, mas eles queriu sempre se
marga, ressentida, demonstrando plena
consciênc
ria na instituição, como as celebrações das
festas ju
sinteresse muito grande por parte de algumas
autoridades que, desconhecendo princípios éticos, não adotam uma política de
conservação preventiva adequada e abandonam à própria sorte uma parte
5.7 A P
bom relacionamento com o “enfermeiro”, deix
melhó do que nós,queria mostrá qui sabia (GR2).
A relação de GR2 com o trabalho no HCS evidenciou-se intensa, quase
visceral. De todos os entrevistados, ele parece ser o que reteve mais informações e
lembranças do vivido, e suas reminiscências são expressas com sofrimento e
rancor. A lembrança dos tempos de GR2 é a
ia e certeza da exploração sofrida. A tonalidade que ele imprime aos
relatos se difere da dos outros depoentes, que se manifestavam com mais
serenidade ao lembrar do passado.
Havia também um relacionamento entre os trabalhadores que ultrapassava
os muros do hospital e adentrava em suas casas e na comunidade, como já
descrito. Muitas festas fizeram histó
ninas e a comemoração do “Jubileu de Prata do Hospital Colônia Sant’Ana”,
retratada com muito esmero em um livro encontrado juntamente com outros
documentos que foram desprezados.
Bosi (2006) lembra da importância da preservação de fontes históricas para
possibilitar à sociedade o reconhecimento de sua identidade, valorizando e
estabelecendo referenciais para a construção do futuro.
Infelizmente, existe um de
significativa do patrimônio cultural.
ASSAGEM DA ENFERMAGEM LAICA PARA A PROFISSIONAL
Conforme já comentado, em 1971 o HCS passou a ser administrado pela
FHSC, uma autarquia vinculada à SES e, consequentemente, ao governo do
Estado. Com essa nova administração, muitas mudanças aconteceram, tanto no
85
cenário como na quantidade e variedade de categorias profissionais, que passaram
a fazer parte dos recursos humanos da instituição. Foram criadas as equipes
multidisciplinares, cujos profissionais eram identificados pelos entrevistados como
“os técnicos”. Estes eram os profissionais de nível escolar superior, e os demais
trabalha
para
distingu
ios.
eus escritos
(BROCH
agem
da UFS
ir da
adminis
dores eram chamados simplesmente de “funcionários”. Essa referência a
esses trabalhadores perpetuou-se na instituição, dando uma falsa conotação de que
“ser funcionário” significa pertencer a um escalão hierarquicamente inferior.
Pude constatar a incorporação histórica dessa nomenclatura adotada
ir os funcionários dos técnicos no arquivo referente ao Jubileu de Prata, em
que médicos, administrador e outras autoridades eram identificados nas fotos com
seus nomes e respectivos “Dr”, e os demais trabalhadores como funcionár
Santos (1994, p. 93) fala da equipe multidisciplinar, que era “constituída por
psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e acadêmicos auxiliares”. O
autor não fala na quantidade de cada um desses profissionais existentes.
O enfermeiro Wilson Kraemer de Paula assinala em s
URA S.I.S.D) que iniciou suas atividades no HCS, em 1971, através de um
convênio firmado entre a FHSC e a UFSC. Alguns professores prestaram assessoria
técnica aos hospitais e entidades de saúde conveniadas com a UFSC.
No HCS, o enfermeiro Wilson Kraemer passou a se dedicar principalmente
ao recenseamento dos pacientes e à modificação das condições de alojamento,
fechamento de espaços de reclusão dos pacientes, entre outras medidas.
Borenstein, Althoff e Souza (1999, p. 115) falam dessa parceria entre a
UFSC e a FHSC e assinalam que, nos primeiros cinco anos, a maioria das
consultorias foi prestada em “decorrência dos convênios firmados para atualização
dos hospitais como campo de estágio prático”. As autoras destacam alguns projetos
em que houve a participação efetiva dos professores da Faculdade de Enferm
C, como no caso da assessoria prestada ao HCS pelo “professor Wilson
Kraemer de Paula, o qual participou do início da organização do Serviço de
Enfermagem, e de estudos para a melhoria da assistência” nessa instituição.
No entanto, os entrevistados, ao falarem das mudanças a part
tração do hospital pela FHSC, identificaram o nome de outros enfermeiros e
não citam o nome do enfermeiro Wilson. Somente GR1 informou que esse
enfermeiro passou a trabalhar no hospital, bem depois de outras enfermeiras.
EF1 referiu lembrar-se que o professor Wilson de fato trabalhou na
86
instituição, e que inclusive gostava dele. No entanto, sua memória registrou mais
intensamente os fatos acontecidos em relação à enfermeira que o trocou de função.
A troca de suas fu
ocupava. Transcrevo
funções de “enferme
, ia sê igual os
vigilante. Ia fazê igual todo serviço que ele fazia, limpeza do
paciente, cuidá do paciente, dá comida. A injeção, eu não ia fazê
mais. Quem passou a fazê as injeção foi otra equipe que eles botaro.
aíro. Ficaro tudo loco, e eu fiquei
ei por invalideis.
utro entrevistado também fala da mudança:
Quando a colona passou pra Fundação eu trabalhei ainda com a
eram re
egime de trabalho
caracterizaram-se e
relataram dificuldad
culminando, como no
Quando a Fundação entrô, eu não quis passá pra Fundação. Eles
me chamáro e me dissero: ó! agora os funcionário público do
Estado, vão passá pra CLT. Tu vais ganhá melhó. Mas eu disse que
Outros entre
nções significou para EF1 um rebaixamento do posto que
a seguir a narrativa de seu sofrimento ao ser retirado de suas
iro”:
Quando entrô a enfermera chefe, ela me trocô de serviço, e eu não
gostei. Fui trabalhá numa enfermaria e antes eu atendia todas as
enfermaria. Eu achei aquilo horrívil, eu fiquei apavorado, não era
serviço que eu fazia. Eu não ia mais sê enfermero
E daí, muitos amigo meu também s
deprimido. Fui embora e mi aposent
O
enfermera S, com a enfermera B, com a enfermera V e J, e co a
enfermera M. Aí depois eu me aposentei (GR1).
Com a administração da FHSC, os trabalhadores do HCS, que até então
gidos por regime trabalhista estatutário
45
, tiveram de optar entre permanecer
com esse vínculo ou passar a ser regidos pelo sistema de Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), principal norma legislativa brasileira referente ao direito do trabalho.
A entrada do enfermeiro e as mudanças no r
m uma adversidade para alguns dos entrevistados, que
es em se adaptar às novas funções e ao novo regime,
caso de EF1, com sua saída do hospital:
eu não queria. O hospital naquela época mudou muito, e aí eu fui
embora.
vistados, como GR1, por exemplo, conseguiram se integrar à
45
Relativo a ou contido em estatuto(s); disposição estatutária. Diz-se do funcionário cujo vínculo
empregatício é regido por estatuto próprio do poder público a que serve. Funcionário estatutário.
(FERREIRA, 2004, p. 717).
87
nova realidade. Na
conhecimento adquir
abalhava junto com aquela turma nova
que tinha entrado, andava aí ensinando elas, como é que fazia a
limpeza, como fazia isso, aquilo. A enfermeira B e a Enfermeira S.
me botaro como chefe deles. Mas ela dizia:ó! o Sr. não vai faze mais
GR2 parece
conhecimento qualific
spital
Depois que entrô a Fundação, o hospital melhorô cem por cento pro
pacienti, pro funcionário, pro técnico, e pro enfermero. Quando eu
entrei, era um depósito de doente mental. Depois é que se
cto na
assistên
cesso saúde-
doença. Essa luta se faz necessária em todos os espaços em que se desenvolve a
enfermagem e, de modo especial, na enfermagem em saúde mental, para que prime
pela melhoria da qualidade de vida do portador de transtorno mental.
fala abaixo, parece evidente que houve a valorização do
ido em sua prática.
Quando eu me aposentei eu tr
nada, o sr. tá cansado (GR1).
compreender essa nova concepção de trabalho, valorizando o
ado como desencadeador do processo de mudanças.
Quando o hospital passou pra Fundação, a direção fez que todo
mundo, passasse a sê da enfermage; os vigilante, os guarda e o
enfermero e aí, tudo era atendente. Foi nessa época que o Ho
começou a melhorá, depois que chegô a enfermera padronizada, que
até então não tinha, e organizô o hospital. Aí, muitos dos meus
colegas saíro que não gostavo do trabalho, por causa que dexaro de
se enfemero, eles não querio sê atendente, mas eu continuei.
transformou, e aí, veio o pessoal técnico (VG1).
Percebe-se nas falas dos entrevistados que de fato houve um impa
cia de enfermagem no HCS com a entrada do enfermeiro. A partir daí,
iniciou-se uma articulação progressiva entre o saber científico e prático e o saber
leigo, todos possibilitadores de reconhecimento, incorporação e apropriação.
O fim da enfermagem laica tem sido uma luta de várias entidades
representativas e de vários agentes da categoria. Nessa luta, está inscrita a
concepção do ser humano e as tecnologias que foram ou são desenvolvidas para
alcançar os objetivos de cuidar e ampliar o entendimento do pro
88
6 REFLEXÕES SOBRE O VIVIDO
Ao me propor realizar esta pesquisa, não imaginei que a tarefa seria tão
prazerosa. Tinha plena consciência da necessidade de ampliação técnica e científica
de meus conhecimentos, o que busquei e recebi nas cadeiras curriculares do curso
de mestrado, no GEHCES, com minha orientadora e com amigos verdadeiros. No
entanto, não tive a percepção exata de que esta experiência me proporcionaria
tantas emoções, comprometimentos, carinho, amizade, enfim, tanta troca afetiva,
parceria e aprendizado.
Minha entrada para o mestrado ocorreu logo após minha transferência para
o IPq-SC. Apesar de morar próximo à instituição, pouco sabia da especificidade
psiquiátrica e de sua história. Mantinha contato frequente com pessoas da
comunidade e também com as que trabalhavam na instituição, e, como assinalei,
compartilhava conversas e já me sentia atraída e curiosa por essa área assistencial.
Concomitante ao desenvolvimento de minhas atividades assistenciais,
passei a estudar a história da psiquiatria, da instituição, incluindo as práticas de
cuidado e tratamento, os trabalhadores de enfermagem, os pacientes e suas
patologias.
Essa incursão histórica e científica representou a ponte para compreender
muitas coisas, não só na assistência mas também na comunidade, como aquelas
perguntas que formulei no início deste estudo e que motivaram sua realização:
Por que estas pessoas começaram a trabalhar na psiquiatria? Por
que haviam procurado este emprego? Qual era a formação e perfil
destas pessoas? Por que foram trabalhar na enfermagem? Que
práticas eram exercidas por estes trabalhadores? Como eram as
relações entre os trabalhadores que lá atuavam? Como se davam as
relações entre os pacientes e trabalhadores? Como se
caracterizavam as condições da jornada de trabalho? Como era a
realidade dos pacientes? Como esses trabalhadores percebiam os
pacientes?
Foi procurando compreender o trabalho iniciado na enfermagem do HCS
que busquei no passado as respostas que contribuiriam para desvelar o cotidiano
dos trabalhadores da enfermagem no HCS, no período de 1951 a 1971, a partir das
reminiscências de um grupo de trabalhadores aposentados.
89
Por que utilizei a expressão reminiscências, e não um de seus sinônimos –
lembrança ou simplesmente memória –, para tentar historicizar esse cotidiano?
Porque, na busca de um referencial para apoiar meus estudos, me encantei com os
escritos de Bosi (2006) e com o termo reminiscências para narrar a memória dos
velhos e de seus trabalhos.
Para Bosi (2006, p. 89) reminiscência “é uma espécie de iniciação, como a
revelação de um mistério”. Tal como a autora, fui cavoucando as reminiscências dos
velhos trabalhadores aposentados, buscando desvelar esse cotidiano.
Recontextualizando esse começo, passo então a analisar o percurso deste
trabalho de base histórica, na qual a técnica de história oral foi a estratégia
fundamental para alcançar os objetivos propostos.
A história oral permitiu que a memória de quem vivenciou as histórias de
vida carregadas de sentido, significados e emoções, em certo período de tempo,
fosse resgatada. Seus testemunhos se transformaram em documentos importantes
para a história do HCS.
Foram realizadas seis entrevistas, e cada uma delas foi especial, única,
mesmo que em muitos momentos suas histórias se parecessem e se
entrecruzassem. Os entrevistados demonstravam felicidade por poderem narrar
suas histórias. Cada encontro pareceu um momento de festa, eles se apresentavam
bem vestidos, a casa arrumada, ansiosos pelo depoimento, e no fim de cada
entrevista me serviam um delicioso lanche, que acompanhava a conversa, que
informalmente fluía com a participação de outros familiares.
As entrevistas ocorreram de forma tranquila. Já conhecia os entrevistados,
mas nenhum contato anterior poderia ser comparado com aqueles momentos. A
confiança entre nós e o clima de cordialidade se tornavam transparentes decorridos
os primeiros minutos. O clima ficava familiar, e, como Bosi (2006) referiu, a partir de
um toque sutil se estabelecia uma empatia mágica entre narrador e ouvinte, e se
fazia possível o resgate da memória.
Em certos momentos, dependendo da pergunta, os entrevistados
demonstravam apreensão e tristeza, e em outros expressavam alegria, nostalgia e,
possivelmente, outros sentimentos que não pude perceber.
Entre as circunstâncias que me comoveram, posso citar uma. Ao chegar
para fazer a entrevista na casa de um dos aposentados, este já estava me
aguardando, segurando um papel protegido por um saco plástico. Abriu lentamente
90
com suas mãos calejadas e trêmulas, e com muito cuidado, sorrindo, mostrou-me a
certidão de sua aposentadoria, ocorrida em 1980. Parecia estar mostrando um
tesouro, um troféu por um grande feito no passado.
Todas as falas foram gravadas, porém em algumas ocasiões os
entrevistados pediram que eu desligasse o gravador. Nesses momentos,
“confessavam” coisas que julgavam graves e tinham receio de divulgar. Porém,
apesar de ter sido uma conversa reveladora, pela confiança, ética e respeito ao
entrevistado essas falas não foram gravadas, tampouco transcritas ou sequer
comentadas. Eu me tornava cúmplice de suas revelações, e a neutralidade desta
pesquisa deixava de existir.
O pedido para desligar o gravador me levou a compreender o motivo pelo
qual os participantes se recusaram a ter seus depoimentos identificados. Porém, não
consigo deixar de pensar o que ainda os fazia temer a possibilidade de serem
reconhecidos. Será que o temor é por seus familiares que ainda lá trabalham?
Para historicizar o cenário, selecionei as falas que se referiram ao ambiente.
Assim, me vali principalmente das fontes documentais para compor uma narrativa
permeada pelas fotos e evidências históricas, que confluíam com as reminiscências
dos entrevistados. Suas falas davam vida às fotos inertes e reforçavam os
documentos pesquisados.
A história documental evidenciou a morosidade com que o projeto de
construção do HCS levou para sair do papel, passando por vários governos. A
história oral evidenciou a morosidade no reconhecimento de a especialidade
psiquiátrica ser abarcada pela enfermagem profissional.
Todos os entrevistados iniciaram seu trabalho ainda jovens, motivados pela
pobreza familiar, e foram contratados da mesma maneira: beneficiados pela política
clientelista. Esta não se manifestava somente na contratação de pessoas para
trabalhar no hospital, mas também nos ganhos secundários, como oferta de casa,
alimentação, transporte, pagamento de água e luz, além de atendimento médico e
medicamentos.
Parece evidente que se os trabalhadores, inclusive os entrevistados, não
recebessem alguns privilégios, não permaneceriam tanto tempo naquela ocupação.
O trabalho era duro, a carga horária era pesada, as condições de trabalho eram
precárias, havia um rígido controle das atividades e das pessoas, além de
atenderem uma clientela excluída socialmente e de difícil abordagem. Prestavam um
91
“grande serviço à sociedade, cuidando e trancafiando os indesejáveis”, e, no
entanto, eram submetidos às condições desumanas de trabalho e recebiam baixos
salários. Essa condição repercutiu claramente em suas vidas, de forma que, dos
seis entrevistados, três se aposentaram por invalidez decorrente de doença mental.
A inserção desses trabalhadores nessa instituição não se diferenciou do que
ocorre em outros hospitais colônias do país, de acordo com a bibliografia
pesquisada e já comentada. A política dessas instituições seguiu o mesmo modelo
asilar preconizado na época.
Constataram-se baixa escolaridade e ausência de formação escolar dos
entrevistados, mesmo os que assumiam as atividades mais diferenciadas
hierarquicamente. A formação específica para atuar na área de enfermagem não era
exigida, não havia capacitação formal e os trabalhadores aprendiam no cotidiano da
assistência. Essa foi uma marca imprimida pela enfermagem do HCS que perdurou
por longos anos, criando-se uma relação histórica com o “cuidado” laico, que nos
primórdios do século XXI ainda mostra seus efeitos.
Os entrevistados pertenciam a categorias distintas, no entanto, na descrição
de suas atividades, ficaram evidentes a mistura de funções exercidas e até a
confusão na definição de quem era responsável de fato por determinada atividade.
Essa situação me levou a pensar sobre o fazer atual do enfermeiro e dos demais
integrantes da equipe de enfermagem. Apesar da exigência de formações distintas e
da definição das competências determinadas por lei, na prática a confusão de
funções permanece até os dias atuais.
Pude verificar como o excesso de atividade e responsabilidade que são
delegadas aos profissionais de enfermagem na área hospitalar psiquiátrica tem suas
raízes históricas. Os entrevistados reiteraram a superlotação constante, a ausência
de padrões mínimos para se prestar assistência, números exíguos de trabalhadores
para cuidar e, ainda a submissão para realizar procedimentos que extrapolavam sua
competência e formação, além da dominação das religiosas e dos médicos.
Os entrevistados falaram com orgulho de seu trabalho, se esmeraram na
descrição de suas atividades, seus olhos brilhavam ao falarem de seus
descendentes que também seguiram seus caminhos. Essa relação perpetuada do
parentesco existente entre os trabalhadores do HCS extrapola a questão da vocação
e se mantém no tempo como uma herança.
A forma como os pacientes foram asilados e submetidos ao trabalho sob a
92
falsa noção de reabilitação foi ingenuamente absorvida pelos entrevistados como
algo benéfico. Porém, as fontes documentais e bibliográficas me fizeram ver outro
viés dessa prática, a saber, a lucratividade que a loucura rendeu para o poder
público.
A história contada pelos aposentados de enfermagem do HCS ampliou o
conhecimento de seu passado e possibilitou compreender o contexto e as práticas
adotadas naquela época. Considero que essas narrativas ofereceram algumas
informações valiosas, articulando a memória individual e a coletiva como estratégia
de reconhecimento do trabalho realizado pelos trabalhadores que antecederam a
enfermagem profissional.
Reconhecer o relato dos velhos como fonte privilegiada na construção da
história significa colocar no centro da cena homens e mulheres comuns, anônimos e
que, de forma singela, fizeram parte da história da enfermagem em Santa Catarina.
Finalmente, ao escrever esta história percebi como os trabalhadores de
enfermagem que fizeram parte dela construíram os seus saberes no cotidiano e
desempenharam, por um longo período, um trabalho que se manteve silencioso e
invisível, mas que sem dúvida nenhuma deixou marcas e repercutiu nos rumos da
enfermagem no Hospital Colônia Sant’Ana até os dias atuais.
93
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100
APÊNDICES
101
APÊNDICE 1 - Roteiro de Entrevista
ROTEIRO DE ENTREVISTA
I Dados de Identificação:
1 - Nome:
2 - Idade:
3 - Filiação:
4 - Estado Civil:
5 – Natural:
6 - Local de residência da época e atual:
7 - Escolaridade da época e atual:
II Dados profissionais e condições de trabalho:
1. Qual a data de sua admissão, como ocorreu seu ingresso no HCS?
2. Quem era o Diretor?
3. Quem era o responsável pelo Serviço de Enfermagem?
4. Em que local passou a trabalhar?
5. Quem vocês atendiam?
6. Que práticas realizavam? Como era a assistência prestada?
7. Com quem aprendiam as atividades?
8. Quem eram as pessoas que lá atuavam?
9. Como eram as relações com a equipe médica?
10. Como eram as relações com outros atendentes/vigilantes?
11. Como eram os pacientes?
12. Quais os aspectos mais importantes que ocorreram na época?
13. Como eram tratados?
14. Como eram as condições de trabalho?
15. Como eram o horário, as férias, o salário e as folgas de trabalho?
16. O que você gostaria de falar a respeito?
102
APÊNDICE 2 - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM
MESTRADO EM ENFERMAGEM: FILOSOFIA, SAÚDE E SOCIEDADE
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Eu, Ana Maria Espíndola Koerich, Enfermeira, Mestranda do programa de
Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, venho
por este meio convidá-lo(a) a participar do estudo, denominado de HOSPITAL
COLÔNIA SANT’ANA: REMINISCÊNCIAS DOS TRABALHADORES DE
ENFERMAGEM (1951 - 1971) que tem por objetivo historicizar o cotidiano dos
trabalhadores de enfermagem no HCS, no período de 1951 a 1971 a partir de
suas reminiscências.
A justificativa deste estudo está fundamentada na importância de contribuir
com a construção do conhecimento da enfermagem psiquiátrica em Santa Catarina.
Trata-se de uma pesquisa qualitativa com uma abordagem sócio-histórica,
que será desenvolvida ao longo do ano de 2008. A proposta será concretizada
utilizando a história oral e através da realização de entrevistas semi-estruturadas,
em que se seguirá um roteiro previamente estabelecido. Fica garantido o anonimato
dos participantes e o direito de desistir do projeto em qualquer momento. Também
não existe nenhum risco associado que comprometa a sua integridade física,
emocional, ética e espiritual. Os procedimentos inerentes à implementação do
projeto requerem a sua autorização para gravação das falas em gravador digital e
obtenção de fotografias.
Para qualquer dúvida ou para esclarecimento adicional, tratar com a
mestranda, através do telefone: (48) 3278-0167 e/ou e-mail: [email protected]
ou com sua orientadora Prof.ª Dra Miriam Süsskind Borenstein através do telefone:
(48) 9911- 8543 ou e-mail: [email protected] .
Consentimento Pós-Informado
Eu, ____________________________________, declaro que fui informado
(a) sobre os objetivos, propósitos e procedimentos inerentes a este estudo e que
recebi, de forma detalhada, todas as explicações inerentes à confidencialidade das
informações e direito de desistir em qualquer fase do processo de investigação,
assim como fui assegurado da impossibilidade de que qualquer informação possa
ter repercussão em minha atividade profissional. Estando ciente destas orientações,
estou de acordo em participar voluntariamente do estudo proposto e autorizo a
gravação das minhas falas, a obtenção de fotografias e a exposição das mesmas.
Nome por extenso: _______________________________________________
Local: _____________________Data: ___ de _________________de 2008
Assinatura do Participante e RG: __________________________________
Endereço Residencial: ___________________________________________
Telefone: _______________________________________
103
APÊNDICE 3 – Carta de Cessão de Entrevista
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM
MESTRADO EM ENFERMAGEM: FILOSOFIA, SAÚDE E SOCIEDADE
CARTA DE CESSÃO DE ENTREVISTA
Eu, _____________________________________________________, estado
civil __________________, portador(a) da carteira de identidade nº.
____________________, declaro, para os devidos fins, que cedo os direitos de
minha entrevista gravada, transcrita e autorizada para leitura e inclusão no trabalho
de Dissertação de Mestrado da Enfermeira Ana Maria Espíndola Koerich podendo
ser utilizada integralmente, sem restrições de prazos e citações, desde a presente
data. Da mesma forma, autorizo o uso da fita gravada a terceiros, ficando vinculado
o controle a esta mestranda e seu grupo de pesquisa (GEHCES).
Abdico assim dos meus direitos sobre a entrevista, abdicação que alcança
também meus descendentes.
Subscrevo-me atenciosamente.
__________________________________________________________
Florianópolis, ___ de ___________ de 2008.
104
ANEXOS
105
ANEXO 1
106
ANEXO 2
107
ANEXO 3
Livros Grátis
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